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“No Luxemburgo, trabalho oito horas e depois vou treinar de cabeça cheia. E o que um jogador quer nessa altura é dar cuecas e cabritos”

Vai na segunda época a jogar no Luxemburgo, sinónimo de estar há dois anos a levantar-se às 7h, trabalhar oito horas numa loja de ortopedia, ir treinar ao fim do dia e chegar tarde a casa. João Coimbra, antigo jogador do Benfica, Estoril ou Trofense, trabalha primeiro e joga depois, como "grande parte" dos jogadores no Luxemburgo, que defronta Portugal este domingo (14h, RTP1), onde o futebol é amador e o ordenado mínimo de 2017 euros dificulta que eles "queiram ser profissionais". Depois, há a exigência nos treinos ao fim de um dia de trabalho: "Querem é tocar na bola, dar duas cuecas, dois cabritos e divertirem-se"

Diogo Pombo

Christian Liewig - Corbis

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Como é que vai o futebol no Luxemburgo?
É assim, já vai fazer dois anos que aqui estou a notar alguma evolução e até fiquei um pouco surpreendido com a qualidade que o futebol tem, apesar de ser amador e grande parte dos jogadores, de todas as equipas, trabalharem e jogarem. Nota-se, principalmente, que as três ou quatro primeiras equipas já começam a apostar mais forte, têm muitos jogadores profissionais e temos o exemplo do Dudelange, que está pela segunda vez consecutiva na fase de grupos da Liga Europa, esta ano conseguiu a primeira vitória na fase de grupos, no Chipre. Acredito que, se o profissionalizassem, o futebol no Luxemburgo seria muito mais forte, ainda por cima estando ao lado de Bélgica, França e Alemanha. Já não é aquele futebol fácil, também hoje em dia não há muitos. Como se tem visto, até já dá alguma luta na Liga Europa.

Mas as equipas tentam jogar ou é um campeonato mais intenso e físico?
A intensidade não é muito elevada, porque a maioria dos jogadores trabalham e jogam, portanto, o nível dos treinos é menor. Não é fácil chegar ao fim de um dia de trabalho, ir treinar e fazê-lo com a intensidade que se quer. Mas é um futebol já técnico, há muitos jogadores com qualidade e está a evoluir taticamente com a presença de jogadores estrangeiros, alguns portugueses, outros franceses, um ou outro alemão. Os jogos são mais combativos, mas, contra as equipas lá de cima, já se vê qualidade.

E se tivesses de o comparar com uma divisão do futebol português?
Depende, se calhar o Dudelange e o próprio Pétange, treinado pelo Fangueiro, que jogou muitos anos em Portugal, têm qualidade para jogar numa primeira liga. As restantes, talvez numa segunda e as que estão lá para baixo comparam-se, talvez, com as equipas que lutam para subir no CNS [Campeonato Nacional de Seniores]. Mas, lá está, é um campeonato um pouco partido: duas, três ou quatro equipas lá de cima têm grande parte dos jogadores profissionais; depois, as que lutam pelos seis ou sete primeiros lugares já andariam a meio da tabela de uma segunda liga portuguesa; e as que andam cá para baixo estariam a lutar no CNS.

Tinhas noção disso quando foste para aí?
Vim através de um agente, o Alberto Machado, e do mister Paulo Gomes, que agora está a coordenar a formação de um clube da Arábia Saudita. Ele próprio me avisou que o nível não era aquele que as pessoas pensavam. De facto, constatei isso, os jogos estão cada vez mais difíceis, nota-se a evolução tática e, agora, o que falta é o futebol ser profissionalizado para haver maior intensidade e número de treinos.

Mas do que estão à espera para profissionalizar o futebol. Não há muito dinheiro no Luxemburgo?
É assim, o ordenado mínimo aqui é alto, à volta dos 2000 euros. Os jogadores luxemburgueses têm maior facilidade em termos de trabalho e recebem salários ainda mais altos, se calhar de três, quatro ou cinco mil euros. Em trabalhos que, em Portugal, talvez ganhassem perto do ordenado mínimo, ou pouco mais. Aqui dão muito valor ao luxemburguês, eles ganham bom dinheiro e isso acaba por ser um dos entraves. Não vejo esses jogadores a deixarem o trabalho para serem apenas futebolistas. Perderiam muito dinheiro e, no futuro, poderiam não ter tantas garantias de vida. Acredito que não irá ser fácil só fazer com que os jogadores queiram ser profissionais de futebol, porque perderiam muitas regalias.

