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“Os guardas dizem-me que Portugal precisa de gente como eu e que esta prisão não é como as outras - esta é o paraíso”

Preso há nove meses na cadeia da Polícia Judiciária, em Lisboa, Rui Pinto, o rosto do Football Leaks, deu esta semana a sua primeira entrevista desde que foi extraditado para Portugal. Falou em exclusivo à revista “Der Spiegel”, parceira do Expresso no consórcio European Investigative Collaborations (EIC), sobre a sua experiência na prisão e o impacto das denúncias que fez

Maria Feck

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Alguma vez imaginou que o Football Leaks podia acabar consigo preso em Lisboa?
Estava ciente de que qualquer coisa podia acontecer. Sabia que as autoridades portuguesas perseguem os denunciantes, tinha de estar preparado para isso.

Como é que os guardas o tratam?
Não tenho razões de queixa. São extremamente educados. Falamos muito. Eles dizem que a prisão não é sítio para mim e que o país precisa de mais pessoas como eu, dispostas a lutar contra a corrupção e os conflitos de interesse.

Chegou a estar em isolamento mais de seis meses. Agora tem contacto com outros detidos?
Sim. Pude movimentar-me no início de outubro e agora passo algum tempo numa área com outros presos a quem é permitido trabalhar na prisão. Cozinham, lavam roupa, gerem uma pequena loja. Posso sair da cela e passar algum tempo com eles, mas não posso trabalhar. Não posso ir ao pátio central no exterior. Houve uma ordem do diretor da prisão nesse sentido.

O que sabe dos outros presos?
Muitos estão em prisão preventiva, como eu, mas alguns já foram condenados. Há muitos sul-americanos, alguns apanhados em tráfico de droga.

Quando o entrevistámos, em janeiro, tinha receio de ser confrontado com violência nas prisões portuguesas. Esse receio confirmou-se?
Até agora não testemunhei nenhum comportamento violento. Mas os guardas também me dizem que esta prisão é o paraíso, comparada com outras do resto do país.

Como é que o isolamento o afetou psicologicamente?
Primeiro, foi muito difícil. Somos todos seres humanos e precisamos de contacto com outras pessoas. Mas tive de aceitar a situação e adaptar-me. Foi muito importante não perder o foco. Serei acusado de crimes que não cometi, mas não vou denunciar ninguém.

O foco em quê?
As autoridades portuguesas têm medo do que eu sei, e é por isso que é importante que eu não perca a cabeça. No início tirei notas relacionadas com o meu processo no meu caderno, mas depois tiraram-mo. A minha advogada estava presente quando fizeram buscas na cela e disse que era ilegal tirarem-me os apontamentos. Não foram os guardas que o fizeram, foram os procuradores. Eles fazem o que querem. Passou um mês até me devolverem o caderno.

Olhando para a sua situação atual, acha que valeu a pena?
Houve alguns resultados. Houve processos fiscais contra superestrelas do futebol, como José Mourinho, Radamel Falcao e Ángel Di María. Cris­tiano Ronaldo foi condenado por fraude fiscal. Há um processo fiscal contra a Doyen e Nélio Lucas em Espanha. Há investigações na Bélgica e em França. É preciso ser paciente para avaliar se valeu a pena.

As suas revelações melhoraram alguma coisa no mundo do futebol?
No ano passado, a “Der Spiegel” e o EIC revelaram como os grandes clubes da Europa planeavam juntar forças para formar uma Superliga exclusiva. Depois da publicação, todos negaram essas notícias. Mas Florentino Pérez, o presidente do Real Madrid, criou uma nova associação internacional de clubes que irá concorrer com a UEFA e com a Associação de Clubes Europeus. Eles querem fazer a Superliga. Tem sido a mesma porcaria durante anos. E continua.

Pensa que os clubes de futebol tentaram esperar que a tempestade do Football Leaks passasse?
Enquanto as suas equipas estiverem a ganhar, as pessoas não se preo­cupam, mesmo que saibam de más práticas, crimes e problemas. Não posso lutar contra isso. O futebol é intocável. E as autoridades protegem o sector, porque é de elevado interesse público.

Porque é que pensa que assim é?
Se olharem para o Benfica, o maior clube em Portugal, podem ver que é como um polvo de influência sobre a elite da nação. O Benfica está bem ligado à polícia, aos procuradores e aos políticos e dá-lhes regularmente bilhetes VIP de borla para os jogos do clube. Seria um enorme conflito de interesses se alguma vez tivessem de investigar o Benfica de forma séria.

