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Paulo Ferreira: “Os jogadores, e falo também por mim, têm sempre desculpas. A culpa nunca é nossa: é o treinador, o campo ou o não sei quê”

Deixou de jogar em 2013 e há quatro anos que é um 'Loan Player Technical Coach' no Chelsea, que esta época tem 27 jogadores emprestados. Mais do que fazer relatórios de jogo, tem de acompanhar, ajudar e, às vezes, ser um pouco duro, porque "os jogadores têm sempre desculpas" e a culpa "nunca é nossa, é do treinador, do campo ou do não sei quê". Paulo Ferreira esteve no Soccerex, em Oeiras, a falar sobre a transição para a vida sem chuteiras e a admitir que gostava de ser treinador adjunto

Diogo Pombo

Pete Norton/Getty

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O que faz, exatamente, um Loan Player Technical Coach? Não é comum ver-se isto em Portugal.
Agora já se começa a ver. Mas, se calhar, pelo que ouvi, talvez tenhamos sido os pioneiros deste departamento em que há um acompanhamento mais próximo ao jogador. No fundo, é isto que a gente faz. Não é enviar o jogador para um clube, depois telefonar, saber se está tudo bem ou se não está. Não, vamos ao clube e fazemos esse acompanhamento mais de perto, para, se não jogam, perceber porquê e pronto, no fundo é tentar que o atleta tenha minutos e jogue o máximo possível, para que possamos trazer alguns de volta ao clube. É esse o objetivo. Felizmente, tem acontecido e temos agora mais três jogadores que voltaram, o Tammy [Abraham], o Mason [Mount] e o Fikayo [Tomori] e queremos fazer com que mais regressem.

Isso exige que fales com muitos treinadores, diretores desportivos e staff técnico?
Com todos, sim. Muitas vezes é só com o treinador, outras é com os dois, depende da disponibilidade e da altura em que a visita é feita. Às vezes, o diretor desportivo viaja um pouco mais e o treinador acaba por ser um pouco mais fácil, porque está no campo e é lá que está o nosso jogador. É mais fácil falar com ele para perceber como está o atleta, saber um pouco daquilo que tem de melhorar, porque há sempre coisas a trabalhar, mesmo jogando ou não.

Há treinadores que acham esse trabalho intrusivo?
Não, porque fazemos isto de uma maneira muito tranquila e não porque somos o Chelsea e achamos que é obrigação do clube aceitar-nos. Fazemos com humildade e, no fundo, o mais importante é o atleta, saber como ele está, o que precisa de fazer e até que ponto o clube o está a ajudar, porque ele é nosso jogador e apenas se vai desenvolver se estiver a jogar. Normalmente, nunca temos esse tipo de problemas, também não estamos lá todos os dias. Não são visitas com uma frequência que pudesse fazer o treinador pensar 'outra vez aqui?'. Até hoje, não tivemos qualquer problema.

Trabalha mais em Inglaterra ou um caso como o do Lucas Piazón, que foi agora emprestado ao Rio Ave, fará com que venha mais vezes a Portugal?
Faço muito Inglaterra, vou às vezes fora... Também depende muito da língua e da relação que se vai criando com o jogador. No caso do Lucas é mais fácil porque falamos português e já o conheço há muito tempo. Vir para Portugal também o vai ajudar porque conheço bem o Carlos Carvalhal e até o André Villas Boas, que é o diretor desportivo.

Darren Walsh/Getty

Antes de um jogador ser emprestado vocês têm influência na escolha do clube?
A gente pode aconselhar se tiver duas ou três opções, se calhar dizemos qual achamos ser a melhor, pois, se calhar, atendendo às características da equipa e a forma como o treinador quer a equipa jogar, o clube enquadra-se nas características do nosso jogador. Muitas vezes, falamos da concorrências, porque pode haver alguém na mesma posição que tenha mais experiência ou seja o capitão de equipa. Isso complica um pouco mais. Mas também não passa muito por nós porque, aí, entra a outra parte que já não passa por nós - o lado financeiro. Apenas esperamos para saber onde vai o jogador e, depois, fazemos o acompanhamento.

