Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

“Trocar o Benfica pelo Sporting foi muito complicado, custou-me muito, até pela minha falta de maturidade a nível futebolístico e humano”

Esta longa entrevista a Paulo Sousa, um dos melhores jogadores da história do futebol português, não é apenas uma viagem ao passado. É, também, uma conversa sobre o que é ser-se futebolista e treinador em determinados contextos, ao lado e com determinados colegas. Aqui se fala de Pirlo, Baggio, Ronaldo, Figo, Rui Costa, Pauleta. E de infiltrações no joelho

Diogo Pombo e Tiago Miranda

TIAGO MIRANDA

Partilhar

Como é que gostas que as tuas equipas joguem, sempre?
Sendo protagonistas em todos os momentos do jogo. Mas, fundamentalmente, com bola. Gosto de ver as minhas equipas a expressarem todo o seu conteúdo romântico ou poético, individual e coletivo, de forma a que tenham domínio sobre o adversário e esse domínio tem muito a ver, no meu ponto de vista, com espaço e com tempo. Requer, sem dúvida, uma inteligência tática importante. Procuramos ter uma identidade comum em todas as equipas, onde essa base permita ao indivíduo a toma mais rápida de decisões perante esse tempo e espaço, para que essa expressão poética possa ser a base do individual. A base para oferecer ao público em geral e, nomeadamente, aos nossos adeptos, algo que lhes permita passar uma semana com ansiedade de voltarem ao estádio para os poderem ver e obterem as mesmas emoções.

Esse lado romântico, em termos práticos, é o quê?
É estar o maior tempo possível no meio campo adversário, mesmo com equipas, hoje em dia, bem capacitadas fisicamente, taticamente também bem definidas, com espaços bem curtos, e que através da identidade comum e do dinamismo coletivo a expressão individual possa fazer diferença no último terço, porque o expoente máximo do futebol é o golo. Então, é também a capacidade de produzires, durante o jogo, inúmeras ocasiões de golo para que entusiasmes quem joga e, sobretudo, quem vem ao estádio. Eles são sempre a alma de tudo o que é o futebol e ter a maioria dos estádios sempre cheios é, para mim, uma realização única. Pretendo, através do futebol e da ideia de futebol que procuro para as minhas equipas, que as pessoas estejam em maior número nos estádios.

O que é mais difícil controlar e domina: a bola ou o espaço?
O espaço, porque a técnica tem a ver com situações mecânicas que vais adquirindo, mas penso que temos vindo a desinvestir em anos que são necessários para potenciar ao máximo o futebolista, para que tenha controlo sobre a técnica - fundamentalmente, a técnica do drible. Acho que tem vindo a desaparecer cada vez mais, em todos os setores. Cada vez mais ouço e vejo pedidos para jogar a um ou dois toques para dar velocidade ao jogo, que também se traduz na capacidade de passe rápido, de verticalizar jogo e mudanças de corredor, daí a técnica e o controlo do passe. Mas, também, a capacidade de mudança de velocidade através do drible, atacando os espaços. Driblar um ou mais adversários para se criar espaço.

Será que há um desincentivo ao risco nos escalões de formação?
Vejo-o mais como um incentivo próprio para se poder chegar ao futebol profissional, como treinador. Essa ambição de se chegar lá rápido é leal, porque todos queremos viver o futebol profissional na maior dimensão possível e poder treinar jogadores de topo, até porque... Bom, acho que dirigir uma equipa é uma boa metáfora para a vida. Dirigir jogadores de elite dentro de um clube onde há vários, maior é essa metáfora. Nos escalões mais jovens, inicia-se com paixão, mas, rapidamente, se procura atingir objetivos práticos que lhes permitam alcançar a ambição de treinar no futebol profissional. Em todos os jovens que procuro trabalhar ou fazer com que possam realizar o potencial que têm há uma falta de ferramentas, nomeadamente, no conceito do risco. Na capacidade de terem criatividade no drible para poderem fazer face a diferentes defesas, espaços e zonas do campo.

Qual foi a tua equipa que mais prazer te deu em ver jogar?
A que mais próximo esteve do que idealizou foi a Fiorentina, sem dúvida. Tínhamos jogadores tecnicamente muito evoluídos e, entre o reconhecimento do espaço, a tomada de decisão e o expressarem-se, tinham uma velocidade extraordinária. E isso permite-te ultrapassar qualquer obstáculo individual, sectorial ou coletivo. Faltou-nos muito a última parte, que era ter vários jogadores com muito potencial de finalização.

