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“Não gosto que engenheiros, advogados, padres e surfistas falem de futebol. Também não mando postas sobre surf ou bodyboard”

Em miúdo, perguntavam-lhe na rua se ia marcar tantos golos quanto o pai. Sempre lidou bem com as comparações, mesmo que "um bocado chatas". Cresceu, sempre jogou a avançado e aprendeu como "o futebol acaba por ser a rejeição e trabalhar para a aceitação". Há duas épocas, Gonçalo Paciência foi para o Eintracht Frankfurt, reconheceu que estava uns degraus abaixo dos restantes e que lhe faltava "aquela intensidade, o fazer coisas boas mais vezes". Começou a marcar muitos golos, regressou à seleção nacional e, em entrevista à Tribuna Expresso, explica como se devia ter mais paciência com quem é miúdo e avançado, porque "muito dificilmente tens uma estabilidade emocional grande para conviveres com o facto de, todos os dias, teres de marcar golos, em todos os jogos"

Diogo Pombo

Gonçalo Paciência tem 10 golos marcados em 30 jogos pelo Eintracht Frankfurt esta época, até ao Natal.

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No Natal em casa dos Paciência só se fala de futebol?
Não, por acaso é um Natal como todos os outros, em família, muita comida na mesa, muita alegria por nos juntarmos todos. No meu caso, a família mais próxima é a do pai. Eu e os meus irmãos estamos cada um no seu sítio, eu em Frankfurt, o meu irmão em Lisboa, o meu pai e o meu irmão mais velho no Porto. Durante o ano temos contacto, mas, por exemplo, já não estou há algum tempo com o meu irmão mais novo. Com o mais velho vou estando de longe a longe. Há sempre o tema da bola, claro, porque é uma família de futebol, mas fala-se de tudo aquilo que foi o ano e o que se quer para o próximo.

Tu e o Vasco [joga nos sub-23 e equipa B do Benfica] deram em avançados por causa do vosso pai?
Acho que foi naturalmente. Às vezes temos essa conversa e, em toda a minha carreira, se é que se pode chamar carreira quando temos cinco ou seis anos, sempre foi a posição em que joguei. Experimentei e fiquei. Nunca fui médio, extremo ou defesa, como há muitas histórias por aí. Comecei a avançado e continuei a avançado.

O que é estranho, porque há muitos treinadores que, às vezes, fazem jogadores experimentarem outras posições para serem desafiados e terem outros estímulos.
Tive sempre muito bons treinadores e, curiosamente, quem me escolheu a posição... Nem sei se ele se lembra, mas, quando cheguei ao FC Porto, nos primeiros dias tínhamos sempre de passar por um gabinete onde estava uma pessoa a preencher os nossos dados - o nome, onde morava, o telefone dos pais, tudo isso - e essa pessoa era o André Villas-Boas. Na altura, ele pôs logo que eu era ponta de lança e ficou. Ele trabalhava na formação do FC Porto, juntamente com o mister Alberto Silva, que era muito conhecido, é um grande homem, já não estou com ele há alguns anos, mas foi com ele que comecei. Guardo um carinho especial porque era um treinador e uma pessoa especial naquela casa.

Com aquela idade não te perguntaram onde gostavas mais de jogar?
Claro. Inevitavelmente, pelo meu pai, as pessoas sempre disseram que era avançado. Quando ia na rua, nunca me perguntavam quantas bolas ia defender. Era sempre 'então, vais marcar tantos golos como o teu pai?'. Durante muitos anos, ouvia sempre esses feedbacks, de vez em quando um bocado chatos. Às vezes, as pessoas pensam que têm muita piada e que são engraçadas [ri-se], mas estar sempre a ouvir isso não é assim tão engraçado.

