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Sónia Carneiro, diretora da Liga: “A Taça da Liga é uma competição tão apelativa e com tanta projeção como qualquer outra”

Depois da paragem da Liga portuguesa, interrompida durante um mês, Sónia Carneiro, diretora executiva da Liga Portugal, justificou, em respostas por e-mail, à Tribuna Expresso a pausa na prova e também falou sobre os horários dos jogos - que poderão ser adaptados em breve à distância geográfica entre clubes - e sobre a Taça da Liga, recentemente criticada pelo Sporting de Braga

Mariana Cabral

Sónia Carneiro é diretora executiva coordenadora da Liga Portugal

Liga

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Após coordenação com a Federação Portuguesa de Futebol sobre as datas anuais das provas, como decorre o processo da restante calendarização das provas da Liga? A responsabilidade da calendarização da Liga e da Taça da Liga é dividida igualmente entre Liga, SportTV e Comissão Permanente de Calendários?
Não se pode confundir calendarização com marcação de jogos. O calendário global das competições nacionais, Liga NOS, LigaPro, Allianz Cup e Taça de Portugal são definidas após a FIFA e a UEFA definirem as datas das provas internacionais. As competições nacionais são “encaixadas” nos espaços deixados por essas competições e, efetivamente, após aturada discussão entre os clubes das competições profissionais, representantes da Liga, representantes da FPF, operadores televisivos e a Comissão Permanente de Calendários (CPC) que, em quatro épocas, contou com a presença fixa de SL Benfica, FC Porto, Sporting CP e de mais 20 clubes diferentes, fechou-se o calendário para a presente época. Ou seja, concluíram-se as datas oficiais para realização das respetivas jornadas e eliminatórias. Coisa diferente é a própria marcação das datas e horários para cada um dos jogos, que são definidas entre a Liga, a CPC e o Operador, no caso a Sport TV e a BTV, e os clubes envolvidos. A CPC faz uma proposta que depois é debatida com os clubes. Há absoluta democracia neste fórum.

Em caso de discórdia nas datas, como são resolvidos os casos na Comissão Permanente de Calendários?
Quando não há entendimento faz-se como em qualquer democracia, vota-se e ganha a maioria.

No fim de semana das Legislativas, por que razão não houve jornada da Liga? Não poderia ser disputada apenas sexta-feira e sábado, já que a eleição se realizava apenas domingo?
Houve um compromisso com o Governo para que não existissem jogos no domingo, de forma a não haver desculpas para os adeptos e próprios agentes desportivos pudessem ir votar. Compromisso que honramos, tal como a FPF havia feito aquando da marcação da final da Taça de Portugal para sábado, para não afetar o domingo de eleições Europeias. As instituições do futebol têm de respeitar o cumprimento dos deveres cívicos dos cidadãos. Sem prejuízo disso, já percebemos todos que, apesar da boa vontade tida, a solução para diminuir a abstenção não é esta. Nas Legislativas houve uma taxa de abstenção de 45,5%, o que nos leva a uma ponderação futura sobre a marcação de jogos em futuros atos eleitorais. Quanto à segunda pergunta, a resposta é, obviamente, que não! Uma jornada de campeonato tem nove jogos e na semana anterior houve jogos das competições europeias, o FC Porto, o Sporting CP, o SC Braga e o Vitória SC jogaram na 5.ª feira, pelo que era impossível jogarem na sexta e no sábado, como sugere, e também não se poderia ter jornada na 2.ª feira, porque houve libertação de jogadores para seleções na 2.º feira. Por isso, não, não era possível fazer uma jornada da Liga NOS. Foi possível ter alguns jogos da Taça da Liga das equipas que não estão em competição europeia e de outros que optassem por utilizar a data abdicando dos seus direitos regulamentares (veja-se o caso do SC Braga que jogou na segunda, apesar de ser data de libertação de jogadores, tendo alinhado sem esses jogadores).