No últimos 30 metros.
Direi mais nos últimos 15, porque os últimos 30 metros são zonas de criação, as de finalização são mais próximas da área.

É costume dizer-se que Itália é dos sítios mais difíceis para se treinar. Porquê?
Concordo. Parece-me que os meus colegas, a nível tático, são extraordinários. O futebol italiano desenvolveu uma capacidade tática que permite identificar dinâmicas a nível individual, coletivo e sectorial. É um futebol direccionado a reconhecer toda a essência dos outros para que se possa travar e, em pouco tempo, ou seja, em contra-ataque - que é uma grande essência do futebol italiano - ganhar jogos. O desgaste a nível defensivo é muito mais emocional. Tentam muito fechar espaços para potenciar outros espaços na frente. A nível de construção, o futebol leva-te a um maior desgaste intelectual, porque tens de estar a pensar em todos os momentos do jogo.

Obriga-te a estar concentrado durante mais tempo.
Sim, e principalmente os jogadores que estão mais distantes do centro do jogo, onde está a bola. A nível de intensidade intelectual, ou seja, de perceção posicional, têm de estar preparados para decidir. Para mim, fazem muita diferença e essa é uma das coisas mais difíceis de trabalhar.

VCG

Já que entrámos no lado de entendimento do jogo, deduzo que tenha sido na China onde isso foi mais complicado de treinar.
Sem dúvida. É quase impossível com o jogador chinês e tem a ver com culturas. Precisam de outras gerações, e não sei quantas terão que ser. Porque o indivíduo está formatado para seguir ordens, não está formatado para aprender e fazer por si. Isso faz com que a própria mecanização do processo não faça com que a aquisição seja garantida. Com uma certa frequência, as coisas que treinaste, de um momento para o outro, desapareciam. Isso tem a ver com o indivíduo e a capacidade intelectual de adquirir um processo. Senti muitas dificuldades no jogador chinês.

Como é que se lidava com isto? Criar o maior número de situações no treino para confrontar os jogadores com situações novas, para estimular a reação?
Não, não, é exatamente o oposto. Quanto mais conceitos novos dás a esse tipo de jogar, mais complexidade há. Contextos novos, mesmo com conceitos iguais, fazem com que o tempo e a decisão sejam diferentes. Porque qualquer decisão que tomes no futebol está ligado a uma emoção e a emoção não existe. Está cortada e isto é cultural. A prática leva-te a teres algum poder de aquisição no jogador, mas não é constante. A qualquer momento ele desaparece. Então, percebemos que tínhamos de manter os processos, não podíamos trazer coisas novas porque, senão, era demasiada informação.

Fora o lado financeiro e cultura, isso é um aliciante para um treinador europeu ir para a China?
Sem dúvida que o treinador europeu, com a experiência que tem, percebe que a sua metodologia tem que ter a menor complexidade possível. Que deve ter outro tipo de trabalho fora de campo, que se calhar é mais importante do que o trabalho no campo. A grande vantagem do treinador estrangeiro é poder adquirir jogadores estrangeiros que, dentro do campo, o ajudem a pensar o jogo.

Agora, no Bordéus, passou por mais um mercado de transferências. Como é que um treinador lida com este período de entra e sai de jogadores?
Depende do contexto onde estás. Sempre ansiei por um projeto onde pudesse ser um treinador que conseguisse construir, juntamente com o clube, toda a sua área desportiva. E foi essa direção que me levou a aceitar o projeto do Bordéus. Ainda precisamos de tempo para podermos ter uma maior clareza e união nesta estratégia, porque este foi o primeiro ano, o primeiro mercado, esperando que, no futuro, consigamos perceber qual a melhor forma de interagir entre as partes e as pessoas. É uma questão da qual, em breve, se vai conversar. Em quase todos os projetos tive muita dificuldade em conseguir construir. Procuro analisar a equipa que tenho, o contexto onde estou, quais são os objetivos de todos e direccionar ao clube os perfis dos jogadores para podermos melhorar a equipa, de maneira a sermos mais competitivos. Primeiro, a nível interno, para que a complexidade do treino suba o nível e se possa igualar, ao máximo, aquilo que é a competição. Há outros que têm a capacidade de, a nível contratual, determinarem logo o espaço de intervenção.

