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Eduardo: "Os adeptos estão no direito deles, mas, enquanto o jogo estiver a rolar, independentemente do resultado, têm de estar a apoiar"

O médio do Sporting admite ficar "desconfortável" quando os adeptos assobiam a própria equipa, mas acredita que melhores tempos virão, com a liderança de Silas, um treinador que conhece bem, já dos tempos do Belenenses SAD

Diogo Pombo

Ana Brígida/Expresso

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Nota-se que se sente melhor quanto menos forem as palavras ditas. Eduardo Henrique está no Sporting desde o verão e não há quem conheça melhor Silas, o terceiro treinador da época. O brasileiro já lhe disse que prefere jogar a 8 em vez de a 6 e garante que os adeptos ajudarão mais se não assobiarem a equipa.

Foste o jogador que ficou mais contente com a chegada do Silas?
Não sei como reagiram os outros, mas eu fiquei muito feliz. Ele já me conhecia da época passada, é um grande prazer trabalhar com ele novamente.

Os outros jogadores perguntaram-te muito sobre ele?
Sim, tiraram dúvidas, perguntaram como era o trabalho no dia a dia, se era um bom treinador. Passei a informação toda para eles, todo o mundo gostou, e agora estão a gostar dos treinos, da atitude e do Silas, como pessoa. Disse-lhes que é um cara muito inteligente, gosta que a equipa jogue com bola e que pressione. Ele cobra muito nos treinos e vai retirando o melhor de cada jogador.

Como é o Silas durante o treino?
É um treinador mais reservado, está mais na dele, mas quando é para cobrar cobra mesmo. Quando não estás a fazer uma coisa da forma certa, ele vem e fala. É um bom treinador, e estamos a gostar do trabalho dele. No final do treino, quando acha necessário chamar alguém, ele chama, conversa, fala sobre a maneira como quer que te posiciones em campo, a atitude que deves ter. Explica-se bem. Gosto de ter bola, de jogar, ele pede isso, e agradou-me logo bastante a forma como trata toda a gente de igual.

O Silas jogava no meio-campo. Ensinou-te muitas coisas?
Ele e o José Pedro, o adjunto, falam bastante comigo, já na época passada me explicavam como podia melhorar o meu jogo, onde me devia posicionar e essas coisas. Isso foi muito bom para mim, agora está a voltar a ser, e espero dar sequência a tudo.

O Silas pede-vos que arrisquem?
Pede que a gente saia a jogar, mas também diz que, quando não der, é atirar a bola para a frente e fazer a equipa subir. É jogo normal. Nós estamos lá dentro e temos de tomar as melhores decisões, porque sabemos o que se passa no campo. Prefiro ter este estilo de jogo, qualquer jogador gosta de ter a bola.

Porque se fala na diferença de intensidade entre o Brasil e a Europa?
Os jogos acabam por se partir entre o ataque e a defesa. Aqui não, o jogo é mais compacto e junto, que é o que o [Jorge] Jesus está a fazer lá agora com o Flamengo. É também por isso que o Flamengo está um passo à frente.

Preferes jogar a 6 ou a 8?
Gosto mais a 8, para chegar à área. Na época passada joguei a 8 e estou mais habituado. A 6 não estou habituado, o que me custa mais é o posicio­namento, ainda me perco um pouco, mas faço, como já fiz esta temporada.

Não é uma vantagem estar com a bola de frente para o jogo, a 6?
A 8 também posso ir buscar a bola, descer, cair pelos lados, arrancar. Posso conduzir a bola, porque gosto muito de pegar e partir com ela dominada. O Silas também dá liberdade aos jogadores para fazerem aquilo que querem. Já sabia que ia ser tudo diferente. O Sporting é um clube gigante, sabia que ia ter menos espaço e que os adversários iam defender-se e ficar mais tempo atrás da linha da bola. Vinha preparado para ter mais posse e chegar mais na área para fazer golos e dar assistências. Quando tiver oportunidade, vou pegar na bola, arrancar e ir para cima, que é o meu forte. Temos de ter mais calma e paciência, circular a bola de um lado para o outro até abrir espaços para podermos agredir o adversário e criar oportunidades.

Tiveram dois jogos em quatro dias mal o Silas chegou...
O grupo conversou, falámos como seria importante vencer estes dois jogos, o Silas também o disse, e felizmente conseguimos fazer grandes jogos e sair com a vitória. Agora temos duas semanas para treinar, o Silas já está a colocar a sua ideia.

O que sentes quando ouves assobios da bancada num jogo em casa?
É desconfortável. Não tem como não notar. Temos de remar para o mesmo lado. Os adeptos estão no direito deles, mas, enquanto o jogo estiver a rolar, independentemente do resultado, têm de estar a apoiar e a incentivar. Depois, no final do jogo, se não tiverem gostado do que aconteceu, aí podem vaiar. Acontece, é normal, são coisas do futebol. Mas temos todos de remar para o mesmo lado, porque as coisas vão dar certo daqui para a frente.

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No Brasil, jogaste com o Ronaldinho Gaúcho no Atlético Mineiro. Lembras-te de quando o conheceste?
É uma pessoa fantástica, dentro e fora de campo. Conheci-o no primeiro dia de treinos e pedi-lhe logo para tirar uma fotografia com ele. “Posso tirar uma foto, para deixar registado?” É um ídolo mundial, um dos melhores jogadores da história. Fazia coisas que nos deixavam boquiabertos. Era muito tranquilo, falava com todos, tratava toda a gente bem, sempre humilde. Foi o melhor com quem já joguei. Estava sempre com um sorriso no rosto, sabíamos que era só entregar-lhe a bola no pé e dali saía coisa boa.

Ter um jogador muito melhor que os outros limita o jogo da equipa?
Acho que não, até é bom, porque a gente sabe que tem um jogador que decide, que faz a diferença, e é sempre bom ter alguém assim na equipa.

Acontece o mesmo com o Bruno Fernandes no Sporting?
Sim, o Bruno tem muita qualidade, é indiscutível, decide os jogos quando a coisa está feia. É um jogador espetacular, confiamos muito nele, é o nosso capitão e sabemos da qualidade que também nos passa dentro de campo.

Ele é muito exigente convosco?
É o nosso capitão, tem de cobrar. Fala, ajuda e incentiva, é isso que um capitão tem de fazer nos treinos e nos jogos. Está a fazer um grande ano, já o tinha feito na época passada e agora está a dar continuidade.

Alguma vez ficaste chateado por alguém te cobrar?
A cobrança é normal, vem de alguém que está a querer ajudar e incentivar. Não sou de falar muito, mas, quando falo, é para ajudar. Quando cobro quero ajudar a pessoa a estar em cima. Todos queremos ganhar e dar o melhor, então acabamos sempre por dizer alguma coisa. Mas é tranquilo, essas coisas ficam no campo.

Entrevista originalmente publicada na edição de 12 de outubro de 2019 do Expresso.