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Diego Latorre. “A maior perda do futebol foi afastarmo-nos do gosto pela beleza”

Televisão, análise, bocas, Boca, Diego, Tenerife, Valdano, Cappa, Redondo, Batistuta, Tabárez, Gallardo e Jorge Jesus. Isto e muito mais, pela voz de um dos melhores comentadores da Argentina

Hugo Tavares da Silva

NORBERTO DUARTE

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Quem é o Diego Latorre, um ex-futebolista ou comentador e cronista?
As duas coisas: ex-futebolista serei sempre; agora comentador, comunicador, como lhe queiras chamar...

Lembro-me de ouvir Hernán Crespo, numa entrevista ao "Enganche", criticar comentadores porque saber não chega, é necessário saber explicar. É difícil descodificar o jogo para as pessoas?
Bom... Não sei. A mim sai-me de forma natural. Acho que há que ter em conta que do outro lado há pessoas que precisam de uma explicação do que veem. Tenho de as ajudar a pensar sem as subestimar. Há um público, não sei se cada vez maior ou menor, acredito que cada vez mais pequeno, que gosta que lhe falem de futebol, do jogo, dos conteúdos e de jogadores, e que lhes contes coisas. Há que conservar esse público, é a isso que me dedico. A mim não me interessa muito que me oiçam as pessoas que necessitam que lhes falem de outras coisas, de coisas superficiais, sensacionalismos ou do mundo do espetáculo em que se transformou o futebol. Interessa-me que me oiça o público do futebol, que gosta do jogo, é esse público que temos de recuperar, fazendo grande o futebol. Para isso jogam os jogadores também, no? É uma tarefa em que, claro, ter sido jogador de futebol me ajuda, porque tenho os conhecimentos que me deram a experiência mas também a sensibilidade necessária para fazer compreender algo que não é tão simples mas que também não é física quântica...

Como futebolista, incomodava-te o léxico usado por jornalistas? Hernán dizia ainda que não gostava de ouvir coisas como “o defesa estava a dormir”, que isso era conversa de hincha. Tens isso em conta na hora de comentar e escrever?
Sim, claro que trato de usar uma linguagem apropriada e não passar as linhas do respeito. Isso parece-me fundamental. O respeito é algo que é inerente à condição humana e muito mais para quem está a desenvolver uma atividade tão particular como o futebol, onde a ação vai a toda a velocidade e há um adversário, há oposição, há muitos factores emocionais e psicológicos à volta do futebol. E parece-me que a empatia também vem de ter sido jogador de futebol. De ter estado ali, de ter falhado, de ter acertado, de ter estado um bocado na glória, e outro bocado nem por isso... E sei que isso é muito efémero, que depende, não digo da casualidade, mas de uma conjunto de factores que às vezes dentro do campo não se podem controlar. Ao não se poder controlar, deforma-se e desvirtua-se. Lamentavelmente no futebol não se pode rebobinar o filme do que se passou dois segundos antes. Tenho isso tudo em conta, sabendo que às vezes a execução de algo, de uma ideia, está também determinada por esses factores psicológicos, emocionais, más tomadas de decisão em fracções de segundos. Creio que ninguém pode passar a linha do respeito. Lentamente, este mundo do negócio em que se transformou o futebol foi incorporando mais hinchas, quando antes se pensava muito. Antes, pensava-se, explicava-se e utilizavam-se termos de linguagem a favor de uma audiência que também necessitava de uma certa docência, de aprender e escutar, de gente que obviamente estava mais formada e preparada para o que estava a fazer. Então, fomos todos demagogicamente adaptando o caráter de hincha com o fim de ganhar popularidade e audiência. Esse adepto vê-se representado ou identificado com o comentador, e isso não me parece justo, sério e um benefício para a nossa atividade.

