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Félix da Costa: “Quando estava próximo da F1 tinha uma pressão enorme, esquecia-me de me divertir. Agora estou em controlo do meu destino”

Aos 28 anos, António Félix da Costa tem nas mãos um novo desafio: foi contratado pela DS Techeetah, equipa bicampeã em título da Fórmula E, o campeonato de carros elétricos que desde 2014 tem tomado as estradas das grandes cidades do planeta. Antes do início da temporada, a 22 de novembro, na Arábia Saudita, o piloto português fala-nos das valências da Fórmula E, do reencontro com o agora colega de equipa Jean-Éric Vergne, com quem de cruzou em tempos no programa júnior da Red Bull e da tranquilidade que ganhou depois de se esfumar o sonho da Fórmula 1

Lídia Paralta Gomes

Hector Vivas/Getty

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Qual é neste o teu grau de entusiasmo/ansiedade com este novo desafio na equipa campeã da Fórmula E?
Uma mudança na vida de um atleta e em qualquer ser humano é sempre algo que nos faz sentir alguma ansiedade, mas não podia estar mais confiante de que estou a mudar para melhor. Não só estou a mudar para uma equipa que foi campeã nesta temporada como na última, ou seja, que é bicampeã. E isso é ótimo, dá-me muita confiança. Mas claramente quando alguém ganha tanto, metemos um alvo nas nossas costas. Eu tenho a noção que a DS Techeetah é a equipa a abater e que as restantes equipas estão a trabalhar muito para não nos deixar ganhar mais. Tenho a certeza que me estou a juntar à equipa mais competente neste momento, mas também que a Fórmula E está neste momento num patamar enorme, muito competitivo. Acabam de se juntar a Mercedes e a Porsche, já tínhamos a Audi, a BMW, a Nissan, a Jaguar, ou seja, muitas marcas mundiais com muita força e que querem tornar mais complicada a nossa vida.

Foi difícil deixar a BMW, a marca que te acolheu nos seus programas nos últimos anos e que te deu a oportunidade de ser piloto profissional, com salário, algo que não é um dado adquirido para todos os pilotos que tentam a sua sorte neste mundo?
Ter um salário no desporto automóvel não só não é um dado adquirido como é algo muito difícil de conseguir. É difícil tornármo-nos profissionais, conseguir viver disto, viver bem a fazer o que mais gostamos. A BMW de facto lançou-me como piloto profissional e não foi uma ou duas épocas, foram seis épocas, e a projeção era até de continuar. Quando surgiu esta proposta foi difícil para mim tomar essa decisão, mas na vida temos de pensar também com a cabeça e não só com o coração. Para mim, António, e para a minha carreira, tinha de arriscar e fazer esta mudança. Estou muito contente, tudo resultou e saí bem da BMW e fica uma grande ligação. Agora cada um segue o seu caminho, mas ficam boas memórias.

O que é que foi decisivo na hora de assinar com a DS Techeetah?
A ambição de ganhar corridas e campeonatos. Não que isso não fosse possível com a BMW, mas vejo mais possibilidades aqui. É uma equipa que sabe como se ganha, porque o tem feito - e ganhar uma vez é difícil, mas mais difícil é manter-se lá em cima. Terei um colega de equipa muito forte [Jean-Éric Vergne, bicampeão de pilotos] que ajuda a equipa a trabalhar muito bem. São precisos dois pilotos muito bons para levar uma equipa para a frente e com ele ao meu lado tenho essa possibilidade. Vai ser uma tarefa muito complicada batê-lo, esse é o meu objetivo e estou confiante que será possível.

