Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

“O Jardel foi uma pechincha: o Veiga ligou-me a perguntar se o queria, disse-me que custava €5 milhões e três jogadores. Assim foi”

Aos 53 anos, o antigo diretor desportivo do Sporting está de volta a Portugal, após quatro anos na Grécia, em França e em Itália. A marca dos dois últimos títulos leoninos tem o seu ADN, já lá vão quase duas décadas, mas Carlos Freitas avisa que é apenas uma página. A experiência acumulada ao longo de 20 anos de dirigismo, três anos dos quais na Fiorentina, é a mais-valia que levou o novo presidente do Vitória, Miguel Pinto Lisboa, a contratá-lo como diretor-geral, tendo como meta devolver a grandeza de quarto grande, perdida para o rival Sporting de Braga. Conta como foi a contratação de Jardel ou a saída-relâmpago de Cristiano Ronaldo, a estrela que, com Mourinho, mudou a mentalidade do jogador português: outrora regional, hoje global

Isabel Paulo

Partilhar

Já foi jornalista, agente de jogadores e diretor-desportivo. Em que pele se sente melhor?
Na de diretor-desportivo, que exerço há 20 anos. É um privilégio fazer o que se gosta. Costumo dizer que é um hóbi remunerado. Fui agente de jogadores de julho de 1998 a novembro de 1999, mas não gostei.

Não tem alma de vendedor?
Gosto de vender aquilo em que acredito, de ser credível naquilo que faço.

Como foi parar ao jornalismo desportivo?
Fiz o curso de tradutor-intérprete e quando acabei tive duas possibilidades de emprego: ir para o Banco Europeu do Luxemburgo ou para os jornais. Preferi ser jornalista.

No Luxemburgo, quem dirigia a Casa do FC Porto era o José Veiga. Conhecia-o?
Conheci-o quando fui jornalista de 'O Jogo'. Uma das empresas participadas da Olivedesportos era a Superfute, cujo diretor-geral era o Veiga. Tínhamos o mesmo patrão, Joaquim Oliveira.

Tem saudades de ser jornalista?
Não, embora goste de escrever. Acho que a qualidade do jornalismo era superior há 25 anos, hoje é mais difícil. Antes havia mais reportagem, os clubes eram acompanhados ao estrangeiro por enviados especiais, que custa dinheiro. Agora faz-se muita coisa pela televisão, apesar de compreender que, com todas as inibições que os clubes impõem, como treinos à porta fechada, seja limitador.

Os blackouts e impedimento de abordar jogadores diretamente são ao travão à informação.
É verdade, como também é verdade que hoje abre-se um jornal e metade das notícias já estão na net desde a véspera. Há quem defenda que daqui a 15 anos não haverá jornais em papel. Lamento que se tenha perdido a qualidade literária dos redatores principais do meu tempo.

Jogou futebol?
Amador, até aos 16 anos, num clube dos arredores de Lisboa, o Clube Futebol Benfica. Felizmente o meu pai disse -me para me agarrar aos livros e desviou-me dos pelados. Era defesa central ou médio defensivo, apesar de ser baixo.

É verdade que via os jogos do Vitória nas competições europeias?
Antes disso, a minha mãe aproveitou o facto de ser maluco por futebol para ensinar-me a ler, aos 5 anos, nos jornais e na revista 'Onze', daí a minha facilidade com o francês. Houve sempre uma ligação ao futebol.

No dérbi do Minho, o Vitória perdeu com o maior rival. Ivo Vieira justificou o desaire com a maior maturidade dos jogadores do Braga. A vossa equipa ainda ainda é verde?
Não é, mas o processo desencadeado pela nova direção de Miguel Pinto Lisboa tem pouco mais de três meses. Está naturalmente atrasado em relação ao projeto consolidado de António Salvador, que mudou até a genética do clube. Quanto à maturidade da nossa equipa, é visível desde o início da época, em jogos de grau de dificuldade elevada, como os da Luz ou no Emirates, e no Dragão. Mesmo jogando com menos um jogador e, parte do tempo, com menos dois, deu uma resposta positiva. Aliás, a maturidade nada tem a ver com ter jogadores de 18 ou 33 anos.

