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Carlos Fernandes: “Já cheguei a estar quase um ano enfiado em casa, sem sair. Não sei o que fazer depois do futebol e isso assusta bastante”

Carlos Fernandes já passou pelo Boavista, Rio Ave ou Steaua de Bucareste e, aos 39 anos, ainda joga no Amarante, do Campeonato de Portugal, para “adiar o inevitável” que o "assusta bastante". O guarda-redes é “como qualquer outro jogador, que tem aquele receio das outras pessoas saberem da nossa vida“, mas confessou que continua a ir treinar e jogar "um bocado para fugir da solidão", porque "é naquele bocadinho que [se] sente alguém". Está a ser ajudado pelo mesmo psicólogo que ajudou André Gomes, diz os clubes ainda descuram a saúde mental dos jogadores e que as pessoas "não têm noção do que é um jogo de futebol"

Diogo Pombo

Ricardo Castelo\Nfactos

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Qual é a tua história?
Começamos a jogar futebol pelo gosto. De repente, de forma muito rápido e quase sem darmos conta, somos profissionais. E, rapidamente, passamos do desconhecimento e do anonimato a sermos reconhecidos na rua. Tive a sorte e a felicidade de atingir patamares que muitos ambicionam, que é jogar na Liga dos Campeões e em seleções. São momentos que acontecem muito rápido, sem quase nos darmos tempo para sonhar. E, de repente, parece que as luzes se apagam, quando tudo passa.

Como assim?
As portas fecham-se por causa da idade, já nos consideram velhos a partir dos 32 ou 33 anos. Confesso que estou com uma grande dificuldade de aceitar isso. Ainda estou a jogar com 39 anos, não me acho velho, mesmo fisicamente; se calhar, trabalho melhor e muito mais do que muitos jovens que estão aí a jogar futebol.

Ainda para mais, sendo um guarda-redes.
Apanhei as duas fases. Quando comecei a jogar, os clubes contratavam os guarda-redes mais velhos, a partir dos 29, os chamados já feitos, com experiência; depois, apanho esta segunda fase, em que compram o guarda-redes novo, para vender, para o negócio. Agora, o guarda-redes aos 30 anos está velho. Mas quanto mais anos de futebol temos, mais experiência adquirimos. Um guarda-redes não é como um jogador de campo, precisa de jogos para ter frieza, para saber onde pisa, para encarar as coisas de outra maneira, para mentalmente estar bem. Quando erramos, temos a baliza atrás, é-nos apontado o dedo e é preciso ser muito forte psicologicamente para poder lidar com isso. Vivemos sempre uma vida de solidão. Quando as coisas correm mal, estamos sozinhos.

É o lugar mais ingrato do futebol?
É o contrário do ponta de lança, que pode falhar 10 golos e, se marca no último minuto, é o maior do mundo. É ingrato, mas pronto, faz parte e é com isto que temos de lidar.

Sentiste, ao longo da carreira, que falta aos clubes darem apoio psicológico a quem joga?
Falo por mim, nunca existiu. Penso que seria fundamental. É difícil manter uma família com a vida que temos, quando se joga em competições europeias está-se constantemente a viajar, mais o campeonato. Acaba-se por estar mais tempo fora do que em casa. Manter um bom ambiente familiar não é fácil. Nunca tivemos acompanhamento ou aconselhamento nesse sentido. Hoje estou um pouco à procura do meu refúgio, que é aquela 1h30/2h em que chegamos ao estádio, equipamo-nos, treinamos e tomamos banho, é um bocado para fugir da solidão. É naquele bocadinho em que me sinto a ser alguém. Se não estiver ali, não sinto nada, não sou ninguém.

Ricardo Castelo\Nfactos

Estás com 39 anos. Sentes receio do momento em que te vais retirar?
É uma batalha constante. Estou a lutar contra o inevitável. Um dia vai ter que ser. Acabo um bocado por me esconder no querer bater o recorde do Quim, que jogou até aos 42 anos. Quando falo assim, parece que estou a colocar ali o teto, que é até ali que vou, mas é um bocado o adiamento do final.