Eric Renard

Ruggeri disse uma vez na Fox Sports que eras o melhor comentador da Argentina… mas que queria ver-te a treinar, "paradito" enquanto os outros contra-atacavam porque tu só atacarias. Lembras-te?
Sim, sim. Bom, sobretudo os que jogaram, temos sempre de mostrar provas de eficácia. Parece que só a palavra não chega. A minha atividade agora é analisar, não é treinar. É algo que, para mim, não corresponde com o que faço, porque assim todos os que analisam estão desautorizados porque nunca treinaram ou nunca treinaram com êxito. O Oscar [Ruggeri, campeão do mundo em 86] também passou dificuldades a treinar e ele sabe que pensar e treinar vão por carris diferentes. O que me diz respeito é falar de futebol, simplesmente, com o respeito devido. O futebol é um todo: não é nem atacar nem defender. Normalmente, quem pensa, interrompe ou interfere nesse mundo que é muito linear, de poucas ideias, onde se tende a simplificar, no? E, lamentavelmente, divide-se entre ganhadores e perdedores, e isso é uma grande perversão da qual é responsável a indústria do futebol, que se alimenta dos dois pólos, do ganhador e do perdedor, para criar personagens para serem vendidas. Quem perde é débil, quem ganha é omnipotente e muito forte.

Ia perguntar se te preocupa a influência dos resultadistas na sociedade, mas parece-me que já respondeste...
Sim, sim, porque não é verdade ainda por cima. São pessoas que se colocam sempre de um lado fácil e cómodo, e depois, quando esse resultado não os protege, começam a fazer malabarismos com as palavras ou a mudar o discurso permanentemente, adjudicando a derrota aos jogadores, se for um treinador, ou ao treinador, se for jogador. Há sempre algo para defender ou atacar num resultado só porque sim. Parece-me muito baixo, muito oportunista. E o futebol às vezes tem lógica, outras vezes não, e eu sou mais partidário de analisar comportamentos, processos, de campeonatos mais longos porque são mais lógicos, e não tanto de méritos ou do elogio fácil a coisas que acontecem por sorte ou que não têm um grande fundamento.

Em tempos, Ángel Cappa disse aqui na Tribuna [AQUI] que não há nada mais "vende humo" que alguém que diz "prefiro ganhar" ou "só me interessa ganhar"...
É um discurso vazio mas que, lamentavelmente, é fácil de digerir para pessoas que são fáceis de convencer. O resultado está aí, a competição é assim. Desde pequenos ensinaram-nos que é um jogo, um jogo maravilhoso, e que justamente a sua sedução e poder têm a ver com o jogo maravilhoso. No xadrez também se ganha e se perde e, no entanto, não tem essa sedução e a capacidade para chamar gente. Sabemos que o futebol muda, a razão que uma equipa tem para ganhar, amanhã pode perder pelas mesmas razões. É muito circunstancial. O que vemos é que lentamente se desapreciou a beleza... não é essa beleza que é um objetivo em si, mas sim a que resulta do jogo bem jogado. A beleza como se fosse uma arte. E o futebol foi rechaçando-a lentamente, não sei porquê, em alguns sectores. Dizem "que bom, esse futebol só alguns jogadores podem jogar" ou "para quê, se esse futebol não dá resultados?", por isso chateia tanto Guardiola neste mundo. E exigem-lhe, exigem-lhe, cada vez mais e cada vez mais e cada vez mais, tem de ganhar uma Champions ou ir para uma equipa pequena. São tudo argumentos que não se empregam com os treinadores que só defendem o resultado e nada mais. Quando isso acontece, não há um ataque. Acredito que o grande capital que perdemos no futebol foi afastarmo-nos do gosto pela beleza, e não querê-la, ignorá-la. Isso parece-me um pecado mortal para o jogo.

Nunca te apeteceu pegar numa equipa?
Sim, sim, às vezes sim. O que acontece é que o futebol é uma máquina que engole rápido e, se não estás num contexto que possas desenvolver minimamente os futebolistas e uma ideia de jogo, perseguem-te todos: os dirigentes, os jornalistas, as pessoas. Há uma histeria generalizada no futebol. Antes havia mais paciência, esperavam com mais esperança e calma o desenvolvimento da coisa, como em Inglaterra. A chegada de gente que não é do futebol - de empresários, sobretudo daqueles que estão afastados das idiossincrasias das instituições, ou presidentes de todas as origens a viver longe das equipas - estraga e vai tirando a identidade ao futebol, que definitivamente é do povo, das cidades, identifica-se com as pessoas.