Tem a ver com experiência.
Claro. Estamos num processo que é preciso consolidar, com jogos, adversidades e partidas menos conseguidas. Mas não é por causa disso que vamos baixar a guarda ou questionar o que está a ser feito.

Este plantel tem quanto do seu dedo?
Assumo todos os jogadores que cá estão. Desde que o presidente foi eleito chegaram cinco jogadores – Lucas Evangelista, Léo Bonatini, Denis Poha, Marcus Edwards e Bruno Duarte.

Foram indicados por si?
Chegaram comigo no cargo de diretor-geral, embora o Lucas e Bonetti já fossem conhecidos no mercado português. Os outros conhecia e acompanhava já há bastante tempo e são escolhas recorrentes do treinador. Está satisfeito.

Em Portugal, o que faz exatamente um diretor-desportivo? Tem funções diferentes do que fez na Grécia, França ou Itália?
Há uma diferença entre o diretor-desportivo e diretor- geral. No primeiro caso, tem a incumbência de fazer a ligação entre a administração e equipa técnica, respeitar o orçamento e encontrar, com as verbas disponíveis, as melhores soluções financeiras e desportivas, servindo de elo de ligação entre as duas partes. O cargo de diretor-geral é mais abrangente, por implicar a tutela de todas as componentes desportivas do clube.

Apresenta as suas ideias ao presidente ou ao treinador?
Não posso deixar de pensar nos dois – tenho de ir ao encontro da matriz económica-financeira do clube e dos objetivos traçados, respeitando orçamentos e não dando passos maiores do que a perna. Qualquer crescimento produto de um efeito bolha está condenado ao insucesso. O que se pretende é o crescimento sustentado numa vertente financeira que permita dotar a equipa técnica de mais e melhores soluções. Claro que todos os treinadores, seja o Guardiola, Klopp ou Mourinho, acham sempre os plantéis insuficientes e Ivo Vieira também terá as suas queixas.

É uma função de equilíbrio instável, já que as pretensões do treinador e presidente não serão sempre coincidentes.
É um papel que às vezes não gosto muito. É como andar no meio da ponte Vasco da Gama e ao quilómetro oito ter um ouvido para a direita, outro para a esquerda. Felizmente os treinadores têm hoje discernimento em relação à dimensão dos clubes e fazem exigências moderadas.

Sente-se um espécie de agente duplo?
Um mediador, uma espécie de Kofi Annan, no meio disso tudo. Em relação ao cargo noutros países, há um passo que a FPF está a dar e que é importante: o de reconhecer o papel de diretor-desportivo. Já está a decorrer, aliás, o primeiro curso para diretores-desportivos .

Têm uma associação de classe?
Não existe. Em Itália, onde estive três anos na Fiorentina, é uma função reconhecida há mais de 50 anos, em que o licenciamento dos clubes passa pela obrigatoriedade de nomear um diretor-desportivo. É um cargo institucional. Em 1999 fui apresentado no Sporting como consultor do Conselho de Administração, porque as experiências anteriores tinham sido negativas. O cargo estava catalogado de forma muito negativa.

Quem lá tinha estado?
O Luís Norton de Matos, que é uma pessoa competente. As primeiras experiências no Benfica, com Toni e António Simões, também não foram muito positivas. Foi preciso conquistar um espaço e pôr a bandeira neste novo território. Tendo em conta a globalização, em todos os segmentos incluindo no futebol, não tenho dúvidas que é impossível um treinador fazer o acompanhamento do mercado que a economia dos clubes pede. Não há clube que não necessite de efetuar mais-valias. E qualquer jogador que brilhe, ao fim de dois, três anos, tem a expetativa de saltar para um 'grande' ou para o estrangeiro. Ponto final. É preciso estar com os olhos abertos à escala mundial.