Quão diferente é esta função de um scout?
Tem algumas coisas diferentes. Assistimos aos jogos e também temos de fazer um relatório, tal como os scouts, mas, no nosso caso, o jogador tem conhecimento que vamos fazer a visita e ficamos para ver o jogo. Enquanto que o scout vai, não diz nada e o atleta não sabe.

Mesmo assim, um jogador não sente pressão por saber que vem alguém do clube que o emprestou para fazer um relatório que, se calhar, depois chega ao treinador principal?
Não, porque também sabem que, no fundo, não é isso que vai mexer muito com eles. Sabem que têm de jogar bem, se não o fizerem, nem é o relatório, o jogo pode estar a dar na televisão e, se quiser, o próprio treinador principal consegue ter acesso, se quiser. Não é por aí. Poderia ser, não sei. Sabendo que está alguém do clube a ver, talvez possa sentir que tem de jogar bem porque está lá o Paulo ou outro. Mas acho que não, os jogadores também já têm essa preparação, é a carreira deles e sabem que, se quiserem jogar ao mais alto nível e voltar ao Chelsea, têm que jogar e estar bem. Caso contrário, dificilmente o conseguem.

Já aconteceu apanhar um miúdo de 17 ou 18 anos que está emprestado e não têm a ambição de voltar para chegar à primeira equipa do Chelsea?
Não, acho que eles também não são parvos. São inteligentes o suficiente para saberem se têm, ou não, qualidade e potencial. Depois, tudo depende do que demonstrem em campo. Agora, podem ser inteligentes ao ponto de usarem a ponte do Chelsea para uma carreira, como foi o caso do Lukaku, quando foi emprestado. Houve um acompanhamento do nosso departamento, como também tiveram o De Bruyne e o Salah. Acabaram por ser vendidos, continuaram a carreira e acabarem por chegar, outra vez, a um grande. A gente sabia que a qualidade estava ali, mas foram decisões do clube. Em muitos jogadores é só se não quiserem. Eu, infelizmente, não tive essa situação de ter ao lado alguém que tivesse jogado ao mais alto nível a ajudar-me e a acompanhar-me. Eles só têm a ganhar com os três ex-jogadores que estão no departamento.

O Paulo entrou para esta área há quatro anos, mas nunca foi emprestado enquanto era jogador.
Pois não, mas consiste um pouco em passar a tua experiência a um jovem jogador que tem a mesma ambição que tiveste: ter uma carreira de sucesso. Pode até nem ter que passar pelo Chelsea, mas podem aproveitar a situação e é mais isso que tentamos passar-lhes. Não deixamos nenhum jogador, sabendo que há uns com mais qualidade do que outros. Tentamos ajudar todos da mesma maneira e o que queremos é que tenham sucesso, conquistem troféus e consigam ganhar o máximo de dinheiro possível, porque isso é uma carreira curta e também tem de existir essa gestão. Preocupamo-nos mais com os aspetos técnicos, táticos, físicos e mentais que façam o atleta crescer e ser cada vez melhor, para que possa voltar ao clube. Se não voltar, como aconteceu com muitos, mantemos o contacto e todos agradecem a ajuda que lhes demos. Isso vale mais do que qualquer outra coisa, ter essa palavra de agradecimento ao que fazemos por eles. É isso que me dá gozo - ajudar e ver os miúdos a seguirem a carreira deles.

Chelsea Football Club

Tem uma personalidade pacata e reservado, mas imagino que isto o obrigue a ter que falar muito e ser proativo.
E, às vezes, até ser um pouco mais duro com eles. Há muitos que precisam de um abanão. Só quem passou pela transição de jovem para sénior, de saber que tem de jogar bem, mas, às vezes, as coisas não correm bem, consegue puxar um pouco pelo jogador. Alguns jogam sempre e acomodam-se. É importante continuar com o pé no acelerador. Os jogadores, e falo também por mim, têm sempre desculpas. A culpa nunca nossa, é o treinador, o campo ou o não sei quê, há sempre qualquer coisa. É lógico que eles sabem que têm ao lado alguém com experiência, que passou por muita coisa e fica difícil eles quererem enganar. Quem já esteve ali sabe como é.