É um refúgio?
Mesmo sentindo-me bem, estando bem fisicamente, treinando bem e não se notando a minha idade no campo, acaba por ser um refúgio contra o não saber o que vou fazer a seguir. Se me perguntar o que quero fazer depois, não faço a mínima ideia. Assusta-me bastante. Foi por causa disso que procurei a ajuda do sindicato. Conheço o Joaquim Evangelista desde antes de ser presidente, é meu amigo há longos anos, tenho sorte de o conhecer desde antes do que é hoje e de termos mantido uma boa relação. Ele é que me tem dado um certo suporte, ajudou-me a procurar ajuda para poder estudar e encontrar um caminho para depois do futebol.

Nunca estiveste num clube que tivesse um psicólogo?
Não, nunca tive nenhum apoio, seja no que for. Inclusive, se quiséssemos fazer alguma coisa, como estudar, era impossível, porque não é compatível. Temos o exemplo agora do Silas, que tem todas as capacidades possíveis para ser treinador, e só por causa de um mero papel não o deixam. Não o tem por falta de disponibilidade para o fazer. Quando um jogador está a jogar não tem hipótese. No pouco tempo que temos, queremos descansar, estar com a família, conviver com amigos e acaba-se por não se fazer nada. É complicado.

Agora estás a ter a ajuda de um psicólogo?
Sim, do doutor que acompanhou o caso do André Gomes, do Barcelona. É por ele que estou a ser acompanhado. Estou também a estudar, a tentar ver o que vou fazer a seguir. Na dúvida, é preciso estudar, para poder seguir com a minha vida.

DANIEL MIHAILESCU/Getty

Se, com 25 anos, alguém te tivesse disponibilizado esse apoio, terias aceitado?
Obviamente que sim. Mas, sendo sincero, sei o que sei hoje porque tenho 39 anos, mas, mesmo com as condições que há hoje em dia, talvez os miúdos com 25 anos não dão importância ao psicólogo. Querem é ir passear, ir ao cinema, estar com os amigos e tudo menos ir ao psicólogo.

Mas o futebol é um meio onde há muita pressão, que pode gerar muita ansiedade e stress.
As pessoas não têm noção do que é um jogo de futebol. Muitos vão para o estádio criticar e falar, mas é um jogo que exige muito esforço físico e força mental. E é tudo constante, diário. Quando acaba o jogo, dependendo do resultado, as coisas ficam mais leves se ganharem, mas com o peso da derrota, já se vai pensar no próximo - o “não posso errar, não posso facilitar” - e aí vem o medo de errar.

Até no nível onde está o Amarante, que joga o Campeonato de Portugal?
O Amarante tem condições espetaculares, melhores do que muitos clubes de segunda liga, e está a ter um início de época que nunca teve na história. Neste momento, acabo por ter algum desse sentimento que já senti. Aquela pressão de ter de ganhar. O futebol não é só para nós, é também para agradar aos outros. Se não ganharmos, a cidade, as pessoas e os patrocinadores não andam bem, ninguém ajuda e tudo entra em colapso. Esta pressão é no Campeonato Nacional de Portugal. Tenho 39 anos, estou habituado, é a experiência, mas acabo por ter o mesmo sentimento - aliás, se calhar ainda mais, porque tenho a idade e o palmarés que tenho, a exigência comigo é superior aos outros miúdos, o que é normal. Esperam mais de mim do que se fosse um miúdo que estivesse na baliza ou outro guarda-redes qualquer.

Já apanhaste algum jogador com ataques de ansiedade ou de pânico por causa do futebol?
Nunca tive e, felizmente, nunca conheci jogadores assim. Já conheci alguns que não conseguem ser os mesmos com muita gente e barulho dentro do estádio.

Os jogadores de treino e os jogadores de jogo.
O jogador acaba por ficar inibido e, às vezes, assusta. Já joguei com 118 mil pessoas no estádio e é uma coisa assustadora, mete respeito. O melhor que tive foi a Liga dos Campeões, é verdade, mas, ao mesmo tempo, quando estamos perfilados a ouvir o hino, o único pensamento que se tem é: “Isto está a ser visto pelo mundo inteiro, não posso dar barraca”. É mesmo assim. Até se tocar na bola, é só nisto em que pensava. Que me corra bem o jogo e que não faça aqui nenhuma asneira, que isto está a ser visto por toda a gente. E nem estava em Portugal, estava do outro lado do mundo. Isto acaba por desgastar.