Mas, fora o lado da repetição da piada, essa comparação incomodava-te?
Não, sempre lidei bem com isso, também sou uma pessoa alegre e nunca arranjei confusão por causa disso. De vez em quando, claro, num momento ou outro em que esteja mais chateado e ponham o nome do meu pai ao barulho, não gostava. Por exemplo, depois de um jogo que me tivesse corrido menos bem, começassem a falar do meu pai. Mas comecei a aceitá-lo naturalmente, porque é o meu pai, tenho orgulho no que fez e no que faz, por isso, sempre foi uma coisa normal. Claro que para mim e para o meu irmão, que acaba por levar pelos dois, é sempre um bocadinho chato, mas não é algo que nos tire o sono.

Falas com o Vasco sobre isso?
Sim, falo muito com ele, dou-lhe muitos conselhos sobre o que deve, ou não fazer. Está a passar por uma altura difícil, com algumas lesões, e como passei por todo este processo de formação, dos problemas que está a ter e a adaptação ao futebol sénior, consigo dar-lhe algumas ideias e luzes. E, se calhar, tem mais à vontade para falar sobre isso comigo do que com o meu pai. Ele procura-me sempre que há alguma situação e, pronto, tento ajudá-lo, porque é meu irmão e quero o melhor para ele.

São parecidos em termos de estilo?
Na fisionomia de corpo sai mais ao meu pai, é assim mais franzino, magro e rápido, tem o estilo de jogo dele, assim mais em velocidade. O meu pai era uma flecha. Eu não sou, propriamente, um avançado muito veloz, sou rapidinho nos primeiros metros, tento sempre antecipar e estar um segundo à frente do adversário, que é o que acaba por fazer a diferença no futebol, mas acho que o Vasco saiu com mais características do meu pai do que eu. Agora que está numa fase de evolução, ele terá que ficar mais forte e robusto, porque o futebol hoje em dia está mais físico e assim poderá ter mais algum poder de choque. Ele já faz ginásio e vai treinando.

E o João, vosso outro irmão, não tem nada a ver com futebol e prefere o bodyboard.
Ele jogou futebol, mas nunca foi grande espingarda. Brincamos com isso, porque diz que ninguém fala dele nos jornais e também é filho do Domingos e irmão do Gonçalo e do Vasco e acaba por nunca aparecer. Mas leva tudo na brincadeira e já está noutra fase da vida. Trabalha, é casado e já temos mais um membro da família para o Natal. Ele trabalha na área da preparação física, é personal trainer e até vive mais o futebol do que nós, porque sofre por todos.

Vais surfar com ele nas férias?
Por acaso, nunca experimentei fazer surf ou bodyboard. Gostava, mas não me ponho nessas coisas. É o que digo: não gosto que advogados, engenheiros, padres e surfistas falem de futebol, portanto, também não me meto no bodyboard ou no surf para mandar umas postas. Fico no meu cantinho, faço o meu trabalho e divirto-me muito a jogar futebol. É o que amo e gosto de fazer.

O português trocou o FC Porto pelo Eintracht de Frankfurt no verão de 2018.

O português trocou o FC Porto pelo Eintracht de Frankfurt no verão de 2018.

Alex Grimm/Getty

Estive a ver e, esta época, acho que ainda não marcaste um golo em que antes tenhas dado mais do que dois toques na bola. É uma coisa que trabalhaste?
Pois, é capaz. Tem a ver com o jogo, aqui na Bundesliga estou um avançado diferente do que era, estou mais trabalhador. Aliado à minha qualidade técnica e a todo o jogo que sempre tive, em que gosto de me associar com a equipa, estar presente no processo ofensivo e ser protagonista, como qualquer jogador gosta de o ser, gosto de não ser só a referência que fica na área e, aqui no Frankfurt, num sistema com dois avançados, sinto-me muito confortável em fazer isso. De facto, isso dos dois toques é curioso, nunca tinha pensado nisso, mas tem lógica, porque hoje em dia tem que se pensar e fazer tudo mais rápido. A competitividade que há aqui é muito maior. E, sinceramente, estou a precisar de golinho a fintar ou algo do género. Mas aperfeiçoei-me mais nesse aspeto de estar mais dentro da área, mais perto do golo, e a prova é este 2019 que fiz, em que tenho feito vários golos. Estou muito mais próximo do golo do que antigamente.

