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Girão: “Tivemos a humildade de despejar bolas. É como pedir ao Ronaldo ou Messi para se porem à frente do guarda-redes a levar boladas”

Foi o herói do 16.º título mundial de hóquei em patins de Portugal. Nascido no Porto há 29 anos, Ângelo Girão é o indiscutível da baliza do Sporting e da Seleção Nacional e até tem colegas que pedem para lhe construírem uma estátua. Pudera: depois de vencer, pelo Sporting, a Liga Europeia, a maior prova de clubes, defendeu há um mês, ao serviço da Seleção Nacional, cinco bolas paradas e três grandes penalidades na final do Mundial frente à Argentina

Lídia Paralta Gomes (texto), José Cedovim Pinto (vídeo) e João Girão (foto)

João Girão

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Entrevista originalmente publicada no Semanário Expresso a 27 de julho de 2019

Há quem te trate por Ângelo e há quem te trate por André. Como preferes?
Os dois, os dois. Sou Ângelo André Ferreira Girão. O meu pai é Ângelo, o meu avô também, não havia criatividade em casa [risos]. Normalmente chamavam-me André em casa e na escola primária, mas rapidamente passou para Ângelo ou Girão. No hóquei, como o irmão também jogava, eu era o Girãozinho e ele era o Girão. Entretanto o meu irmão deixou de jogar e assumi eu o Girão. Fui subindo patamares [risos].

E em que pé estão as obras da estátua que te querem construir?
Isso foi uma brincadeira que o João Rodrigues começou, como elogio pelo jogo que fiz contra a Argentina [risos]. Eu agradeço-lhe muito e eu realmente estive um patamar acima naquilo que fiz, mas a exibição foi coletiva, porque não é fácil para jogadores com tanta qualidade terem a humildade de entregarem a bola e virem defender, que foi o que fizemos.

Como aparece o hóquei na tua vida?
Desde muito cedo, porque o meu irmão já era guarda-redes de hóquei e eu queria ser igual a ele. O meu pai trabalhava sempre até muito tarde e a minha mãe muitas vezes não tinha com quem me deixar e por isso eu ia ver os treinos dele e passava grande parte da minha semana a seguir à escola a ver os treinos do meu irmão. Depois comecei a treinar em casa: o meu irmão tinha treinos específicos e as nossas brincadeiras iam parar sempre ao hóquei em patins. O meu irmão fazia de jogador e eu ia para debaixo de uma secretária com as luvas dele para tentar defender os remates. Na altura não tínhamos internet em casa e éramos mais virados para o desporto. Além de futebol, também joguei ténis e pratiquei natação. Mas o hóquei sempre foi a paixão por causa do meu irmão.

Também tens uma irmã guarda-redes de hóquei, não é?
Sim, a minha meia-irmã. Os meus pais separaram-se, cada um seguiu a sua vida. O meu pai voltou a ser pai e minha irmã Ana também já é guarda-redes de hóquei. E por minha causa e por causa do meu irmão ela quis ser guarda-redes. E o meu sobrinho Gui também! Isto de facto é uma família que tem pouca criatividade [risos].

Mas diz-se que também não és nada mau jogador de campo.
Eu acho que tenho jeito para jogar à frente. A patinagem é um bocado, digamos, defeituosa, mas em termos de stick acho que tenho técnica. Mas é mais uma brincadeira.

Passaste boa parte da tua formação no FC Porto, mas decidiste sair ainda antes de te tornares sénior. O que te levou a tomar essa decisão?
Na altura saí porque não era aposta do treinador e mesmo com proposta para continuar decidir que o melhor era não continuar. E acho que foi uma aposta ganha. Fui para o Gulpilhares, joguei contra o FC Porto e fomos campeões de juniores. Nós temos de procurar a felicidade. Era uma troca de clube que inevitavelmente ia acontecer: há 10 anos não havia tanta competitividade no campeonato, não havia tantas equipas boas e nem havia esta aposta nos jovens. Acho que os jovens hoje não dão valor às oportunidades que têm. No meu tempo, eu, o Rafa, o Telmo Pinto, o Henrique Magalhães, o João Souto - e estou a falar de jogadores que estiveram comigo no Valongo - tínhamos a plena consciência que quando chegássemos a juniores íamos ter de sair para um clube de menor dimensão para depois escalar até ao topo. Hoje se calhar um jogador vai mais jovem para um clube grande. Eu fui para o Espinho, a seguir para o Valongo.

