Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

“Passava férias com o Mozer, que dava porrada no meu pai nos clássicos. Os jogadores dão-se bem fora de campo, o clima tem de mudar”

No dia em que Jonas se despediu do futebol, Gonçalo Paciência escreveu nas redes sociais para lhe agradecer a "belíssima carreira". O ex-avançado do FC Porto foi insultado por muitos adeptos e tinha consciência de que a publicação também teria esse impacto. Mas o português quis dar o exemplo, mesmo sabendo que não vai ser ele a "mudar o mundo". À Tribuna Expresso, diz que o futebol português tem que "ser mais livre", que os clubes deviam "deixar de ser tão picuinhas" e deixarem os jogadores "falarem mais". Porque, em Portugal, "parece que se está a criar uma guerra"

Diogo Pombo

Christian Kaspar-Bartke/Getty

Partilhar

Estavas à espera do tipo de reações que tiveste ao post sobre o Jonas?
Bom, claro que sabia que ia ter algum impacto, mas não o impacto que teve. Mas foi, também, para tentar dar um exemplo de fair-play. Não vou ser eu que vou mudar o mundo, mas tentei, de alguma forma, que as pessoas olhassem para o futebol português de outra forma. Agora não, está mais calmo porque estamos em pré-época, mas toda a gente sabe o clima que o futebol português tem sempre: muitas guerras e tudo isso. Foi o Jonas, podia ter sido outro jogador qualquer, de outro clube. Admiro o Jonas, joguei contra ele, no último jogo até tivemos aquela picardiazinha, aqui na Alemanha.

Que faz parte.
Exatamente, é o futebol, é o que passa dentro do campo. Depois, ele até me cumprimentou, desejou-me boa sorte e tudo isso, e as coisas ficaram por ali. É uma coisa perfeitamente normal, acontece. Como disse, podia ter sido o Jonas ou outros grandes jogadores que jogaram no Benfica, no Sporting, no Braga ou no Guimarães, etc.. Achei que devia ter feito o post para dar o exemplo e acabou por ter o impacto que teve. Pronto, o futebol é assim. Sabia perfeitamente que ia estar mais exposto, por ser nas redes sociais.

Onde as pessoas estão protegidas pelo teclado ou o ecrã do telemóvel.
Recebi comentários negativos de algumas pessoas, porque acabam por fazer associações um pouco infelizes, mas que nada tem a ver com o futebol em si. O que estamos a falar não é de clubes, de quem eu gosto ou de quem não gosto, é de futebol. Acho que acabou por ser positivo, mas pronto, é a Internet e cada um está por trás do computador e esconde-se da maneira que se esconde. É o normal de hoje em dia.

Falaste em dar o exemplo. Faz falta que os jogadores falem mais?
Sim. Dentro do campo claro que há sempre picardias, mas, fora do campo, todos se dão bem - e não é de hoje, já vem de há muitos anos. Estou no seio do futebol há muito tempo, por causa do meu pai, e lembro-me de, quando era miúdo, passar férias no Algarve com o Mozer, central do Benfica que quase comia o meu pai dentro de campo com as porradas e tudo isso. O Rui Águas também passava férias connosco e juntava-se lá muita malta do futebol. Isso acontecia e hoje acontece o mesmo, nisso o futebol não mudou. Mas as pessoas estão muito obcecadas por este tipo de coisas, por violência. Parece que se está a criar uma guerra.

Parece que só se é adepto do clube a partir do momento em que se está contra o clube rival?
Exatamente. E discute-se quem é o melhor adepto, quem gosta mais do clube, quem não gosta, e porque o clube ganhou mais. Por isso é que há que dar cada vez mais bons exemplos. As pessoas têm consciência disso e acho que as mentalidades se estão a alterar um pouco nos próprios jogadores. O Bruno Fernandes, por exemplo, deu há tempos uma grande entrevista, penso que à “Sport TV”, em que falou dos nomes como se deve falar, falou sem rodeios dos jogadores do Benfica, do Sporting e do FC Porto. Porque há este cliché de que não se deve falar dos adversários, porque isso é trair o próprio clube. Este clima tem que se alterar.

