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É isto que faz um treinador de remates e livres: "Quero ajudar alguém a ser o equivalente ao Roger Federer no futebol"

Bartek Sylwestrzak é, pelas suas palavras, um ball striking coach. Trabalha com o Gent, da Bélgica e o Midtjylland, da Dinamarca, sempre com o mesmo objetivo: ensinar jogadores a bater a bola com várias técnicas, efeitos e gestos, e aprimorá-los. O polaco diz que Lionel Messi tem "uma técnica razoável, mas consistente", vê Cristiano Ronaldo a cometer "os mesmos erros e a ter dificuldades com os mesmos problemas há 15 anos", como "levantar a bola", e explica que Andrea Pirlo "demorou, talvez, quase uma década a aprender o que pode ser aprendido em meia época, ou num par de meses"

Diogo Pombo

D.R.

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O que faz, exatamente, um treinador de remates?
Portanto, o que faço é, essencialmente, ajudar os jogadores a melhorarem a qualidade dos seus remates, ao abordar todos os aspetos técnicos do balanço do pontapé. Além do trabalho técnico, que é o foco, há, também, um aspeto físico e mental a trabalhar. Mas, o componente fulcral é a técnica e tem a ver com o refinamento do movimento para que, dentro de um gesto técnico específico, seja qual for, ajude o jogador a atingir o nível mais elevado possível. O nível técnico pode ser avaliado objetivamente. Não é uma questão de alcançar uma certa meta subjetiva, é mais uma questão de ser, de facto, possível, porque ao estudarmos estas coisas aprofundadamente, conseguimos definir o que é qualidade top. E o meu trabalho é ajudar os jogadores a chegarem a esse nível.

Quando começas a trabalhar com um jogador, os objetivos são definidos apenas por ti ou é algo discutido em conjunto?
É uma boa pergunta. Por um lado, há elementos universais e princípios biomecânicos no movimento que o jogador tem de respeitar para executar uma certa técnica. Por exemplo, uma das que trabalho mais frequentemente é o livre em top spin, porque os jogadores querem muito fazer com que a bola desça, o que, tecnicamente, é difícil. Em termos de biomecânica, um jogador tem de fazer certas coisas para isso acontecer. Não é uma coisa subjetiva. Por outro lado, e daí o meu trabalhar ser feito, sempre, a nível individual, todos os jogadores são fisica e mentalmente diferentes. Em termos puramente técnicos, um jogador vai aderir a um certo princípio de forma distinta à de outro jogador.

Cada um tem a sua maneira de rematar a bola.
Exatamente. Todo o jogador tem um corpo diferente, um formato de pernas diferente, um estilo diferente e uma predisposição diferente para aprender uma certa técnica. Quando estou a ensinar um jogador, tenho de lhe ensinar as coisas certas, mas, ao mesmo tempo, tenho em conta o que é melhor para ele. Por isso, todo o trabalho aprofundado, em termos técnicos, tem de ser feito de forma individual.

Imaginemos que amanhã começas a trabalhar com alguém. Quanto tempo demora, em média, até se começar a ver progressos?
Como deves imaginar, essa é uma pergunta sem resposta. Quando começo a trabalhar com um jogador, a primeira coisa que faço é gravar, em vídeo, o nível que ele tem. No geral, o maior paradoxo no futebol é o ato de chutar a bola não ser desenvolvido sistematicamente. Logo, vou começar a trabalhar com um jogador que, provavelmente, nunca teve qualquer treino, que é o caso de todos os futebolistas com quem trabalho. Seja na Premier League ou noutros campeonatos, eles nunca foram treinados a este nível. Começamos a partir do zero. Outra decisão que tenho de tomar é quais serão as técnicas em que o devo gravar. Discuto com o jogador sobre o que ele quer e tem aprender, o que o ajudará mais no seu jogo. Com os vídeos, decido quais são os fatores técnicos em que nos devemos focar, porque não há um modelo que se possa aplicar a todos os jogadores. É isto que torna no melhor trabalho do mundo! É tão fascinante e aprofundado trabalhar com um jogador, sempre de forma diferente, para o ajudar a evoluir o mais rapidamente possível, tomar decisões em função disso e, depois, vês progressos vindos de correções técnicas que dás ao jogador.