Tinhas 26 anos quando ganhas a segunda Liga dos Campeões seguida, por clubes diferentes. Com esta idade, o que pensaste que te faltava fazer?
Sempre pautei a minha vida, principalmente quando ganhas esses troféus, a agradecer a Deus e a Fátima, porque é um espaço que diz muito a mim e à minha família, a possibilidade de poder ter um trabalho onde descobri a minha paixão de oferecer tudo o que tenho. Sempre tive muita dificuldade em expressar-me e o futebol acaba por ser uma linguagem. Até sempre fui criticado pela falta de simpatia que tenho [ri-se], mas sempre fui uma pessoa muito reservada, sempre gostei de me expressar mais dentro do campo, que foi o espaço onde melhor me encontrava. Tive a oportunidade de reconhecer, muito cedo, que o futebol era um dos meus grandes propósitos de vida e, sendo remunerado por isso, pude oferecer à minha família e a muito mais gente, no mínimo, um conforto de vida.

A timidez que referiste...
Sabes que o futebol é um idioma da nossa alma que é muito poderoso. Quando é bem aplicado, podemos fazer muito por muita gente. É, de certa maneira, o que procuro fazer, porque estou super grato ao futebol. Esse particular, que não é um mero particular, é bem grande, é poder brindar também quem ama o futebol como eu amo.

Insisto: o teres jogado em muitos grandes clubes da Europa, apareceres na televisão, falares com jornalistas, ajudou a superares a timidez?
Muito, muito. O primeiro passo foi Itália, quando joguei na Juventus. A nível de colegas e do próprio treinador, houve sempre uma necessidade de que eu me expressasse perante o que era o treino, o jogo e a análise do próprio jogo. De certa maneira, verifiquei que era importante para eles, tendo em conta o que era o meu futebol. Foi o primeiro grande passo para me poder expressar. No campo, no meu contexto, sempre tive facilidade em expressar-me, mas, fora dele, mesmo falando com vocês, tinha muito mais dificuldade. Não por saber que estou a chegar a muito mais gente, mas fui sempre um rapaz muito tímido. Também tive alguns contratempos com alguns jornalistas, porque tenho valores humanos muito fortes e rígidos, como a honestidade, a clareza e a frontalidade. E há coisas que mexem muito comigo e com as quais sou muito intransigente. Fui percebendo que a minha justiça não é a justiça dos outros. Isso foi suavizando a relação. Mas é um facto que não gosto de falar muito, gosto de viver na prática, no campo, como jogador e treinador.

E tiveste que aprender italiano na Juventus e, depois, alemão no Borussia Dortmund.
O alemão foi uma das línguas que recusei aprender. Mais tarde verifiquei que fiz mal. Porque a minha ideia de ir para Dortmund foi para, depois, regressar a Itália. Isso condicionou-me a tomar uma decisão. Na altura, essa ideia de regressar juntou-se ao melhor jogador do mundo da altura, o Ronaldo, que estava no Inter de Milão. Só trabalhei com um empresário, o Giovanni Branchini, que também era agente do Ronaldo. Todos me condicionaram a que a decisão fosse regressar a Itália. Na altura, outro mercado abriu-se - tanto o Real Madrid como o Barcelona - e, provavelmente, com o que é a metodologia de treino e com tudo o que o futebol italiano me condicionou a nível físico, provavelmente teria sido a melhor opção [ir para Espanha].

Tony Marshall - EMPICS

Como é que era jogar todos os dias com o Ronaldo?
Era mesmo um Fenómeno. Para já, é um rapaz muito divertido, cheio de vida, super dinâmico. E tinha condições, nos últimos 15 metros, que fazem a diferença às equipas pelas quais passou e a todos os colegas, por tudo aquilo que fazia. Mas, para te dizer a verdade, o jogador que mais me impressionou a nível técnico foi, sem dúvida, o Roberto Baggio. Foi um jogador exuberante a nível técnico.

Melhor que o Fenómeno?
Diferente, porque a técnica do Ronaldo era a capacidade de aceleração, em drible, e a frieza para, dentro da velocidade que tinha, chegar perto do golo, tomar decisões e executá-las. Vi e continuo a ver muito poucos como ele. O Roberto Baggio era completamente diferente. Era um pouco mais tático, tinha uma visão extraordinária a nível de controlo e de passe e em tudo o que decidia fazer dentro do campo.