Dizes que precisas de um golo em que recebas a bola, encares o adversários, fintes e remates, porque é esse tipo de golos que dá mais confiança?
Não, porque a confiança é o golo, acho que vem daí. Muitas vezes, estás num jogo em que andas ali a driblar, a fazer isto e aquilo, e, depois, chutas e a bola não entra. E aqueles golos só de encostar, em que às vezes até dás mal na bola, esse golo pode espoletar outro tipo de situações que te trazem mais confiança. Tendo em conta o meu estilo de jogo e aquilo em que acredito, o golo é que traz sempre confiança. Antigamente, tinha muito isso - fazia jogos incríveis, com grandes pormenores técnicos, a participar em todo o jogo da equipa, quase a jogar como um número 10 e, depois, acabava por não fazer golos. Ninguém falava do Gonçalo porque o Gonçalo não fazia golos, ou estava muito longe da área. Hoje em dia, está presente em mim esse tipo de jogo, de ter qualidade técnica e mostrar alguns pormenores, sim, mas preocupo-me muito mais em estar na área, perto da baliza, porque, se há coisa que me tenho vindo a aperceber, é que quanto mais próximo da baliza, mais golos se faz. Nem é preciso mexer muito; como diz aquela célebre frase, a bola vem ter connosco. É verdade. Há jogos em que fazes 10 movimentos e a bola não entra. E há outros em que, se calhar, nem fizeste um movimento muito forte ou acelerado e a bola acaba por ir ter contigo. Depende sempre muito do momento e da tal confiança.

Sentiste menos tempo e espaço para pensar e executar quando chegaste à Alemanha?
Quando cheguei, curiosamente, depois dos primeiros treinos, liguei ao meu empresário e disse: 'Pá, onde é que me meteste? Isto aqui é um andamento'. Senti claramente a diferença. No FC Porto treinava-se muito bem e tudo isso, mas é diferente. Aqui tudo é mais intenso, todos os jogadores são agressivos lutam pela bola. Dá-se muito valor à luta, aos quilómetros percorridos, aos duelos aéreos ganhos e essas coisas.

Há mais choque nos treinos?
Agora, pronto, estamos numa fase com muitos jogos e os treinos quase nem existem, é só jogar. Mas, sim, na pré-época os limites de agressividade estão sempre lá em cima, tem que se chegar a esse limite, senão o comboio passa e ficamos a vê-lo passar. Quando cheguei, aceitei o facto de não estar ao nível deles e isso fez-me trabalhar e ir atrás. Hoje em dia estou ao mesmo nível.

Esse momento, em que te apercebes que o nível está uns degraus acima, define quem se adapta melhor a uma mudança de contexto?
Nós, jogadores de futebol, e tive essa experiência, em momentos em que não jogamos tanto, a culpa é do treinador, disto ou daquilo. E, às vezes, é bom que levemos com alguns choques e "socos" na carreira para se perceber o que, realmente, nos falta e poderá acordar de certa forma. Para mim, foi isso. Estive no FC Porto e não consegui o que desejava. No FC Porto já se sente essa intensidade, mas, quando cheguei ao Eintracht, percebei que precisava de mais, mesmo fisicamente, na forma como me tratava, como encarava o treino... Precisava de ser eu a mudar a tudo. Esses tais golpes que levei no passado fizeram-me acordar um bocado e aceitar que tinha de trabalhar, porque estava um degrau abaixo deles. Sentia que se notava que tinha qualidade, mas faltava-me aquela intensidade, o fazer coisas boas mais vezes.

Ser consistente?
Exatamente. Muitas vezes, nós jogadores achamos que o talento é tudo e isso é um bocado um engano. Aqui na Alemanha vêem-se jogadores que não têm metade do talento de portugueses com quem joguei, mas, na base da crença, da força, do trabalho e da intensidade, conseguem fazer carreiras ao mais alto nível neste patamar da Bundesliga. Isso dá-nos que pensar. O talento, se calhar, não é tudo. Não é preciso ser-se muito talentoso para fazer uma bonita carreira. Considero que tenho talento, mas o que me está a levar a ter sucesso, agora, não é só o meu talento, mas também a condição física, a intensidade e tudo aquilo que melhorei com o trabalho.