Podes dar um exemplo?
Posso receber um jogador totalmente cru a nível técnico. Nunca trabalhou estes aspetos. E, digamos, o seu potencial físico pode não ser o melhor - ou seja, pode não ser muito explosivo e a explosão é algo que precisamos no gesto de rematar -, o que pode abrandar o progresso. Ou, por outro lado, podes receber um jogador que já teve algum treino, tem algumas bases e princípios que entendeu sozinho, e, às vezes, basta aplicar algumas alterações e o jogador passa a outro nível muito rapidamente. Pode acontecer. Contudo, este trabalho tem sempre de ser visto como um compromisso a longo-prazo. Não digo a ninguém que vou fazer um truque de magia e, de repente, as coisas mudarão. Não é assim que funciona, é imprevisível. Mesmo que um jogador perceba o que tem de fazer e seja capaz de o executar, precisas de tempo para o refinar e lhe dar consistência e eficácia. Porque isto não é uma questão de um jogador ter, ou não, uma certa técnica de remate. É uma coisa relativa é contínua, é uma questão do quão bom és, por exemplo, a bater um livre em top spin.

Tudo isto, porém, vai contra o que os clubes e dirigentes de futebol querem: resultados a curto-prazo.
Claro. É um dos maiores problemas e erros, porque tens de ter a certeza que terás tempo para trabalhar com o jogador. Também é por isso que faço grande parte do meu trabalho, sobretudo nos últimos anos, diretamente com os jogadores. Eles sabem que estão melhorar, sentem-se a melhorar e não pensam, apenas, no resultado do próximo sábado ou domingo. A abordagem de muitos clubes é diferente. Apesar de mudanças rápidas serem possíveis e vários jogadores, ao fim de uma sessão, já saberem o que têm de fazer, se estamos a falar de qualidade top, será sempre um processo a longo-prazo.

D.R.

Como é que os treinadores principais encaram o teu trabalho?
Para ser honesto, além do par de técnicos que ensinei, não conheço ninguém a fazer este tipo de trabalho técnico, pelo menos como eu o faço. É estranho. Em termos da abordagem com os treinadores, varia muito. Há quem aceite, apoie e, aí, tenho a hipótese de fazer uma grande diferença junto dos jogadores. Quanto maior fé e tempo me derem, maior será o resultado. Primeiro, há que elevar o jogador a um bom nível de técnica e consistência, onde, em termos de livres diretos, qualquer livre se transforme numa real oportunidade para marcar um golo. Se trabalhares com um jogador durante meio ano, mas ele ainda não tiver marcado, e já não puderes treiná-lo mais, essa é, precisamente, a altura em que se poderia esperar que ele, realmente, começasse a marcar a golos.

Então, seis meses é um tempo aceitável até se começar a ver resultados?
Aconteceu bastantes vezes, sobretudo ao início, quando comecei a trabalhar nisto. Há treinadores que te vão dar esse tempo, mas, muitas vezes, não é o treinador principal que te contrata para fazer este trabalho - é o clube, ou talvez o presidente, ou o diretor desportivo. Aí, claro, há muitas histórias sobre o que pode acontecer [ri-se]. Diria que é costume eu ter de trabalhar num contexto em que foi o jogador quem, realmente, quis participar, sem que o treinador principal esteja focado nisto, mas que permita acontecer. É assim que estas coisas funcionam. Para alguém tão focado no trabalho técnico, as coisas não são simples, mas, de momento, se estiver a trabalhar com um clube ou cliente, o mínimo que espera é que me dêem tempo. Se não estiverem dispostos, simplesmente não aceito o trabalho.

É habitual acharem o teu trabalho um pouco intrusivo?
Tenho notícias para ti: às vezes, acontece que os resultados conveçam o staff de que vale a pena investir neste tipo de trabalho, mas, como há tantas pessoas num clube a competirem por tempo, quando te vêem a fazer algo que melhora o jogador e o faz marcar golos, algumas ficam felizes, embora não todas. Porque há pessoas que queriam ter esse contacto com o jogador. Por exemplo, podes ter um preparador físico a pensar: 'Por que razão um jogador aparece mais cedo para trabalhar com o Bartek e não comigo, no ginásio? Não gosto disso'. Grande parte da motivação no futebol tem a ver com o medo - medo da derrota, medo de perder o emprego. Consultei vários especialistas para garantir que, no meu trabalho, a probabilidade de existirem lesões ser, praticamente, inexistente, mas, se alguém pensar que há 1% de hipóteses de um jogador contrair um problema físico, então não vai querer que esse jogador trabalhe comigo. Mesmo que o progresso exceda, em muito, a probabilidade de lesão, porque o risco é mínimo. O medo dificulta as coisas, mas, por norma, se um jogador quiser mesmo ter este trabalho, arranjamos maneira de tudo acontecer.