Estando fora de Portugal, achas que o facto de não haver mais jogadores a falarem ou a darem a sua opinião tem a ver com os clubes, que os tentam proteger em demasia?
Sim. Aqui na Alemanha, para dar esta entrevista, nem sequer disse nada à pessoa que trata da comunicação, porque ele certamente que ia dizer ‘à vontade’. As pessoas dos clubes confiam muito mais nos jogadores, sabem que, a este nível, somos profissionais e sabemos o que é bom, ou não, para nós. Estive no FC Porto muitos anos e sempre foi complicado dar entrevistas, porque há a televisão do clube e há isto e há aquilo. Cheguei aqui e os treinos são sempre à porta aberta, há pessoas a ver os treinos - jornalistas e adeptos - e nunca há problemas de violência ou seja o que for. É tudo muito mais natural. Vive-se o futebol e isso sente-se.

É outro mundo.
Por exemplo, temos o Dia da Bundesliga, que todos os clubes fazem, em que vêm jornalistas e patrocinadores de todo o mundo e desenvolvem o seu produto à volta dos jogadores. Fazem campanhas de marketing. Não sou eu que vou ser o próximo diretor de marketing do futebol português, mas isto em Portugal não existe e era algo que daria outro aspeto e dimensão à primeira liga. Há muitos bons valores no país, como se prova com as vendas que têm sido feitas, e isto poderia valorizar o jogador e o futebol português. Há que ser mais livre, falarem mais e deixarem de ser tão picuinhas.

Gonçalo Paciência e Jonas defrontaram-se nos dois jogos dos quartos-de-final da Liga Europa, na última época.

Gonçalo Paciência e Jonas defrontaram-se nos dois jogos dos quartos-de-final da Liga Europa, na última época.

Maja Hitij/Getty

Os clubes têm que dar mais acesso e deixar falar os jogadores?
Em Portugal, acho que são mais os três grandes que estão muito, muito fechados. Têm os canais dos clubes e tentam vender o seu produto. Talvez também por isso é que há tanto desequilíbrio no futebol português, em termos de competitividade, porque os outros clubes não conseguem estar ao nível dos grandes. Dinheiro gera dinheiro e há uma grande diferença.

Isto aconteceria na Alemanha?
Não, era perfeitamente normal. Tenho vários colegas que são mesmo muito ativos nas redes sociais, comentam os jogos das outras equipas, até comentam enquanto os encontros estão a decorrer. Bom, também não percebo muito de alemão, não vejo muito os jornais, mas nunca houve nenhuma polémica. Por exemplo, quando o Robben se retirou, o Borussia Dortmund, se não estou em erro, colocou alguma coisa a dizer ‘obrigado’. É uma coisa normal, não é visto como algo negativo ou como uma traição. Antes do jogador está a pessoa e se essa pessoa fez um trabalho que fez, independentemente do clube, há que valorizar. Por exemplo, hoje vi que o Marinho e o João Real acabaram a carreira, joguei com os dois na Académica, fizeram belíssimas carreiras em Portugal, se bem que a outro nível, mas também merecem o devido destaque. Antes do jogador está sempre a pessoa e dou muito valor ao jogador de futebol. Sei o que se passa e aquilo que custa, eles estarão um bocado tristes por estarem a acabar, mas há que dar sempre mérito e saudá-los.

Se publicasses um post sobre eles, não serias alvo das mesmas reações.
Teria 100 likes, mais ou menos. Como sempre fui ligado ao FC Porto, e a minha ligação continua por sem quem sou, por ter vindo de lá e por acompanhar o clube, acabam sempre por falar neste tipo de coisas. Mas passa-me completamente ao lado.