João Girão

És campeão no Valongo em 2014 e na época seguinte assinas pelo Sporting, que na altura ainda está a dar os primeiros passos no regresso à modalidade. Foi uma decisão de risco?
Acho que tive três ou quatro decisões de risco na minha carreira. Saio do FC Porto quando era júnior de primeiro ano, vou para o Gulpilhares, um clube novo e onde não sabia o que esperar. A seguir tomo outra decisão de risco que foi saltar o último ano de júnior e ir para a Académica de Espinho, da 2.ª divisão. E a seguir a decisão de vir para o Sporting, no ano em que volta a ser modalidade oficial, com uma equipa formada à pressão e que nós sabíamos não ter ainda capacidade para competir com o FC Porto, Benfica, Oliveirense e o próprio Valongo. Na altura tive proposta da Oliveirense e do FC Porto, mas tomo essa decisão porque me foi prometido que o Sporting ia continuar a investir, que queria ganhar. Foi uma decisão de risco, mas a pensar no futuro.

E a nível pessoal, deixar o Porto, como foi?
O primeiro ano foi muito complicado. Lembro-me que eu e a minha namorada, agora mulher, a Mariana, tivemos um ano complicado, tremido. Ela trabalhava a tempo inteiro, quase não nos cruzávamos em casa, estávamos muito pouco tempo juntos. Ela veio logo comigo, conseguiu arranjar emprego, que foi importante para ela se sentir satisfeita e realizada a nível pessoal, mas ao mesmo tempo era um contra, porque eu passei a ser profissional e a ter treinos bi-diários à noite e não eram em Lisboa, eram no Livramento. Mas soubemos lidar com isso e agora acho que está perfeito, sinto-me em casa, ela também se sente muito bem aqui em Lisboa, embora estejamos longe dos amigos e da família.

A pressão de jogar com o Sporting também é diferente de jogar no Valongo.
Cheguei a um clube em que a pressão era para ganhar e os adeptos não tinham noção daquilo que nós éramos. Lembro-me na apresentação, o presidente, na altura o Bruno de Carvalho, disse: "Malta, estamos aqui é para sermos campeões nacionais". E nós ficámos todos a olhar uns para os outros... nós sabíamos que não era possível. Mas mesmo assim fizemos uma época histórica, conseguimos ganhar a Taça CERS e ainda fomos à final da Taça de Portugal, a dar muita luta ao Benfica. Portanto, não me arrependo de nada, apesar do risco.

Até porque no espaço de cinco anos, ganhas quase tudo.
Eu quando mudo de clube, do Valongo para o Sporting, fui muito criticado dentro do hóquei. Isso se calhar não passou muito cá para fora, porque o hóquei em patins é um meio mais pequeno, mas fui muito criticado. Mas de lá para cá foi uma Taça CERS, uma Supertaça, uma Liga dos Campeões, um campeonato nacional, um campeonato da Europa e um campeonato do Mundo de seleções. Eu tinha a noção que nos dois primeiros anos no Sporting ia ser muito difícil ganhar um título de campeão nacional, porque os outros clubes tinham estruturas com anos e anos e o Sporting caiu de para-quedas no meio dos tubarões. Tudo a seu tempo, mas se há cinco anos me dissessem que eu ia ter todos estes títulos conquistados eu ia dizer "desculpem, mas acho que vocês são maluquinhos e não percebem nada disto" [risos].

João Girão

Brilhaste nessa final da Taça CERS, na final da Liga Europeia deste ano e agora no Mundial. És o homem dos grandes momentos?
Acho que não tenho falhado aos meus grupos de trabalho nos momentos de decisão, mas não é um trabalho individual, é um trabalho coletivo que envolve muita gente. Eu não tenho falhado nesses momentos, mas os jogadores que estão comigo têm muito mérito nisso, porque também não falham comigo. Mas também me lembro que já falhei outras tantas, porque não conseguimos ganhar.

Trabalhas a parte mental?
Comecei a trabalhar a parte psicológica há dois anos, com uma pessoa que me foi indicada. Hoje em dia é uma parte fundamental do desporto, porque é uma zona cinzenta para um atleta de alta competição. Porque há quem diga que isto é treino e é físico e não, há muito de psicológico. Vemos muitos atletas com parte física excelente e a claudicarem nestas alturas de decisão.