Costumas agendar o teu treino antes ou depois das sessões conjuntas com a equipa?
Nos últimos 10 anos, tento aproveitar qualquer oportunidade para ter contacto com o jogador. Recentemente, num clube no qual fui consultor, havia um jogador muito bom que não era considerado para a lista de quem batia as bolas paradas. Com ele, trabalhei antes do pequeno-almoço da equipa. É uma excelente janela de oportunidade, porque o jogador está fresco e tem tempo para comer e recarregar energias antes da sessão com a equipa. É a janela de oportunidade que tento sempre aproveitar. De uma perspetiva física, uma carga moderada de trabalho de rematar a bola não vai cansar o jogador para o treino com a equipa. Se for ao contrário, ele chegará cansado. É excelente, o trabalho é produtivo e a sessão normal com a equipa não é prejudicada, porque fazer 30 remates com cada perna não te vai cansar.

Mas, imaginemos, um jogador tem um livre direto aos 88 minutos no jogo e está de rastos. Não é importante treinar isso, mentalmente?
Bom, a tua prioridade, dentro de uma janela de tempo limitada, é tornar o treino tão produtivo e fazer com que o jogador progrida o mais possível. Vais ajudá-lo muito mais se trabalhares 1 hora com ele fresco, do que 15 minutos quando ele estiver cansado. Depois, quando trabalhas com um clube, há tantas variáveis em jogo que não é garantido que eu tenha o jogador antes do treino com a equipa. Podes ter um, dois ou três jogos numa semana, seja o que for. Há muita gente que precisa de ter contacto com os jogadores. Portanto, vou trabalhar com o jogador em vários contextos diferentes ao longo de alguns meses. Trabalhar com um jogador depois da sessão conjunta seria uma boa preparação para a situação que mencionaste, do ponto de vista físico. Mas, psicologicamente, se um jogador não aderir a certos princípios, o treino não será eficaz. Por exemplo, num treino em que haja uma parte para treinar livres, alguns jogadores vão batê-los, um deles falha e, se calhar, os outros vão rir-se, comentar e até os treinadores vão fazer uma piada. Isso acontece muito. Como é que esperam que um jogador se concentre na sua técnica, no gesto de balançar a perna, na posição do pé, se sabe que será gozado se falhar o pontapé?

Será sempre uma questão de tentativa e erro.
Claro. Mesmo quando estou sozinho com um jogador, atrás dele, a dizer-lhe exatamente o que tem de fazer, vai levar tempo até que seja capaz de o executar. A primeira coisa que digo ao jogador é para esquecer o alvo e marcar golos, porque, habitualmente, quando falham nos treinos, a primeira coisa quem um treinador diz é 'ó, tens de acertar na baliza'. Mas acham que o jogador não sabe isso?

Outra coisa que se costumava ouvir muito é para quem remata inclinar o corpo para a frente.
Exatamente, e isso é um disparate biomecânico. Não é verdade. Ou seja, ou não recebes qualquer feedback técnico, ou recebes feedback errado. Esse tipo de coisas é dita em Inglaterra, na Alemanha e em outros sítios. De uma perspetiva mental, para um jogador estar preparado para render sob pressão, é preciso prepará-lo tecnicamente. Primeiro, tenho de fazer com que o processo técnico seja o mais produtivo possível e, por isso, não quero ninguém, sequer, a assistir à sessão. É muito raro autorizá-lo. Crio um ambiente em que os erros são totalmente aceitáveis. Esperar que um jogador evolua em contexto de equipa é impossível. Depois, render sob pressão é um capítulo à parte.

Como se treina essa vertente?
Para um jogador ser confiante sob pressão, o primeiro passo, mentalmente, é preparar o jogador tecnicamente.

