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Dolores Silva, de regresso ao Braga: “Jogar a Champions é o sonho de todas as jogadoras. Estamos confiantes, não entre a espada e a parede”

Um ano depois de ter abalado para o Atlético de Madrid, a campeã espanhola está de volta ao Sporting de Braga. Justifica o retorno precoce com a necessidade de estabilidade emocional e conforto. Em escala para Riga, Dolores Silva confessou à Tribuna Expresso que a equipa está ansiosa que chegue o jogo de estreia rumo à qualificação da Champions, esta quarta-feira, frente ao Sturm Graz (11h30, Canal 11). Parafraseando o treinador Miguel Santos, diz que a equipa é candidata, mas não é favorita à passagem à fase seguinte: "É um sonho que queremos concretizar, mas ninguém se sente encostada entre a espada e a parede"

Isabel Paulo

Dolores Silva, 28 anos, é internacional portuguesa e jogadora do Sporting de Braga

DR

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É primeira vez que o Sporting de Braga participa na Champions feminina. Estão nervosas?
Estamos ansiosas que chegue o dia da competição, que chegue o primeiro jogo. Queremos entrar bem. Agora que já se está a aproximar, a equipa já se sente mais confiante, já estamos naquela fase de contagem decrescente em tentamos focar-nos ao máximo.

O vosso treinador, Miguel Santos, afirmou ser muito importante começar a Champions a não perder. Em três partidas de um grupo de qualificação, o resultado do primeiro jogo é assim tão decisivo?
Claro que sim. Entrar com um resultado positivo dá-nos logo outro tipo de motivação para os jogos seguintes. Numa prova como a Champions, é sempre importante a forma como se entra no jogo de estreia e a vitória é o que mais queremos. Mas acima de tudo o foco é fazer um resultado positivo, o que nos dará mais força para os dois jogos seguintes.

Da análise ao Sturm Graz, Apollon Limassol e Rigas FS, qual é a equipa adversária teoricamente mais difícil?
Difíceis são todas, cada uma com os seus argumentos. O primeiro jogo é contra a equipa vice-campeã da Áustria, depois com as campeãs do Chipre e depois com a equipa da casa, da Letónia. Todas têm os seus argumentos e vão lutar, como nós, para ir o mais longe possível, que é entrar mesmo na fase regular da Liga dos Campeões. Mesmo não tendo a projeção equivalente à competição masculina, é o sonho de todas as jogadoras. Estará mais próxima de seguir em frente a equipa que estiver mais focada e consciente que todos os jogos vão ser uma final.

O Sporting de Braga é candidato à fase seguinte, mas não o principal favorito, prevê o vosso treinador.
Concordo. Acima de tudo teremos de ser humildes e sermos nós próprias. Vamos fazer o nosso trabalho, o nosso jogo e tentar não sermos surpreendidas, impondo o nosso ritmo e estratégia para contrariar as adversárias jogo a jogo. O mais importante agora é a concentração no nosso jogo, dar o máximo para no final somar o número de pontos suficientes para passar em frente.

A sua apresentação no clube foi feita em vídeo de forma pouco comum. Gostou de gravar o vídeo? De quem partiu a ideia?
Fui apanhada de surpresa. Quando chegámos a acordo para eu voltar, pois ainda tinha mais um ano de contrato no Atlético de Madrid, o Sporting de Braga disse-me que queria fazer uma apresentação especial no meu regresso. Um vídeo de apresentação diferente, no contexto que têm vindo a fazer com os jogadores da equipa masculina no canal do clube, o Next. Fiquei muito feliz porque demonstra que há preocupação por parte do clube, não comigo individualmente, mas com o futebol feminino. É isso que o vídeo representa – a apresentação de uma jogadora em moldes semelhantes aos jogadores da equipa principal.

Como se sentiu em frente às câmaras?
Bem. É engraçado. As minhas colegas, a Vanessa e a Regina, também estiveram muito à vontade. Tenho de lhes agradecer. Sem elas não teria resultado tão bem. Foi uma ideia muito gira.

O que a levou a regressar a Braga? Quem a convenceu?
Foi uma necessidade pessoal. Gostei muito da experiência no Atlético, a nível desportivo correu muito bem, fomos campeãs nacionais, que era o objetivo máximo da equipa. Surgiu esta oportunidade de regresso, quis agarrá-la e surgiu o acordo.

Pesaram as saudades da família?
Não teve só a ver com a família, mas outro tipo de coisas. Quando jogamos, temos de estar felizes, a fazer o que se gosta independentemente do nível competitivo ou do clube. Acima de tudo temos de estar satisfeitas.

Sente-se mais feliz em Portugal.
Não sei se serei. Mas neste momento, pela experiência que já tive, precisava de algum conforto, de alguma estabilidade emocional, que consigo encontrar aqui. Isso, conjugado com o interesse do presidente António Salvador, foi o que me fez voltar.

DR

Teve outras propostas?
Sim, tive.

De clubes portugueses?
Não, pelo menos que eu saiba. O único que me abordou diretamente foi o Braga. Tive outros convites do estrangeiro, que acabei por recusar. Como tinha mais um ano de contrato, só mesmo na base de um acordo é que poderia sair.