Em Portugal, ainda se ouvem coisas como "correr é no atletismo".
Há algo em que reparo. Joguei na Académica, Rio Ave, Vitória de Setúbal, FC Porto e tudo isso e, quando aquele jogador antigo, que está há mais tempo no clube, é capitão, tem 32, 33, 34 anos ou o que seja, sempre que é altura de correr à volta do campo, ouvem-se logo aquelas bocas: "Onde é que está a bola? o pianista não corre à volta do piano!muito água mata planta!". Na Alemanha, temos jogadores com com 34, 35 e 36 anos que jogam todos os jogos, treinam em todos os treinos e não reclamam. Temos aqui um bosque à beira do estádio e, muitas vezes, o treinador manda correr uns 30 minutinhos e ninguém se queixa. Não há a cultura do reclamar. O português quer sempre arranjar forma de contornar isso ou vai falar com o treinador e diz que dói aqui e acolá. Aqui não, a cultura é de trabalhar e vem tudo para trabalhar. Claro que isso faz a diferença, ganha-se outro nível de intensidade. É como disse, o jogador português tem muita qualidade, muita técnica, mas isto nota-se e eu notei. Tenho qualidade técnica, mas, em termos de intensidade, faltava-me um bocado. Quando cheguei aqui, dei o clique e agora estou nesse caminho.

Gonçalo Paciência tem dois jogos pela seleção nacional e um golo marcado, em novembro, contra a Lituânia.

Gonçalo Paciência tem dois jogos pela seleção nacional e um golo marcado, em novembro, contra a Lituânia.

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Os alemães têm mais paciência para quem vem de fora?
Não, sinceramente, acho que em Portugal se tem mais paciência para os que vêm de fora. Dá-se mais atenção. Quando um estrangeiro chega a Portugal é bem recebido, as pessoas tentam falar com ele. Não vou dizer que fui mal recebido aqui, mas não é o mesmo tipo de receção. Quando chega alguém novo, tento receber bem, é a minha maneira de ser, é a nossa maneira de ser, enquanto portugueses, somos pessoas abertas. Os alemães são muito mais frios. Quando cheguei, lembro-me que, nos primeiros dias, mesmo o argentino [David Abraham], que hoje em dia é dos meus melhores amigos aqui, como já está aqui na Alemanha há uns oito anos, já tinha essa cultura de não se abrir logo. Aqui esperam que tu mostres. Se não mostrares nada, colocam-te de lado, mas, se chegares e mostrares qualidades, mostrares que queres, mostrares empenho e trabalho, dão-te a mão. E quando te dão a mão, são pessoas sérias e levam-te.

Tens uma página no site do Comité Olímpico de Portugal com a seguinte descrição: "Jogador possante de área, com boa capacidade física e jogo aéreo, é um avançado talhado para equipas com um estilo de jogo mais dominador e de ataque continuado". Concordas?
Acaba por ter lógica. Como disse, sou um jogador que gosta de ter a bola e de estar no processo ofensivo, mas, por exemplo, muito do nosso jogo aqui no Frankfurt também é feito de contra-ataque e acabo por me adaptar ao estilo que o treinador quer. Mesmo não sendo um jogador veloz, consigo jogar bem em contra-ataque, porque tenho mais espaço, liberdade e, como fisicamente estou melhor, mais capacidade de chegada, de vir defender e chegar depois à área. Acaba por ser um bocado assim. Mas acho que essa descrição se assemelha a mim.

Nas estatísticas da Bundesliga, estás no top-3 de jogadores que, em média, são mais desarmados em cada jogo.
Se calhar, os jogadores que estão aí arriscam mais. Pode ser uma coisa boa ou má, mas, por vezes, a minha primeira opção é o drible, ou tentar fazer um último passe, e acaba por acontecer isso. No futebol, costuma-se dizer que as estatísticas contam quando são boas; quando são más, diz-se que não se liga. Sou um bocado assim. Se as estatísticas disserem que sou bom, digo que sim, se disserem que sou mau, não ligo [ri-se].