Para ganhar confiança.
Sim, porque ter confiança significa confiar em alguma coisa. Por exemplo, se tiveres um bom movimento na perna, tens algo no qual confiar. Se não tiveres o swing, qualquer exercício mental que faças com o jogador valerá nada, porque, simplesmente, ele não tem essa capacidade. O primeiro passo é preparar o jogador a nível técnico, ajudá-lo a tornar-se consistente e quando bater um livre top spin com qualidade - digamos, 8 em cada 10 pontapés -, a maioria do trabalho mental já estará feita. Depois, fazes o jogador aplicar este conjunto de técnicas sob pressão, no treino, batendo livres à frente da equipa, com guarda-redes, ou aplicar condicionantes, como ter de marcar x vezes em x tentativas. A pouco e pouco, introduzes dificuldades que tornem o treino mais realista e, até, mais difícil do que seria em situação de jogo. Sobrecarregas o jogador tecnica e mentalmente.

Basicamente, passa por sobrecarregá-lo com desafios e estímulos?
Exato. E, por último, ajudas o jogador a desenhar uma rotina pré-performance. Ele precisa de ter uma rotina muito sólida que o prepare para o gesto de rematar a bola. Por exemplo, a posição em que ficas antes do movimento de aproximação à bola, ou no que pensas antes, pois não podes estar a pensar em 10 coisas ao mesmo tempo.

Dizes aos jogadores para visualizar o sítio onde a bola vai entrar na baliza?
A visualização da trajetória é um elemento, mas há diferenças consideráveis no que os jogadores escolhem pensar. Alguns optam por nem visualizar, outros fazem-no muito, há quem imagine as coisas erradas que podem acontecer. Mas, para muitos, visualizar a trajetória da bola que querem atingir é importante.

A posição do corpo, a aproximação, o balanço, o gesto da perna, a parte da bola a atingir, o pé de apoio. Há jogadores que se queixam de terem de pensar em demasiadas coisas ao mesmo tempo?
O aspeto chave do meu trabalho é traduzir conceitos biomecânicos e técnicos difíceis em pedaços de informação simples, transmitidos em doses certas, que sejam compreendidos facilmente. Quando começo uma sessão com um jogador, não estou a dar uma aula sobre Biomecânica, estou, sim, a ajudá-lo a melhorar o gesto de rematar. Não posso esperar que um jogador pense em 10 coisas. Escolho um elemento técnico, mostro ao jogador, com a câmara, o que fez e o que precisa de fazer, as diferenças e pronto. Trabalhamos em dezenas de elementos, mas um de cada vez, sessão atrás de sessão. Se um jogador se sentir confuso ou sobrecarregado de informação, isso significa que, enquanto treinador, não fizeste as coisas certas. Em termos de comunicação, deste-lhe demasiada informação técnica.

E, no meio de tudo isso, há que desafiar o jogador.
Se ele não for desafiado, não vai evoluir. A coisa mais triste que acontece em muitas sessões é que não são apresentados quaisquer desafios aos jogadores. O que têm de fazer tecnicamente - a posição do pé, a postura do pontapé, ou, se for um treino conjunto, o que é suposto um jogador fazer, exatamente. O jogador tem que receber um desafio específico que o faça ir além do nível em que está atualmente. Tento sempre encontrar o balanço perfeito entre sobrecarregar o jogador e fazê-lo na dose na certa. Comigo, não há uma sessão em que o jogador apareça e se limite a rematar, sem pensar em nada. Temos sempre um objetivo específico a atingir, sempre.

Num treino normal, com a equipa, o que pedem ao jogador é, simplesmente, que acerte na baliza e marque golo?
Sim. E, se falhar, não lhe dizem o porquê de ter falhado ou o que tem de melhorar. Não existe informação técnica, nem um desafio. Essa é a chave do meu trabalho. Porém, no geral, trabalho com jogadores que estão comprometidos com o trabalho, porque, se não estiverem, não vão ficar mais tempo nas sessões para treinar. Os jogadores que abraçam o processo são quem aprecia o desafio, porque é interessante. É o desafio que faz um jogador evoluir e perceber as melhorias. O desafio faz parte da nossa natureza humana, devíamos estar sempre a aprender, não fomos criados para estarmos sentados, a fazer nada. É comum que, assim que passem a profissionais, os futebolistas deixem de receber feedback técnico, ou recebem muito pouco, mas é esperado que produzam resultados ao sábado e não errem. O desenvolvimento técnico, por vezes, nem faz parte da agenda de um clube, no futebol sénior, porque tudo que consta na agenda é ganhar. Os jogadores gostam de aprender. Quando lhes mostras vídeos, quando eles começam a sentir a evolução e a marcar golos em jogos... É por isso que faço o que faço.

