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“Será absurdo se me sentar no banco dos réus. Fui detido de uma forma vergonhosa, foram buscar-me a casa a um domingo, caluniaram-me”

Em entrevista ao Expresso, o ex-presidente do Sporting critica o processo do ataque a Alcochete

Hugo Franco, Lídia Paralta Gomes (texto) e José Fernandes (foto)

José Fernandes

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Imagina que será uma das pessoas a sentar-se no banco dos réus caso o juiz de instrução decida que o caso vá a julgamento?
Era absolutamente absurdo que isso acontecesse. Vamos dizer as coisas claramente: este processo tem cerca de um ano e durante muito tempo fui um dos únicos que não esteve preso. Eu fui detido de uma forma vergonhosa, foram buscar-me a casa num domingo, o que é vergonhoso. E depois, sabendo perfeitamente quem me mandou deter que havia greve dos funcionários judiciais, só fui ouvido na quarta-feira. Isto foi tudo uma forma de me caluniar, de me matar social e profissionalmente. Disso ninguém tenha dúvidas. E a verdade é que resultou. Desde o ato da minha detenção para ser ouvido ser feito num domingo, em que ninguém é ouvido, ser feito quando se sabia que segunda e terça-feira havia greve dos funcionários judiciais, eu sou ouvido na quarta-feira e mesmo assim mal, ainda se prolonga para quinta-feira. Pegaram num cidadão, contra quem têm zero provas, passou um ano, têm tudo lá, os meus telemóveis, as coisas todas, pessoas presas há um ano que já podiam estar por tudo a falar.

Já que fala nisso, temos informações que haverá detidos próximos de si que estão a dizer às autoridades que o Bruno de Carvalho teria mais conhecimento sobre o ataque do que neste momento admite.
Ah, isso é magnífico. Acho isso magnífico. Começamos aqui no diz que disse, no "ouvi dizer". Eu também ouvi dizer muita coisa. O "ouvi dizer" num caso com esta gravidade... vocês não estão a falar com um indigente, vocês estão a falar com um pai de três filhas. Não estão a falar com um indigente da rua que vocês apanham e dizem "ouvi dizer". Vocês não ouviram dizer nada. É preciso é que essas pessoas avancem, é preciso é que essas pessoas dêem a cara, porque é a única forma de eu me poder defender. Agora, "ouvi dizer"... desculpem, isso vocês podem dizer a um indigente, não podem dizer a mim. Se houver alguém que diga, eu no sítio certo, no local certo vou defender-me. Perante a pergunta que me estão a fazer não posso fazer nada porque não faço ideia de quem você está a falar. Mas há algo que posso dizer: tudo o que possam dizer, seja quem for, sobre o meu envolvimento direto ou indireto, moral ou não moral, é absolutamente falso. E verificou-se claramente durante um ano que é falso.

Quando é que recebeu a primeira informação sobre o que se tinha passado em Alcochete?
Já disse várias vezes: estava reunido com membros da administração e com membros do departamento jurídico devido à notícia que tinha saído no "Correio da Manhã" sobre o Cashball quando me entra o José Ribeiro, que altura trabalhava na comunicação do Sporting, a dizer-me que tinha havido problemas na Academia. Foi aí que eu soube, mas não soube a dimensão. Só soube da dimensão quando lá cheguei.

E as fotografias, por exemplo, do Bas Dost. Só viu mais tarde?
Só vi mais tarde. Quando lá cheguei vi o Bas Dost, não vi as fotografias.

O que é que os jogadores lhe disseram na altura?
Os jogadores estavam de cabeça perdida, como é natural. Tinham acabado de ser alvo de algo que eu continuo a dizer que, in loco, podia ter sido evitado. Tinham sido alvo de um crime e portanto estavam de cabeça perdida, cheios de dúvidas e é lógico que não ajudou para os jogadores as acusações sucessivas que me fizeram durante horas via televisão.

Acusaram-o de estar por trás do ataque?
Não vou estar aqui a fingir que não havia um clima estranho ali, mas havia um clima estranho ali e de certeza absoluta muitos deles pensavam que eu podia ter alguma coisa a ver com isso, como quando invadiram o Seixal os jogadores pensaram que tinha sido o Luís Filipe Vieira, como quando invadiram o treino do V. Guimarães os jogadores possam ter pensado que foi o presidente... é normal isso acontecer e temos de dar o desconto. Já não temos de dar o desconto às mais altas patentes políticas portugueses que me acusaram.

