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“Vivi duas guerras, vendi legumes e fruta na rua, perdi o meu pai quando jogava o Euro-2016. Mas olho-me ao espelho e digo: sou boa pessoa”

Depois da guerra entre Croácia e Sérvia, vive a segunda guerra na Ucrânia. Em miúdo, vendeu vegetais e fruta num bazar e, certo dia, gastou todo o dinheiro numas botas. Darijo Srna, recordista com a seleção croata e ex-capitão do Shakhtar Donetsk, fala com a Tribuna Expresso sobre Luís Castro e os adjuntos portugueses, o clube onde jogou 15 anos, a família e a infância. No fundo, sobre a vida e de como a leva: "Não é fácil quando entras numa equipa técnica e eles não te conhecem. É tão, tão, tão difícil mas vou dizer-te a verdade: desde o primeiro dia com o mister Castro, Filipe [Celikkaya], João [Brandão], Vítor [Severino] e [José] Roque, temos uma relação fantástica. Senti imediatamente que são meus amigos. Eles não são só bons treinadores, são também boas pessoas"

Hugo Tavares da Silva

Jon Buckle - EMPICS

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És uma lenda do Shakhtar: 15 anos, 10 campeonatos, uma Taça UEFA, sete taças, oito supertaças... Os adeptos gostam mais de ti do que gostam dos jogadores?
Não sei, não sei. Não gosto de pensar em mim, sabes? Alguém terá de dizer isso. Sinto que eles me adoram, respeitam e que também sentem que eu os respeito e que gosto deles. Eles agradecem que tenha jogado por este clube 15 anos, ganhando 27 troféus. Eles sabem que tive possibilidades de sair, mas fiquei sempre aqui. Há respeito mútuo.

É verdade que rejeitaste clubes como Bayern e Chelsea?
Não quero ser fenomenal agora e dizer “sim, sim, sim”... Tive ofertas de muitos clubes, umas eram boas, outras não eram boas, mas decidi sempre pelo presente e o presente era o Shakhtar. Depois de ganharmos a Taça UEFA, tive algumas ofertas, mas não sou um homem que goste de mudar as coisas ou arriscar. Sentia-me muito bem e confortável em Donetsk, antes da guerra, porque tínhamos um dos estádios mais bonitos do mundo, tínhamos uma grande equipa, grandes jogadores e um grande treinador, qualidades ótimas para jogar e não tive dúvidas entre ir e ficar. Tinha tudo no Shakhtar. E também era o capitão. Por tudo isto, decidi não ir para lado nenhum

A festa da Taça UEFA, em 2009, com Willian e Luiz Adriano

A festa da Taça UEFA, em 2009, com Willian e Luiz Adriano

Peter Byrne - PA Images

Como deve ser um capitão?
Um bom capitão deve ter autoridade, ser líder. Em situações negativas deve ser positivo para manter um bom ambiente no balneário, ser a mão direita do treinador. Era algo que fazia e fiz toda a minha vida, porque também fui capitão na seleção nacional. És um exemplo para todos. E, claro, não fui eu que me coloquei como capitão, alguém decidiu e reconheceu que tenho este tipo de liderança.

Vi esta manhã o jogo contra o Werder Bremen [final da Taça Uefa, 2009; 2-1]. O Shakhtar ganhou, fizeste a assistência para o golo de Jadson no prolongamento e até apanhaste Mesut Özil pela frente. No final, ficaste de joelhos a chorar. Foi a noite mais especial da tua vida no futebol?
Sim, sim, sim. Foi a noite mais especial porque toda a minha família estava lá. Levei umas 100 pessoas da Croácia, que me ajudaram a mim e à minha família durante a minha vida, e os meus treinadores de quando era miúdo até ter 25, 27 anos. Nas finais só te lembras de quem ganhou, nunca te lembras da equipa que perdeu, percebes? Para nós, foi importante ganhar este jogo porque foi um caminho difícil até à final. Sou um homem muito emocional, sabia o quanto as pessoas da Ucrânia, de Donbass, de Donetsk, queriam aquele troféu. Não tínhamos outra solução, só tínhamos uma: trazer o troféu para Donetsk.