Mas, quando trabalhas a tempo inteiro num clube...
Nunca estou full time num clube. Nunca. Prefiro trabalhar como consultor, por várias razões. Como deves entender, nunca sabes o que vai acontecer e preciso de ter liberdade para tomar decisões sobre com quem vou trabalhar ou o ambiente à volta do treino. Nunca aceitaria trabalhar a tempo inteiro num clube, nunca o fiz, nem tenciono fazer.

És sempre tu que escolhes os jogadores?
Bom, o processo de seleção envolve várias pessoas. O clube pode ter um certo grupo de jogador, ou um em específico, nos quais quer investir. Claro que direi sempre ao clube se o jogador está empenhado, ou se está a ser produtivo. Há jogadores que vão retribuir o tempo investido muito rapidamente, mas, com outros, vais precisar de muitas sessões para ter resultados. Os jogadores escolhidos costumam os que jogam mais vezes, os mais prováveis de bater livres ou os que estão a evoluir mais depressa.

Já trabalhaste com que clubes?
O clube com o qual tenho a relação mais longa e bem sucedida é o FC Midtjylland, da Dinamarca. São um clube bastante inovador e criaram um excelente ambiente para eu trabalhar. Tem sido muito produtivo. Em anos recentes, até me tenho afastado um pouco do trabalho com clubes, porque, normalmente, é o jogador, ou o seu empresário, que me contactam diretamente. Trabalhar com um clube representa muitos desafios e, no geral, quero ser capaz de me focar na vertente técnica e manter-me afastado da 'política'. Aqui em Inglaterra, também tive uma longa relação com o Brentford [atualmente no Championship] e, hoje, trabalho com o Gent, da Bélgica. Tenho muito cuidado com quem escolho trabalhar e, em regra, o melhor é fazê-lo individualmente.

D.R.

Resumindo, qual é o teu objetivo?
Digamos que quero ajudar alguém a ser o equivalente ao Roger Federer no futebol, ao alto nível.

De todos os jogadores que já viste, quem achas que mais se aproximou dessa analogia?
Uso muito a comparação com o Juninho Pernambucano. É o melhor de sempre. Foi quem marcou mais vezes [76 golos de livre], dominava várias técnicas e não confiava em apenas uma. O Juninho é o mais próximo de um equivalente ao Roger Federer. Sei que isto vai ser uma declaração um pouco ousada, mas, ao fim de 20 anos a estudar esta área, sei que é possível bater livres melhores do que os do Juninho. A sua técnica de top spin foi uma inspiração para mim durante muitos anos, mas acabei por reparar que há certos detalhes técnicos que podiam ser melhorados, para a bola sair mais rápida.

Podes dar um exemplo?
Não [ri-se]. Estou a brincar. O que quero dizer é que são detalhes tão aprofundados que teríamos de nos sentar a ver vídeos e observar aspetos muito específicos na forma como ele rematava. Se um exemplo como o Juninho for a tua referência, claro que as melhorias serão marginais, mas são alcançáveis e possíveis. Ele foi a minha maior inspiração e é o melhor jogador preferido, nesta área, não há dúvida. Foram os seus livres que me mantiveram no campo, durante milhares de horas. Digamos que o Juninho é o mais próximo que há ao Roger Federer.

E mais jogadores?
Também houve o Marcos Assunção, que é um batedor de livres mesmo muito subvalorizado. É dos raríssimos jogadores cujo gesto de remata considera ser de qualidade top. Comparo o Marcos Assunção ao Rafael Nadal pois, apesar de não ter a versatilidade ou o estilo do Federer, tem uma técnica, que é o top spin, em que era tão incrivelmente bom que, em três épocas no Palmeiras, na parte final da carreira, marcou 25 golos de livre. Se vires estatísticas de jogadores considerados bons a marcar livres, terão que jogar muitos anos até chegar perto desse número. A maioria dos livres do Marcos Assunção eram em top spin e o seu gesto técnico também foi uma das minhas inspirações. Ele e o Juninho, mesmo batendo na bola de forma diferente, eram ambos capazes de aplicar o efeito top spin. O Assunção não tem o reconhecimento que merece pelo que fez. Era incrível. E apontá-lo-ia, sem dúvida, como alguém a ter como referência.