Está arrependido de ter contratado Jorge Jesus?
O tempo vai-nos dando a possibilidade de nós vermos as coisas com outro desprendimento. De certeza absoluta que na minha vida, neste momento, eu estou muito mais preocupado em fazer avaliações na minha vida pessoal do que sobre aquilo que fiz no Sporting. Isto mudou. Uma coisa era quando eu era presidente do Sporting e dava 24 horas do meu tempo em detrimento da minha família. Neste momento preocupa-me muito mais aquilo que eu fiz de positivo ou negativo a nível familiar e de poder fazer muito melhor neste momento. Não tenho esses pruridos de estar a pensar se Jorge Jesus foi uma má escolha se deixou de ser. Se calhar se estivéssemos a fazer uma entrevista há seis meses eu ainda tinha vontade de dizer alguma coisa sobre isso, neste momento não.

Em que momento é que sentiu uma mudança de atitude por parte de Jorge Jesus?
O Jorge Jesus mudou completamente a sua atitude perante o Sporting Clube de Portugal e perante o presidente do Sporting Clube de Portugal a partir do momento em que faz o acordo com o Sport Lisboa e Benfica, aquele acordo milagroso que deu o fim a um processo de 14 milhões de euros.

Sobre o acordo com o Batuque FC. Saíram notícias que seria um esquema de lavagem de dinheiro.
Não tem interesse nenhum. Toda a gente já viu que não tem interesse absolutamente nenhum. Foi um acordo normal com coisas concretas, com uma definição concreta. E eu pergunto enquanto cidadão: percebe-se alguma coisa deste acordo que foi feito por 2 milhões de euros com o Wolverhampton? Eu não percebo. O do Batuque percebo, era um acordo de cooperação que envolvia jogadores da formação e não interessam os oito nomes que lá estavam, podia estar o Afonso ou o Joaquim ou o António como o Manuel, o Bernardo e o Afonso. Tanto faz. O que interessava naquele acordo é que o Sporting tinha direito de preferência de jogadores quando o Batuque é um clube formador. Não é um clube que não existe, não um clube que não tem jogadores, é um clube formador e com atletas com nome dentro da realidade.

Os 330 mil euros que o Sporting pagou coaduna-se com o valor do acordo feito com o Batuque FC?
Foi aquilo que se achou na altura e, sinceramente, para se conseguir jogadores de qualidade pagar 300 mil euros não vejo problema absolutamente nenhum. E digo, os dados estão lá, os contratos estão lá, as pessoas já falaram, já falou o presidente do Batuque. Agora não percebo é porque é que o Sporting foi pagar 2 milhões ao Wolverhampton e isso preocupa-me enquanto cidadão, já nem é enquanto sportinguista, porque acho perfeitamente obscuro e toda a gente já disse que era obscuro e ninguém explica o que é o acordo. Eu já expliquei o que é o acordo com o Batuque, não tem ciência nenhuma. No Sporting, no Benfica, no FC Porto quantos acordos desses não há? Porquê o Batuque especificamente? Porque foi o Varandas que falou sobre o Batuque? E o Brasa? Não vos interessa o Brasa? Um clube que o Sport Lisboa e Benfica fez passar por lá verbas exorbitantes e que nem existe. O Batuque não existe? Existe. Não tem jogadores? Tem. Não tem jogadores de referência? O Zé Luís, o Jovane. Não há jogadores que saíram do Batuque? Digam-me agora um jogador que tenha saído do Brasa.

Mas o Jovane depois percebeu-se que não tinha vindo do Batuque.
Veio, veio. Não tinha vindo era ao abrigo do acordo. Mas o que eu estou a dizer é que são jogadores palpáveis, que existem. O Jovane é um deles. O próprio presidente do Batuque já disse ao Sporting "aproveitem o acordo", "dêem uso ao acordo", "temos aqui atletas, dêem uso ao acordo". Agora, em vez de estarmos a fazer uma perseguição ao antigo presidente do Sporting, dêem uso ao acordo. Para mim é muito mais grave perceber como é que ninguém faz nada relativamente a um acordo do Benfica com o Brasa quando o Brasa não existe, mas não vejo ninguém a falar nisso.