Icon Sport

Dia 25 foi o aniversário do último jogo de Maradona. Foi no Monumental. Jogaste na frente com o Martín Palermo. O Boca perdia ao intervalo: Diego não voltou. O que aconteceu naquele intervalo?
Tenho uma imagem um pouco distorcida e lembranças muito confusas. Creio que o Maradona disse ao 'Bambino' Veira [Héctor Veira, treinador do Boca Juniors] que preferia sair, parece-me. Nesse momento, estávamos a perder, estava a surgir o suplente Juan Román Riquelme, que estava a ponto de o substituir. 'Bambino' decidiu e foi consensual. Não se pensava que era o fim da carreira de Maradona, mas o tempo disse que foi o último jogo. Recordo de ter partilhado essa última cena, a cena final, com ele. Sinto orgulho, nostalgia e privilégio por ter jogado esse último jogo com ele.

Como era Diego?
Tenho uma imagem muito nítida de como era como companheiro. Era muito, muito generoso. Um tipo que te ajudava de verdade dentro do campo, sentias-te protegido por ele. Jamais, e joguei um tempito ao lado dele nessa convivência futebolística, escutei uma reprovação, um gesto feio ou que mostrasse essa superioridade dessa personagem ou jogador que em tempos foi. Ele estava entre os outros, disposto a lutar pela causa. Fora do campo era muito companheiro, muito bom, era muito generoso. É assim que o recordo: muito, muito generoso, hospitaleiro. E isto apesar das suas singularidades, porque não ia treinar e sabíamos que estava numa condição perto do final da sua carreira. Empurrava-nos para a frente. Eu recordo-o assim, porque estão tão exaltados os egos nesta carreira que qualquer jogador normal que faça um par de jogos já o levam pelos ombros. Ele não, tinha humildade, sabia o que era lutar, o que era jogar um jogo, o que dizer, que o segredo estava na equipa e, depois, nos jogadores.

No tal jogo com o River, do outro lado, estavam jogadores como Burgos, Placente, Salas, Sorín e Gallardo. Que te parece o atual treinador do River Plate?
Bom, sobram as palavras. O ciclo que gerou, levando-o para a frente, é algo fabuloso. Baseado, como ele disse, num par de resultados, mas depois na gestão de grupo, numa liderança e capacidade para representar o sentimento das pessoas, de entender que é assim que se joga futebol, que assim há mais possibilidades de dar resposta numa equipa grande que tem responsabilidades maiúsculas. A responsabilidade tem que ver com o esforço, mas também com criatividade. Procura sempre a perfeição, tenta sempre ser protagonista dos jogos e inculcar isso nos jogadores, esse espírito e mentalidade ofensiva, ganhadora, sem complexos, sem desculpas. Um dos segredos de Gallardo, independentemente da sua tarefa como chefe e condutor de grupo, é focar-se plenamente no futebol, no jogo, no rendimento. Quando um treinador se foca no rendimento e exige a partir daí, melhora os jogadores, potencia-os, com a ideia da equipa. Não é fácil ganhar depois de ganhar, em nenhum âmbito. Está aí o desafio muito grande dos que compõem a equipa: ganhar depois de ganhar. Quando ganhas instalam-se, lentamente, os germes muito perigosos, os da superioridade, da complacência. São inimigos da competitividade. Nesses jogos extremos vê-se a natureza do River: é uma equipa voraz, com mentalidade forte, que vai procurar [o resultado], que não tem temores. Não ter temores não significa descuidar-se, mas assumir que o jogo tem riscos e que são riscos lógicos. Sem a bola não se pode jogar, sem dar três passes seguidos é mais provável que uma equipa jogue mal e tenha a tendência para perder. Tudo isso é claro que não se adquire num dia, não se consegue num dia. Por isso é tão importante o tempo para os treinadores que têm capacidade.

