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Vítor Murta: “O Boavista não é da família Loureiro. É dos sócios”

Após duas gerações, os destinos do Boavista deixaram de estar sob o ceptro do clã Loureiro quando Vítor Murta foi eleito como presidente. O advogado, esta quarta-feira constituído arguido numa investigação de fraude fiscal e branqueamento de capitais, chegou a trabalhar pro bono nas causas do clube do coração, no âmbito do processo "Apito Dourado". Dizia ter Valentim Loureiro como a sua maior referência no futebol, considerava utópico repetir tão cedo a proeza do título e que dava as boas-vindas a um parceiro externo que injetasse uns milhões na SAD. Esta entrevista, que a Tribuna Expresso republica, foi originalmente publicada a 18 de dezembro de 2018, pouco depois de Vítor Murta chegar à presidência do Boavista

Isabel Paulo

Rui Duarte Silva

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O que o levou a candidatar-se à presidência de um clube, feudo da família Loureiro?
O clube nunca foi de uma família. É meu, é dos sócios. Tinha de haver um momento de final de dinastia. Chegou, e sinto-me preparado por conhecer por dentro toda a realidade do Boavista. Mas se perguntar quem é a minha referência é o major Valentim Loureiro, com quem procuro aconselhar-me.

Que deixou de assistir aos jogos...
Nunca deixou de gostar do Boavista, foi ele que o criou. Fica aqui uma promessa. Vou tentar convencê-lo a vir. Entra aqui e dá uma luz a este clube. Toda a gente o ouve.

O título foi obra do filho e a marca do pai?
O título foi mérito de João Loureiro, um grande presidente, mas sem esquecer que herdou um legado e património. Jaime Pacheco foi o campeão, mas o treinador que lançou a equipa foi Manuel José. As coisas não acontecem do nada. Até digo mais: o major nunca foi campeão porque nunca o ambicionou.

A família Loureiro ainda é o maior acionista privado da SAD?
É o segundo, depois do clube, com cerca de 20% do capital e a seguir à Olivedesportos.

Em entrevista de despedida, João Loureiro disse que o Boavista foi despromovido por ter feito mossa aos grandes. Foi vítima do sucesso?
Não sei se pagámos essa fatura. Aconteceu, não nos vamos desculpar mais. O importante é o futuro.

O que vai mudar?
Não haverá revolução, até porque já aqui estou como diretor há seis anos e presidente-adjunto desde 2016. Quero trazer mais adeptos ao estádio, daí termos em curso pacotes de bilhetes-família a preços mais convidativos. O futebol é caro e sou sensível às dificuldades dos associados. Lembro-me de ser miúdo e eu e o meu pai pouparmos dinheiro para as quotas às escondidas da minha mãe. Vínhamos os dois ao Bessa, depois de o ajudar a limpar o supermercado. É preciso reconquistar uma geração, que tinha 16/18 anos quando a equipa desceu de divisão e deixou de vir aos jogos.

Como é ser boavisteiro numa cidade dominada pelo culto do Futebol Clube Porto?
É como pertencer a uma minoria. Era o único da minha escola, e o meu colega de carteira era salgueirista. Em pequeno era complicado, metiam-se connosco. Na faculdade, já o meu Boavista ia nos primeiros lugares. Daí ter sido tão difícil descer aos campeonatos secundários.

O clube tem condições de voltar a lutar pelo título ou foi um alinhamento de estrelas perfeito?
É utópico pensar nisso tão cedo. No futuro, sim. Quando fomos campeões, se me perguntassem se iríamos descer, diria que era impossível. O futebol é o momento...

No caso português é quase um monopólio dos grandes.
Cada vez mais, devido à disparidade de receitas. Basta ver que temos €3 milhões de receita televisiva e o Porto mais de €30 milhões. Sem esquecer que temos autarquias e governos regionais que distorcem o fair play financeiro entre clubes. Há clubes que têm estádios construídos pelas câmaras, como o Guimarães ou o Braga, que paga de renda menos do que custa um T1 no Porto: €500. Não lutamos com as mesmas armas e fomos campeões.

O Braga anda lá perto...
Tem andado, o que não nos retira o título de quarto grande.

Está a falar de história.
O Sporting só ganhou um título nacional depois de nós e não é por isso que deixou de ser um dos grandes. A história conta.

Rui Duarte Silva


Um parceiro externo na SAD é uma das suas metas?
Um investidor disposto a injetar uns milhões era bem-vindo. Desde que seja uma entidade credível. Se descaracterizar a nossa identidade, preferimos andar pelos nossos pés; não queremos entregar o ouro ao bandido. A nossa missão neste mandato passa por ter melhores condições de treino na área metropolitana do Porto. Temos junto ao Bessa um campo sem as dimensões regulamentares e queremos evitar que a equipa ande com a casa às costas a treinar em São Pedro da Cova, Sandim e nos Aliados de Lordelo.

Ter um centro de treinos fora da cidade, como o FC Porto, que teve o apoio da Câmara de Gaia?
Ou o Benfica no Seixal. Vamos ver se há uma entidade que nos queira abrir a porta. Dar melhores condições à equipa principal, construir algum património e investir mais na formação são as minhas prioridades. Acima de tudo, temos de ganhar mais vezes, por isso o Caetano já está a preparar a próxima época.

No mercado de inverno, vai haver entradas e saídas?
Falei com Álvaro Braga e Jorge Simão. Vamos ao mercado cirurgicamente. Os alvos estao definidos e haverá novidades após o jogo com o Portimonense.

A SAD está intervencionada por um PER (plano especial de revitalização). As contas no vermelho não são pouco atrativas para um investidor?
Com a aprovação do PER, deixámos de ter a intervenção de um administrador judicial. É o momento certo para captar um parceiro externo por termos consolidado o passivo. Credibilizamos as contas e projetamos o pagamento da dívida em 12 anos. Temos um documento do tribunal que é a bíblia dos ativos e passivos do Boavista. Os grandes têm passivos enormes e vão gerindo com recurso à banca, nós há anos que não vemos um tostão.

Por falta de garantias?
É natural e não é mau. Gere-se o que se tem, sem a tentação de ir buscar mais para gastar. E temos os salários em dia.

Qual é o valor do passivo?
Na casa dos €25 milhões.

A dívida maior é ao Estado?
Sim, embora o PER tenha tido o condão de nos reduzir os juros vencidos ao Fisco em 80% e vincendos a uma taxa baixa.

A dívida mais antiga é a Jaime Pacheco?
A antigos jogadores e alguma coisa à banca. O Jaime é um amigo do Boavista. Queremos resolver isso, pois reclamam o que é deles.

Na tomada de posse transmitiu o apoio aos Panteras Negras. Não foi o momento errado, ao saber que três elementos da claque vão permanecer em prisão preventiva por agressões?
Foram detidos em agosto, nos Açores, numa rixa num restaurante que nada teve a ver com futebol. O Benfica jogou na Madeira, houve tumultos e ninguém foi preso. É óbvio que condeno a violência, mas a justiça tem de ser igual para todos. No continente, ninguém vai preso por andar à porrada num restaurante.

A equipa segue em 15º lugar. Jorge Simão queixa-se que os árbitros estão condicionados pelo rótulo de equipa caceteira...
Somos uma equipa de virilidade positiva. Quando digo que o Boavista não é respeitado, falo de factos, de uma série de jogos em que fomos prejudicados pela arbitragem. O VAR não existe para salvaguardar os direitos das equipas mais pequenas. Existe para os grandes não serem prejudicados.