O Vergne é um piloto da tua geração, tal como tu esteve no programa júnior da Red Bull. Como é a vossa relação?
Já conheci o Jean-Éric em muitas fases da vida dele. Eu próprio senti um bocadinho na pele, mas não tanto quanto ele, isso de entrar tão cedo num mundo tão agressivo como é o da Fórmula 1, com muito dinheiro envolvido, com muita política. Isso pode dar umas voltas grandes com a nossa cabeça. Eu já conheci o Jean-Éric em fases em que ele era mais simpático, menos simpático... mas eu conheço-o muito bem, sei exatamente o que posso esperar dele em cada momento. Ele neste momento está numa fase muito boa da vida dele, em que dá mais valor às coisas, está mais calmo, está a fazer resultados que mostram o quão bom ele é e por isso já não está com aquela fome e egoísmo que um atleta às vezes tem. Acho que está na fase certa para eu me juntar.

Ele é conhecido por ter uma personalidade forte.
É parisiense, é normal!

Félix da Costa no GP China de 2015 de Fórmula 1, quando era piloto reserva da Red Bull

Félix da Costa no GP China de 2015 de Fórmula 1, quando era piloto reserva da Red Bull

Mark Thompson/Getty

Havia espaço para amizades nesse programa jovem da Red Bull, onde havia sempre muita competitividade?
Era complicado. Na altura em que estive para entrar na Fórmula 1 até era para ser colega do Vergne. Nós aí já nos dávamos bem, mas havia sempre alguma fricção. Mas nada de especial, cada um olhava por si, digamos assim. Mas agora nesta fase há mais abertura para amizades. É claro que quando tens dois atletas que têm um mindset competitivo e que lutam pelo mesmo objetivo e com as mesmas armas é sempre difícil, mas acho que se tivermos respeito um pelo outro não vejo porque não possa correr bem.

Trabalhaste de perto com o Sebastian Vettel quando eras piloto Red Bull e sempre falaste dele como uma grande inspiração. Em que situações ele te ajudou a ser um melhor piloto?
Ele tinha muita atenção ao detalhe, a coisas pequenas, não só a trabalhar mas com as pessoas. Mostrou-me o quão importante é tratarmos bem desde o mecânico número 1 ou o nosso engenheiro principal até ao mecânico que conduz o camião que leva as peças. Há muitas coisas em que precisas de fazer tudo direitinho para que no final tudo bata certo. É verdade que na pista sou eu e o carro sozinhos, mas há uma grande equipa atrás de nós e se eles não quiserem ganhar tanto quanto nós queremos é impossível chegar a um objetivo final. Do Vettel não retirei só a forma de trabalhar como a maneira de estar. A tal atenção ao detalhe, mas também algumas técnicas de condução. Tive a sorte de o acompanhar de perto.

Vais agora para uma equipa que tem um piloto francês e uma estrutura boa parte também francesa. Passas também de uma situação em que eras líder na BMW para fazeres parelha com um bicampeão. Sentes que terás de encontrar o teu lugar na Techeetah e isso de alguma maneira pode assustar?
Concordo com a análise, mas não me assusta. Acho que tenho o carácter perfeito para entrar sem fazer muito barulho e ir ganhando o meu espaço. Mas sim, vou para uma equipa francesa, com um colega de equipa francês, que é campeão. Vou entrar em casa dele, completamente. É dar-lhe o seu espaço inicialmente e ir ganhando o meu. No final, os resultados é que vão ditar o espaço de cada um.

Nesta primeira temporada, que meta colocaste a ti próprio? Primeiro adaptares-te e depois lutar por vitórias ou esperas já estar preparado para resultados?
Já estou pronto, claramente. Eu estou pronto, vamos ver se o carro, se a equipa, se estão todos prontos. Mas eu estou pronto.

