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“Treino com Ronaldo há anos. Ele esteve dez anos sem mexer um dos dedos do pé. Comigo, em duas semanas, começou a mexer outra vez”

Esta quinta-feira fez exatamente 15 anos da medalha de prata de Francis Obikwelu nos 100 metros dos Jogos Olímpicos de Atenas. Motivo mais do que suficiente para falarmos com o português nascido na Nigéria há 40 anos, que nos levou de volta àquele dia 22 de agosto de 2004, mas também à infância em África, à decisão de ficar no nosso país, de Christian, o filho bébé e até dos treinos que dá a Cristiano Ronaldo e Nelson Semedo

Lídia Paralta Gomes e Tiago Miranda

TIAGO MIRANDA

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Olhamos para as fotos daquele verão de 2004. Lá está Francis Obikwelu com uma coroa de louro na cabeça e uma medalha de prata ao peito, num pódio que dividiu com os norte-americanos Justin Gatlin (ouro) e Maurice Greene (bronze). E depois olhamos para o gigante de 1,95m que 15 anos depois nos aparece à frente. É até um pouco injusto para quem a passagem do tempo é inclemente: Obikwelu está igual. A mesma cara, o mesmo sorriso honesto. "É genética", diz-nos. "O meu pai tem 80 anos e parece que tem 50. Ainda se mexe bem e come o que bem lhe apetece e continua magro", explica. Aos 40 anos, Francis diz que nunca precisou de fazer dieta e que a única coisa que mudou foram os cabelos brancos, mas como a cabeça continua rapada, tal qual usava há 15 anos (e há 10, e há 5) nem se nota.

Quinze anos se passaram desde aquela noite gloriosa de Atenas, em que o atleta que aos 16 anos decidiu deixar tudo para trás para arriscar ficar em Portugal, conquistou uma medalha na prova-rainha dos Jogos Olímpicos. Mas muito se passou antes disso. E também depois.

Lembrava-se que faziam 15 anos da medalha de prata de Atenas?
Sim, sim, 22 de agosto de 2004, às 22h45, quase onze da noite. Foi um momento espectacular, um momento de glória, de trabalho, de força, de alegria por estar a fazer uma coisa histórica.

O que se lembra desse dia?
Para mim aquele dia foi como se fosse um dia normal de treino. Não estava stressado ou preocupado. Dormi bem, tranquilamente e fiz o meu dia normal. Toda a gente me perguntava: "Mas tu não vais ter as meias-finais e a final hoje? Andas aí a passear...". E eu respondia: "O que é que tem? É só uma prova". Não ia ficar no quarto a stressar, a pensar, não é? Estava tranquilo, o meu treinador também estava tranquilo, porque ele sabia que eu estava bem. Portanto, estive com amigos, a divertir-me, fui ao McDonald's, comi McDonald's, pizza, gelados... não fiz nada de diferente daquilo que fazia no treino. E isso ajudou-me muito naquele dia. Na minha meia-final estava o Maurice Greene, o Asafa Powell e o Kim Collins e toda a gente me dizia que não ia ser fácil e eu respondia que os meus rivais é que se tinham de preocupar, porque eu sabia que estava muito bem.

Na altura falava-se muito dos norte-americano, do Asafa Powell e se calhar muito boa gente esqueceu-se de falar do Obikwelu como candidato. Sentiu que surpreendeu os seus adversário?
Não foi uma surpresa. Por exemplo, o Maurice Greene, eu conheço-o muito bem. E ele antes dos Jogos Olímpicos deu uma entrevista em que disse: "O único atleta que vai estar entre nós e a vitória vai ser o Francis Obikwelu, porque nas grandes competições ele está sempre bem, em grande forma". Ele era muito experiente, era o campeão olímpico em título e para ele não foi surpresa. Mas para outros atletas foi uma surpresa ver-me tão bem.

Há atletas que se dão mal nos grandes palcos, mas isso não foi um problema para o Francis.
Para mim esses ambientes são um espectáculo. Já vivia isso como jovem e não sou de levar as coisas muito a sério, mas sim com tranquilidade. Não gosto de stress na minha vida!

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Naqueles 9,86 segundos dá para pensar em alguma coisa?
Não, repara, eu estava muito bem preparado. No treino estava a valer 9,85 segundos e eu e o meu treinador já sabíamos que eu ia bater o recorde da Europa. Aliás, o meu treinador dizia: "O campeão olímpico vai fazer 9,85s".

E fez.
É verdade, as contas estavam certas [risos]. A questão da pressão e dos rivais norte-americanos... eu não estava pressionado porque eu valia isso no treino. Eu estava mesmo focado, aliás, nota-se na minha cara, mas não estava com pressão. É como fazer um passeio.