Para os incuráveis românticos dos anos 90, não é Attilio Lombardo. Darijo Srna, de lágrimas nos olhos, celebra com Igor Duljaj

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Matthew Ashton

Como surgiu o convite para regressar ao Shakhtar?
Estive aqui 15 anos, tinha falado antes com o presidente sobre o futuro. É como o destino, sabes? Acho que o meu pai me levou a uma situação assim. Ele está a olhar por mim todos os dias, a acreditar em mim, a ajudar-me a mim e à minha família. É destino. Estava com a minha família, o diretor ligou-me, aceitei logo, falei com o presidente e comecei a minha nova vida. Estava tão feliz por regressar a casa. Shakhtar é a minha casa. Mudámos o treinador, foi um momento muito bom para entrar. Chegando um novo treinador, gosto de ajudar, se puder ajudar. Neste momento, sinto que posso ajudar muito o mister Castro e o seu staff, porque não sabem nada sobre a Ucrânia. Eles sabem sobre o Shakhtar mas não sabiam sobre cultura, mentalidade, campeonato, jogadores... Foi um momento fantástico para começar uma nova vida. Toda a gente da minha família dizia que ia ficar com uma grande depressão quando acabasse a minha carreira, principalmente a minha mulher. Mas acabei a carreira de jogador, comecei a de treinador e foi incrível. Até agora, não preciso de futebol... bom, preciso... mas não tanto que fique em pânico. Estou a desfrutar do que estou a fazer. Não é fácil quando entras numa equipa técnica e eles não te conhecem. É tão, tão, tão difícil mas vou dizer-te a verdade: desde o primeiro dia com o mister Castro, Filipe [Celikkaya], João [Brandão], Vítor [Severino] e [José] Roque, temos uma relação fantástica. Senti imediatamente que são meus amigos. Não sou o tipo que chega à equipa técnica e vai ser fenomenal, tudo o que precisarem de mim, qualquer informação, dar-lhes-ei. Eles não são só bons treinadores, são também boas pessoas. Eles já eram uma equipa, com outra mentalidade, e eu chego e eles têm de acreditar em mim. Temos oito vitórias [a entrevista foi antes da nona em nove jornadas], não ganhámos a Supertaça mas fomos melhores do que o Dynamo. Estamos na Liga dos Campeões, está tudo bem, estamos felizes e a trabalhar muito bem.

Que pensas de Luís Castro?
Podia falar muito sobre ele... É um treinador ambicioso, com fome, ele vive para o futebol. A vida dele é o futebol, sabes? Vai dormir, acorda e tudo é futebol e Shakhtar. É o mais importante, ele desfruta do que faz. Coloca toda a sua experiência ao dispor dos jogadores e, o mais importante, quer jogar futebol bonito de ataque. Isto é a filosofia do nosso clube e do nosso presidente. É para os nossos adeptos. Ele está a fazer o que os adeptos, presidente e jogadores gostam: jogar futebol e desfrutar de cada treino.

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Começaram apenas com vitórias e agora tiveram a derrota caseira com o Manchester City [a entrevista foi antes da vitória com a Atalanta, em San Siro]. É diferente, han?
Foi difícil, mas também não jogámos o que queremos jogar. O Manchester City é uma equipa espetacular mas eu acho sempre que são 11 contra 11. No futebol pode haver surpresas. Outro dia, uma equipa da quarta divisão ganhou ao Tottenham, percebes? Granada contra o Barcelona, 2-0. Tudo é possível. Jogámos bem os primeiros 20, 25 minutos, mas depois disso não fizemos o que devemos fazer e errámos muito e claro que o Manchester City, com a qualidade deles, marcou três golos. Tivemos oportunidades na primeira parte para marcar um ou dois golos. Para nós, não foi um jogo bom porque perdemos e não mostrámos a nossa qualidade, mas agora temos mais cinco jogos para tentar passar à segunda fase.