Buda Mendes

E Jorge Jesus?
Ahhhh, parece-me um treinador extraordinário. Acho que este Flamengo tem muitas semelhanças com muito do Benfica que vi dele. É uma equipa que tem um funcionamento para defender e recuperar a bola tão importante como o que tem com a bola. Também é uma equipa que se assemelha ao River: criativa, veloz, que maneja muito bem os tempos, parece que estão a deter a bola e, de repente, aparecem os jogadores, com os médios a pisar a área; fazem correr muito bem a bola no meio-campo; com laterais. Eu creio que há treinadores que entenderam que os laterais, neste caso Filipe Luís e Rafinha, têm um valor fundamental na estrutura de uma equipa. Não é casualidade que o Flamengo tenha comprado dois laterais com experiência europeia, independentemente do que possam pensar no balneário, são jogadores que fazem o campo grande, que apoiam, que colaboram com a construção de jogo e isso dá aos médios e avançados uma participação de jogo diferente. É uma equipa que me agrada muito. Vai ser uma final muito atrativa e não sei quem é o favorito [final da Libertadores: Flamengo-River, a 23 de novembro].

Como ajudarias Jorge Jesus?
O River é uma equipa que maneja muito bem o pressing. Se sai bem o pressing e recupera a bola, o rival pode sofrer, porque os dois avançados desmarcam-se muito bem no espaço. Não são avançados de manobra lenta, não são avançados de grandes habilidades em espaços reduzidos, ou que sejam mágicos. São dois avançados que estão permanentemente desmarcando-se e perfilando-se a favor do passe. Quando recuperam a bola e sai esse passe, esse golpe de vista rápido dos médios, eles posicionam-se rápido. [Gosto de] como se associa o River no meio-campo, como se agrupa para jogar. Se os médios adversários não têm em conta que a melhor maneira de sair é por um corredor ou tirando a bola rápido da zona onde estão aglomerados os jogadores, utilizando o apoio de frente e outros, podem facilitar a tarefa ao River, simplifica-lhes o panorama. Para além disso, têm experiências nas finais, é uma equipa que jogou e esteve nessas circunstâncias, por isso há que ver como o Flamengo vai processar a necessidade de ser campeão da Libertadores, depois de tanto investimento e de não ganhar a competição desde 81.

Há pouco falámos de Ángel. Como foram aqueles tempos de Valdano e Cappa no Tenerife?
Muitos felizes, muito felizes. Desfrutei muito, senti muito prazer porque o futebol, quando se aproxima da infância, tem essa coisa lúdica do jogo e o futebolista está muito mais predisposto a jogar porque está contente e convencido, está solto. O que Ángel e Valdano despertaram em mim foi justamente isso: melhorar no meu jogo, aportar detalhes, segredos para jogar melhor, os que valem e não os ridículos, como os físicos ou por algo mais tático, mas sim os segredos individuais; encontrar o espaço, como expressar a minha habilidade. Um futebolista sente que voltou às origens e um profundo respeito e carinho com o treinador porque sabe que também o está a respeitar. Está a respeitar a essência do jogador, a sua necessidade, e isso é inestimável.

Diego Latorre à esquerda, Ángel Cappa (azul), Jorge Valdano (com bola)

Diego Latorre à esquerda, Ángel Cappa (azul), Jorge Valdano (com bola)

Eric Renard

Roubaram mais um campeonato ao Real Madrid…
Claro, eu cheguei no segundo [92/93; na época anterior aconteceu o mesmo], ainda me estava a acomodar. Sim, entre outros êxitos, era uma equipa pequena a jogar um futebol encantador. Cativava não só as pessoas da ilha mas também de toda a Espanha. Fizemos história com un equipo chiquitito que não tinha transcendência. Muita gente identificava-se connosco. Naquela altura tínhamos a admiração de toda a gente porque as equipas pequenas jogavam como equipas pequenas, a tentar sacar um pontito, a verem como se defendiam e tal... Nós íamos à procura, propúnhamos, jogávamos, quem sabe com menos jogadores do que as equipas poderosas, mas sempre à procura do nosso tecto, desafiando-nos também, melhorando. Foi uma época hermosa.