Coisa que não aconteceu no Mundial com Portugal. Qual foi a sensação de voltarem a fazer da Seleção Nacional campeã mundial?
Foi muito tempo sem ganhar. Nós somos uma geração que tem dado volta a isso. A primeira vez que fui a um Mundial foi em 2013 e ainda apanhei muitos jogadores da geração anterior. E nós conseguimos dar a volta a isso em 2016, no Europeu. Esta geração tem estado presente nas grandes decisões. Eu lembro que começámos por conquistar a Taça das Nações, depois conquistámos o Europeu e a seguir estamos muito perto de ganhar o Mundial na China, há dois anos, só perdemos nas grandes penalidades. O importante é isso, pôr Portugal nas alturas de decisão. Não podemos dizer "Portugal tem de ganhar" quando de 2003 a 2017 não fomos sequer a uma final do Mundial. Estando nos jogos decisivos é mais fácil ganhar.

O que é que mudou da derrota na final do Europeu há um ano para a vitória na final do Mundial de há duas semanas?
Isto agora é fácil dizer porque já somos campeões do Mundo, mas eu acho nós começámos a ganhar este Mundial no dia em que perdemos a final do Europeu com a Espanha há um ano. Falámos todos no final do jogo e foi uma crítica geral de todos os atletas que lá estavam que nós perdemos o Europeu porque não jogámos a final. Nós fomos cilindrados pela Espanha, não tivemos a mínima hipótese de ganhar aquele Europeu. Por diversos factores, mas principalmente porque não soubemos respeitar os outros, faltou humildade. Nós achávamos que era para ir para cima dos adversários e não era preciso defender porque éramos melhores. E no desporto, quando há estas faltas de respeito pelos adversários o que acontece é isto: levámos uma lição de hóquei em patins. A Espanha ridicularizou-nos nesse dia. E esta auto-crítica que nós soubemos fazer logo a seguir à final preparou-nos mentalmente para o futuro. Nós chegámos a este Mundial a pensar assim: somos favoritos, estamos no lote dos favoritos, mas vamos respeitar os outros. Se tínhamos de entregar a bola, não há problema nenhum, vamos defender.

A equipa foi mais solidária e esse foi o segredo?
Na hora de respeitar o adversário, sim. Depois também mudou o selecionador, o Renato Garrido trouxe outras ideias, o prof. Nuno Cerqueira trouxe outras formas de nos preparar fisicamente, o Edo Bosch trouxe outra visão para o que tínhamos de fazer em termos defensivos e no treino de guarda-redes.

Ângelo Girão, guarda-redes da Seleção Nacional de hóquei em patins, em entrevista exclusiva ao Expresso

E durante o Mundial, qual é o momento-chave?
O primeiro jogo com a Argentina, na fase de grupos, é um hino ao hóquei em patins. Nós fazemos um jogo em que não estamos a ganhar por quatro ou cinco ao intervalo por milagre. Tivemos tantas, mas tantas oportunidades. Eu até disse depois à mesa: "Malta, empatámos 1-1, mas tudo tranquilo. Nós com o jogo que fizemos hoje, temos todas as condições para sermos campeões do Mundo. Eles vão para casa contentes porque empataram, nós vamos tristes". A seguir, e porque os golos interessavam, temos um jogo de alto stress com o Chile, com muito desgaste físico. Vamos jogar com a Itália, começámos muito mal e por isso temos mais um jogo de muito desgaste. Passámos nas grandes penalidades, mas sobrecarregados e no dia a seguir jogamos com a Espanha que, para mim, era favorita, por estar a jogar em casa, por ter uma maneira de jogar sufocante para os adversários. E isso obriga-nos a mais desgaste ainda. Ou seja, o jogo da final com a Argentina é deturpado por tudo isto. As pessoas têm de perceber que o jogo da final foi um jogo de sofrimento constante para nós. Eles sabiam que nós estávamos cansados, nos primeiros minutos respeitaram-nos e quando viram que nós não estávamos a conseguir jogar, carregaram-nos o jogo todo. Já ouvi gente a dizer que Portugal tinha de ter feito mais na final. Nós fizemos o que pudemos! Não se podia pedir mais, estamos a falar de muitos dos melhores jogadores do Mundo que tiveram a humildade de perceber que não iam ter a capacidade física de marcar cinco golos. E o que decidimos foi: "'vamos defender, não vamos sofrer e vamos ter a humildade de despejar bolas". Isto é a mesma coisa que pedir a um Cristiano Ronaldo ou a um Messi para se porem à frente do guarda-redes a levar boladas. Foi o que eles fizeram. O ponto de honra do Renato era a defesa e puxou por nós ao máximo, com uma maneira de ver o hóquei com a qual eu me identifico.