O que aprendeu na sua experiência em Espanha?
Tentei tirar o máximo partido do nível competitivo e da experiência de outras jogadores, de outras culturas e mentalidades. As vivências diferentes de outras colegas são importantes no nosso crescimento.

Quais foram as principais diferenças que encontrou em relação à Liga portuguesa?
São sobretudo de nível competitivo, por ser um campeonato com mais equipas profissionais, o que garante mais qualidade e competitividade. E conseguem em geral dar mais condições às jogadores, não apenas dois ou três clubes como cá. Espero que um dia esse nivelamento também aconteça na Liga portuguesa .

No 1º Dezembro esteve várias vezes na qualificação da Champions, sem nunca passar à fase seguinte. Agora que os clubes portugueses já são profissionais, é uma obrigação qualificarem-se?
Obrigação não. O Sporting em anos anteriores também conseguiu ganhar tudo em Portugal e não houve essa obrigação. Tem muito a ver com os momentos das equipas. Oxalá sejamos nós as primeiras a lá chegar, mas não o sentimos como uma obrigação. O objetivo é sermos as primeiras a ultrapassar esta fase, mas sem a pressão de termos mesmo, mesmo, mesmo de o conseguir. Não estamos encostadas entre a espada e a parece. Não é assim que uma equipa funciona, nem faria sentido.

Os jogos vão ser transmitidos em direto no Canal 11 da FPF. Mais pressão ou motivação?
Ter cobertura televisiva é muito positivo, um sinal de evolução e da importância da modalidade. E prova que o futebol feminino é atrativo para os espetadores.

Que diferença encontrou no Braga em relação ao que deixou para ir para Espanha?
Estou cá há muito pouco tempo para fazer uma avaliação rigorosa. Reencontrei algumas colegas, outras novas que trouxeram outro tipo de experiência. Vejo uma equipa mais preparada, até psicologicamente.

Dolores Silva jogou no Atlético de Madrid em 2018/19

Dolores Silva jogou no Atlético de Madrid em 2018/19

Denis Doyle/Getty

Por ter no plantel jogadoras com mais experiência internacional, que já competiram na Champions?
Também por isso, mas fundamentalmente por ter ganho dois títulos na época passada. É um motivo de motivação extra. Foi importante para o clube e para as atletas.

Jogar a Supertaça contra o Benfica, no início de setembro e depois de já ter a Champions em andamento, é um ponto a favor para o Braga?
Neste tipo de jogo, as probabilidades são 50/50. Vamos pensar jogo a jogo, que a seguir temos o Sporting na primeira jornada. E pelo meio ainda teremos a primeira mão da Champions, que se estivermos em prova será bom sinal.

O facto de o Braga ser campeão torna-o favorito à renovação do título nacional?
Não acho que, nesta altura, haja favoritos, como não houve nas épocas anteriores, quando o Sporting venceu. Acima de tudo, tem de haver respeito pelo trabalho das equipas da Liga BPI e não só em relação ao Sporting e Benfica. Não se pode descurar as outros adversárias. O título de campeão já foi a época passada. O estatuto não ganha jogos. Há que pensar-se no presente, evoluir todos os dias para assim se tentar ganhar novos títulos.

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Um início de época bastante duro, como é o vosso caso, pode ter vantagens ou desvantagens?
Esses jogos têm de ser jogados, por isso ser no início ou depois é uma questão do momento em que está a equipa. É relativo. O importante é ir sempre o mais preparado possível.

Os adeptos do Sporting de Braga estão entusiasmados com esta participação da equipa feminina na Champions?
Aos adeptos do Braga não lhes passa ao lado o que faz a equipa feminina. Voltei a sentir isso. Acarinham a equipa e vão aos jogos. Antes da partida para Riga, estiveram presentes no centro de treinos para desejar boa sorte à equipa. Estão connosco e respeitam bastante o nosso trabalho. Para nós esse incentivo é importante.

Sentem-se levadas a sério?
Penso que sim, ano após ano as coisas têm evoluído de forma bastante positiva. Agora é continuar nesse registo. Para isso também são importantes os media, a aposta dos clubes, patrocinadores e mais marcas a investirem no nosso trabalho. Acho que nós merecemos.

O Sporting de Braga criou um canal televisivo próprio em streaming...
Vem numa altura boa. Pode dar outra visibilidade à Liga BPI e às outras competições que em estejamos envolvidas. A FPF tem feito um grande trabalho de divulgação e a aposta no Canal 11 é mais uma prova desse empenho.

Na última entrevista à Tribuna Expresso lamentou a disparidade salarial do futebol feminino em relação ao masculino. Há sinais de mudança ou ainda há um longo caminho a percorrer?
Igualar é uma luta quase impossível. Não dá para comparar a realidade deles com o a nossa. Essa é a verdade. Mas espero que continue a haver evolução e se pratiquem remunerações que sejam sustentáveis para nós e nos façam sentir valorizadas. Ao fim e ao cabo, acabamos por fazer o mesmo que eles, que têm direito a tudo. Olhando para trás, passo a passo temos vindo a conquistar novas condições. Não abdicamos de ver o nosso trabalho é reconhecido e respeitado.

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