Como é que foi o regresso à aldeia olímpica depois da final? Muitos festejos?
Normal, normal. Não mudou nada. Fui comer McDonald's e pizza com os amigos [risos].

Mas à uma da manhã?
Sim, sim. Então, aquilo está aberto 24 horas! Tens tudo lá dentro, tudo o que tu quiseres, a Coca-Cola nunca acabava [risos]!

Na comitiva portuguesa já estavam à espera que trouxesse uma medalha?
Sim, sim, já estavam à espera. Logo nas eliminatórias ficou claro que para alguém me ganhar teria de se esforçar muito.

Também não dava para grandes festejos porque ainda tinha os 200 metros para correr, logo dois dias depois.
Epá, eu nem sei como é que consegui fazer os 200m, estava todo roto. O motor já estava gripado, como se costuma dizer. Estava mesmo muito cansado... pá, tinha feito recorde nacional nos 100m três vezes em dois dias. O meu treinador até ficou admirado por eu ter conseguido correr porque no dia das eliminatórias dos 200m eu nem sequer conseguia andar. Ele dizia-me que não valia a pena, que já tinha feito o meu trabalho nos Jogos, mas eu decidi ir na mesma. Tinha preparado bem as duas distâncias, mas 100 metros é 100 metros, é a prova rainha e por isso o objetivo principal era aquele. Os 200m logo se via. Ainda assim fiquei em 5.º.

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Quando ganha aquela medalha, que é muito especial porque ninguém pensaria que Portugal pudesse ganhar uma medalha na velocidade, veio-lhe à memória todos os sacrifícios que teve de fazer, nomeadamente a decisão de ficar em Portugal depois do Mundial de juniores de 1994?
Sim, é verdade. De vez em quando gosto de voltar para trás. E também me recordei que nos meus últimos Jogos Olímpicos pela Nigéria, em 2000, em Sydney, tive um problema no joelho, no menisco. Fiz ressonâncias, exames e o médico disse-me que eu não ia correr mais. E eu virei-me para ele e disse: "Isso não vai acontecer e nos próximos Jogos vou estar no pódio". O gajo ficou a olhar para mim e ria-se. E eu dizia: "Não se ria, que eu estou a falar a sério. Vou ser operado, vou recuperar e nos próximos Jogos Olímpicos vou ao pódio". Essa força que eu tenho é natural. Porque eu tenho talento, tenho muito talento, não é brincadeira, mas trabalhei muito para isso, para alcançar aquele objetivo. O meu país infelizmente abandonou-me, mas Portugal deu-me a oportunidade e isso deu-me força para recuperar.

Como é que foram os primeiros tempos em Portugal?
Eu sabia ao que vinha e sabia que não ia ser fácil. Sempre disse à minha mãe que a minha vida ia ser um livro [risos] porque eu ia fazer um percurso histórico. Mas sabia que as coisas aqui não iam ser fáceis. Primeiro porque não falava português - e até hoje ainda não falo muito bem! -, mas meti na cabeça que ia fazer tudo para chegar ao que eu queria. Mas não foi fácil. No início o Sporting não me deu oportunidades, o Benfica também não e tive de ir trabalhar para as obras.

Até teve de arranjar um nome diferente para não o apanharem.
Sim, era John Smith. Eu tinha de fazer alguma coisa. Tínhamos fugido, não tínhamos documentos, a polícia estava à minha procura porque sabiam que três atletas nigerianos tinham abandonado a seleção naquele Mundial [além de Francis, fugiram ainda Wilson Ogbeide e o Sylvester Omodiale]. Nas obras muitas vezes apareciam inspectores e a polícia para ver quem tinha ou não tinha documentos. Foi ideia da minha cabeça, surgiu rapidamente.

Quanto tempo trabalhou nas obras?
Um ano e meio, mais ou menos. Trabalhei no tribunal de Loulé, estive lá na construção. Já lá voltei entretanto, tirei fotos. Está lá, não caiu, é porque ficou bem feito o trabalho! Antes de ir para o Algarve estive no Lumiar, depois também trabalhei na zona de Cascais, que ali em 1994/95 não tinha quase nada. Só depois é que um amigo que morava em Loulé me convidou para ir para lá. Eu fui até para fugir à polícia, porque no Algarve era mais calmo.