Há um gozo especial em defender bolas paradas?
Mais os livres diretos. É uma coisa que eu gosto muito de treinar e eu tenho a sorte de treinar com os melhores. As grandes penalidades é mais uma questão de sorte. Estamos a falar de um remate a quatro, cinco metros, em que tu só te podes mexer depois da bola sair e em que às vezes a bola atinge uma velocidade de 150 km/h... há muito estudo, não vou dizer que não há, porque os jogadores tem pontos de confiança para onde atiram mais vezes, mas é muita sorte.

Nos livres diretos dá para mexer com a cabeça do adversário?
Aquilo é o jogo do gato e do rato. Gosto muito desse momento, desse jogo do "o que é que ele vai fazer", "o que é que eu posso fazer para ele ir para o sítio que eu quero". E com a ajuda dos meus colegas de Seleção e do clube, que são os melhores do Mundo, consigo ter uma taxa de sucesso da qual me orgulho muito.

O facto de Portugal nesse momento ter aquele que é quase unanimemente considerado o melhor campeonato do Mundo ajuda a Seleção?
Dentro do hóquei há quem critique porque estão cá muitos estrangeiros, mas a qualidade não tem nome nem nacionalidade. E aquilo que os clubes querem é rendimento. A vinda de jogadores estrangeiros para cá eleva o nível e obriga os portugueses a elevar também o nível. Eu se quiser manter o meu posto no Sporting, tenho de elevar o nível, o jogadores do FC Porto, se quiserem manter o lugar deles, têm de elevar o nível. E os mais jovens se quiserem chegar a um patamar destes também têm de elevar o nível.

Campeão da Europa pelo Sporting, campeão do Mundo por Portugal. É a temporada quase perfeita?
Exatamente, é uma época perfeita. Acho que ao nível de Sporting perdemos o campeonato muito por nossa causa. O FC Porto ganhou o campeonato porque foi mais regular, mais equipa e não falhou em momentos que nós falhámos. A Oliveirense também estava muito forte. O nível está tão alto que qualquer uma das equipas pode ganhar. Na Liga Europeia, além de já não ganharmos há muitos anos, tínhamos a pressão de jogar em casa. A nível pessoal, foi uma época excelente. Podia ter sido melhor? Podia. Podíamos ter ganho tudo, mas sabemos que é muito difícil. E queria deixar aqui uma mensagem de apreço a esta direção do Sporting, que nos deu todas as condições. Falava-se que podia haver um menor investimento, porque a antiga direção também tinha um apreço muito grande pelas modalidades, mas esta direção também nos tem dado todas as condições para podermos lutar por títulos e eu tenho muita sorte de poder jogar no Sporting e em Portugal.

Joao Girao

Jogar no estrangeiro passa-te pela cabeça?
Há um clube que é mítico no hóquei, é mítico em todas as modalidades, mas no hóquei ainda mais, que é o Barcelona. Claro que o Barcelona é o Barcelona, vai ser sempre um todo-poderoso e é um clube em que todos os atletas vão querer jogar, mas eu neste momento não sinto vontade em sair do Sporting. Eu aqui tenho tudo, a minha mulher sente-se bem, eu sinto-me bem, sou muito acarinhado pelos adeptos, estou num clube que investe para ganhar todos os anos, tenho condições para ser profissional.

Quando não tens de treinar e pensar em hóquei, o que fazes?
Passo muito tempo com a minha mulher e com os meus amigos. Mas passo quase todo o tempo a descansar. Com treinos tão puxados como os que temos, isso obriga-nos a descansar muito. Portanto, passo muito tempo em casa, em programas a dois e também com amigos, porque tenho a sorte de ter amigos do Porto que vêm cá muitas vezes visitar-nos.

Se não fosses hoquista?
Acho que tinha ficado pelo desporto. Nunca fui daqueles miúdos de ficar em casa a jogar Playstation, sempre gostei muito de jogar futebol na garagem de minha casa ou na minha rua, jogava ténis... só me via a fazer desporto.