Disseste que a equipa técnica é simpática. Já tiveram jantares? Eles cozinharam comida portuguesa para ti?
Não, não, não. Acredita, de momento, nem temos tempo. Temos jogo a cada três dias, mas temos falado muito, viajado bastante. Estamos a desfrutar do nosso trabalho. Trabalhamos a sério quando temos de trabalhar a sério com o mister e brincamos quando é tempo de brincar. Nós devemos desfrutar da nossa vida e de todos os dias. Acredita: estou muito, muito feliz por pertencer a esta bonita equipa técnica com pessoas bonitas e bons treinadores.

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Chegaste à Ucrânia em 2003. Há quanto tempo não vais a Donetsk?
A última vez foi no dia 16 de maio de 2014. Fomos lá mas não vimos nada de especial, a cidade estava tranquila, mas depois, no final de maio, começaram a bombardear o aeroporto e começou esta merda da guerra. Infelizmente, não voltámos, porque houve períodos em que não era segura. Mas, sabes, temos de receber isto e viver e continuar a viver com isto. Os jogadores do Shakhtar não podiam fazer nada.

Sentes falta de Donetsk? Vocês vivem em Kiev e jogam em Kharkiv, certo?
Sim. Não foi fácil no início, mas agora estamos OK. Já são quase seis anos e estamos quase habituados. Mas esperamos um dia voltar, Donetsk é a nossa casa. Comprei lá uma casa e a minha filha andava lá na escola. Claro que sentimos falta.

Srna chegou ao Shakhtar em 2003 juntamente com Zvonimir Vukic, Razvan Rat, Stipe Pletkosa e Sergei Zakarlyuka

Srna chegou ao Shakhtar em 2003 juntamente com Zvonimir Vukic, Razvan Rat, Stipe Pletkosa e Sergei Zakarlyuka

AFP

Tiveste algum momento em que sentiste medo?
No, no, no, no, no, no, no, no... [não]

Quando chegaste ao clube foste treinado por uma lenda, Schuster. Que tal?
Foi uma boa experiência para mim. Ele chegou depois do Nevio Scala, que tentou mudar o Shakhtar. Na primeira metade da época jogámos muito, muito bem; na segunda metade da época não começámos bem, não ganhámos durante três ou quatro jogos e o presidente decidiu mudar as coisas e trouxe [Mircea] Lucescu, que era o número um, o treinador do Shakhtar que ganhou 32 ou 33 troféus. Ganhou a Taça UEFA e jogámos os quartos de final da Liga dos Campeões, com o Barcelona e Borussia. Foi um período fantástico, tínhamos tudo.

Bernd Schuster foi treinador do Shakhtar em 2003/04

Bernd Schuster foi treinador do Shakhtar em 2003/04

Alexander Hassenstein

Lucescu mudou o clube, certo? Começou a contratar alguns futebolistas brasileiros...
Não consigo dizer que o Lucescu mudou o clube, o presidente é que é o homem que decidiu tudo, como trazer o Lucescu. Não foi um acidente. Lucescu era um treinador de topo, por isso tínhamos de construir uma equipa de topo com grandes jogadores. O presidente decidiu investir nos jogadores brasileiros e na academia. Todos aqueles troféus são a prova de que ele fez muitas coisas boas pelo nosso clube. Conheci muitos presidentes na minha vida mas nenhum como o nosso... Para ele, o Shakhtar é tudo. Investiu tanto dinheiro, construiu o estádio sozinho, investe na equipa. É um grande adepto de futebol, está a gostar de ver o Shakhtar a fazer coisas boas, com jogadores rápidos e ações rápidas. Ele é a razão pela qual o Shakhtar está sempre no nível mais alto.