Fernando Redondo. Que dizer?
Ah, o Fernando Redondo está na galeria dos grandes jogadores a nível universal, mundial. Era um futebolista... primeiro, com uma personalidade avassaladora. Era um tipo que entrava no campo do Real Madrid, ou qualquer campo, e o jogo era dele. Ele era o jogo, pedia a bola, tinha coragem e tratava de impor sempre as suas condições, o seu peso. Era um '5' que desfrutámos pouco na Argentina, só jogou um Mundial, mas esteve nos grandes, jogou em grandes cenários e equipas do mundo, como Real Madrid e Milan, ou antes no Tenerife e Argentinos Juniors. Tinha também valores, era muito respeitado, e tinha algo que seguramente deve distinguir os melhores: dava-lhe bronca jogar mal. Ele sentia que tinha de fazê-lo bem e discutia com ele mesmo quando tomava uma má decisão. Tinha essa rebeldia dos jogadores que, se não é perfeito, não se sentem bem. Isso parece-me um grande valor num jogador, que te faz permanentemente evoluir como futebolista.

David Rawcliffe - EMPICS

Vinhas de dois anos com o maestro Tabárez no Boca Juniors. O que aprendeste com ele?
Foi especial porque eu estava a formar-me, como jogador e pessoa. A influência que o Tabárez teve em mim foi muito grande. Ensinou-me a comportar-me, a fazer, centrou-me, ordenou as minhas qualidades, colocou-me sócios ao meu lado, ou seja, preparou um contexto a mim e à equipa ideal para que nós pudéssemos desenvolver e promover as minhas condições, a minha gambeta, o golo. E isso encontrei em poucos treinadores, que saibam ajustar e saber que companheiros te podem fazer melhor, porque não só o treinador te faz melhor, também o companheiro, ou o funcionamento em que participas e te sentes mais cómodo.

Bem, tenho mesmo de perguntar isto… Como era Gabriel Omar Batistuta? Coincidiram na Fiorentina e no Boca.
Era um pibe que tinha muita necessidade e fome de triunfar. Era um rapaz que não claudicava, que tinha uma cabeça à prova de tudo. Normalmente, as pessoas que triunfam são aquelas que são capazes de serem naturais ou de serem elas mesmas em lugares onde há muitos obstáculos e muitas pressões. Ao Gabriel não lhe importava nada, queria triunfar. Por ele, pela sua família. Estava sempre a superar-se, havia que rematar... Outra coisa: para ele não existia a jogada anterior. Ele podia falhar um golo ou fazer um golo e não mudava, continuava ligado, conectado com o jogo que tinha de jogar. Era muito perseverante: se havia que ir 100 vezes, ele ia 100 vezes. Teve isso desde miúdo, foi delineando o caráter. Sem caráter não se pode chegar a ser Batistuta. Como jogador, se analisar, era bom claro, tinha golo, remate, cabeceava, era muito potente... mas, talvez, sem essa mentalidade teria sido, não digo mais um, mas não chegava a obter o que conseguiu.

Latorre e Batistuta na revista "El Gráfico"

Latorre e Batistuta na revista "El Gráfico"

D.R.

O futebol juntou-te a alguns idealistas deste jogo. Em Salamanca apanhaste Juanma Lillo. Como era o treinador espanhol?
Bien. A única coisa que eu posso... não é discutir... questionar é que há treinadores que deviam levar-se mais pelo instinto - é muito difícil de explicar -, e não tanto pelo método. Creio que o método, a escola, o futebol de posição e tal, está muito bem mas há exceções e há determinados futebolistas que necessitam também de libertar tudo o que levam dentro, e não só unicamente cumprir uma função. Creio que nesse momento, Lillo, pelo menos comigo ou com algumas equipas, estava muito agarrado ao método muito sofisticado. Nós vínhamos de uma escola em que o potrero mandava, era instinto... A nossa academia era a rua. Mas, bom, evidentemente o futebol foi-se sofisticando mais. Lillo é um tipo que pensa, que permanentemente está a gerar ideias e a resolver alguns dilemas que o futebol apresenta, explicando e abrindo-nos a cabeça. Há muitos treinadores, ultimamente, que estão agarrados a métodos muito fechados e muito matemáticos e esquecem-se de algo fundamental, que é o jogador e como pode crescer esse jogador a partir do treinador. Não só a nível tático, posicional, mas também como jogador, melhorando os seus controles, a gambeta, o seu sentido de jogo, isso não se pode perder de vista porque também faz a construção de uma equipa de futebol.

