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Jankauskas: “O Benfica é uma religião, sim, para os benfiquistas. Era, é e será assim. Há crianças que nascem com a camisola do Benfica”

Chegou a Portugal para jogar no Benfica, ganhou uma Taça UEFA e uma Champions no FC Porto de Mourinho e ainda voltou ao nosso país (do qual tem muitas saudades) em 2008 para dar uma perninha no Belenenses. Jankauskas é o mais português dos lituanos, que um dia foi criticado por trocar a Luz pelo Dragão com uma declaração religiosa pelo meio, e conhece muito bem os dois lados que esta quinta-feira se vão defrontar no Estádio do Algarve (19h45, RTP1). E mesmo que ache altamente improvável a vitória da Lituânia, onde, diz-nos o próprio, o futebol foi completamente esquecido, deixa um alerta a Portugal: cuidado com as bolas paradas

Lídia Paralta Gomes

Eddy LEMAISTRE/Getty

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Olá, Edgaras, ou, devo dizer, o mais português dos lituanos.
Ahahaha, talvez, sim. Um dos poucos, pelo menos. Por acaso, na Lituânia conheço algumas pessoas que estão ligadas a Portugal, por o marido ou a esposa serem portugueses. Fiquei muito ligado a Portugal, tenho muito amor pelo país. Para mim Portugal é uma segunda pátria, posso dizer isso. Tenho muitos amigos aí, muitos contactos. Infelizmente não falo diariamente com eles e depois fico com dificuldades para me lembrar da língua...

Mas falas muito bem português.
Custa-me um pouco, mas estou a tentar!

Como é que vais treinando o português?
O melhor treino que tenho é falar com amigos portugueses e às vezes também consigo ler jornais, leio os desportivos. Mas tenho de fazer mais para me lembrar. Se passar duas ou três horas a falar português a língua volta. Agora estou a aprender francês, de forma intensiva.

Ai sim?
Como já falo português, espanhol, inglês, russo, agora falta-me o francês. Falo umas cinco ou seis línguas. Quer dizer, como vocês dizem aí, desenrasco-me!

Vamos agora para o Portugal - Lituânia. Em Vilnius, a Lituânia ainda conseguiu empatar. Em algum momento acreditaste que era possível uma surpresa?
Bom, as surpresas podem sempre acontecer, mas eu sabia que a 2.ª parte ia ser outra música porque Portugal precisava de pontos e empatar com uma equipa com o nível da Lituânia era como se fosse uma derrota. Por isso, eu sabia que iam aumentar a velocidade e o desempenho. Chegou a um momento em que a Lituânia já não aguentou o ritmo e a capacidade técnica e física de Portugal.

Estavas dividido nesse jogo?
Sim, um pouco. O futebol é um desporto, para mim não há guerras, quem ganha é o melhor. Não fiquei triste porque é normal, Portugal no futebol é muito melhor. Nós só podemos ganhar a Portugal no basquetebol [risos]! No futebol é impossível. Eu sei que havia gente que acreditava, e eu também acredito, mas... é impossível. Quando tens jogadores como o Cristiano Ronaldo, Bernardo Silva, é outro mundo. É claro que nós tentámos, demos tudo e acho que até foi um bom jogo da Lituânia, especialmente na 1.ª parte, quando empatámos e estivemos ali uns 10 minutos quase no mesmo nível. Acho que Portugal foi surpreendido e depois no intervalo tirou conclusões e aumentou um pouco a velocidade. Foi aí que quebrou tudo.

E agora neste jogo de quinta-feira, o que te parece que vai acontecer? Portugal está pressionado.
Sim, está. Eu acho que vai ganhar, mas não vai ser fácil, porque nós também sabemos jogar futebol e a Lituânia vai tentar trazer dificuldades para Portugal. Sei que vão lutar por cada bola. Não vai ser fácil e no futebol as surpresas são possíveis. Mas o favorito é claro e qualquer outro resultado que não seja a vitória de Portugal seria uma surpresa para toda a gente.