Entretanto, o cargo ganhou outra imagem?
Há um conjunto de pessoas que têm credibilizado o cargo, cá e lá fora, como o Antero Henrique, Luís Campos, Pedro Pereira ou Miguel Ribeiro. Carlos Carneiro em tempos fez um trabalho notável, ao levar o Paços a uma pré-eliminatória da Liga dos Campeões. E há uma relação de confiança com os treinadores. É um processo contínuo.

Vai fazer o curso?
Já fiz na Federação, em Itália. Fui obrigado, pois era obrigatório independentemente da atividade que tivéssemos tido no estrangeiro. Um dos colegas de curso foi o Leonardo, que está no PSG e que na altura estava no AC Milan.

Tinham aulas de quê?
Legislação, filosofia, até uma disciplina nos preparava para lidar com a inserção de jogadores de diferentes credos, cultura, nacionalidades...

Pacific Press

Por falar em inserção: quando é que o Vitória ou o Braga, onde já trabalhou, conseguirão furar a hegemonia dos três grandes?
Não comento clubes adversários. Quanto ao Vitória, a intenção é o crescimento contínuo. Não adianta dizer que é muito difícil furar o poderio dos grandes.

O Boavista foi um acidente no circuito fechado do futebol português?
Como está à vista, foi um título conjuntural. Em Portugal, oito décimas do total de adeptos são afetas aos grandes. Basta ver o impacto que um erro de arbitragem tem no espaço mediático, se for contra um grande ou qualquer outro clube. Nestes casos dura 24 horas, no máximo. Contra Benfica, FC Porto ou Sporting fala-se durante 15 dias na mesma coisa. Em causa estão audiências, venda de jornais, até porque a crise também chegou à Comunicação Social. Se me pergunta se é fácil haver aqui um Leicester, é difícil, como foi difícil em Inglaterra sete clubes terem tropeçado todos na mesma época e um outsider galopado até lá a cima. A nossa intenção é dotar o Vitória de cada vez mais meios e mais competentes. O Vitória tem felizmente um traço genético que faz inveja a qualquer clube da nossa dimensão: a massa associativa, a paixão.

A quarta maior do país, numerosa e furiosa.
Furiosa, no bom sentido. É um 'plus' que temos de potenciar. São adeptos que têm por primeiro e único clube o Vitória. Que outros clube têm o estádio com 15 mil espetadores a meio da semana, à chuva ou no verão quando há muita gente de férias?

E nos jogos fora, quantos adeptos mobilizam?
Dependem dos bilhetes que nos dão. No verão, numa segunda à noite, tive a impressão de que metade do Estádio da Feira era nosso. Ao Vitória para ser o Marselha ou o Nápoles só falta dinheiro. São clubes cujos adeptos não têm qualquer outra simpatia clubística. A diferença para o Vitória é o poderio económico, que é um bocadinho diferente.

O cofre ajuda mas já disse que não se é campeão por decreto ou livro de cheques.
E repito. Aliás, se assim não fosse era impossível ter discutido os dois jogos com o Arsenal. É uma realidade de perto de €20 milhões para quase €400 milhões. Se fosse só uma questão de dinheiro, nem valia a pena entrar em campo ou disputar jogos com o Benfica, FC Porto ou Sporting. Qualquer sucesso passa por uma ideia, implementá-la e ter tempo.

No novo Vitória, quanto tempo lhe deram? E quais os objetivos?
Miguel Pinto Lisboa disse na passada semana que era estar num dos primeiros cinco lugares...

Em quinto já estão.
É um objetivo que susbcrevo inteiramente, sendo a primeira etapa encurtar distâncias para os clubes que, cronicamente, têm ficado à nossa frente.

O Vitória, em tempos o quarto grande, perdeu a posição para Boavistão e depois para o Braga. A que se deve a inversão de lugares na hierarquia do futebol nacional?
Nos últimos quatro anos estive fora do país e acompanhei o futebol nacional à distância. Estive no Braga de 2008 a 2010 e vi a dinâmica que era incutida diariamente. Não vou comentá-la agora, 10 anos é muito tempo. Acredito é que o Vitória tem condições mais do que suficientes para ser um crónico candidato aos lugares cimeiros. Temos um projeto sólido, ambicioso, competente dentro e fora do campo. A equipa é boa, o treinador é bom e a estrutura é competente, logo os resultados positivos ficam mais próximo de acontecer.