O Baggio sempre foi muito recatado e reservado, dava poucas entrevistas. Como é que ele era?
Igual. E outra coisa que lhe reconheci era que ele, depois dos treino, continuava durante algum tempo a trabalhar a sua técnica. Por paixão, por amor e para dar continuidade à sua capacidade de execução.

Jogaste também com Crespo, Buffon, Cannavaro, Thuram, a lista nunca mais acaba. De que forma é que conviver com tanta qualidade enquanto jogador influencia, depois, a tua vida como treinador?
Primeiro, influencia como jogador, já para não falarmos dos portugueses - Figo, Rui Costa, Fernando Couto, Pauleta. Quando te falei do treino e de como gosto de ver as minhas equipas, é muito importante o que representam os colegas para a identidade comum. Comecei a jogar como ala direito ou esquerdo, ou segundo avançado, e rapidamente passo para médio e, aí, sofro uma transformação enorme quando chego a Itália. Isso não é só pelo que os treinadores te vão pedindo, mas também, e muito, a qualidade dos teus colegas. Tens uma base que é direccionada pelo teu treinador, mas, depois, quando está com tempo e espaço para executar e a melhor decisão, para ti, é a profundidade, porque está lá o espaço, mas tens alguém como o Luís [Figo] e reconheces que, perante as suas características e para ele tomar decisões que ajudem a equipa a ganhar, se jogas no espaço, provavelmente ele não vai chegar - e vais ter uma ressonância negativa do teu próprio público, porque é um passe perdido. Reconhecendo que o Luís é um jogador para se jogar no pé, para ele poder ir no um para um e fazer a diferença, para o interior ou exterior, ser explosivo, dar um passe decisivo ou ele próprio finalizar, tudo isso importa. O Pauleta, por exemplo, era um jogador de dois tempos, cujo melhor era criar espaço para ele próprio atacar a profundidade. Se jogasses no pé, retiravas a grande essência dele. Portanto, um treinador tem de ir reconhecendo as características individuais, ir criando um puzzle e um modelo, que leva o seu tempo, para chegar a um identidade comum. Mas, também, tem que incentivar a que toda a criatividade do treino leve a que os jogadores reconheçam o potencial de cada um para que, depois, possam tomar decisões corretas. Tudo isso, perante a inteligência individual, leva mais ou mesmo tempo. Portanto, e para te responder, já viste a complexidade de tudo isto? [ri-se] Isto para dizer que os colegas dizem muito e podem fazer com que haja um crescimento de outras ferramentas no futebolista se ele, realmente, estiver predisposto. Isto tem a ver com o que falámos sobre o futebol chinês - o crescimento humano através dos pais, dos amigos, da escola, para teres uma visão mais ampla para te poderes potenciar ao máximo.

Enquanto médio, que tipo de jogadores preferias ter à tua frente: quem te pedisse a bola mais no pé ou no espaço?
As duas coisas. Sempre fui um jogador muito vertical e de risco. Porque o facto de ter jogado em posições mais altas fez com que tivesse experimentado esses posicionamentos. Quando vês o jogo de frente para esses jogadores - mas não constantemente, porque quem joga no meio é que mais ângulos tem - tens uma noção diferente. Sempre procurei reconhecer tudo o que era a abordagem do meu treinador em termos de organização defensiva para todos os jogadores, à minha frente e ao meu lado, para que pudesse melhorar a tomada de decisão deles e a minha. Tive sempre essa capacidade de antecipar, antes de me chegar a bola, o centro de jogo, tinha decisões praticamente definidas. E, normalmente, a minha primeira decisão era vertical.

Steve White - EMPICS

Esse recuo progressivo no campo também aconteceu ao Pirlo, que apanhaste no Inter.
Ainda jogava a 10. Ele tinha uma dificuldade em mudanças de velocidade e, como era muito leve, não conseguia expressar-se ao máximo. Tinha muita dificuldade em sair do drible, os espaços era muito curtos em termos de passe, estava limitado. E o Ancelotti, brilhante, decidiu baixá-lo e dar-lhe estabilidade física, colocando o Gattuso e o Ambrosini ao lado dele. Em termos defensivos ficou mais posicional, mais de filtro, mas, em termos de construção, ganhou muito mais visibilidade. Era ambidestro, tinha uma capacidade de passe curto, médio e longo extraordinária, mais a possibilidade de bolas paradas. Quando chegou a essa posição, ganhou a dimensão que teve no resto da carreira.