Depois, todas as estatísticas precisam de um contexto.
Claro, nem sabia desses números.

Há pouco tempo, disseste que te falta um pouco de velocidade. Em quê, exatamente?
Os primeiros metros acho que tenho. Na altura, a pergunta foi um bocado rápida e não estava à espera. Não me considero um jogador lento. Se estiver a 100%, sou rápido. Este ano até já fiz um golo em que ganhei em velocidade aos centrais e, para se fazer golos dentro da área, é preciso conquistar aqueles primeiros dois ou três metros que, no futebol, são os mais importantes. Talvez isso contrarie um bocado as minhas palavras e, se faço tantos golos ao primeiro toque, é porque ganhei vantagem ao defesa. Acho que velocidade a mais nunca é demais. Disse velocidade, mas podia ter dito outro tipo de coisas. Por vezes, acho que também podia jogar com menos risco, mas faz parte do meu jogo, este querer sempre dar o melhor para a equipa, tentar ser importante e fazer uma finta ou um passe que leve a um último passe.

Uma equipa sem jogadores que arrisquem e tentem coisas é uma equipa que não se vai aproximar da baliza contrária?
Claro. É a tal irreverência que todas as equipas têm que ter. Tem de haver um ou dois jogadores que façam coisas diferentes. Na nossa, temos vários que o fazem. Às vezes sou seu, outras vezes são outros e pronto, é o futebol, falhar e acertar faz parte.

Tens preferência pelo tipo de perfil de jogador que jogue atrás de ti?
Ao dizer isto, parece que estou aqui a mandar algum tipo de boca, mas não. Mas gosto sempre de ter um médio mais posicional, um box-to-box, que faz todo o campo, e depois um número 10 mais criativo. É como jogamos no Frankfurt, acho que é o ideal. Dá um certo equilíbrio no meio campo ter cada jogador com características diferentes e que, em cada momento de jogo, tenha a sua importância. Um médio defensivo é fulcral no equilíbrio da equipa, mais numa de recuperação, o box-to-box para fazer a ligação entre a recuperação de bola e o ataque e, depois, o número 10 que possa tabelar, que se entenda bem comigo, que participe no jogo ofensivo e entre na área. Para nós, ter gente a entrar na área é importante porque confunde a marcação e fica mais fácil criarmos o nosso espaço. Os avançados vivem muito dos movimentos dentro da área e quando há jogadores a entrarem, vindos de trás, há mais espaços a serem libertados.

Como é a vida de quem escolhe ser avançado em Portugal?
Primeiro, poucos são os avançados que, desde cedo, têm aquele instinto matador e finalizador. Quando andava sempre preocupado, que não fazia golos, que a bola não chegava e tudo isso, tinha um treinador que me dizia sempre para ter calma, porque um avançado precisa de ganhar os sentimentos dentro da área e os lugares onde a bola vai cair e que isso se sentia com os anos. Acaba por ter razão. Agora, com 25 anos, estou muito mais preparado do que quando tinha 20. É a evolução, é o normal. Não digo que seja uma evolução um bocado ingrata, porque não é, mas um ponta de lança acaba por ser julgado pelos golos e, muitas vezes, para quem não percebe de futebol, é um bocado ridículo esse pensamento. Hoje em dia, um avançado já tem muito mais trabalho do que tinha, em termos de ocupação de espaços ou libertação para os médios e os extremos. O avançado mexe muito com esse trabalho na equipa.

Não é só estar na área à espera, tipo Mário Jardel.
Exatamente, esse ponta de lança já não existe, há muito poucos assim. As pessoas também estão sempre à espera de golos, golos e golos, claro que é importante, mas não deve ser julgado assim.