Sente que o tratamento dos árbitros é diferente perante um grande e um clube como Guimarães?
Não falo de arbitragem desde um Sporting-Gil Vicente. É uma questão de auto-disciplina.

Porquê?
Os erros acontecem, como acontecem da minha parte, dos treinadores ou jogadores. Não vou ser o juiz dos árbitros, até porque há alguma evolução, sinceramente mais lenta do que a dos treinadores portugueses, que são de 'top' europeu. Temos alguns bons árbitros, mas deveríamos ter mais.

É uma questão de base de recrutamento ou a função é pouco apelativa?
As semanas são muito pesadas para os árbitros, devido ao que é dito e escrito em Portugal. A proliferação de programas de debate de casos ao longo da semana deve ser quase única a nível europeu. Felizmente o canal '11', da FPF, limpou aquilo que era a matriz do discurso semanal. É mais construtivo do que destrutivo. É de louvar.

É portista?
Já o disse numa entrevista ao Expresso. Sou um lisboeta que quando andava na primária era adepto do FC Porto. Em Lisboa, em cada 10 miúdos sete eram Benfica, e dois ou três do Sporting. Era do FC Porto para ser do contra. Era uma forma de afirmação e também porque o jogador que mais gostava, nessa altura, era o Cubillas. A partir da hora em que entrei nos jornais, diluiu-se o sentimento clubista. Quando fui trabalhar para um clube rival, ainda mais . Em todos os clubes onde trabalho, quero que ganhe todos os jogos. Hoje, o meu clube é o Vitória.

O campeonato português é pouco competitivo. A solução passa pela distribuição centralizada dos direitos televisivos?
É uma das formas de tornar a repartição do bolo mais equitativa. Acho que se fala do campeonato português de forma negativa, mas os quatro anos que estive fora deram-me uma visão contrária: Portugal desde 2005 teve quatro clubes diferentes em finais europeias (FCP, Benfica, Sporting e Braga). A França, onde o poderio económico é incomparável, nesse mesmo período teve uma equipa na final – o Marselha e perdeu. Itália, com exceção da Juventus, luta nos últimos anos com problemas de afirmação em provas europeias. Os portugueses são admirados e reconhecidos no estrangeiro. O que os clubes portugueses têm feito é muito positivo.

Somos a segunda Liga com mais estrangeiros, depois do Chipre...
É altamente demagógico dizer que o grande número de jogadores estrangeiros é uma das razões do enfraquecimento dos nossos clubes. Acho exatamente o contrário. O que se deve exigir dos clubes é que escolham bem, seja no Irão ou Japão, pois no dia em que lhes tirarem a faculdade de recrutar no estrangeiro e ficarmos confinados aos jogadores portugueses que os grandes europeus não querem, aí é o futebol português vai realmente sofrer. E não peçam contas a quem escolhe.

Qual é a sua posição sobre a lei dos empréstimos? Os mais pequenos não estão reféns dos grandes? O seu presidente já disse que não quer jogadores por empréstimo mas sim partilha de passes.
O que disse é que não quer jogadores por empréstimo sem opção de compra ou com uma opção de compra inatingível. Temos alguns jogadores por empréstimo. Fomos buscar o Lucas, Bonatini e Poha, todos eles com opções de compra no final da época dentro dos padrões que podemos pagar. Não de € 10 ou € 12 milhões. Mas compreendo que os clubes mais pequenos estejam confinados a este tipo de prática para reforçar os plantéis, mas um clube como o nosso tem de ter outro tipo de visão e de ativos.

Onde gostou mais de trabalhar?
Em Itália. A Fiorentina foi única em termos humanos, onde passei a experiência mais difícil da minha vida, que foi a morte do capitão, Davide Astori, a 4 de março de 2018. Foi uma situação extrema. Quando se fala em forças de grupo, superação, está muito aquém daquilo que fomos obrigados a passar. Marca para o resto da vida.