A decisão de ficar cá já estava tomada antes sair da Nigéria?
Sim, a decisão estava 100% tomada. A Nigéria tem quase 200 milhões de habitantes e metade deles são talentos. Eu olhava à minha volta e só via atletas mais talentosos que eu e pensava que se voltasse para a Nigéria e deixasse de ser chamado à Seleção a minha vida acabava. Então, quando chegou o Mundial pensei: o Estado paga-me a viagem, paga-me o hotel, pá, era a situação ideal. É engraçado que quando viemos cá a Portugal, depois íamos seguir para o Canadá, para os Jogos da Commonwealth. Mas eu decidir não ir para o Canadá, porque pensei: "Naa, na América há muita tecnologia, eles lá apanham-me facilmente". E em Portugal havia muitos pretos, africanos [risos]! Era mais fácil fugir aqui do que no Canadá. Aliás, um colega meu fugiu no Canadá e foi apanhado. Teve de voltar para a Nigéria. Decidi então ficar por cá. Diziam-me: "Mas em Portugal não há nada" e eu respondia: "Não se preocupem, é aqui que eu vou fazer história. Aqui é que vai ser a minha casa". No Mundial, estava sempre um nigeriano fanático por atletismo na bancada e fomos falar com ele. Dissemos-lhe que já tínhamos tudo preparado para fugir, mas que precisávamos de um sítio para ficar. E ele "sem problema!".

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A medalha de há 15 anos é a prova que a decisão foi a certa?
Sim. Finalmente pude mostrar o meu talento. Pá, até hoje quando vejo o vídeo com o meu filho... é espectacular. Às vezes sentamo-nos e eu digo-lhe: "Hoje não vamos ver o Panda, hoje é para ver o papá a correr". E ele senta-se comigo, ao meu colo, começa a bater palmas.

Que idade é que ele tem?
Tem 18 meses. Chama-se Christian, é um nome que a minha mulher gosta.

Ele já gosta de desporto?
Gosta, gosta. Quando vou para a pista ele mete-se ao meu lado a correr. Tem talento, é muito inteligente e fisicamente é incrível, começou a andar aos sete meses. Parece que tem três anos! E já manda em casa, claro.

Como é que tem sido gerir os treinos com essa profissão a tempo inteiro que é ser pai?
Tenho muita sorte, porque a minha mulher é espectacular e ajuda-me bastante porque sabe que eu tenho muito trabalho. Mas quando chego a casa faço tudo o que tenho de fazer enquanto pai.

E o Francis, quando é que percebeu que tinha esse talento?
Desde muito cedo. O meu pai foi jogador de futebol, chegou até à Seleção Nacional da Nigéria. E eu também comecei a jogar futebol, mas tive uma lesão grave no joelho. Mas talento sempre tive: corria na escola e ganhava a toda a gente e sabia que em qualquer desporto que eu entrasse, com trabalho conseguia chegar aos meus objetivos. Na rua, aí com 11 anos, quando brincava com os meus amigos costumava dizer: "Eu vou ser famoso, vou bater recordes". E eles riam, riam e diziam: "Esquece isso, pá, estás a sonhar". Mas eu não estava a brincar, só estava a avisar! Eu já em criança era um lutador. Era terrível, estragava tudo, batia...

Nessa altura tinha noção o que eram os Jogos Olímpicos?
Não, nada. Eu só pensava em futebol com essa idade.

Ah, então aí ainda não fazia atletismo.
Não, quer dizer, correr é uma coisa de africanos, nós estamos sempre a correr. Mas eu na altura achava que ia ser futebolista. Vem então essa lesão, eu devia ter uns 14 anos, e é aí que começo a ver atletismo na televisão. E pensei: "Estes são rápidos, vou experimentar também". Entrei num clube e comecei logo a ganhar a toda a gente.

Voltando aos tempos no Algarve: depois de um ano e meio a trabalhar nas obras, como é que consegue finalmente voltar ao atletismo?
Lá em Loulé conheci entretanto uma senhora chamada Mary Morgan, que tinha uma escola de línguas. E ela ajudou-me bastante. Eu era amigo do filho, o Kevin, que jogava râguebi e eu muitas vezes ia jogar com ele. Como ele falava inglês, começámos a conversar e ficámos amigos. Eu era muitas vezes convidado para casa deles para almoçar, jantar e foi assim que entrei na família. Lembro-me de ela me perguntar o meu nome e eu disse-lhe a verdade sobre a minha história. É engraçado, porque ela tinha em casa um jornal onde estava o meu nome. Estava lá o título: "Três nigerianos fogem em Lisboa". Ela perguntou-me o que é que eu fazia, que era muito novo para estar a trabalhar nas obras. E eu contei-lhe que era atleta e ela ajudou-me. Perguntou-me se eu não queria arranjar um clube que me permitisse fazer o que eu verdadeiramente gostava de fazer. E então ligou para o Belenenses. O treinador do Belenenses, o Fausto Ribeiro, andava à nossa procura, sabia que nós tínhamos fugido e que éramos talentos.