O seu julgamento deverá arrancar no início do próximo ano. Porque é que terá de continuar preso até lá?
Não faz sentido. Não é razoável e é injusto. Pedi à juíza autorização para ir para casa até ao começo do julgamento, mas a procuradora insistiu que há um risco de eu interferir com a investigação, de que eu possa envolver-me em atividades ilícitas juntamente com autoridades do exterior... É ridículo.

A quem se refere a procuradora?
Penso que queria referir-se a procuradores de outros países que querem colaborar comigo e trabalhar com os dados que eu reuni para investigar crimes no mundo do futebol. Não é incrível? Em Portugal, não só os denunciantes são criminalizados como também as pessoas que os querem proteger.

As autoridades portuguesas não têm interesse em colaborar consigo?
A procuradora disse-me que a única colaboração que espera de mim é que me incrimine voluntariamente. Eles não querem usar os dados que eu reuni, que têm imensas provas de crimes cometidos por gente poderosa do mundo do futebol. Revelei más práticas no interesse do bem comum. Mas o único perseguido sou eu, o denunciante. Retratam-me como um perigo para a segurança pública.

Arrepende-se de alguma coisa?
Arrependo-me do primeiro contacto que tive com a Doyen, em 2015. Fui ingénuo e foi claramente um erro abordá-los. As autoridades dizem que foi uma tentativa de extorsão e usam isso para me manter preso. Na minha opinião, não cometi um crime. Abordei-os para testar o valor da informação que reuni, nunca pretendi ficar com o dinheiro deles.

Não foi só acusado de tentativa de extorsão. Os procuradores acusam-no de 147 crimes, incluindo pirataria e violação de correspondência. Como responde a essas alegações?
Sei que parece um número elevado de crimes e provavelmente serei acusado de crimes que não cometi. Mas toda a investigação foi completamente enviesada e tem enormes erros. Aceder à infraestrutura dos servidores da sociedade de advogados PLMJ, por exemplo, deve contar apenas como um crime. Mas eles contaram cada endereço de e-mail, num total de mais de 70 crimes. É muito estranho.

Mas têm razão em dizer que foi o Rui que acedeu ao servidor?
Isso é questionável. Irei discuti-lo em tribunal. É prematuro falar agora.

Isso leva a pensar que poderá admitir a pirataria, depois de sempre nos ter dito que não é um hacker.
Aceito totalmente que, do ponto de vista da lei portuguesa, alguns dos meus atos possam ser considerados ilegais, e irei responder por eles. Mantenho que muitas coisas mencionadas [na acusação] não foram feitas de forma ilegal. E não me considero um hacker.

Então, o que é pirataria para si?
Para mim, pirataria é entrar num sistema à força e explorá-lo. Eu nunca fiz isso.

Segundo a acusação, no seu portátil encontraram programas para piratear...
É verdade, mas esse computador não era usado só por mim. Depois, lá porque o software está lá, não significa que eu o tenha usado. Em terceiro lugar, a acusação nunca diz que algum desses programas foi usado para aceder aos dados.

Tem insistido que não é um hacker e que não agiu sozinho, mas desde a sua detenção o Football Leaks parou. O que é que aconteceu aos seus alegados colegas?
Têm de ter paciência. É verdade que eu era a cara do projeto, mas veremos o que acontecerá num futuro próximo. Para mim, pirataria é entrar num sistema à força e explorá-lo. Eu nunca fiz isso.

No seu apartamento em Budapeste, as autoridades apreenderam mais de uma dezena de discos de dados. Alguns não estavam encriptados. Foi descuido?
Na verdade, um desses discos estava meio estragado. E outro foi criado por outra pessoa em Sarajevo. Infelizmente, estava no meu apartamento naquele momento, porque o estava a usar para fazer cópias.

Esse disco rígido tinha material que outra pessoa recolheu?Digo-o uma vez mais: as autoridades vão atribuir-me muitos crimes que não cometi. Mas não vou denunciar ninguém.

Qual pensa que será o resultado da acusação?
Duvido que tenha um julgamento justo. Penso que talvez este caso acabe no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, porque Portugal não quer saber da proteção de denunciantes.

Tem receio de alguma coisa?
Não, não tenho medo.