E onde teve maior dificuldade de adaptação?
Em França, país de que gosto e tenho imensos amigos, mas fui trabalhar para uma região complicada, a Lorena, perto da Alemanha...

Que já foi território alemão...
Ia chegar aí. Foi anexada durante a II Guerra Mundial. Aliás, o Metz nesse período disputou o campeonato alemão. É uma região marcada, triste. Até a nível climatérico, chove de novembro a fevereiro. Se fosse depressivo, teria de ser acompanhado. É uma região onde os latinos são vistos como talhados para tarefas secundárias. Liderar ali um processo não era fácil. É um local para estar 15 dias e estudar o chauvinismo. A nossa âncora, minha e dos jogadores que contratei, foi o presidente, Bernard Serin, um cavalheiro e um amigo. A meta era subir, e subimos.

Esteve nas transferências das maiores estrelas do Sporting, de Quaresma a Cristiano Ronaldo. Qual foi a mais complicada?
A contratação de Jardel. Era jogador do Galatasaray e estava num quarto de hotel, fechado há 15 dias, para assinar pelo Marselha, mas surgiram dificuldades pelo meio. Entretanto, estava eu na praia, toca o telefone e era o José Veiga a perguntar se queria o jogador. Perguntei como, se o Jardel tinha custado €15 milhões. Disse-me para escolhermos três jogadores potencialmente dispensáveis, avaliados em € 10 milhões, e o Sporting pagava € 5 milhões. Ou seja, o Jardel por €5 milhões era uma pechincha. Havia era que convencer os três jogadores da troca a irem para Istambul. Lembro-me da reação de resistência do Mpenza e da mulher, que adoravam Lisboa, e não queriam ir. Não era uma questão de dinheiro. Em 48 horas acabou por ir, com o Horvath e o Spehar. A reação do casal foi muito difícil de reverter.

A saída de Ronaldo aos 17 anos não foi precipitada?
Era difícil segurá-lo. Já tinham vindo a Lisboa o Arsenal, o Valência, o Barcelona também já manifestara interesse...

Ele tinha conhecimento que era pretendido pelos 'tubarões'?
Tinha. No caso do Manchester, fomos informados por Carlos Queiroz, que era adjunto de Alex Fergusen, do interesse no jogador, mas numa ótica de o contratarem mas ficar mais um ano em Lisboa. Entretanto, a 6 de agosto de 2003, a equipa do Manchester vem inaugurar o novo Estádio de Alvalade, que fazia parte do acordo da transferência. Aterram de manhã, jogam à noite, perdem por 3-1 e o Cristiano fez o que quis dos irmãos Neville. No fim do jogo, Ferguson pede à administração para reunir nessa mesma noite e diz que o Manchester paga mais e ele segue viagem. Não foi no mesmo voo, mas ficou logo feito um novo acordo para ir de imediato.

Trabalhou com a geração mais talentosa da academia do Sporting. A formação deixou de ser uma prioridade?
Nisso fui um privilegiado. Fui o primeiro diretor-desportivo a trabalhar com o Cristiano, um jogador que já está e ficará na história do futebol mundial. E trabalhei com o Quaresma, Moutinho, Patrício, Miguel Veloso, Adrien...Foi uma geração excecional, que cresceu tendo por base um projeto bem estruturado por profissionais altamente qualificados como Pedro Mil-Homens, Jean Paul Castro e Pedro Marques, que transitaram para a formação do Benfica, que deu o salto que está à vista nos últimos anos. E, desse tempo, não posso ser tão humilde ao ponto de me excluir do desenvolvimento da geração que acabou por ter sete titulares na final do Europeu de França.

A formação é uma das apostas do Vitória?
Depende do que se considera por formação. Passa por aproveitar aquilo que é o PIB dos clubes– o seu produto interno ainda em bruto – e descobrir fora aquilo que não se é capaz de descobrir dentro. Vamos apostar em jovens, pois não temos capacidade financeira para contratar o produto acabado. Vamos tentar descobrir talento em fase embrionária, trabalhá-lo pelo nosso padrão, colocá-lo na equipa principal e rentabilizar depois.