O Juninho também dominava a técnica knuckleball, que a bola é batido com força, sem rotação. O Miralem Pjanic não é um dos melhores a bater este tipo de bola?
Mencionaria o Pjanic como alguém que demonstrou ter uma técnica muito decente. Claro que eles chegaram a jogar juntos no Lyon. Diria sobre o Pjanic o mesmo que disse, há uns anos, sobre o Wesley Sneijder, que pensava que seria excelente a rematar a bola. Ou sobre o Cristiano Ronaldo, que comete os mesmos erros e tem dificuldades com os mesmos problemas há 15 anos. Voltando ao Pjanic, através da observação e da prática, poderia aprender certas coisas, mas existem muitas que não compreende, porque não estudou, durante 20 anos, a técnica de remate, de uma perspetiva técnica. Ele faz o que pode, atinge um certo nível e mantém-no. O Pjanic é um dos jogadores de alto nível cujo potencial não é cumprido. De facto, há vários gestos nos quais não é muito bom, e poderia ser, caso recebesse as informações técnicas corretas.

E outros jogadores?
O Andrea Pirlo, por exemplo, tentou copiar o Juninho durante a carreira. O Pirlo conseguiu progressos muitos bons, marcou vários livres, mas, de novo, há muitas coisas que ele poderia e deveria ter feito melhor. E, depois, demorou muito tempo até chegar ao nível a que chegou - e isso não é o nível Federer de que estamos a falar. O que o Pirlo demorou, talvez, quase uma década a aprender, pode ser aprendido em meia época, ou num par de meses. Conheço o processo por dentro, porque não tive ninguém que me ensinasse. Quando comecei, tive que experimentar sozinho, durante muitas horas, e, semana atrás de semana, mês após mês, ano a ano, lentamente fui descobrindo os elementos que fazem um bom gesto de remate. Mas um jogador profissional não tem tempo para fazer isso. Assim que chegar a um patamar em que conseguiu uma boa evolução, já se terá reformado.

Nunca terá tempo, nem ajuda.
Durante a semana, será sempre muito limitado. Como disse, devido ao medo, existe sempre preocupação em autorizar um jogador a realizar treino extra. Há sempre o medo de lesões. Mas, mesmo que um clube seja razoável em relação a isto, não há assim tanto tempo disponível. E, mesmo que um jogador bata 20 livres, se ninguém lhe disser nada, e se ele não souber o que está a fazer, pode fazê-lo durante 20 anos e nunca evoluir.

Que erros identificas na técnica de remate do Ronaldo?
Com o incrível potencial que tem, é um dos jogadores cujo potencial, em termos de gesto técnico de remate, é fantástico. Mas tem cometido os mesmos erros há quase 15 anos e não é capaz de os corrigir. Começou a desenvolver um gesto, lembro-me que chamou-me a atenção e achei muito interessante, mas, depois, não soube levá-lo mais longe. Um dos seus maiores problemas é levantar a bola. Há pouco tempo, a Juventus divulgou uns números e creio que ele tinha acertado na barreira em 20 dos 29 últimos livres. Tem dificuldades, não sabe como resolver o problemas e se tem 50 ou 60 livres durante uma época, como lhe acontecia no Real Madrid, já poderia ter quebrado muitos recordes se tivesse o feedback técnico adequado. Isso não acontece porque, mesmo num jogador com a sua qualidade, tem de lhe ser dito o que deve fazer. O Ronaldo não é um treinador com 20 anos de experiência. Há muitos jogadores que não cumprem o potencial que têm devido a falta de feedback técnico e o Ronaldo, para mim, é um dos melhores exemplos.

O Cristiano é um jogador que opta sempre pela mesma técnica. O único livre que me recordo de ele bater em jeito, com efeito, foi contra a Espanha, no último Mundial.
Correto, ele mudou ligeiramente o gesto de remate. Apesar de ter sido golo, não diria que, tecnicamente, tenha sido um grande livre direto. Basicamente, bateu-o com muito menos força que o habitual e, por não ser capaz de levantar a bola muito bem, ou de lhe aplicar um efeito para a frente, foi uma espécie de remate misto - muito efeito para dentro, menos força. Acho que esse golo contra a Espanha foi o primeiro de livre direto em 45 tentativas em grandes competições internacionais. O Ronaldo seria capaz de bater livres tecnicamente melhores, mas o jogador tem de saber, exatamente, o que fazer para o conseguir. É compreensível que um futebolista não consiga chegar lá sozinho, porque a biomecânica é difícil.