Pensaste que poderia vir a jogar na mesma posição que tu?
Nessa altura, quando o Marcelo Lippi chega a acordo com o Inter - numa fase em que tivemos vários treinadores -, eu estou para sair porque o futebol que praticávamos não me fazia sentir bem. Com a chegada e a abordagem dele, de voltar a fazer as mesmas coisas que fez na Juventus, acabou por fazer com que ficasse. Eu podia ter sido a sua primeira ideia, mas, na prática, acabei por não ser. Tanto eu como o Andrea Pirlo trabalhávamos na mesma posição. Nós, como seres humanos, somos muito egocêntricos e egoístas, e nesse tempo, quando a felicidade não era máxima, a realização do meu futebol não era a melhor e isso não me permitia estar a pensar em muitas coisas [ri-se], principalmente nos outros.

O Marcelo Lippi foi uma das razões para trocares a Juventus pelo Dortmund?
Dizem que sim. Mas houve vários fatores que condicionaram. Passei o meu segundo ano de Juventus sempre com uma lesão, que depois passou a lesão crónica e me levou a ser operado. Foi uma lesão que já tinha acontecido dois meses antes de terminar a minha primeira época. Quando acabou, fui visto por um especialista, disse-me que tinha de parar dois meses e meio para retirar toda a inflamação que tinha no tendão rotuliano e verificar se, eventualmente, não teria que ser operado. Várias coisas aconteceram. Há sempre necessidade, no início de cada ano, de aumentar os sócios cativos, então as contratações de jogadores mais sonantes ganham importância. Todas as pessoas querem estar próximas do sucesso e, para não utilizar uma palavra mais forte, aliciaram-me à melhor maneira da Juventus e fizeram com que eu pudesse fazer a pré-época, logo desde muito cedo, com infiltrações que me permitissem estar no campo. E, depois, em ano de Europeu de 1996, de Liga dos Campeões com a Juventus, quando estás envolvido tens muita dificuldade em saíres. O que mais gostava de fazer era jogar futebol e a frequência dessas infiltrações foram aumentando para me darem alguma capacidade de qualidade de jogo. Em termos individuais, o melhor poderia ter sido ficar na Juventus, porque ia para o meu último ano de contrato, ficaria livre para tomar todas as decisões que quisesse, mas gosto de estar onde as pessoas demonstrem muito que me querem. Foi nesse sentido.

Custou mais essa troca ou ir do Benfica para o Sporting?
Os contextos são completamente diferentes. A do Benfica e Sporting foi muito complicada, custou-me muito mais, até pela minha falta de maturidade a nível futebolístico e humano.

Hoje em dia, seria mais polémico um titular do Benfica ir para o Sporting?
Sempre fui muito crítico daquilo que é o nosso país. É importante haver um espírito crítico construtivo e positivo. Nós alimentamos muito o oposto. Acho que o valor do futebol português seria muito maior se direccionássemos a análise e o espírito crítico para um sentido construtivo, e não destrutivo. É evidente que o clubismo cega muita gente. O clubismo é importante, porque nasces a vivenciar uma experiência de clube com que te identificas, mas é fundamental haver o máximo de coerência e de realismo.

Itália é capaz de ser o país onde mais jogadores trocam de clube grande.
Mas não deixa de existir clubismo, a prática é que é diferente há algum tempo. Todos os processos culturais precisam do seu tempo de maturação, alguém tem de passar pelos primeiros.

A maioria dos jogadores atuais já começa a ser feita de quem nasça na década de 90, logo, já apanhaste jogadores que talvez fossem muito novos para te terem visto jogar. Eles costumam perguntar e querer saber sobre coisas que fizeste?
Não, pouco, mas vai acontecendo. O que vejo hoje no jogador é muito superficial. Não vive o ontem, o hoje e o amanhã. Vive muito para as redes sociais, para o eu. E aquele sentimento do que é realmente o amor pelo futebol, que te leva a conhecer a essência e o que foram os outros, perde-se nos muitos mais meios que há para ver o que os outros fazem. Hoje é muito mais superficial. É importante, da nossa parte, e daí ter falado do contexto de escola, da formação, que os primeiros líderes de crescimento intelectual tenham a capacidade de induzir o jovem à criatividade. Antes de preferir este ou aquele caminho, ele tem de conhecer os caminhos. Acho que falta muito isso.