Terias escrito isto nas redes sociais se ainda jogasses no FC Porto?
Lá está, é o que disse há pouco: se calhar teriam dito para não colocar nada ou, por jogar lá, eu saberia que, se o fizesse, iria ter problemas. Claro que não o faria. O Jonas não é uma pessoa com quem tenho uma relação de amizade, só joguei contra ele, é uma relação profissional.

Se fosse um amigo? O Bruno Fernandes, por exemplo?
Faria sem problema nenhum. À frente do futebol estamos sempre nós, os humanos, as pessoas, e há que dar mérito a quem o tem.

Além da abertura dos clubes, o que poderia ser feito para melhorar este clima que se vive em Portugal?
É assim, é um bocado difícil. Já está tudo tão definido e vem de há alguns anos para cá, que não é fácil. Acho que se dá muito tempo de voz a pessoas que estão fora do futebol, que não têm noção nenhuma do que estão a dizer, que estão completamente por fora. Não se veem jogadores de futebol a comentarem o trabalho de advogados, dentistas, fadistas ou seja o que for. Hoje em dia qualquer um vai à televisão falar sobre futebol. Há coisas que tinham de começar pelos clubes, mas não é tudo por aí. É também pela informação que existe à nossa volta no futebol português. Hoje devemos ter uns quatro ou cinco programas de desporto, em simultâneo, em que se está a falar da mesma coisa e essa coisa não tem nada a ver com futebol. Ou é um caso, ou um árbitro, não tem lógica nenhum. Não estamos a falar de futebol e isso leva a que um clima de intimidação e de violência entre no futebol. Somos todos pessoas, todos vemos televisão e a informação chega-nos rapidamente. Teria que ser um bocado por aí e, claro, pelos três clubes grandes. Quem tem a força tem que dar o exemplo e podiam tentar, não digo ser mais amigos, porque a rivalidade tem que haver sempre, mas terem uma rivalidade mais natural. Todos os dias abro as redes sociais e há adeptos a insultarem-se e nem sequer há jogos, o campeonato está parado. O FC Porto está a jogar contra o Varzim, o Benfica com o Anderlecht e o Sporting com uma equipa suíça. Já se estão a fazer comparações, a dizer que este é melhor do que aquele e as pessoas estão obcecadas com isto.

  • “Antes do jogo com o FCP pus no Face: ‘ótimo dia para dois golos’. O mister fez-me apagar o post, eu fiz o bis. A minha confiança é anormal”

    A casa às costas

    Há quatro anos, Hugo Vieira viu o primeiro amor da sua vida, Edina Carvalho, perder a batalha contra o cancro e diz ter percebido que o importante é ajudar os outros e viver o presente. Andou por Espanha, Japão e agora Turquia mas foi na Sérvia que encontrou o amor por uma sérvia que lhe deu uma nova razão de viver: a filha Bianca. Confessa que era um miúdo traquina, muito convicto das suas ideias, que queria ser adulto depressa. O avançado de 31 anos que já tem uma agência de viagens e uma empresa no ramo imobiliário, revela pormenores da sua vida, afirma que sempre que diz que vai marcar golo, marca, e conclui que o futebol português está pior do que quando saiu para o estrangeiro

  • Domingos e a casa às costas: “Quando cheguei a Setúbal disseram-me: 'Aqui assa-se o melhor peixe'. E eu: 'Será? É que sou de Leça'”

    A casa às costas

    A Tribuna Expresso inaugura aqui uma secção a que chamará “A Casa às Costas”. São histórias de treinadores e jogadores que passam a vida com a mala feita de um lado para o outro. A primeira é de Domingos Paciência que, nos últimos cinco anos, trocou de clube em todas as épocas. Depois do Braga, Paciência foi para Espanha, e depois Turquia (Kayserispor), voltou para o V. Setúbal, saiu para o APOEL (Chipre) e regressou a Lisboa onde treina atualmente o Belenenses. Casado e com três filhos, hoje já adultos, confessa que não gostou da sensação de desamparo que sentiu quando ficou sozinho, fora do país