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Sophie Goldschmidt, a mulher que manda no surf: “Não somos uma instituição de caridade. Temos que tornar o surf lucrativo”

Quando recebeu o telefonema a propor-lhe o cargo, Sophie Goldschmidt perguntou: "Este trabalho existe mesmo?". Nasceu em Londres, trabalhou antes em râguebi e ténis, e sabe que não foi "pelas qualificações em surf" que, em 2017, foi contratada para ser a CEO da World Surf League (WSL). Veio a Peniche durante uns dias e, antes de começar o MEO Rip Curl Pro, explicou-nos como o modelo de negócio da etapa portuguesa do circuito mundial é uma referência e como acredita que o surf é o desporto mais acessível do planeta

Diogo Pombo

A diretora-geral da WSL, o ano passado, durante a entrega de prémios da etapa de Teahupo'o, no Tahiti.

Kelly Cestari/WSL

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Porque decidiu a WSL voltar a Peniche com o circuito feminino?
Portugal continua a ser cada vez mais importante para nós. Adoramos o apoio que temos do governo, dos patrocinadores e das ondas, que são incríveis em toda esta costa, e os homens falam tão bem do evento que as mulheres queriam muito regressar. Este era o ano certo para o fazer. Depois de garantirmos a igualdade nos prémios monetários, em 2018, queríamos levar as mulheres até aos sítios com melhores ondas e este é um deles.

É a primeira vez que vem cá?
Não, por acaso até foi um dos meus primeiros eventos quando entrei em funções, há dois anos. Já estive muitas vezes em Portugal, quando era miúda, íamos muitas vezes ao Algarve. É a segunda vez que venho a Peniche.

Foi tempo suficiente para notar mudanças na cidade por causa do evento?
Acho que é das melhores cidades do mundo. Até na Europa, de uma perspetiva cultural, penso que o governo é muito progressista na forma como trabalham connosco. Comparado com outros, é um sonho. Eles estabelecem os standards, a sério. A cultura de surf ainda é nova, há muita energia e positividade, e ver como o surf estão a rebentar aqui é incrível. Acho que até chamam auto-estrada do surf à estrada que vem até aqui, não é? Esta parte de Portugal é revigorante. Adoramos vir cá, é um lugar muito importante para a WSL.

É um dos eventos onde os apoios de patrocinadores e parceiros é maior?
Sem dúvida.

A WSL considera Peniche como o modelo de negócio ideal, ou de referência, para os eventos do circuito mundial?
Claro, o apoio que recebemos aqui de empresas locais - como a Rip Curl, que é um parceiro endémico - é muito importante. O apoio do governo é fundamental, porque investem muito na infraestrutura, nos nossos programas de desenvolvimento e na área dos media. É uma verdadeira parceira. Sem o seu apoio, não conseguiríamos trazer tantos eventos para Portugal. Falamos muito neste, mas temos vários eventos do QS [circuito de qualificação], provas júnior e, portanto, há um caminho claro para nós que é fulcral para o futuro do surf.

Ter tanto apoio de entidades em Portugal ajuda a aliviar o investimento que a WSL tem de fazer nos eventos que organiza cá?
Exatamente. No final do dia, somos a entidade que rege o surf que é, também, uma organização que visa ter lucro. Vamos continuar a investir no desporto, mas quanto mais pessoas houver a investir em nós, mais poderemos construir. É um ciclo. Mas, sim, Portugal tornou-se num dos nossos mercados mais importantes do mundo.

Nasceu em Londres e agora é a CEO de uma empresa de surf.
É um pouco estranho, eu sei. Não é bem o que imaginava estar a fazer [ri-se]. Já era uma fã de surf há bastante tempo, infelizmente ainda sou uma surfista terrível, é mesmo difícil, mas estava recetiva a experimentar outras modalidades, coisas que não conhecia, porque gosto de me empurrar para fora da zona de conforto e tenho sorte de já ter vivido, por dentro, várias modalidades. Vi o que funciona e não funciona, tentei trazer essa aprendizagem para o surf, já que tive de aprender bastante à medida que fui trocando. Existe um embalo atual no surf, com os Jogos Olímpicos, as novas tecnologias, a conservação dos oceanos e a proteção ambiental, que é tão importante para toda a gente. Os surfistas são dos melhores atletas que há no mundo e acho que o nosso papel é ajudar a construir uma plataforma ainda maior para que eles se tornem referências.

O que pensou quando recebeu a chamada que lhe propôs liderar a WSL?
"Este trabalho existe mesmo?". Fiquei intrigada, perguntei-me o que seriam as funções durante algumas pessoas, conheci os donos, encontrei-me com accionistas, falei com surfistas e percebi, rapidamente, que o surf tinha muito potencial por explorar. Há tantas oportunidades. Não que queiramos explorá-lo como se faz noutras áreas, porque o surf é especial e único, mas há certas áreas que precisamos de desenvolver. Toda a gente tem mantido uma mente aberta em relação a isso. Mudámos muito e temos recebido muito apoio.