Parte do vosso trabalho é serem um bocado chatos?
Não é o ser chato, é mais o ser frontal e o honesto. Dizer as coisas que têm de ser ditas, quer eles gostem, ou não. É a realidade e o que fazemos é por eles. É o que lhes digo: eu já acabei e não posso fazê-lo por ti. Se queres, ouve, não só o que eu digo, mas o que diz o treinador, e reage, porque és tu que vais sofrer as consequências.

A suspensão que o Chelsea tem de contratar jogadores até ao próximo verão mudou alguma coisa no vosso departamento?
Mudou apenas o facto de termos trazido três jogadores emprestados de volta ao clube, porque ajudou. Mas continuamos a trabalhar da mesma maneira. Todos sabem que é mais um ano em que têm de estar bem e tentar fazer igual ou melhor. Por exemplo, o Lucas Piazón teve uma época passada muito complicada e este é um ano importante, ele percebeu isso e vai tentar que esta temporada seja bem melhor. Esse também é o meu objetivo para esta época, dar mais atenção ao Lucas. Ele merece, é um bom menino, trabalha bem e merece um bocadinho mais de sorte.

O Frank Lampard já tinha bastantes jogadores jovens no Derby County. Dado o contexto, têm muito contacto com ele?
Temos, ele também sabe, por isso trouxe os três com quem trabalhou no Derby. É alguém que vê qualidade nos jovens, que quer dar oportunidades aos jogadores da casa, sabendo da pressão que têm em ganhar, porque, como toda a gente sabe, o Chelsea impõe resultados e troféus. É importante ganhar, também. Logicamente, ficamos sempre satisfeitos, porque é o reconhecimento de um trabalho que está a ser bem feito, não só por ver jogadores a regressarem, mas por os ver partir e o clube fazer bom dinheiro. É sinal de que estamos a dar um bom acompanhamento e isso orgulha-nos muito.

Não vou perguntar daqui a quanto tempo, mas gostava de ter uma função mais de campo?
Sim, principalmente nesta fase inicial de aprender um pouco mais. Não é fácil acabar o futebol e começar logo como treinador. Poucos são aqueles que o fazem. Ou se começa por um nível muito mais baixo, onde também não veria qualquer tipo de problema, ou ao mais alto nível, onde me via mais a começar como um adjunto, para trabalhar com um treinador com experiência e poder aprender o outro lado, que é totalmente diferente. Tive isso agora durante a pré-época, antes de os jogadores voltarem a sair para os clubes. Tenho experiência de preparar e montar o treino, de dar o treino também, juntamente com os outros dois ex-jogadores, fazemos uma equipa gira. Porque há esse lado, que é o de passar mais tempo no centro de treinos a preparar os próximos, que é totalmente diferente da vida de um jogador, que treina e vai para casa. Gosto do campo, do cheiro da relva, de ajudar o jogador, a bola. É giro e algo que vejo a fazer no futuro, se for possível.

Ser adjunto tem a vantagem de não se estar tão exposto a jornalistas, entrevistas e conferências de imprensa.
Exatamente, é mais o treinador principal. Nesta primeira fase, era assim que me gostaria de ver. O [Michael] Carrick, por exemplo, esteve com o [José] Mourinho e está agora com o [Ole Gunnar] Soljskaer. O [Mikel] Arteta está com o [Pep] Guardiola e eles vão ganhando essa experiência. Agora vi também o [Luís] Boa Morte, que está com o Marco Silva e também já tinha treinado. Via-me mais nessas funções e adorava voltar ao campo.

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