Estás quase a fazer 30 anos e os guarda-redes tendem a melhorar com a idade. O melhor está para vir?
Quero acreditar que sim. Sempre ouvi dizer que o guarda-redes de hóquei tem os melhores anos da carreira dos 30 aos 36. Tenho 29 e quero acreditar que tenho muito para aprender e muito para dar ainda. O Edo Bosch, que foi dos melhores de sempre, jogou até aos 41, o Aitor Egurrola tem 40 e continua a jogar no Barcelona. Quero acreditar que se continuar a ter este cuidado e esta dedicação à modalidade que posso chegar aí.

Há a ideia que o hóquei em patins ainda é uma modalidade muito regional, centrada em quatro países. Passa também pela vossa geração tentar que o hóquei se torne mais universal?
Esta geração tem a obrigação de fazer algo mais pelo hóquei em patins. A Federação de Patinagem de Portugal mudou agora de presidente e acho que temos muito a ganhar, porque o Luís Sénica é alguém que está dentro do hóquei e que não vai dificultar as inovações que possam surgir, mas a nível internacional, quem manda... são velhos ultrapassados. Têm a obrigação de não dificultar o que vai aparecer de novo. Já se ouve falar de fazer uma variante de verão de 3x3, de andarmos pelas cidades e fazemos opens, como faz por exemplo o voleibol de praia. Precisamos de tornar o hóquei apelativo a quem vem ao pavilhão e a quem o vê na televisão. Nós temos um peso importante, mas quem manda também não pode dificultar os clubes ou as entidades que querem fazer do hóquei um espectáculo melhor. Porque quem vem ao hóquei fica fã.

O facto do hóquei em patins não ser um desporto olímpico deixa-vos frustrados?
Eu honestamente não percebo porque é que o hóquei em patins não é modalidade olímpica. É ridículo, tens pavilhões cheios, com quatro, cinco mil pessoas e depois tens o breakdance como modalidade olímpica? Eu pergunto: o hóquei em patins não, porquê? O hóquei em patins necessita dos Jogos Olímpicos, mas os Jogos Olímpicos também precisam de um espectáculo como o hóquei em patins. Nós agora temos os World Roller Games, que são uma espécie de Jogos Olímpicos das rodas, mas nós merecíamos os Jogos Olímpicos, esta geração merecia estar uns Jogos. Acho que já não vai ser possível, mas acho ridículo, porque vejo tantas modalidades lá que não têm nem tantos atletas, nem tanto público... os Jogos eram fundamentais para o desenvolvimento do hóquei.

Joao Girao

Sinto que vamos ter um Ângelo Girão na federação daqui a uns anos.
Não, não [risos]. Vamos ter um Ângelo Girão para o hóquei, sempre. Porque é uma modalidade que eu gosto muito, que está enraizada em Portugal, as pessoas adoram o hóquei em patins. Se fores a um Óquei de Barcelos-Valongo tens um pavilhão completamente cheio, se fores a um Turquel-Paço de Arcos tens um pavilhão cheio. E quando vamos lá fora, a países como a França ou a Alemanha, também temos pavilhões cheios, por isso, lá fora também gostam. Falta-nos quebrar essa barreira de acharmos que os outros é que têm de vir atrás de nós. Não: as gentes do hóquei é que têm de ir atrás do público.

O Paulo Freitas, teu treinador no Sporting, disse há pouco tempo que és o melhor guarda-redes de sempre.
Não, não... eu agradeço muito ao Paulo, que é uma pessoa que me ajudou muito ao longo da minha carreira. Eu sou muito agradecido a quem me ajudou e o Paulo foi uma dessas pessoas, é ele que me vai buscar aos juniores do Gulpilhares e dá-me uma oportunidade de ir para os seniores do Espinho. Eu agradeço, mas há tantos nomes... eu só quero ser o melhor no que faço e quero ganhar.

É preciso ser um bocadinho louco para se ser guarda-redes de hóquei em patins?
Costuma dizer-se que sim, que os guarda-redes de hóquei têm de ser maluquinhos, mas eu não quero acreditar nisso, porque eu sou guarda-redes de hóquei mas não acho que seja maluquinho [risos]. Temos de ter uma dose de coragem extra, porque realmente há bolas rematadas com aquela força e tens de te atirar para a frente dela... mas são ossos do ofício.