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Pichardo, Nelson Évora e a lei da vida: “É difícil aceitar deixar de ser o melhor para passar a ser o segundo. Ninguém fica para sempre”

Chegou a Portugal em abril de 2017, naturalizou-se português em dezembro do mesmo ano e em maio do ano passado bateu o recorde português, que pertencia a Nelson Évora, ao saltar 17,95m. O seu recorde pessoal é 18,08m, e a partir de agosto passa a poder representar Portugal - e nunca mais quer voltar para Cuba, conta à Tribuna Expresso

Alexandra Simões de Abreu e Ana Brígida

Ana Brígida

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Sonha ser recordista do mundo e campeão olímpico por Portugal e que de uma vez por todas o considerem português em vez de luso-cubano. Não são tarefas fáceis. Mas, para quem teve de fugir do seu país de origem, Cuba, para poder continuar a ser atleta de alta competição, nada é impossível.

Aos 25 anos, Pedro Pichardo, o atleta do triplo salto que assinou pelo Benfica, destronou Nelson Évora e sem querer acentuou ainda mais a rivalidade dos grandes de Lisboa, faz o seu dia a dia em Setúbal onde encontrou a paz e as condições necessárias para, ao lado da mulher e da filha, se concentrar naquilo que é o mais importante para si, debaixo da supervisão do seu mentor, o pai: "Sou como um robô que o meu pai foi construindo peça por peça. Quando o mecânico do robô não está, o robô não funciona bem". Sobre voltar a Cuba, diz, nem pensar.

A partir de agosto pode representar Portugal em todas as competições. Já se sente português?
Ainda não. Acho que só me sentirei totalmente português quando passar mais algum tempo e quando falar a língua melhor. Mas quero falar português e sentir-me verdadeiramente português.

Houve polémica pelo facto de ter obtido a nacionalidade portuguesa muito rápido. O que sente perante as críticas?
Não sinto nada, fico focado no meu trabalho. Essa parte das críticas não me diz respeito. Eu faço triplo salto, não sou o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), que é quem trata dos papéis dos imigrantes. O meu processo foi um bocado diferente porque o Estado, a Federação Portuguesa de Atletismo (FPA) e o Comité Olímpico de Portugal (COP) tinham interesse em que eu representasse Portugal e devem tê-lo manifestado junto do SEF. É o que acho. Sei que há gente que está à espera dos documentos há anos. Mas as pessoas têm de perceber que a culpa não é minha. Eu não fui ao SEF com uma arma ameaçar ninguém ou obrigar a alguma coisa. Eu não fiz nada. As pessoas que não têm documentos e estão à espera há algum tempo não entendem que sou um atleta e que há um interesse do país.

Fica magoado com Nelson Évora por também ter feito críticas abertamente?
Não. Eu sou sempre um atleta, em Portugal, em Cuba, onde quer que me encontre. Se digo que sou um bom atleta, tenho de saltar para mostrar que sou um bom atleta sempre, em Cuba, em qualquer parte do mundo. Quando chega um outro atleta e eu começo a atirar bocas porque é melhor do que eu, então tenho de falar com o meu treinador e comigo próprio para treinar e ser melhor do que o atleta que chegou. Quando eu estava em Cuba já competia com o Nelson e nunca houve problemas, nunca houve esta confusão. Agora é diferente, estamos a representar o mesmo país e para mim é bom. É uma pena que ele não o veja assim. É difícil aceitar deixar de ser o melhor para passar a ser o segundo, mas há que treinar. Imagina o Cristiano que está quase a terminar a carreira e surge um melhor do que ele em Portugal, que vai fazer o Cristiano? É a vida, é normal. Se calhar daqui a um tempo pode haver um atleta em Portugal, não tem de vir de fora, melhor do que eu. Em qualquer área, em qualquer trabalho. Ninguém fica para sempre. É a vida comum.