Sobretudo, quando és miúdo.
Sim, porque muito dificilmente tens uma estabilidade emocional grande - tens de ser um fora-de-série - para conviveres com o facto de, todos os dias, teres de marcar golos, em todos os jogos. Um jovem com 17 ou 18 anos, nos júniores ou nas equipas B, até pode marcar, mas, no futebol profissional, já é completamente diferente. Os adversários têm outra qualidade, já se posicionam de maneira diferente, são mais fortes que tu e há muita coisa que muda quando dás o salto para o futebol sénior: o tempo que tens a bola, os defesas já estudam o teu jogo, o que costumas fazer, os teus movimentos prediletos. É difícil. Raramente se vê um ponta de lança muito jovem a aparecer... Agora tens o Halland, do Salzburgo, que tem 18 anos e, de resto, não tens ninguém que desde essa idade já marque 20 ou 30 golos por época.

Tens o Mbappé, mas é um fenómeno.
Sim, esse é um fora-de-série. E não é um ponta de lança puro, está por todo o campo. Tirando o Cristiano e o Messi, que também não são pontas de lança e estão noutro mundo, não tens um jogador que tenha números exorbitantes de golos aos 18 ou 19 anos.

O que achas do Fábio Silva?
Para ser sincero, não tenho visto, nem o conheço bem. Não é do meu tempo do FC Porto. Mas, pronto, estão a apostar nele e vamos ver. Ainda tem 17 anos, ainda é cedo. Não é fácil entrar numa equipa do FC Porto já estruturada, com o Marega e o Tiquinho que já lá estão há três, quatro anos. Vamos ver, tem que ser com calma e não dar passos maiores do que as pernas, que muitas vezes é aquilo que estraga. Que façam uma boa gestão com ele.

Quando eras novo e começaste a aparecer, ficavas ansioso com as expetativas e a cobrança?
Tenho uma maneira um bocado diferente de lidar com as situações e consigo afastar-me dessa tal pressão. Costumo dizer que nunca vivo muito o que as pessoas dizem, mas, claro, acabas sempre por sentir. Apareci numa altura em que se dizia que Portugal não tinha pontas de lança desde o Pauleta. E as pessoas olhavam para mim e para o André [Silva] como os próximos. Aos 18, 19 anos é muito cedo para um ponta de lança desatar a marcar golos. Precisa de sentir o cheiro da grande área e todos os feelings de estar ali, a tocar na bola. São coisas muito detalhadas. Eu, o André e até mesmo o Eder aparecemos mais tarde, nenhum fazia muitos golos aos 19 anos. Claro que a cobrança paga-se sempre, não vou mentir, as pessoas sempre falaram muito. É o futebol de hoje em dia, as pessoas gostam de falar e, infelizmente, há muitas pessoas que falam e não deviam falar, dá-se muito antena a muita gente que não devia, sequer, abrir a boca. Mas é o que há.

Continua a não ser muito comum ver um grande a apostar, realmente, num ponta de lança vindo da formação. O André Silva talvez seja o único caso recente.
Depende da fase. Quando o André apareceu, o FC Porto não tinha ninguém em termos de pontas de lança. Tinha o Depoitre e o Osvaldo, acho eu, que já estava numa fase diferente da carreira. Eu apareço numa fase em que tenho o Jackson [Martínez], que estava muito bem. Depende muitas vezes dos timings e de estar no sítio certo, à hora certa. Era muito difícil para mim, o FC Porto não ia apostar em mim em vez do Jackson, não é? Por exemplo, o Benfica até tem apostado em jovens com mais sustentabilidade.

Mas não em pontas de lança.
Mas isso iria um bocado contra aquilo que disse, da tal especialidade que se tem que ter com o tempo. Agora, claro que de hoje para amanhã pode aparecer aí um fenómeno que, aos 17 anos, se afirma no Benfica, no FC Porto, no Sporting, no Braga ou o que seja, e o que eu disse está tudo mal. Mas é a minha opinião, acho que faz sentido e é algo que muita gente já me disse. Até em conversas com o meu pai.