Jankauskas foi a grande referência do ataque da seleção da Lituânia nos anos 90 e 2000

Jankauskas foi a grande referência do ataque da seleção da Lituânia nos anos 90 e 2000

Philippe Perusseau/Icon Sport via Getty Images

Em que aspeto é que a Lituânia pode dificultar a vida a Portugal?
Acho que aqui em Vilnius foi o único jogo em que Portugal sofreu um golo de bola parada, porque os jogadores da Lituânia são altos, físicos e têm agressividade. Por isso acho que Portugal tem de estar atento a isso, às bolas paradas. Porque, tirando isso não somos melhores, nem na técnica nem na tática. Mas nas bolas paradas às vezes tudo depende do carácter, da garra, da paixão.

A Lituânia nunca foi uma potência no futebol, mas agora parece estar mesmo numa grande crise de qualidade. Sendo tu um antigo selecionador nacional, porque é que achas que não há uma evolução no vosso futebol?
Não estamos a fazer o suficiente para que o futebol cresça. Aqui não há condições boas para crescer: não há um campeonato bom, não há nada, nada. Isto não vai mudar e vai por aí abaixo e já há uns oito anos que é assim. Nos meus tempos de jogador tínhamos muitos jogadores nos campeonatos mais fortes e quando me tornei selecionador tinha de chamar, sei lá, 16 jogadores do campeonato da Lituânia. Nos meus tempos, quanto muito havia um jogador do campeonato local. E isso faz diferença.

O que é que gostarias de fazer mais pelo futebol da Lituânia?
Eu há 10 anos que falo disto e já estou cansado porque aqui nada muda. O nosso futebol precisa de ajuda do governo, precisa de investimento para melhorar as condições para os miúdos. Vocês viram quando jogaram cá como é o nosso Estádio Nacional. Eu tenho vergonha daquilo. Nada a acrescentar mais: isto é uma vergonha. Não somos capazes de construir um estádio. Eu vi com os meus olhos: o Estádio do Dragão foi construído em 10 meses. E nós, que somos independentes há quase 30 anos, ainda não conseguimos construir um estádio. Temos não sei quantas arenas de basquetebol para 15 mil pessoas e não somos capazes de construir um estádio? É como se este país não precisasse de futebol e isso deixa-me envergonhado cada vez que recebemos uma seleção cá. Mas para o governo é normal, não está nada mal. Eu vi como funciona o mundo do futebol, toda a sua organização, e aqui estamos muito longe.

Ainda vais acabar como presidente da federação...
O presidente da federação é meu amigo [risos]! Jogámos juntos. Ele sabe dos problemas, mas não tem poder suficiente para mudar. Quer dizer, aqui já nem chega mudar, é preciso fazer uma revolução. Destruir tudo e construir de novo, é melhor assim.

Para lá do jogo aí na Lituânia, tens acompanhado a qualificação de Portugal?
Sim, sim. Esta campanha talvez não tenha sido tão feliz, porque a Ucrânia já passou e Portugal precisa agora de ganhar, porque a Sérvia está a apenas a um ponto. Mas Portugal tem uma boa seleção, bons jogadores e tem futuro. É uma seleção muito jovem, mas tem futuro, porque há jogadores de grande nível. E quando ainda tens o melhor jogador da Europa, ou do Mundo até, na equipa, isso dá-te mais confiança.

O antigo ponta de lança foi selecionador da Lituânia entre 2016 e 2018

O antigo ponta de lança foi selecionador da Lituânia entre 2016 e 2018

Dan Mullan/Getty

Quando jogaste em Portugal ainda chegaste a apanhar o Cristiano Ronaldo no Sporting?
Sim, quando joguei no FC Porto lembro-me dele fazer um jogo no Dragão, nós ganhámos. Vi-o a começar, sim. Ele e o Quaresma. Nós falávamos muito sobre eles, porque eram duas grandes esperanças.

E vais acompanhando o campeonato português?
Sim, sem dúvida. Já disse antes, mas Portugal para mim, pá... eu tenho saudades da comida, das cidades, das pessoas, do clima. E tenho muitos amigos e sempre que volto aí, mesmo no estádio do Benfica, sou bem recebido.