Ana Brígida

Não o choca ver, por exemplo nos Jogos Olímpicos, um país cujos atletas são na sua maioria naturalizados?
Não. Para mim o desporto é livre. A diferença é a bandeirinha que está ao lado do nome. Na Diamond League, quando ganhamos um título representamos a nós mesmos, não há bandeira nenhuma. Faz sentido eu deixar de disputar títulos, como já aconteceu, porque não tenho um país a representar? Às pessoas choca uma parte e a parte que me choca é no ano passado ter sido o melhor atleta do ano e não ter podido fazer nenhuma competição porque não tinha uma bandeirinha a representar. Temos de fazer uma análise justa, não só uma análise a favor de mim. No caso do Nelson, entendo que o chateia, é difícil deixar de ser o melhor, queremos sempre cuidar do nosso estatuto, em todos os países em toda a parte é assim. Entendo isso, a sério. Mas eu também estou a defender o meu lado e as pessoas que estão de fora têm de tentar perceber ambas as partes. Se eu não posso representar um país o que faço? Fico sem saltar durante oito, dez anos até que possa representar um país?

O seu próximo objetivo é vencer os mundiais?
Este ano, sim. Mas continuo focado e a trabalhar para ser recordista do mundo e campeão olímpico.

Começou a praticar atletismo aos seis anos. Quando surge o triplo salto?
Comecei por fazer todas as disciplinas. Aos oito, nove anos já fazia saltos, mas triplo salto só mais tarde, com 14, 15 anos.

Antes da opção pelo triplo salto qual a disciplina de que mais gostava?
Eu fazia barreiras. Era a disciplina onde poderia vir a ser um melhor atleta, numa altura em que o meu pai estava numa missão, como treinador, na Venezuela. Como o meu pai estava fora, um amigo dele tomou conta de mim, mas como trabalhava barreiras e não sabia treinar saltos, tive de começar a fazer barreiras. Tinha 11 anos.

O seu pai ficou fora quanto tempo?
Quase dois anos. Ele não levou a sua missão na Venezuela até ao fim porque comecei a não ter bons resultados e a escola da província de Santiago de Cuba já não me queria. Ao saber disso o meu pai regressou logo a Cuba. Disseram que eu não era bom para fazer atletismo. O meu pai ficou espantado, dizia: “Como não é bom, se quando o entreguei na escola era o melhor e tinha o recorde dos 60 metros?” Eu com 10 anos fazia os 60 metros em oito segundos. Era o mais rápido do país e, se não me engano, ainda é o recorde daquela categoria, em Cuba. O meu pai voltou e foi aí que começou realmente a nossa luta em Cuba.

Ana Brígida

Que luta?
Puseram-me fora da escola da província, mas voltei a treinar com o meu pai. O nosso primeiro objetivo era demonstrar aos dirigentes que me tiraram da escola que eu era verdadeiramente um bom atleta. Comecei a treinar com ele e de um momento para o outro já era o melhor em saltos, comprimento e triplo, da minha província.

Quando os resultados reapareceram não o deixaram voltar para a escola nacional de desporto?
Não. Só me deixavam voltar sem o meu pai. A verdade é que sempre que trabalhei com outros treinadores os meus resultados pioravam.

Foi por isso que quiseram sair de Cuba?
Sim. Ou saía ou deixava de ser atleta. Eu queria continuar a fazer desporto, mas em Cuba não me deixavam trabalhar com o meu pai. Em Cuba há um mecanismo que não é fácil perceber para quem está de fora. É um país comunista que tem um regime. Mau ou bom é o regime deles, é assim que eles pensam. Se não gostas, não há nada a fazer, vai-te embora. Cuba é um país onde tudo é gerido e dominado pelo Estado. Todas as instituições saem do Estado e são dirigidas pelo Estado. Lá não existem clubes como aqui. Disseram ao meu pai que ele não pertencia ao sistema, quando ele estudou e se graduou como professor no INDER (Instituto Nacional de Desporto). Despediram-no para que não pudesse treinar-me. Como não tinham mais nenhuma solução, fizeram isso. Tinha eu 19, 20 anos.

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