Manteve contacto com ela?
Sim, claro. Ela infelizmente já não está entre nós. Mas quando ia ao Algarve estava com ela porque há coisas que não se podem esquecer.

Nesse ano e meio chegou alguma vez a pensar que nunca mais seria atleta profissional?
Não, pensei sempre positivo. Eu sabia que não ia ser fácil. Era uma questão de fé: se hoje não dá, amanhã vamos fazer mais por isso. E na nossa vida há sempre alguém que aparece para nos ajudar. E quando apareceu a oportunidade, eu agarrei logo.

Continuou a treinar, nesse período?
Sim, sim. Ao fim de semana ia correr, jogava futebol e râguebi com amigos. E eles diziam "Epá, tu és muito rápido". E eu: "Mais ou menos, mais ou menos". Para não começarem a vir perguntas mais, como dizer, profundas [risos].

A sua família aceitou a sua decisão de fugir?
Eu não lhes disse nada. A minha mãe morria se eu lhe tivesse contado. Guardei tudo para mim e eles souberam mais tarde. Foi um choque para ela, um choque enorme. Ficou doente, stressada, pensou que eu tinha morrido. Para falar com eles cá foi difícil, porque não tinha dinheiro, nem contactos, nada. Pedi a um amigo para lhe dizer que eu estava vivo, que estava bem e que tudo ia correr bem. O meu pai não compreendeu muito bem porque ele não gostava do que eu fazia e chegou a dizer que eu já não era filho dele porque tinha fugido. E eu pensei para comigo: "Mais tarde vais mudar de ideias".

E mudou?
Sim, quando comecei a ter resultados, quando o meu nome começou a aparecer nos jornais e ele então já dizia aos amigos "Olhem, este é o meu filho" [risos]. Pai é pai. Ele pensava que eu era aquele filho que não sabia o que queria da vida, mas eu sabia bem. A minha mãe não, soube logo. Logo que eu nasci ela diz que viu que eu ia ser grande.

TIAGO MIRANDA

Há 15 anos, em Atenas, não ganhou só uma medalha. Também bateu um recorde da Europa que ainda hoje é seu. Surpreende-o que neste período ninguém tenha conseguido bater a sua marca?
O recorde será batido, alguém vai aparecer para o bater. Mas a verdade é que o único que esteve perto foi o Jimmy Vicaut, francês, que eu pensei que fosse capaz de o fazer. Igualou a minha marca duas vezes mas, curioso, sempre em França, nunca o conseguiu fazer numa prova fora e é um atleta que chega aos grandes campeonatos e não faz nada de especial.

E há algum atleta aí na calha que possa chegar perto?
Não está a aparecer ninguém neste momento. Nem ingleses, nem franceses, que costumam os mais fortes na velocidade. O próprio Jimmy Vicault também já não deve lá chegar, já não é muito novo.

É especial ainda ser o dono desse recorde?
Naaa, tranquilo, é tudo igual. Para mim não é uma coisa muito séria. O recorde está lá, se alguém bater será sempre a segunda melhor marca de sempre da Europa. Importante é a medalha, não é o recorde. Porque a medalha ninguém me tira.

Depois da alegria de Atenas também chegou o reverso da medalha: em Pequim, quatro anos depois, não foi à final. O que é que correu mal?
Acho que treinei demais para Pequim. Tentámos fazer algo diferente do que fizemos para Atenas, treinei mais, o meu treinador achou que eu devia treinar mais. Depois havia a pressão de fazer melhor, de querer mais. E eu não gosto do stress, não gosto que me empurrem para uma parede. Acho que foi um erro da parte dele, mas eu compreendo, é o treinador. Foi pena.

Sentia que ali era possível um resultado tão bom quanto o de Atenas?
Ganhar sabia que não ia ganhar, porque o Bolt estava lá. Mas de resto, o nível estava bastante igualado. Segundo e terceiro era possível. Mas não fui à final, acontece.

Mas a ressaca foi complicada. Chegou a ponderar desistir do atletismo.
Sim, porque foi um grande esforço e sentia-me cansado. Precisava de descansar. Não tinha vida, era só treinar-dormir, treinar-dormir. Queria ter uma família e não tinha tempo para nada. Decidi parar e fui para a minha casa do Algarve. Comecei a fazer a vida que não tinha tido, passear, sair à noite, muita noite. Comecei a beber, eu que nunca tinha bebido. Mas vi logo que essa vida não era para mim e voltei outra vez a correr em 2009.