D.R.

Os luxemburgueses com quem jogas encaram o futebol como um hóbi?
[Ri-se] Depende, mas não sinto que haja aquela preponderância do futebol na vida deles, como sempre tive. O futebol sempre foi a minha vida. Há muitos que gostam de estar lá, dão tudo, correm, mas ok, amanhã vão para os seus trabalhos e têm a sua vida mais ou menos organizada. Não é bem um hóbi, é uma parte da vida deles que lhes permite fazerem o que gostam. Se perguntarmos, a cada um, o que preferem, talvez seja o trabalho, porque lhes dá um futuro melhor. Não é fácil fazer essa distinção, estamos a falar de um nível amador.

É a primeira vez que trabalhas enquanto jogas?
Sim, foi uma das condições para ter vindo para cá. Os próprios clubes jogam muito com isso, porque o ordenado mínimo é alto, então dizem que oferecem x para jogar e garantem depois um trabalho. O meu diretor desportivo é dono de quatro lojas de ortopedia no país e colocou-me a trabalhar numa delas. Ao princípio custou bastante [ri-se], estou sempre muito mais cansado do que andava aí, não é fácil acordar às 7h, trabalhar até às 18h, depois ainda ir treinar, chegar a casa e as filhas já estarem a dormir. Agora é uma fase da vida em que sempre entra mais algum.

Fazer essa transição desanimou-te?
Já vinha mentalizado para tal. Tudo bem que estou cansado, mas chego ao treino, olho, e todos eles também trabalham, muitos até com trabalhos muito mais pesados do que o meu. Apesar de trabalhar oito horas, não é algo que me desgaste muito em termos físicos, é mais mental. Vim preparado, não me afetou assim muito, porque sempre me adaptei bem a outras culturas ou a países diferentes. Meti na minha cabeça que era o que queria fazer, era o melhor para a minha família e, por isso, foi mais fácil. É uma vida muito cansativa e, sinceramente, não sei se não será o meu último ano aqui. Tem sido mesmo muito cansativo, sinto falta de Portugal e a minha filha mais velha começa a escola para o ano. Vamos ver como corre.

Quando foste para aí sentiste que encaram um jogador estrangeiro com reverência?
Tive mais essa noção nos luso-luxemburgueses. Parecendo que não, conhecia um pouco da minha história, também pelo facto de o treinador, na altura, ser português e ele ter realçado onde tinha jogado. Mas não notei assim tanto. Temos mais três ou quatro jogadores que também tiveram boas carreiras em Portugal, como era o caso do Romaric e o David Silva, que jogou em primeiras ligas da Europa, e o João Martins, internacional angolano. Portanto, temos um grupo que apresenta bom nível na carreira e não senti muito isso, à exceção dos luso-luxemburgueses, de quem senti algum respeito por tudo o que fiz na minha carreira. Mas nada do outro mundo.

Ainda por cima jogaste no Benfica.
Pois, é o que realça mais, apesar de ter sido há 13 ou 14 anos e de não terem sido muitas vezes [ri-se]. Dizem-me 'epá, ainda me lembro de ti lá', mas se calhar não fazem a mínima ideia. Não joguei assim muito, fiz 14 ou 15 jogos, mas só dois ou três a titular, acredito que muitos se lembrem, mas, sobretudo, é pela palavra que passa. Joguei no Benfica e só isso já realçam. A forma como os emigrantes vivem os seus clubes ainda é mais intensa por estarem longe.

Sabias falar francês antes de ires para o Luxemburgo?
Bom, sabia o que aprendi na escola, tive três anos de francês e, sinceramente, também foi uma das coisas pelas quais quis trabalhar. Não que já fale corretamente, em termos de verbos, mas já me desenrasco muito bem, falo sozinho com outras pessoas. Ou seja, quando sair daqui, é outra coisa a mais que tenho.

A tua mulher também trabalha e gosta de viver aí?
Neste momento deve gostar, porque está grávida e então já não trabalha. Já está de baixa, trabalhava no hospital e, como era considerado um pouco trabalho de risco, às 12 semanas de gravidez veio para casa. Agora aproveita para estar com as filhas. É outra coisa que o Luxemburgo tem: as leis defendem muito os trabalhadores, além do dinheiro que dá por cada filho que se tenha.