Se calhar, um jovem jogador em vez de perguntar diretamente, vai ao YouTube ver, é isso?
Hoje temos muitos meios para o poder fazer. Quando estava em Viseu, tinha um rádio para, primeiro, ouvir a missa da minha mãe e, depois, alguns jogos, fosse de hóquei em patins ou de futebol. Tínhamos uma televisão ainda a preto e branco e mais nada. Fui tendo alguma criatividade também, na garagem do meu pai, e quando penso hoje nisso, nas coisas que fiz para criar um challenge contínuo no meu crescimento físico, técnico e tático, sem perceber muito bem por onde estava a ir... Agradeço tanto a várias pessoas que me fizeram chegar livros, ainda em jovem.

Matt Roberts

Que livros eram esses?
Um dos que mais me marcou foi do Phil Jackson [ex-treinador de Michael Jordan e dos Chicago Bulls, da NBA], em italiano. Acabou por me ajudar a melhorar o meu vocabulário e abriu-me uma dimensão que não sabia que existia, um certo tipo de visualização da informação prévia aos jogos, dos meus adversários e do que perspetivava que poderia ser o jogo.

Comparando com esse tempo, um jogador tem um smartphone, tem internet e tem tudo o que a tecnologia lhe dá. Será que isso impede que pare para olhar à volta e valorizar o que tem?
Depende. Tempo é algo muito importante e há uns que, por eles próprios, através do que têm disponível, enriquecem. E há outros que empobrecem. Porque se desviam do que, eventualmente, lhes pode dar condições para melhorarem. Se desenvolveres a tua capacidade intelectual em tudo o que pretendes fazer, terás muito mais capacidade de tomar decisões.

Falaste em livros e lembrei-me da biografia do Johan Crujff. Chegaste a conhecê-lo, quando trabalhaste com o filho dele no Maccabi Tel-Aviv?
Cheguei, já o conhecia antes através da UEFA, porque trabalhei lá seis anos quando estava com a Federação Portuguesa de Futebol. Esive presente em seminários técnicos para treinadores e tive a oportunidade de poder privar com ele.

Como era a personagem Johan Crujff?
O que mais se notava era a clareza das ideias dele, que eram muito complexas. O carisma. A sua capacidade de 'eu sei que é assim'. E, antes dele, houve o Rinus Michells. Vais ler tudo aquilo que ele via a nível de metodologia e de como operacionalizares um modelo de jogo e vês uma riqueza. Estamos a falar de há muitos anos. Depois, claro, o Crujff bebeu disso tudo. Digo muitas vezes isto aos meus jogadores - tudo tem a ver com a atitude. Não podemos apontar o dedo aos outros e dizer-lhes que estão sempre à espera de alguma coisa. Não, as coisas vêm sempre de ti. O desenvolvimento de qualquer país também é nesse sentido, não podemos estar só à espera dos políticos, temos de esperar por nós próprios, porque podemos sempre fazer alguma coisa. O problema é que a maioria dos líderes, para poderem guiar como lhes apetecer o próprio país ou empresa, por vezes atrofiam a tua inteligência e atitude. Hoje temos meios que nos fazem não precisar de ninguém, precisamos de nós próprios para oferecermos coisas muito boas aos outros e ao nosso país.

Foram as lições que retiraste do convívio com ele?
Retirei o carisma, a confiança e a paixão pelo futebol, que é o elemento mais importante que existe na nossa vida. Como te disse, é um idioma que é superpoderoso. O problema é que muita gente não tem essa noção. Quando a tens, podes direccioná-la de uma forma positiva ou negativo e procuro oferecer um bocadinho daquilo que a vida me tem vindo a proporcionais.

Qual é a tua forma de liderar?
É procurar ser o mais coerente comigo mesmo, com as minhas próprias decisões. Ser eu mesmo. Porque, procurando ser alguém, não o vou ver e vou cometer ainda mais erros. Tento ser o mais coerente com as minhas ideias e o meu estilo de lidar com as pessoas. Não podemos agradar a todos, Jesus Cristo também não o conseguiu quando cá esteve. O Augusto Cury tem um livro que faz um paralelismo com tudo aquilo que é Jesus Cristo nesta vida e tem mandamentos espetaculares.