Ao contrário do que sucede nas Ligas espanhola, francesa, alemã, italiana e inglesa, raramente há jogos da Liga portuguesa a decorrer simultaneamente. Essa é uma regra do operador televisivo?
Não é exatamente como diz. Se observar com mais atenção os dois exemplos de maior sucesso em termos de receitas audiovisuais (La Liga e Premier League), constata que em Espanha são raríssimos os jogos sobrepostos (nas últimas quatro jornadas disputadas ao fim de semana não teve um único caso) e, por norma, em Inglaterra a única “slot” horária que permite sobreposição de jogos é o sábado às 15h00, com a particularidade de não haver transmissão televisiva doméstica desses encontros neste horário, apenas transmissão para mercados internacionais. Todos os restantes horários não sobrepõem jogos. Claro que quem faz o grande investimento na compra de direitos prefere evitar a sobreposição de jogos, mas existem outros fatores que também influenciam a marcação dos horários. Neste tema é importante recuarmos a 2015 e relembrar que tínhamos apenas quatro ou cinco jogos televisionados por jornada e, tendencialmente, sempre das mesmas equipas. Havia, na altura, muitas e justificadas queixas por parte dos clubes de que isso fomentava um desequilíbrio na competição, com impacto direto nos seus adeptos, na promoção das suas marcas e dos ativos e no retorno garantido dos seus patrocinadores. Foi uma grande luta desta direção da Liga que os 306 jogos da Liga NOS tivessem o mesmo tratamento mediático. O mesmo em relação à LigaPro, onde caminhamos de dois ou três jogos televisionados por jornada para uma cobertura da totalidade da competição, seja em TV ou streaming. É também legitimo que os operadores que fazem o investimento para cobrir estes 612 jogos, queiram garantir algumas condições para o rentabilizar o seu esforço. Garantir uma solução que defenda as preocupações desportivas das equipas, os adeptos e os operadores TV é o grande desafio. Iremos, esta época, no âmbito dos grupos de trabalho da Liga estudar várias propostas nesta área, como por exemplo a possibilidade de adaptar a ocupação de algumas slot de horários à distância geográfica entre os clubes envolvidos, de forma a tentar proteger o adepto visitante.

O Vitória de Setúbal-Tondela, logo na 1ª jornada da Liga, foi disputado numa segunda-feira, às 20h15

O Vitória de Setúbal-Tondela, logo na 1ª jornada da Liga, foi disputado numa segunda-feira, às 20h15

Gualter Fatia

Porque foram marcados jogos para segunda-feira à noite a equipas que não participam na Liga Europa, ao contrário do que tinha sido prometido antes do início da prova?
Porque os clubes acordaram nessa data e hora! A Liga, inicialmente, não marcou jogos para segundas-feiras, mas a janela de oportunidade desse horário existe e os clubes quiseram jogar. Note-se que em 13 jornadas já marcadas só haverá duas jornadas com jogos à segunda-feira, exceto nos casos em que é regulamentar, por existirem jogos de competições a meio da semana anterior, seja Liga Europa, Liga NOS, Taça da Liga ou Taça de Portugal.

Os horários de jogos da Liga das 11h45 e 12h45 são mencionados como "não obrigatórios". Por que razão não se marcaram ainda jogos nestes horários?
Estamos a evoluir nesse sentido, quando tivermos os nossos jogos transmitidos na Ásia, seguramente os clubes vão querer ter esses horários para os seus jogos.

O Sporting venceu a Taça da Liga em 2018/19

O Sporting venceu a Taça da Liga em 2018/19

HUGO DELGADO/LUSA

No fim de semana de 21/22 dezembro, por que razão é dada primazia à Taça da Liga, ao invés da Liga, que em outubro tem de ser disputada a meio da semana?
Porque a Taça da Liga é uma competição tão apelativa e com tanta projeção como qualquer outra das disputadas pelos nossos clubes. Acresce que os jogos de cada grupo na última jornada da Taça da Liga têm de ser todos à mesma hora, assim, naturalmente, foi decidido que seria melhor que fosse ao fim de semana.

A Taça da Liga é uma competição para continuar? O Sporting de Braga manifestou-se contra a sua existência, recentemente, e em França, por exemplo, a competição foi suspensa, por falta de interesse.
A Liga e toda a sua linha estratégia será sempre aquilo que clubes quiserem, sabendo nós que esta é uma competição jovem e que muito tem crescido ao longo dos 12 anos. Estejamos atentos ao que foi dito nesta última semana por jogadores e treinadores e percebe-se a importância desta competição e o quão apelativa é para todos. Em França, a competição foi suspensa pelo facto dos direitos televisivos não terem sido vendidos, algo que não acontece em Portugal. Estes direitos da Allianz CUP, assim como os comerciais, estão vendidos por mais três anos. No entanto, a vontade dos clubes, reafirmo, é soberana. Não vale a pena fazermos futurologia, até porque o fórum certo para se discutir o futuro desta competição bem como os modelos competitivos das Ligas é a Assembleia Geral da FPF.

Entrevista originalmente publicada na edição de 19 de outubro de 2019 do Expresso

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