Sophie Goldschmidt em palco, ao lado de Gabriel Medina, o ano passado, quando o brasileiro se tornou campeão do mundo, no Havai.

Sophie Goldschmidt em palco, ao lado de Gabriel Medina, o ano passado, quando o brasileiro se tornou campeão do mundo, no Havai.

Ed Sloane/WSL

Já trabalhou na Federação Inglesa de Râguebi e na WTA (ténis). Há muitas diferenças entre gerir um negócio nessas áreas e no surf?
Provavelmente, há mais semelhanças do que diferenças. Penso que o estado em que está o surf, onde existem áreas em que acredito, podemos melhorar rapidamente. A relação que temos com os surfistas é bastante diferente, é uma parceria, eles e elas apoiam-nos, não é uma relação antagonista, o que é muito poderoso para nós. É uma modalidade jovem, com muitos jovens a assistirem, ao contrários de muitos outros desportos, em que a idade das pessoas que seguem está a aumentar. Posso dizer que consigo aplicar coisas que aprendi em funções anteriores, em que penso "espera lá, lidei com isto há cinco anos", o que, espero, é benéfico para todos. Tem sido uma experiência fascinante. Somos muito ambiciosos com o que podemos atingir, estou orgulhosa do que conseguimos nos últimos dois anos, mas ainda temos um longo caminho pela frente.

A igualdade nos prémios monetários é a medida da qual mais se orgulha?
Hmmmm, é uma das coisas. Honestamente, o processo começou muito antes de me juntar à WSL, há anos que as pessoas trabalham para dar mais oportunidades às mulheres. Foi fantástico a WSL e o surf serem progressistas e tomarem, realmente, uma posição. Trata-se de um investimento em curso e temos a sorte de o poder fazer e, agora, estamos a sentir as vantagens a chegarem e o interesse comercial a surgir. É uma das coisas das quais nos orgulhamos muito, sim.

O surf é das poucas indústrias em que qualquer pessoa pode ver todos os eventos online, de graça. Como é que isto é sustentável para a WSL?
Neste momento, os nossos lucros vêm de contratos de patrocínio, conteúdos patrocinados e alguns direitos de imagem. Muito do conteúdo está aberto e disponível por o considerarmos importante enquanto crescemos a nossa audiência, os patrocinadores pagam-nos por isso e temos outras relações com os media - em Portugal, por exemplo, com a SportTV -, portanto, o truque é encontrarmos um equilíbrio. Queremos que seja o mais bem sucedido e acessível possível, mas, ao mesmo tempo, temos que tornar o surf lucrativo. Não somos uma instituição de caridade. Estamos a evoluir.

É a modalidade mais acessível do mundo?
Acho que sim, pela forma como permitidos que o nosso conteúdo seja visto e pelos atletas. Em que outro desporto podes entrar na água e surfar com os melhores do mundo mesmo ao teu lado? Não acontece. Portanto, acho que sim, gosto dessa ideia.

Então, o que falta para o surf entrar no desporto mainstream?
Passa um pouco pela educação. É muito diferente dos outros, porque é julgado por juízes e pelo facto de nunca sabermos ao certo quando vai acontecer, na maior parte das vezes. Depende da natureza e das ondas. Ou seja, para fins de transmissão televisiva é complicado. Vemos que há uma oportunidade, mas vai demorar algum tempo. Desde que me juntei, temos passado muito tempo em reuniões com potenciais parceiros, a tentar explicar o desporto, o que está em causa e como podem trabalhar connosco de diferentes formas. Como tudo é centralizado e controlamos tudo, temos muita flexibilidade e podemos fazer coisas antecipadamente, tentar usar outras tecnologias e temos de ter a certeza que todos entendem que é isso que nos faz sermos diferentes.

Teve que ir trabalhar para a Califórnia, nos EUA. Foi uma mudança drástica?
Ó, é maravilhoso. Temos um escritório incrível em Santa Monica, a um par de quarteirões da praia.

Todos os funcionários vão surfar à hora de almoço?
A maioria deles faz surf. São muito apaixonados pelo que fazem, sejam surfistas ou não. Posso dizer o mesmo: o surf mudou a minha vida. Teve um impacto real na cultura, na comunidade e na relação com a natureza. Isso é muito poderoso e vê-se quando estás na nossa sede. As pessoas acreditam, mesmo, no que estão a fazer, sentem que têm um verdadeiro propósito, o que é muito fixe. Ir trabalhar e sentir que estamos a fazer a diferença é fantástico.