Félix da Costa no Ad Diriyah ePrix, onde conseguiu a única vitória na temporada passada na Fórmula E

Félix da Costa no Ad Diriyah ePrix, onde conseguiu a única vitória na temporada passada na Fórmula E

Malcom Griffiths/Handout/Getty

A Fórmula E é um campeonato com apenas seis anos, desde o início vemos cada vez mais marcas a apostar em ter programas no campeonato e há um crescimento visível, mas ainda está a fazer o seu caminho para chegar a mais público. Tu que és um piloto experiente na classe, como é que venderias a Fórmula E para quem ainda não se rendeu?
A Fórmula E junta neste momento não só o amor e a paixão que todos nós temos pelo desporto automóvel como toda a evolução tecnológica que as marcas de automóveis precisam para melhorarmos o nosso planeta. A Fórmula E é uma plataforma perfeita para mostrar que os carros elétricos são cool, já não é o Toyota Prius ou outros carros que não tinham exatamente sex appeal, que não eram atraentes. Hoje em dia já temos carros muito à frente em termos de potência face a carros com motores a diesel ou a gasolina e a tecnologia está quase pronta para virmos a ter uma vida completamente normal com um carro elétrico. A Fórmula E acelera muito esse processo, até para o desenvolvimento das marcas. Vamos imaginar o centro de Lisboa só com carros elétricos, por exemplo. Era outro cenário, não é? Não havia poluição, não havia barulho. Esse é objetivo principal da Fórmula E.

E a nível de espectáculo?
Acho que o bolo é grande o suficiente para termos Fórmula 1 e Fórmula E. Não há que tentar aniquilar nenhuma das competições. Acho que são estilos de corrida um bocadinho diferentes, a Fórmula 1 continua a ser a categoria rainha do nosso desporto e é assim que deve continuar. Um Fórmula 1 é o carro mais rápido do Mundo, ponto. Mas na Fórmula E corremos no centro da cidade, é onde as marcas se vão mostrar, onde mostram as suas tecnologias, há muitas ultrapassagens, muitos toques, corridas com muita ação. São corridas muito excitantes, um bocadinho mais curtas do que as da Fórmula 1, mas com tanta ou mais ação para os fãs. Temos visto que o fã da Fórmula 1 não é o mesmo que o adepto da Fórmula E, mas o mundo está numa fase de transição. A geração do meu pai não quer nem ouvir falar em carros elétricos, mas quem está a nascer hoje se calhar vai olhar no futuro para um carro a diesel, para o fumo preto a sair do escape e vai achar um nojo.

A ideia de trazer a ação para os centros das cidades e para um público mais jovem faz com que a Fórmula E seja muito mais próxima dos adeptos do que outras categorias?
Sim, sem dúvida. Os fãs estão muito mais perto dos pilotos e há sempre muitas oportunidades ao longo do dia para conhecer os pilotos, conversar até com os pilotos. A proximidade é muito maior comparado, por exemplo, com a Fórmula 1, em que compras um bilhete se calhar 10 vezes mais caro e estás seis ou sete horas sentado numa bancada no mesmo lugar. E depois há muita interatividade nas redes sociais, que também tem o seu peso.

O que te agrada mais neste Mundo da Fórmula E?
Os sítios onde vamos fazer corridas. Na Fórmula 1 vamos correr a Silverstone, onde estamos a duas horas de Londres, ou a Hockenheim, que é a uma hora de Frankfurt. Na Fórmula E corremos no centro de Hong Kong, no centro de Londres, em Brooklyn, Nova Iorque e isso para nós é muito giro. Em Brooklyn corres e vês Manhattan atrás. É uma magia que não tens em outras categorias.

Qual foi o sítio mais impressionante em que correste?
Acho que Hong Kong é das corridas mais impressionantes, porque é mesmo no centro da cidade, onde normalmente há muita poluição, muitos táxis, muitos carros, muitas pessoas e de repente a cidade pára ali durante dois dias para uma corrida de carros elétricos.