Ricardo Castelo\Nfactos

O que podem os clubes fazer mais?
Hoje em dia já se vê um staff bem organizado, têm pessoas para tudo, uns até filmam os jogos, mas ainda não há quem consiga suportar o jogador. Sou muito suportado pelo presidente do Amarante, pelos diretores e pelos treinadores, mas não por uma pessoa que entenda, na realidade, o nosso problema, que é um psicólogo. Nos clubes ‘normais’ não há. Poderá haver nos clubes grandes, mas, mesmo assim, não acredito muito.

Tem de ser o jogador, por iniciativa própria, a procurar esse apoio?
Tivemos o exemplo do André Gomes, que estava num clube top, como o Barcelona, mas procurou uma pessoa aqui em Portugal para o ajudar.

Existe um estigma a rodear este tipo de problemas?
Vou ser sincero, sem mentir. Ainda pensei em falar, ou não. Sou como qualquer outro jogador, que tem aquele receio das outras pessoas saberem da nossa vida. Isto não é fácil. Com 39 anos, parece que estou a recomeçar a minha vida. É praticamente isso que estou a fazer. Estou a adiar o final de carreira, enquanto isso, vou sendo ajudado pelo psicólogo e estudando para poder começar a minha vida do zero.

Admitir isso, em público, já é um passo.
Espero, ao falar publicamente, poder ajudar os próximos que vierem. Hoje em dia temos a sorte de ter o apoio do sindicato, que tem todas as condições para ajudar os jogadores. Fiquei a pensar, será que falo? Não é fácil. Isto não é vergonha. Atinges um patamar tão alto e, de repente, parece que desapareci do mapa. As portas fecham-se, os amigos deixam de atender o telefone, toda a gente desapareceu e não estou a pedir nada a ninguém. As portas fecham-se e não sabemos o que se passa. É a idade? Por causa de um número? Quando estamos a aparecer na televisão somos os maiores, quando deixamos de aparecer, já não prestamos para nada. É mesmo assim.

Não sei o que dizer.
Acabo por ser mais feliz a jogar à bola no Amarante do que em muitos clubes onda já joguei. A mentalidade dos jogadores é diferente, ambicionam ser profissionais, mas ainda não tiveram esse gosto, ou seja, o convívio acaba por ser mais familiar, genuíno e puro. É o que se encontra aqui, neste género de clube, como encontrei em Ponte de Lima [Limianos].

Não há tiques de estrela?
Nada. Acaba por ser tudo um pouco mais genuíno. Os jogadores ainda não chegaram a esse patamar, embora se encontre um ou outro, que são mais fechados, nota-se logo quem já esteve lá em cima ou jogou na primeira divisão. Mas, em quem ainda não chegou e apenas sonhar com isso, as pessoas são mais verdadeiras, inocentes, até dá gosto ir para o treino e trabalhar. Acaba por ser mais saudável.

Tentando olhar pelo lado positivo, tudo o que tem acontecido talvez ajude a filtrar as pessoas que importa ter por perto.
Completamente. Nesta fase dá-se mais importância à família que, há uns anos, não tínhamos muito tempo para estar com ela. Hoje é a família que nos suporta, está lá sempre, para o bem e para o mal. Se não fosse a minha, isto não era fácil. Já cheguei a estar quase um ano enfiado em casa, sem saber o que fazer, sem sair. Não tem nada a ver com dinheiro. Até ir jantar fora enjoa e cansa. Psicologicamente, manda-nos abaixo. Estou a falar contigo e acredita que, às vezes, me custa sair à rua. Não me dá ataques de pânico, mas evito, porque as pessoas reconhecem-me, vou ficar eternamente conhecido como o guarda-redes do Boavista. É pena que os clubes portugueses não ajudem os jogadores que tiveram alguma história. Deveriam ser eles os primeiros apoiar os jogadores que fizeram alguma coisa pelo clube. Mas pronto, talvez isso mude lá para a frente.