Fechemos com o futebol de formação. Por cá veem-se muitas histórias de treinadores que estão mais preocupados em subir na vida do que em ensinar os miúdos; pais que insultam jovens jogadores e árbitros. Na Argentina é diferente ou é um mal comum?
É um mal comum, lamentavelmente. As pessoas procuram a sobrevivência e, ao saber que têm de sobreviver, desesperam. Não têm o dom da docência, da pedagogia, para formar jovens. Desesperam porque o resultado não aparece, porque um jogador não lhes faz caso. Precisamos de um futebol mais saudável, mais sano, onde se ensina e a aprendizagem seja mais pedagógica. [Um treinador] está a transmitir tudo isto a um ser humano que joga futebol, não só um futebolista. Há que formar esse ser humano e o futebol pode ser um grande canal para que esse futebolista, ou ser humano, amanhã esteja preparado para a sociedade. Aí está a tarefa fundamental dos treinadores, têm de ter muita, muita educação, capacidade, muitas ferramentas, um nível cultural, um quociente intelectual grande, para entender a problemática de cada miúdo. Isso dá-te a rua, o ensino, a escola e a formação. Um treinador não pode esquecer que está a formar um miúdo que tem sonhos, que tem um projeto familiar atrás; tem de ensiná-lo a integrar-se na sociedade. A vida hoje não é simples.

Tony Marshall - EMPICS

Lembras-te de jogar nas ruas de Buenos Aires?
Sim, claro. Eu juntava-me com os miúdos que gostavam de jogar futebol. Era evidente que aí estava a conexão, tudo girava à volta da bola, na rua, sobretudo na Argentina, onde o futebol é um bem cultural. Sai-se à rua e as pessoas falam de futebol, há uma canchita de futebol em cada escola. A maioria dos miúdos sonha ser jogador de futebol. O futebol está em cada esquina, em cada bairro. Lembro-me da minha infância, quando havia mais segurança, quando não te matavam na rua, jogávamos futebol e o único momento em que parávamos era quando passava um carro. Não pisávamos a bola, tínhamos cuidado, para não termos de comprar outra. Éramos felizes assim, livres, crescíamos assim. Livres, jogando, no jogo, na picardia... Hoje, os miúdos estão cada vez mais fechados, a sociedade transformou-se. Bom, está tudo muito mais violento por cá.

Quem era o futebolista que imitavas na rua?
Eu tinha várias referências, normalmente era o número 10. Era um número simbólico, sempre o foi. Não era um número que usava qualquer um, era o craque da equipa. Havia Alonso, Bochini... cada equipa tinha o seu 10. Maradona. Hoje é o Messi, representa muito a consciência do adepto e do espectador. Todos queriam ser o número 10 cá. O Estudiantes tinha o 'Bocha' Ponce, nem me lembro quem eram os 10. Era o fenómeno da equipa, queríamos ser como eles, imitá-los. Era assim que crescíamos, a olhar para a televisão, a ouvir rádio, e imaginando que um dia estaríamos lá, imitando-os. Um dos pontos da aprendizagem é esse: a imitação. Queríamos bater os livres como o 'Charly' Carrió, que jogava no Gimnasia La Plata; ou um que queria fazer o passe para golo como o Bochini ou cabecear como o Beto Alonso. Essas coisas tínhamos em nós, eu era um desses miúdos. Era adepto do Ferro, um clube modelo nessa altura, e campeão do futebol argentino. Era um clube de Caballito, um bairro no centro, no centro da capital e não da zona financeira. Era um exemplo. Já não existe. Pela crise económica e por má gestão de muitos dirigentes, acabaram os clubes de bairro, que apoiavam os miúdos, dando-lhes um lugar. Cresci muito nesse clube até que fui para o Boca. O Ferro era famoso nas décadas de 70 e 80.