Um GP em Portugal é uma hipótese?
Já esteve mais perto. Houve mesmo reuniões entre a Câmara de Lisboa e o CEO da Fórmula E em que eu estive presente, meramente num papel de embaixador e porque para mim era ótimo correr em Lisboa. A cidade está numa fase em que se está a destacar muito e está na altura também de converter Lisboa numa cidade elétrica, mais verde. A Fórmula E seria uma boa mensagem para mostrar que os carros elétricos são divertidos, com muita dinâmica e velocidade. Espero que possa vir a acontecer um dia

A grelha da Fórmula E está, também, cada vez mais competitiva.
Era óbvio que um campeonato destes ia atrair marcas e as grandes marcas atraem pilotos. Eu diria que um 80% da grelha da Fórmula E é constituída por pilotos que já passaram pela Fórmula 1 e os outros são pilotos com uma história muito parecida com a minha: estiveram muito perto. Acho que não há maus pilotos na Fórmula E, o nível está altíssimo.

Também tens feito corridas no WEC, o Mundial de endurance. São categorias muito distintas, como é que se muda o chip da velocidade para a resistência?
Acho que o segredo é mesmo o facto das categorias serem muito distintas. A mudança é radical e consigo logo mudar o chip. Nós na resistência temos de ter a certeza, por exemplo, que não tocamos em ninguém, que tratamos bem do carro, porque são corridas longas, de seis, 12, 24 horas. Já na Fórmula E sabes que a partir da meia hora já podes arriscar um bocadinho mais porque já estás a meio. O mindset é diferente mas adoro estar nas duas vertentes. Para mim é perfeito poder combinar os dois programas.

Mas tu, que sempre foste um piloto com um estilo atacante, não foste obrigado a refrear um pouco os teus ímpetos na resistência?
Sim, sem dúvida. Mas tive colegas de equipa muito experientes ao meu lado que sempre me ajudaram com isso e acabou por nunca ser um problema.

Em 2017 falou-se da possibilidade do teu nome estar em cima da mesa para um lugar na Toro Rosso, na Fórmula 1. Como é que foi reviver tudo isso depois da desilusão de não teres ficado com o lugar em 2013?
Com uma mentalidade completamente diferente. Sabia que era uma hipótese remota. Sondaram-me apenas para saber se eu estaria disponível, mas da minha parte também não havia um interesse enorme se não fosse com as condições certas. Eu estava ligado à BMW, numa família onde, como já falámos, eu já tinha o meu espaço e o meu nome bem cimentado e não me interessava ir para a Fórmula 1 com um contrato de um ano e para uma equipa sem possibilidades de lutar. Obviamente que a Fórmula 1 foi o meu grande objetivo, mas há que andar em frente e hoje em dia, dada a minha situação, a Fórmula E tem muito mais para me oferecer.

Disseste em tempos que hoje és mais feliz do que nessa fase na Red Bull em que tinhas a pressão da expectativa, de não saber exatamente o que te poderia acontecer e o que te traria o próximo telefonema. Sentes-te mais livre hoje?
Sem dúvida, estou muito mais em controle da minha vida, das minhas decisões. Antigamente também era muito mais jovem, era complicado e, estando tão próximo da Fórmula 1, é claro que existia uma pressão enorme. E depois eu esquecia-me de ir para as corridas divertir-me, obrigação não é a palavra certa para o que eu sentia, mas tinha de ir para chegar a um objetivo. E isso fazia com que eu dormisse mal, acordasse mal e hoje em dia é o oposto, estou em controlo do meu destino e isso é ótimo.

Um das coisas que fazes como preparação física e para relaxar é surf, que é um desporto completamente diferente do automobilismo. O que é que o surf te dá?
Eu vivi em Cascais toda a vida e tendo o mar ali ao lado é ótimo. No ano em que não entrei na Fórmula 1 comecei a fazer surf e ganhar paixão por outros desportos. Tive sorte porque sou muito amigo do Frederico Morais e do Vasco Ribeiro e vou surfar muitas vezes com eles. Não sei bem, mas acho que me tocou ali num nervo qualquer que me faz adorar, até pela ligação com a natureza. Além que ajuda com a forma física, por isso é juntar o útil ao agradável.