Estão bem no centro da Europa. Costumam pegar no carro e ir passear a outro país?
Sim, sim, em meia hora estou na Bélgica, em França ou na Alemanha. Já tivemos curiosidades dessas, de num só dia passarmos por três ou até quatro países. Mas, sinceramente, tempo, não tenho muito. A trabalhar durante a semana e com jogo ao fim de semana, é difícil. E, quando tenho, procuro mais estar em casa com as minhas filhas, a descansar.

D.R.

O Luxemburgo vai jogar contra Portugal. Ainda se vive muito um jogo destes ou já é normal?
Não, há muitos portugueses aqui, uma pessoa anda na rua e às vezes só ouve falar português. Há claramente um entusiasmo. A federação luxemburguesa fez questão de destacar que vão jogar contra a equipa campeã da Europa, a vencedora da Liga das Nações e um dos melhores jogadores do mundo. Sem dúvida que se sente uma grande vontade para tentarem um bom resultado, conseguirem mais um motivo para aparecer e melhorarem o futebol luxemburguês. Eles acreditam que podem fazer uma gracinha.

Fazem-te muitas perguntas por seres português?
Não, porque estão habituados a verem portugueses [ri-se]. No treino, tenho oito, nove ou 10 jogadores que falam português. Mas eles estão a construir um novo estádio aqui no país, um género de estádio nacional, e fizeram de tudo para que a inauguração do estádio fosse neste jogo. E estamos a falar de ano e pouco. Souberam que calharam no mesmo grupo com Portugal e queriam aproveitar.

Mas vai ser a estreia?
Não, não, não conseguiram acabar as obras a tempo. Mas dá para perceber um pouco a importância que o jogo tem para eles.

Chega ao ponto de metade do público no estádio torcer por Portugal?
Acredito, até mais! A quantidade de emigrantes aqui é mesmo bastante e os portugueses gostam muito mais de futebol do que os luxemburgueses.

Vais lá ao estádio?
Vou tentar, sim. Também quero passar lá no hotel para dar um abraço ao mister Fernando Santos e ao João Moutinho. Ainda não tenho certezas, mas devo lá ir, sim.

No jogo de Alvalade, o Luxemburgo tentou sair de forma apoiada e chegou algumas vezes à área de Portugal. Eles estão a tentar ser mais ousados no estilo de jogo?
Já temos visto isso um pouco por toda a Europa, tem-se dado muito mais ênfase à construção de jogo de trás, ao jogo mais bonito, e isso nota-se. Mas estamos a falar de uma seleção que tem uns quatro ou cinco convocados a jogarem no Luxemburgo e, se calhar, dois são guarda-redes. Jogam na Alemanha, na Ucrânia, em França também já há um ou outro, ou seja, são jogadores que já têm muita qualidade e leva jogadores a equipas como a Juventus [Dany Mota, que joga nos sub-23, mas é internacional sub-21 por Portugal]. É um país que está a evoluir bem, há vontade e há qualidade, só falta profissionalizar o futebol aqui.

Já não vai ser um jogo em que ouvimos os comentadores a enumerar que este jogador é carteiro, o outro é farmacêutico e por aí fora.
[Ri-se] Já não. Mas, se vierem ver o jogo do campeonato luxemburguês, do meio da tabela, não há um que não trabalhe. Acho que na minha equipa não há quem não faça as duas coisas. Numa semana temos quatro treinos e um jogo - normalmente, uma equipa profissional treina seis vezes e tem jogo. Ao fim de dois meses, são menos 10 ou 15 treinos e isso nota-se. Não é fácil treinar aqui uma equipa a nível tática.

Os jogadores chegam ao treino com a cabeça cheia?
Também. Já vêm do trabalho, vão ali para acalmar e terem um treinador ainda a chatear para fazer isto ou aquilo, vai fazer com que a recetividade seja totalmente diferente. Não deve ser fácil ser treinador aqui também por isso. O jogador vai ali um pouco para aliviar a tensão e fazer o que gosta, não para ouvir um treinador a dar-lhe ordens, a perguntar porque fez isto e não aquilo, ou para estar quieto a treinar bolas paradas. Ele quer é tocar na bola, dar duas cuecas, dois cabritos e divertir-se. Não é literalmente assim, claro, o grau de exigência já é elevado, mas não deve ser fácil. Não se pode exigir o mesmo que se exige a um jogador profissional.