Ucranianos e brasileiros davam-se bem no início?
Nada de especial. Os brasileiros são diferentes: quando chegaram e viram a neve, foi uma grande experiência para eles. Mas se perguntares hoje ao Willian, Fernandinho, Douglas Costa, todos estes grandes jogadores ficaram muito contentes por jogar aqui, porque o Shakhtar lhes deu a oportunidade de jogar a Liga dos Campeões e de se mostrarem. O Shakhtar trabalhou-os: o Lucescu, o Paulo [Fonseca] e agora o mister Luís [Castro] trabalharam com eles. Foi uma escada para irem para os grandes clubes.

Tens algum jogador preferido com quem jogaste?
Não consigo dizer um, mas joguei com muitos, muitos jogadores de topo, como o Matuzalém, Elano, Fernandinho, Willian, Douglas Costa, [Alex] Teixeira, Taison... [risos] São todos grandes, grandes jogadores. Um dia gostaria de ser treinador com este tipo de futebolistas.

Com Mircea Lucescu e Rinat Akhmetov, o dono do clube

Com Mircea Lucescu e Rinat Akhmetov, o dono do clube

MUSTAFA OZER

Eras médio no início da tua carreira?
Sim. Era extremo, mas depois o Lucescu e o presidente decidiram meter-me a defesa direito. Tens de ter qualidades específicas para ser lateral direito e eles reconheceram que eu as tinha. Para mim, era importante jogar. Fui ficando confiante e a jogar cada vez melhor e melhor. E tornei-me defesa.

Como foi o início de carreira?
O meu pai era um grande exemplo para mim, como pessoa, pai e amigo. Ele acreditou em mim, a minha família também. Não era o tipo de pai que ficava junto ao relvado a dizer "o meu filho é o melhor, o meu filho é o melhor". Ele disse-me: "Darijo, tens de aproveitar a tua oportunidade". Temos esta cultura na nossa família. Comecei na minha terra natal, num clube da segunda divisão, e cheguei à seleção. Com 15, 16 anos, o Hajduk Split decidiu contratar-me. No início tive alguns problemas no clube, porque o meu pai é da Bósnia e, nesse momento, algumas pessoas não gostavam de bósnios e por isso não jogava. Foi duro. Mas... posso perder a batalha, a guerra nunca. Se tiver de perder a guerra, vou dar tudo, tudo... Com 21 anos, quando recebi a proposta do Shakhtar, decidi ir porque a minha família tinha pedido crédito ao banco e quis salvar a minha família, para eles ficarem tranquilos. Depois fui para o Shakhtar e achei que lá ia ficar dois ou três anos, mas o presidente disse que ia fazer uma grande equipa num grande estádio. Eu disse "OK, veremos". Cada dia mais e mais e mais, depois fui renovando o contrato, até que fiquei 15 anos.

Porque acabaste a carreira no Cagliari?
Porque decidi tentar algo novo. O Shakhtar procura sempre jogadores novos e eu não queria estar no caminho de alguém. Decidi tentar a Serie A um ano. Foi incrível. Aprendi italiano, conheci muitos bons treinadores, diretores, jogadores e boas pessoas. A Sardenha é uma ilha bonita, com belas pessoas, gostam de futebol. Gostei muito de jogar lá.

No Cagliari, a última aventura como futebolista

No Cagliari, a última aventura como futebolista

Enrico Locci

Tinhas algum ídolo?
Quando era miúdo, só havia um programa desportivo na televisão e ao sábado havia um jogo. Agora encontras todos os jogadores do mundo na Internet. Antes havia Maradona, Pelé... depois disso, Maldini, Roberto Baggio... Eu só via um jogo ao sábado à noite, às 20h45, da liga italiana. Podíamos ver Ravanelli, Inzaghi, Maldini, Zvonimir Boban... Depois de cada jogo, eu tinha um novo ídolo.