O que sente que lhe falta fazer na WSL?
Queremos continuar a melhorar os nossos produtos. Fizemos algumas mudanças ao formato [a seeding round e a elimination round] e acreditamos que o calendário dos circuitos ainda pode melhorar. Queremos dar mais exposição ao perfil dos atletas, ter mais atenção mediática e ter o nosso conteúdo difundido ainda mais globalmente, tanto na nossa plataforma, como através de outras. Os Jogos Olímpicos será um momento fulcral para o surf, estamos muito focados nesse palco e em otimizá-lo. Os conteúdos são cada vez mais importantes, a base está na competição, mas há tantas histórias incríveis fora da lado competitivo que queremos alargar a nossa visão. Nem toda a gente se sente atraída pelo surf de competição, portanto, há outras maneiras de as pessoas entrarem no nosso desporto. Temos muito que fazer.

Os Jogos Olímpicos são a melhor oportunidade de sempre para o surf dar esse salto?
Não diria que é a melhor, digo que é uma oportunidade que não vamos desperdiçar. Pode levar o surf para outro nível, sim.

Como é que estão a planear fazer isso?
Bom, através da promoção até aos Jogos, pois, agora, os media estão mais interessados por já sermos uma modalidade olímpica. Quando passou a faltar menos de um ano, notámos logo a diferença, houve um clique, do dia para noite. A hipótese de o surf ser transmitido em todos os canais que os Jogos Olímpicos vão proporcionar é enorme. Será o maior evento desportivo de 2020 e os atletas estão super entusiasmados. Certos países que, talvez, não estejam muito a par do surf, poderão passar a estar assim que o começarem a ver.

Sophie no meio de Filie

Sophie no meio de Filie

Kelly Cestari/WSL

Falou na possibilidade de haver mudanças no calendário competitivo.
Não temos nada de específico em mente, neste momento, mas queremos continuar a evoluir. Na minha cabeça, se não estás a progredir, significa que estás a andar para trás. Precisamos de continuar a inovar. Podem até ser apenas pequenas alterações, não tem de ser algo em grande. Não há nada planeado para o próximo ano, mas estamos sempre em contacto com os surfistas e os accionistas para termos uma ideia do que podemos fazer melhor. Este ano, livrámo-nos na segunda ronda de eliminação nos eventos [antiga quarta ronda], fazemos heats em simultâneo, acrescentámos eventos. Esse tipo de mudanças vão continuar, porque queremos sempre melhorar.

Os surfistas ligam-lhe ou falam consigo regularmente, para darem opinião ou dizerem o que pensam sobre esse tipo de coisas?
Temos uma comunicação aberta. Eu vou a alguns eventos, mas temos responsáveis em cada prova, por isso há diferentes tipos de diálogo. Temos surfistas que representam os próprios surfistas, até vou ter uma reunião com eles hoje [terça-feira], mais tarde, sempre que vou a um evento quero ouvir o feedback deles. Funciona muito bem, eles são acessíveis e eu também. Nem sempre concordamos, mas há respeito e confiança e penso que apreciam o que estamos a fazer. A WSL está muito diferente actualmente, em comparação como estava há cinco ou seis anos, quando os novos donos chegaram [em 2013, a Association of Surfing Professionals deu origem à World Surf League]. Os surfistas têm gostado e precisamos que eles elevem o seu jogo. Estamos nisto juntos.

Essa proximidade já existia antes de assumires o cargo?
Hum, acho que sempre houve uma excelente relação com os surfistas, mas vai ficando melhor e melhor. Tornámo-nos mais abertos e transparentes com eles, tratamo-los como verdadeiros parceiros no nosso desporto e isso funciona bem para todos.

Foi a primeira mulher a ser CEO e não tinha qualquer passado ligado ao surf. Sentiu-se bem recebida?
Toda a gente foi incrível. Antes de vir, ouvi dizer que as pessoas eram um pouco chauvinistas e que podia ser complicado chegar alguém que não tinha sido surfista. Sinceramente, estava um pouco nervosa quando cheguei, mas não senti qualquer negativismo ou aversão. As pessoas têm-me apoiado muito, deram-me uma oportunidade e claro que não acertámos em tudo. Cometemos muitos erros. Mas sou uma pessoa bastante direta, comunico abertamente e não tenho tentado fingir que sei tudo. Não fui contratada pelas minhas qualificações em surf. Consegui o cargo pela experiência que tive noutros desportos. Temos pessoas brilhantes na WSL, peritos em surf, há um bom equilíbrio. Sei o que sei e sei o que não sei. E acho que toda a gente respeitou essa abordagem. Mas, pronto, terás que lhes perguntar.

Quando foi contratada, o principal accionista da WSL disse que era o tipo de pessoa que o surf precisava.
É ótimo ouvi-lo, fez-me sentir bem, mas só estou aqui há dois anos. Vamos ver o que ele tem para dizer daqui a cinco anos [ri-se]. O apoio que temos da nossa estrutura accionista tem sido incrível, deram a mim e à minha equipa esta oportunidade e vamos fazer o melhor que conseguimos. Toda a gente acredita no poder do surf enquanto negócio e no potencial que tem em melhorar a vida das pessoas. É uma combinação muito poderosa.

Quanto tempos mais se vê a fazer isto?
Durante muito tempo, sim. Vai manter-me ocupada por um bom bocado.