E só parou de correr em provas internacionais em 2016. Agora há uma nova carreira, já que é treinador no Sporting. Como está a ser essa vida de treinador?
O mais complicado é lidar com os jovens, porque eles já não se sacrificam como dantes. Falta ali alguma coisa, não sei se vem das famílias... só pensam em sair, jogar Playstation, chegam tarde aos treinos. Isso não é uma coisa que eu goste. Eles têm tudo, têm estádio, têm pistas, têm fisioterapeutas, têm médicos. No meu tempo não tínhamos nada, o estádio antigo do Sporting tinha um ginásio minúsculo, pistas duras que davam cabo dos tendões, mas os resultados apareciam. Eu vinha da Venda do Pinheiro de autocarro todos os dias até ao Estádio Nacional. Agora têm tudo e queixam-se sempre, que não há condições. E eu fico a olhar para eles. Às vezes tenho de os mandar embora porque não dá para mim, eu tenho disciplina e queria que eles seguissem isso.

Chateia-se com eles?
Chateio, chateio. Chateio as famílias também, digo-lhes que chegam tarde. A malta treina às 9h30 e eles aparecem às 10 e tal. Se eu marco o treino para as 9h30, é para começar às 9h30, não é para chegar às 9h30. É um pouco frustrante para mim e por isso é que também estou a virar-me para outra área, a trabalhar com jogadores de futebol.

TIAGO MIRANDA

Há dias surgiu um vídeo com o Francis a dar um treino ao Cristiano.
Não foi só dessa vez, já há muitos anos que às vezes treinamos. Eu não gosto de falar muito disso, porque gosto de estar no meu canto, a fazer o meu trabalho. Também trabalho com o Nelson Semedo, do Barcelona. São jogadores que eu admiro e que trabalham muito bem.

Treina a velocidade com eles?
Não, não. Muita gente pensa que eu só trabalho a velocidade com eles, mas eu trabalho muita coisa, principalmente ao nível da prevenção das lesões, recuperação. É engraçado que quando comecei a trabalhar com o Ronaldo, ele tinha um problema no pé. Ele esteve quase 10 anos sem conseguir mexer um dedo de um dos pés. Comigo, em duas semanas começou a mexer o dedo outra vez. Gosto muito do Nelson Semedo também, é um jogador que gosta de trabalhar, que gosta de desafios e de coisas diferentes. Falamos muito, acompanho quase tudo o que ele faz no dia a dia, o descanso, o dormir, o passear com a família, há sempre tempo para tudo.

O Cristiano Ronaldo continua a querer melhorar sempre, é impressionante.
Eu já conheço o Ronaldo há muitos, muitos anos, desde que ele estava cá no Sporting. Aliás, ele acabou de confessar na televisão que fugia às aulas para nos ver treinar e era mesmo assim. Muitas vezes vinha ter connosco e dizia-me: "Francis, se eu tiver velocidade vou ser o melhor jogador do Mundo". Já na altura dizia isso, sempre, e eu já percebia que ele ia ser um craque. Ele continua a gostar de tentar novas coisas no treino. É uma máquina. Esta é uma área que eu quero apostar, vou até fazer uma empresa para ajudar atletas no treino.

Que tempo vale o Ronaldo nos 100 metros?
Depende. É que sair dos blocos não é fácil, mas ele embalado pode fazer 10,6s fácil. Ele tem um físico incrível, eu olho para ele e digo "és uma máquina, mesmo". E ele não gosta muito de falar de futebol, gosta é de aprender novas coisas no treino.

Apesar de agora estar dedicado ao treino, continua a correr e em março foi campeão mundial de veteranos. É algo que quer continuar a fazer?
Sim, eu não quero parar. Treinei dois meses antes do Mundial, mas chegou. Agora em setembro também há Europeu de Masters, mas não vou. E no próximo ano o Mundial de Masters é em Portugal, mas nessa altura já me comprometi a ir falar a uma conferência de treinadores em Kiev.

Há bem pouco tempo o seu treinador disse que o Francis ainda podia perfeitamente ir aos Jogos de Tóquio. É algo que ainda lhe passa pela cabeça?
Tudo depende de mim. Eu continuo a ter velocidade, mesmo com a idade não perdi velocidade. Só precisava de treinar durante um ano, como deve ser. Tinha de começar agora e conseguia, fácil. Eu não tenho limites e se calhar é por isso que o Cristiano gosta de mim, porque temos isso em comum. Mas tenho agora tantos projetos e estão a correr bem, estou muito focado nisso, portanto já não é um objetivo. O objetivo agora é dar aos outros aquilo que eu aprendi como atleta, fazer com que jovens com talento possam melhorar.