Agora que falaste em Boban: viveste entre duas grandes gerações croatas ou, melhor, dois grandes feitos, em 1998 e 2018. Faz lembrar Paulo Futre por cá. Foi triste falhar aqueles dois Mundiais?
É incrível, é incrível o que me aconteceu. A seleção nacional é especial e eu joguei 134 jogos pela Croácia. É o recorde. E sempre acreditei que o faríamos. Depois, quando eu saio, eles ficam em segundo lugar. Mas é o destino. Fiquei muito feliz por eles, mas também fiquei infeliz porque, depois de 134 jogos e 15, 17 anos, merecia ter estado lá. Em França [Euro-2016], mostrámos um futebol incrível. Batemos a Espanha, a Turquia, com os checos ficou 2-2 e fomos os melhores do grupo, que ia jogar contra a segunda equipa mais fraca... a segunda equipa mais fraca era Portugal! Jogámos muito bem e no prolongamento sofremos o golo do Quaresma. E eles ganharam o campeonato. É o meu destino, tenho de viver com isso. Não posso mudar nada. Tenho pena.

A tua primeira grande competição com a seleção foi em Portugal, em 2004. O último jogo foi contra Portugal. Agora trabalhas com portugueses. O que sabes do nosso país?
E também joguei contra o Porto, Sporting, Braga, Benfica... O que posso dizer? Os croatas e portugueses têm mais ou menos a mesma mentalidade. A Croácia tem mar, Portugal tem mar. Temos algumas coisas similares. Para mim, não interessa de onde és e a cor, só interessa se és um bom homem e uma boa pessoa. O meu pai ensinou-me isso e eu ensino isto aos meus filhos. É importante ser uma boa pessoa, podes ser da China, Japão, Portugal, Sérvia, Croácia. Se fores uma boa pessoa, és uma boa pessoa.

Srna no Euro 2016

Srna no Euro 2016

Nolwenn Le Gouic

No Euro-2016, no final do jogo contra a Turquia, recebeste uma notícia terrível...
Sim, sim, sim [tom menos enérgico]...

Falas sempre do teu pai como a grande figura, o exemplo...
...

É difícil falar nisso?
Não, não! [volta a subir o tom] Estou orgulhoso do meu pai e ele está orgulhoso de mim. Antes de ir para o Europeu, estive junto à cama dele e disse-lhe, quando a situação já era má, que se ele quisesse eu ficaria ao lado dele, a apoiar. Ele olhou para mim, quase não conseguia falar, e, eu senti no olhar dele, disse-me: Darijo, leva as tuas coisas e vai jogar pela tua família em França. E foi isso que fiz. Depois do jogo com a Turquia, recebi a notícia... Não foi fácil para mim, mas eu sei que ele estava orgulhoso porque eu tinha ido jogar e que o fiz por ele, pela nossa família e pela Croácia. Ele era muito mais feliz quando eu estava num campo de futebol. Eu quero ser o mesmo pai para os meus filhos que ele foi comigo. Era um exemplo, o meu herói. Infelizmente, é assim a vida. Ele estava doente, tinha um cancro. Tentei tudo, mas, às vezes, não podes fazer milagres.

Foste a casa para o funeral, em Metkovic, e regressaste para o jogo seguinte...
Sim, contra a República Checa.

Choraste durante o hino, foi uma das imagens do torneio.
Sim, sim, lembro-me bem.

Como foi a tua infância?
Vivi uma guerra, entre Croácia e Sérvia, e esta é a minha segunda guerra. Foi difícil, mas quase todos os futebolistas com sucesso tiveram uma infância complicada. Se vires Ronaldo, Messi, este e aquele, Modric, tiveram dificuldades. A minha mulher disse-me assim uma vez: "Darijo, não tens muitas opções, só tens uma... e é teres sucesso na tua vida". A minha vida não me deu muitas opções, deu-me possibilidades de trabalhar, de acreditar em mim. Tive uma oportunidade, usei-a, guardei-a e continuei. Alguns têm quatro oportunidades, outros zero, alguns uma. Muitos futebolistas com sucesso podem ser um exemplo para os jovens. É isso que quero dar aos meus filhos, que acreditem neles. Não tiveram a infância que eu tive, mas quero que tenham uma boa escola, boa universidade. Quero investir neles assim.

