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“Ter conseguido provar por A+B que era muito melhor gestor e que percebia muito melhor um clube irritou o sistema que criou o Sporting”

Este é um excerto da entrevista de Bruno de Carvalho ao Expresso que não coube na edição do passado sábado. O ex-presidente do Sporting irá ser ouvido na quarta-feira, no âmbito do processo de Alcochete, e no sábado os sócios leoninos votarão a sua expulsão de sócio em Assembleia Geral

Hugo Franco, Lídia Paralta Gomes (texto) e José Fernandes (foto)

José Fernandes

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Há uma reunião em abril com membros da claque do Sporting, por alturas do post pós-Atlético Madrid, em que algumas testemunhas relatam que o Bruno de Carvalho terá dito "façam o que quiserem".
Não. Já transmiti sobre isso que estávamos a falar de um assunto de tarjas. Ora, como havia um controlo apertadíssimo do que entrava dentro do estádio e como queriam fazer tarjas nem sei bem de quê, eu disse "façam o que quiserem", mas estava a falar de tarjas.

Mas eram tarjas contra jogadores como Rui Patrício ou William Carvalho?
Não, não, não, isso não foi falado. Não foi falado absolutamente nada. Tarjas sobre exigência, mas era exigência para todos. Eu não faço a mínima ideia porque não estou na cabeça deles. E a certa altura, uma pessoa está cansada, está farta e diz "façam lá o que quiserem" porque eu sabia que havia controlo. Aliás, nessa reunião estava lá comigo o Vasco Santos, o responsável máximo de segurança. Por isso vamos lá desmistificar esse reunião: não se passou nada que pudesse originar absolutamente nada, zero. As tarjas eram sempre verificadas pela segurança do estádio e pela polícia e eu estava sempre seguro.

O despacho fala que teria dado aval ao envio de tochas para o relvado.
Absolutamente nada. Isso não faz sentido nenhum. Isso é completamente descabido. Jamais em tempo algum seria admissível, mesmo pela minha maneira de ser e pela minha postura, que eu admitisse uma chuva de tochas para cima de qualquer atleta do Sporting Clube de Portugal ou sequer para qualquer atleta, ponto. Ou pessoa, ou ser humano, do que vocês quiserem. Se eu critico violentamente situações que vivi de perto... eu estava no Jamor a seis filas da pessoa que faleceu. Eu já era presidente do Sporting quando adeptos do Benfica mandaram tochas para cima da bancada que nós chamamos de Bancada Família, onde havia crianças a fugir, idosos a fugir. Eu sou pai de três crianças, eu sou filho, jamais em tempo algum permitiria qualquer tipo de tentativa mas fosse a quem fosse, fosse ou não do Sporting. Fora de questão.

Mas porque é que nunca condenou com veemência o ataque?
Eu fui o único dirigente em Portugal, provavelmente desde sempre, que fez críticas violentas públicas às minhas claques. Vou dar um exemplo: quando uma carrinha do Benfica se perdeu a caminho de Alvalade e foi parar por baixo do viaduto onde estão as casas das diversas claques. A carrinha foi apedrejada, foram mandadas garrafas de cerveja e inclusivamente entrou para dentro do estacionamento partindo a cancela, com medo. Eu critiquei publicamente. Mas eu não posso ser criticado por ir para as redes sociais e depois criticado por não ir para as redes sociais. As pessoas têm de me dar a entender, de uma vez por todas, se é bonito ou não afinal ir para as redes sociais. Critiquei, agi em conformidade, a multa foi afeta à claque, foi demonstrado todo o desagrado à claque. Sobre Alcochete, mais uma vez, fui o único presidente em Portugal, de certeza absoluta, que inclusivamente cessou todos os benefícios da claque até ser averiguado o que se tinha passado.

No entanto há quem o acuse de, metaforicamente, andar abraçado à Juventude Leonina desde o início da sua presidência. Porque era uma das bases de apoio da sua candidatura?
Mas essas pessoas são pessoas imbecis. Não preciso de responder a essa pergunta porque estão a falar de pessoas imbecis. Eu nunca andei abraçado a ninguém, aliás, é por isso que se chega ao ponto que se chega. Está mais que provado que nunca andei abraço a claques, grupos, grupinhos, grupos de interesse, a grupo políticos, sendo que, infelizmente, se estou onde estou, é porque nunca andei abraçado a ninguém.

Mas nas suas reuniões com as claques sentia que havia animosidade com a equipa?
Não sentia absolutamente nada. Essa pergunta pressupõe que eu tinha muitas reuniões. Se eu lhes disser que em cinco anos e meio reuni não chega a 10 vezes com as claques, isso muda a pergunta? Existiam pessoas para isso, o OLA [Oficial de Ligação aos Adeptos], que respondia diretamente ao André Geraldes, havia uma pessoa designada por mim e pela administração que fazia as reuniões cíclicas com as claques que era o Guilherme Pinheiro. Havia uma série de pessoas e nunca nenhuma me alertou para nenhum estado de alma de desagrado e que pudesse descambar no que aconteceu.

Informalmente não falava com elementos das claques?
Não.

Mas no processo aparece a existência de seis chamadas de Fernando Mendes para si.
Sobre o quê? Se este é um processo que está absolutamente esmiuçado, um processo que tem 40 pessoas ou mais presas, é porque essas chamadas não tiveram relevância nenhuma, com certeza absoluta. E não tiveram.

No seu livro escreve que foi traído por toda a gente.
Eu sempre fui muito mal visto pelo sistema que controlou o Sporting desde 1906. Sempre fui muito mal visto. O carinho que as pessoas tinham por mim era para essas pessoas algo que eles não conseguiam engolir. Mais: o facto de eu ter conseguido provar por A+B que era muito melhor gestor, que percebia muito melhor o que era um clube, o que era uma SAD, isto irritou as pessoas, irritou o sistema que andou décadas a delapidar o Sporting. E agora voltamos ao mesmo, voltamos aos cortes e aos cortes e é preciso é fazer cortes, isto num clube que está rico.

O Sporting está rico?
515 milhões de euros? Sim, está rico! Eu quando cheguei tinha quase 500 milhões em dívidas. Eu deixei um contrato, só naquele contrato, 515 milhões de euros. Tomara eu quando cheguei ter isso. Aí tinha sido campeão e até tinha chegado bem longe na Liga dos Campeões. Eu entreguei o clube com uma dívida muito melhorada, com resultados sempre positivos. No cômputo global do meu mandato tivemos 1 milhão positivos. Mal eu saí deu logo tudo negativo. Isto é factual. Começou-se logo a falar de cortes, começou-se logo num discurso de pouca paixão, é aquele sistema que afasta os sportinguistas, que afasta a paixão dos sportinguistas, que afasta aquela coisa do estádio tudo a cantar "O mundo sabe que" com um prazer vibrante. Oitenta mil sócios, um pavilhão - ninguém me vai tirar isso.