Ainda te chateiam por teres saído do Benfica para o FC Porto? E por teres dito que o Benfica era uma religião?
Bem, essas palavras foram um bocado torcidas porque eu disse que o Benfica era uma religião para os benfiquistas. E era assim, é assim e vai ser assim. Há crianças que nascem com a camisola do Benfica! É claro que quando sais do Benfica para o FC Porto muita gente te trata como um traidor e na altura fui tratado mal, fui assobiado, mas é normal. Ser assobiado por 60 mil pessoas não dá prazer a ninguém, nem ouvires certas palavras na rua, mas não estou zangado com ninguém [risos]! O que passou, passou. Quando estive a última vez no Estádio da Luz ninguém me insultou, porque, pá, a gente sabe que isto é futebol. Eu acabei o empréstimo com o Benfica e eles não ativaram a opção de compra, até porque o Benfica na altura não era o que é hoje em dia. Estava em transição, não era tão bem estruturado como hoje, um antigo presidente [Vale e Azevedo] até tinha ido para a prisão. Agora é outra coisa, mas na altura o FC Porto era muito mais bem organizado.

O certo é que apanhas se calhar a melhor fase de sempre do FC Porto.
Sim, é provável que sim. Surpreendemos toda a gente. A equipa era recém-construída, com um novo treinador e muitos jogadores sem nome. Não tínhamos nenhuma estrela mundial tirando o Deco, talvez. Ninguém conhecia a equipa e no primeiro ano ganhámos campeonato, Taça UEFA, Taça de Portugal.

E Mourinho, era um treinador diferente?
Sim, era jovem, era humilde, estava muito perto de nós e nunca sentimos que fosse arrogante. Ele não era só o nosso treinador, era também um grande amigo. E essa relação deu frutos, porque nós tínhamos confiança nele, ele dava-nos muita confiança.

MIGUEL RIOPA/Getty

Fazes parte das equipas que ganham a Taça UEFA e Champions, mas acabas por falhar as duas finais, primeiro por lesão, depois por opção. Sentes alguma frustração por isso?
É claro que eu queria jogar, mas sempre fui um jogador do coletivo. Só por ganharmos as taças já me sentia feliz. Eu queria jogar, mas o que é que podia fazer? Não podia entrar em campo, tirar o Benni [McCarthy] ou dizer ao José [Mourinho] 'olha, deixa-me entrar'. Infelizmente só onze ou 14 no final do jogo é que podem jogar. Mas eu tentava sempre: não importava se jogava 30 minutos, se jogava cinco minutos, eu tentava sempre qualquer coisa positiva. Ainda conseguia criar uma oportunidade ou até marcar um golo. Dava sempre o máximo e é por isso que sempre tive uma boa relação com adeptos e treinadores. Nenhum dos meus treinadores se queixou do meu empenho, do meu trabalho nos treinos ou comportamento fora de campo. Sempre fui um jogador do coletivo.

Em 2003/04 ainda te cruzaste por alguns meses com o Sérgio Conceição. Tens acompanhado o trabalho dele no FC Porto?
Sim, sentávamos-nos sempre perto um do outro até. Lembro-me bem do Sérgio. Chegou como uma figura, porque tinha tido uma excelente carreira em Itália. Esse ano não foi o melhor da carreira dele, mas acrescentou à equipa. Como treinador, a personalidade dele vê-se na equipa. Ele sempre foi assim, um jogador com muita paixão.

Quando Portugal jogou na Lituânia disseste que o FC Porto era candidato a vencer a Liga Europa. Um par de meses depois, as coisas não estão a correr assim tão bem. Ainda acreditas nesse cenário?
O FC Porto joga sempre para ganhar. Já o disse muitas vezes, é um clube que foi construído para ganhar. Lembro-me bem de quando o Pinto da Costa entrava no balneário no início da época e dizia que era para ganhar tudo, só falava de vitórias. Nem sempre as coisas saem como queremos, mas sei que o FC Porto vai lutar até onde for possível.