Quando eras miúdo começaste a trabalhar muito novo, certo?
Sim, quando começou a guerra, não havia trabalho. Tive de fazer algo com vegetais e comida. Eu saía de casa às três ou quatro da manhã para um bazar, onde vendia fruta e vegetais. Era na rua, com muita gente. Eu saía àquela hora para encontrar o melhor lugar, o meu pai deixava-me e ia trabalhar e eu ficava lá até vender tudo. Trabalhava muito. Quando começou a guerra, o meu pai foi trabalhar para a Alemanha, em pastelaria, eu fiquei com a minha mãe e irmão. Roubaram o carro do meu pai durante a guerra e precisávamos de um. A minha mãe também foi para a Alemanha e fiquei com a minha avó, sete, oito meses. O que não te mata, faz-te mais forte, sabes? É o aspeto principal para quem quer ter sucesso.

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E até conseguiste poupar dinheiro para comprar umas botas, não foi?
Sim, uma vez, quando vendi todos os vegetais e fruta, fui comprar as Copa Mundial. Fui jogar e, quando o meu pai me viu, perguntou-me: "O que é isto?" Eu disse que gastei todo o dinheiro para comprar as botas. Ele levou-as e devolveu-as na loja. Precisávamos do dinheiro. Fiquei triste, não percebia. Não percebia quanto dinheiro tinha sido, era miúdo. Umas semanas depois, comprou-me as botas e fiquei tão feliz. Quando volto à minha cidade, muita gente lembra-se de mim e do meu irmão e dizem que, quando eu tinha quatro, cinco anos, estava sempre com uma bola nas mãos. Jogava com o meu irmão em todo o lado, todo o lado. É a vida. Infelizmente, já não vejo muitos miúdos a fazer isso. Agora querem é iPads, iPhones... Já não há miúdos a jogar nas ruas.

O que é que a guerra te ensinou?
Lembro-me de quem me ajudou em situações difíceis. E sei o quão importante é ajudar crianças, ter pessoas em zonas de guerra. Por isso, tenho a fundação Darijo 33 e continuarei a ajudar as crianças que não têm casa em Donbass. São tempos difíceis. Não importa o dinheiro que tens, tens de as ajudar. As crianças são o futuro. São os próximos Messi, são os próximos políticos, são futuro. Temos de investir nos miúdos.

E o futebol, o que te ensinou?
[risos] Quando tens sucesso, o futebol é o melhor desporto do mundo. O desporto conecta as pessoas. Recebes adrenalina e muitas coisas positivas, mas também recebes coisas negativas. Por exemplo, psicologicamente, quando acabas a carreira, muitos jogadores têm grandes problemas. Ou grandes lesões, ou perder todo o teu dinheiro, se começares a jogar [casino]. É a parte negativa do futebol, mas os futebolistas com sucesso têm de ser muito, muito inteligentes e... ter uma boa mulher.

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Ah, sim?
Falo pela minha experiência. É muito mais fácil quando tens uma pessoa ao lado que é a tua melhor amiga, namorada, mulher e a mãe dos teus filhos. Ela percebe tudo. Ela viveu comigo em Donetsk, Kiev, Cagliari, Croácia. É muito, muito importante ter uma fantástica mulher perto de ti. Sinto-me abençoado por ter este tipo de mulher comigo e esta mãe para os meus filhos.

Apesar destas histórias difíceis que me contaste, alguém muito próximo de ti disse-me que és um homem especial, com boa energia. É assim?
Da mesma maneira que começámos a conversa, fechamos: não posso falar de mim. Mas sei isto: não sou má pessoa. Quando vou dormir, olho-me ao espelho, acordo e vejo que nunca faço nada de mal a ninguém. E não quero que nada de mal aconteça a ninguém. Eu trabalho para mim, para a minha família, desfruto do que faço. Sinto-me abençoado por ter este tipo de trabalho, estou feliz por estar no Shakhtar a trabalhar com jogadores de topo, com um grande presidente, diretores e equipa técnica. Sou feliz. Desfruto todos os dias. É a filosofia da minha vida.