Os jogadores portugueses ficam mais caros do que os estrangeiros?
Objetivamente, os clubes portugueses, qualquer um, tem muito dificuldade em reter um jogador valioso. O português é muito apreciado lá fora. Não há jogo da seleção de sub 17, sub 19 ou sub 21 que não seja visto pelos observadores dos clubes com maior poderio financeiro. Qualquer jogo da formação dos nossos clubes de ponta têm observadores estrangeiros. Ou seja, os bons jogadores portugueses estão referenciados em todo o lado, e são uma marca de qualidade .

A procura é muito grande?
Muito. E toda a gente sabe que, em Portugal, é mais fácil 'comprar' do que em Espanha, França, Inglaterra, Alemanha ou Itália. Ou seja, é matéria-prima de qualidade a baixo custo. É o que toda a gente procura. Não temos capacidade económica para contrariar a saída dos nossos maiores valores. Basta ver que as seleções A, de sub 21 e sub 20, que são maioritariamente constituídas por jogadores que atuam no estrangeiro e muitos nos melhores clubes. Isto é, a federação tem beneficiado muito disso. Não podemos é querer tudo e mais alguma coisa.

A conclusão então é que o jogador português não precisa de ser defendido...
O que quer o jogador português, como todos os outros, é fazer o melhor contrato. Defendê-lo não é criar uma legislação que os obrigue a ficar no país. Não me parece que o direito de opção seja uma alternativa, até porque seria um retrocesso.

Afinal o que é que o futebol português tem que faz os seus profissionais serem tão pretendidos no mercado internacional?
A globalização e termos mantido a nossa matriz técnica. É preciso não esquecer o contributo, no início dos anos 90, de treinadores como Carlos Queiroz ou Jesualdo Ferreira, que trouxeram uma nova matriz organizacional, que as seleções aproveitaram bem. E tivemos dois embaixadores, Ronaldo e Mourinho, que nos fizeram acreditar que era possível ganhar lá fora. Foi esse convencimento, até alguma arrogância, que nos faltou em muitas situações. Houve jogadores de gerações anteriores que nada ficavam a dever aos que temos hoje, craques como António Oliveira, João Alves, Fernando Gomes, mas não vingavam lá fora por causa da saudade, da nostalgia. Faltava arrogância intelectual - hoje qualquer miúdo de 17 ou 18 anos vai lá para fora convencido de que vai vingar e fazer carreira.

Era uma geração muito caseira, provinciana?
Sem sentido pejorativo, era uma geração regional. Não lhe faltava nada em termos técnicos. O João Alves foi considerado o melhor estrangeiro da Liga espanhola a jogar no Salamanca, na altura do Crujff e outros craques. O Humberto Coelho, que foi dos primeiros jogadores a chegar a Paris, também esteve pouco tempo no PSG. A diferença é que o jogador português cresceu em termos psicológicos para aguentar a adversidade e o efeito Mourinho e Cristiano trouxe aos profissionais da área respeito pela produto português. Convenceram-nos que é possível chegar lá fora e deixar marca.

Nesse quadro anterior, o Futre não foi uma exceção?
É verdade. Já ia com um título de campeão europeu em 87, pelo FC Porto, e é apresentado pelo Gil e Gil como uma estrela.

Ser adorado no Atlético devia fazer-lhe bem ao ego...
Tinha uma inconsciência positiva que o ajudou imenso. Era muito genuíno, miúdo, ao ponto de não valorizar em demasia o saudosismo. E vai para Madrid acompanhado pelos pais. Não foi só ele que partiu, foi o agregado familiar.

Está surpreso com a notoriedade de Jorge jesus no Brasil?
Estava à espera que tivesse um impacto positivo em termos de campo. Trabalhei com ele em Braga, mas tinha expetativa para perceber como seria a paciência dos brasileiros em relação aos resultados. Ele teve a capacidade de somar sucessos. É altamente competente. Conheço-o há 30 anos e fico muito contente com o sucesso dele, reconhecido de forma tardia.