Ana Gomes: “Faço o que acho que tenho de fazer. Não me aquece nem me arrefece que dirigentes desportivos possam fazer queixinhas”
A ex-deputada europeia pelo PS diz que "se calhar", quer "causar muito incómodo a muita gente que merece que lhe seja causado incómodo". Em entrevista à Tribuna Expresso, defende que lhe "incomodam atuações de clubes desportivos na medida em que se prestem a agudizar a promiscuidade que envenena a vida económica e política do país". Um dia depois de ser conhecida a carta que Luís Filipe Vieira escreveu a Carlos César, presidente do PS, pedindo uma tomada de posição do partido, Ana Gomes afirma que está "sentadinha à espera" do processo que o Benfica revelou que lhe vai instaurar
26.07.2019 às 16h39
TIAGO MIRANDA
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O que acha desta situação toda entre si e o Benfica?
Não gosto, mas, obviamente, não me surpreende. Pouco depois de estar na direção do PS, em 2003, lembro-me que era outro clube de futebol, outro presidente de clube, que arrogava o direito de escrever à Direção do PS para fazer saber que não gostava do que eu escrevia. Depois, veio-se a saber que até havia um conjunto de diligências para me afastar. Até deu origem a uma charla dos Gato Fedorento com base nas escutas do Apito Dourado. Portanto, não é nada de novo, mas é, naturalmente, preocupante, porque hoje os portugueses têm muito menos tolerância às promiscuidades que impedem que a justiça faça o seu trabalho, quando estão em causa suspeitas de crimes graves. Designadamente, corrupção ou crimes fiscais que têm de ser investigados.
Por que razão fez aquele comentário no Twitter?
Porque acho que reflete aquilo que pensam muitos cidadãos e as interrogações que têm. E como pessoa que, nos últimos anos e, em particular, no Parlamento Europeu, trabalhado intensamente nas questões ligadas ao combate ao branqueamento de capitais e à criminalidade económica, financeira e fiscal, percebo que esse tipo de esquemas - contratos de financiamento de compra e venda de jogadores, entre clubes - são um dos esquemas que encobrem esse tipo de crimes económicos e financeiros. Portanto, acho que se tem de investigar quando estão em causa as somas faraónicas que estão. Espero que as autoridades fiscais e de justiça façam o seu trabalho. E que a imprensa livre também faça o seu trabalho de investigação. Enquanto ex-deputada e ativista, naturalmente também procurarei fazer o meu trabalho.
Tem alguma informação de fundo que a levasse a escrever o que escreveu?
Tenho as informações que foram expostas pelo Football Leaks, que demonstram que aquele tipo de esquemas é, digamos, cobertura para crimes diversos. Não estou a dizer este em particular, ou um em particular, estou a falar em abstrato, no seu conjunto. Eu própria, antes de deixar o cargo de deputado ao Parlamento Europeu, tive o cuidado de enviar, formalmente, às autoridades europeias (Comissão Europeia, Autoridade Bancária Europeia, Banco Central Europeu, Europol e Eurojust) e portuguesas (nomeadamente, a Procuradoria Geral da República), as informações que constam no Football Leaks sobre esquemas análogos que podem estar a ser utilizados nas transferências de jogadores que estão em curso não só em Portugal, mas a nível europeu e global.
Mas, quando fez aquele comentário...
Quem fez o comentário não fui eu. Houve um jornalista de Economia, conhecedor, também, do que eu sei, que identificou uma série de perplexidades que suscita o negócio da transferência daquele jogador em particular - mas não é exclusivo desse clube e desse jogador. E eu dei voz aquilo que é a interrogação de muitos cidadãos. A interrogação está aí e não a retiro. Espero que as autoridades façam o seu trabalho, desde logo a CMVM, o Banco de Portugal, a Autoridade Tributária e, naturalmente, a própria justiça. Isto não é apenas a nível nacional, é a nível europeia.
Imaginou que isso teria a repercussão que está a ter?
Não faço as coisas para ter repercussão ou deixar de ter. Faço as coisas porque acho que têm que ser feitas e alguém tem que as fazer. E se as autoridades que deviam zelar, não o fazem, ou não se pronunciam, alguém tem de o fazer. Eu fiz o que acho que tenho de fazer. Não estive a fazer cálculos sobre se isto ia causar grande comoção e ter repercussões - faço o que acho que tenho de fazer. Naturalmente que não sou irresponsável e admito que cause muito incómodo. Se calhar, quero causar muito incómodo a muita gente que merece que lhe seja causado incómodo.
LEIA: A carta que Luís Filipe Vieira enviou ao PS.
Como reage ao que o Benfica tem feito em relação a si?
[Ri-se] Não sei nada sobre futebol, não tenho clube de futebol, não me interesso nada por futebol. Não atuo a mando ou a servir as estratégias de quem quer que seja da área desportiva, ou de outra. O que sou politicamente, assumo-o. Dou a cara pelo que faço. E não faço comentários sobre as reações que vou tendo. Vi várias vezes ameaças de que processavam e aqui estou sentadinha, à espera que me processem. E em relação a queixinhas ao meu partido, ou a quem quer que seja, estou perfeitamente descansada. Penso pela minha cabeça, sempre pensei pela minha cabeça, o que digo, faço e escrevo só a mim me responsabiliza. Hoje não tenho responsabilidades no PS, portanto nunca esteve em causa que não represento o PS. Nem o PS jamais poderia ousar ditar o que eu faço. Pronto, não me aquece, nem arrefece, do que dirigentes desportivos possam fazer queixinhas. Nem hoje, nem em 2003. Faço o que tenho de fazer e eles que passem bem o dia deles.
Ainda não lhe chegou o processo que o Benfica disse que ia instaurar?
Não, até hoje não tive nenhuma indicação.
Luís Filipe Vieira escreveu que Ana Gomes teve "o propósito de denegrir" o Benfica com a frase que escreveu no Twitter.
Não tenho propósito nenhum de denegrir ninguém. Como digo, não tenho clube de futebol, não sei nada sobre futebol, não me interesso por questões desportivas. Nada me move a não ser o interesse pela sanidade da vida pública, económica e política. Só me incomodam atuações de clubes desportivos na medida em que se prestem a agudizar a promiscuidade que envenena a vida económica e política do país.
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