Mas quão difícil é fazer isso num balneário em que toda a gente quer ter o mesmo?
É super difícil. Uma equipa de futebol é uma microssociedade onde tem que existir um mínimo de regras, porque há diferentes personalidades e culturas. Tem que haver uma linha que permita a coexistência de toda a gente. Com o tempo, os meus jogadores percebem que todas as minha decisões são para a equipa, para podermos ganhar e para podermos ver um futebol dentro do que trabalhamos. Mas, sobretudo, que existe coerência na minhas decisões dentro do nosso objetivo, que é ganhar e ver o melhor futebol, com os melhores jogadores, tentando dar oportunidade a todos de expressarem as suas potencialidades.

Já houve equipas onde apanhaste demasiados egos?
Em todas. Pauto muito a minha liderança pela frontalidade. Ninguém gosta de ser exposto, mas há momentos em que precisa de se expor, porque a nossa liderança passa pelo exemplo que damos. Passa por nós mesmos. Pouco a pouco, isso percebe-se e quem não gosta de poder estar nesse processo é muito fácil colocarem-se de parte.

Chegaste a dizer, no Basileia, que querias ganhar a Liga dos Campeões num prazo de cinco anos. E agora?
Claro que ainda é um objetivo. Tomei a decisão na minha carreira como treinador de me iniciar no futebol de formação, tive hipótese de ir para a Primavera do Inter, acabou por não acontecer porque surgiu o Championship, de Inglaterra. É um mercado muito complicado, com uma cultura de futebol muito difícil, principalmente para iniciar o processo como treinador, mas foi extraordinário. Foi um crescimento bem mais rápido do que aquele que pensara. Depois, foi um crescendo. Os resultados foram abrindo outros mercados e conforme foram chegando oportunidade, fui tomando decisões. Levaram-me ao futebol italiano, mas, penso que referi isso como treinador do Basileia, em que vou a vivenciar a primeira fase de grupos da Champions, com o Liverpool, o Real Madrid e o Ludogorets. O meu objetivo como treinador sempre foi criar uma equipa capaz, a nível humano e de competências profissionais, para poder potenciar resultados que tive como jogador de futebol. Isso é o que tenho presente. Agora, as circunstâncias fazem-te levar mais ou menos tempo. E, nessa altura, pensei que seria muito mais curto, porque chego ao futebol italiano e estive muito próximo de abraçar projetos em equipas que jogam regularmente na Liga dos Campeões e são competitivas nesse sentido.

Mas foste para a China.
Acabou por não acontecer e tive que tomar outras decisões, primeiro, para manter a minha equipa de trabalho e dar-lhes algum conforto económico, daí a minha decisão pela China. Ter um momento, quase um parêntesis, para chegarmos a outros projetos. Antes do Bordéus tive outras hipóteses, mas senti que este poderia ser um projeto que nos podia realizar, que era construir, com o clube, uma estratégia. Estamos nesse processo.

Não é fácil porque escolheram o país onde está o PSG.
Se verificares, quem ganhou a Liga dos Campeões nos últimos 20 anos, tirando um ou dois clubes que, a nível cíclico, a podem ganhar, são os que têm os melhores jogadores. Sem dúvida. Mas isso é um bom desafio. A tua capacidade económica permite-te ser mais rápido e determinante no mercado, atingires jogadores que, por si só, te dão resultados. Mas não é tudo. Irei lá chegar.

E a pergunta da praxe: o teu plano é vir a treinar em Portugal?
O meu plano não passa por aí [ri-se]. Mas claro que sim, não sou uma pessoa que feche portas, sou completamente aberto. Não sou um treinador que diga 'quero aquele campeonato e aquelas equipas'. Não. Posso ser feliz em qualquer lado. Como te disse há pouco, treinar uma equipa de futebol é uma metáfora forte para a nossa vida. Quando saí de Viseu, um dos meus propósitos de vida era ser professor primário, porque a minha grande referência era a minha professora, que se chamava Rosa. Era onde eu passava mais tempo. O facto de ter esta profissão, de continuar no futebol e de poder ensinar, ou poder fazer com que a grande maioria dos jogadores reconheça o seu potencial e ensinar-lhes a pôr em prática esse mesmo potencial é algo que não poderia pedir melhor.

Essa faceta não pode, um dia, levar-te ao futebol de formação?
Também, sem dúvida. Vai acabar por acontecer no final da minha carreira, que pode ser bem antecipado.