E como avalias a técnica de remate de Lionel Messi?
O Messi é quase um oposto ao Ronaldo, em termos de livres diretos. Tecnicamente, o que ele faz não é nada de especial, o gesto é bastante razoável. Mas, é consistente e eficaz. Quando falámos de qualidade top e fizemos a comparação com o Roger Federer, o objetivo é ajudar o jogador a atingir o nível técnico mais elevado possível e, aí, chegar à máxima consistência. Ser capaz de produzir o gesto perfeito uma e outra vez. O Messi é como outros jogadores que também tiveram algum sucesso em livres diretos. Tecnicamente, não é nada de especial, não é um gesto que usaria como referência. Há uns meses marcou um livre em que picou a bola sobre a barreira, à entrada da área. Não foi um bom remate. Mas, claro, como foi o Messi, toda a comunicação social o elogiou e falaram num livre à Panenka. Não é verdade, não podemos deixar que esses disparates nos enganem. A questão é que, tecnicamente, não é qualidade top, longe disso. Mas é consistente e eficaz.

A verdade é que tem marcado muitos golos de livre direto. Foram 19 nos últimos dois anos.
Vários jogadores ao longo do tempo tiveram algum sucesso com gestos técnicos que, não sendo excelentes, os fizeram marcar golos através do treino, da repetição, da e da consistência. O Messi é isso. O Ronaldo é um pouco diferente, porque inventou algo diferente, mas não foi capaz de abordar outros problemas nesse gesto técnico. É por isso que tem sentido dificuldades. O Messi é o oposto, tem um gesto convencional, curva a bola de forma clássica, mas tem uma boa eficácia.

Além de todos estes jogadores de quem já falámos, há mais algum de quem gostes particularmente?
Sei que será uma resposta desapontante, mas, ao colocar os objetivos tão lá em cima, não existem jogadores que indicara como sendo, realmente, excelentes. Sei que é cruel, mas estou a ser sincero. Voltando à comparação com Federer, se queremos alguém parecido no futebol, então não existe ninguém. Nem sequer lá perto. Há outros jogadores com qualidade decente, como o Gareth Bale, que melhorou muito desde os tempos do Southampton, onde batia os livres diretos com efeito e, mais tarde, já os marcava em top spin, uns sete anos depois - o que podia ter apreendido em meia época. Houve alguns remates do Kevin de Bruyne, mas não os classificaria de incríveis.

O De Bruyne não tem mais qualidade a rematar de bola corrida?
Sim, tem um pontapé decente. Recentemente, também o Leroy Sané teve uns livres diretos com alguma qualidade, tem um gesto entre um top spin lento e uma knuckleball. Além destes, não mencionaria muitos mais jogadores.

Quanto a técnica de passe longo, o que achavas do Xabi Alonso?
Era um dos jogadores cujo passe longo tinha um bom gesto técnico. Era limpo e tinha um ponto de contacto muito bom com a bola. Em termos de passe curto, a forma de tocar na bola não é o fator decisivo, é mais a tomada de decisão. Mas, nos passes a longa distância, a capacidade técnica é a chave. Também trabalho esse gesto. Quando é dominado, isso permite a um jogador melhorar a eficácia de passe e o raio de ação. O gesto técnico do passe longo é, provavelmente, o mais fácil de aprender, sem dúvida mais acessível do que remater com efeito top spin.

Basta cortar a bola, frontalmente?
Não é uma má maneira de o descrever, mas existem muitos elementos que interessam. Descreveria o gesto do passe longo como muito mais perdoador. Por exemplo, num livre top spin, basta um pequeno erro para pagares caro, porque é um swing muito explosivo e precisas sempre do efeito para a frente. Mas, num passe longo com efeito para trás, vais sempre ser capaz de produzir essa rotação. Não vais ter outro efeito. É mais fácil em muitos aspetos e, quando é dominado, torna-se uma arma poderosa. É curioso que não há assim tantos jogadores que tenham aprimorado a técnica do passe longo até a um nível elevado, porque muitos espetam o pé na bola, sem um movimento limpo e fluído. Se olharmos para jogadores como o Beckham, o Alonso ou o Pirlo, são gestos, tecnicamente, muito bons e, como resultado, foram incrivelmente eficazes em longa distância.