O avançado marcou um golo no Europeu sub-21, em 2015, em que Portugal perdeu na final, contra a Suécia, nos penáltis.

O avançado marcou um golo no Europeu sub-21, em 2015, em que Portugal perdeu na final, contra a Suécia, nos penáltis.

Matej Divizna/Getty

Passando às seleções nacionais. Em 2015, no Europeu sub-21 que Portugal perde na final, nos penáltis, nunca és titular. Como te sentiste na altura?
Esse Europeu é daquelas noites que me está aqui encravada, não merecíamos. Era uma seleção incrível, só o nosso banco e os jogadores que ficaram de fora... O Bruno Fernandes ficou de fora, antes do estágio. Era uma loucura. Mas pronto, isso também se deveu um bocado ao sistema e à forma como jogávamos. Apareço já numa fase em que a equipa já estava montada. Tinha a confiança do mister Rui Jorge, que foi das pessoas mais importantes que tive enquanto treinador. Não gosto de individualizar, porque vou sempre esquecer-me de alguém, mas o Rui Jorge dava-me confiança e nunca cobrava. Fui fazendo alguns golos nos jogos de preparação e o mister era alguém que nos punha à vontade para jogarmos da forma que jogávamos. Confiava em mim, prova disso é que estive sempre com ele, mas o sistema de jogo era com avançados mais móveis na frente. Na altura, era um jogador completamente diferente, vinha de muitas lesões, tinha estado muito tempo parado e, quando é assim, muitas vezes não se tem o mesmo tipo de confiança. Fisicamente, não estava tão preparado com estavam os outros. Mas era uma seleção inacreditável.

Ver-vos jogar também.
Jogávamos muito à bola. Estávamos muito confiantes de que iríamos ganhar. Pronto, acontece.

Chegar a uma final, perder nos penáltis e passar por uma desilusão dessas, sendo tão novos, pode ser importante na carreira de um jogador?
Costumo dizer que nas vitórias toda a gente consegue viver, está sempre tudo bem, mas o verdadeiro sentido da vida e do futebol é nas derrotas e nos momentos maus. Aí é que se vê o caráter das pessoas e a forma como se reage a situações adversas. Para nós, que estivemos lá, foi talvez um clique, algo não tão bom na nossa história, que nos fez levantar e andar para a frente. Aquela seleção é a base da seleção nacional para os próximos anos. Do onze que jogou na final, se calhar tens só três ou quatro jogadores que não estavam agora na seleção nacional. O Ricardo Pereira, o Ivan Cavaleiro, o Bernardo Silva, o Sérgio Oliveira, o William, o João Mário, quase todos foram internacionais A. Foi importante para a nossa geração, foi uma junção das gerações e já muitos jogadores estão na seleção, o que prova que foi um trabalho fantástico que, agora, está a dar frutos. As seleções estão a trabalhar muito bem neste momento.

O ano passado, o Eintracht foi eliminado pelo Chelsea nas meias-finais da Liga Europa, nos penáltis, e falhaste um.
Sim, foi um momento complicado para mim, acontece, é o futebol, mas também pela época que estávamos a fazer, pela forma como jogávamos, aquilo foi um balde de água fria gigante para nós. De certa forma, matou-nos um bocado a época. Mas ninguém apaga o trabalho que fizemos, foi uma caminhada muito bonita e, mesmo nas meias-finais, fomos quase sempre superiores ao Chelsea. No futebol alguém tem de falhar, fui eu, acontece, já não vivo com isso na cabeça. Sou muito positivo e estou sempre a olhar para a frente.

O que pensaste quando o Fernando Santos disse que os 9 puros já não existem?
Concordei. De facto, é verdade. Já não há aquele 9 puro, como o Jardel, o ponta de lança que está na área e só dá o último toque, isso já não existe. Não entrei nessa convocatória, acabei por ser convocado na seguinte e a forma como encarei isso foi trabalhar mais, mostrar mais e assim o fiz. O futebol acaba por ser sempre rejeição, trabalhar para a aceitação, rejeição outra vez e trabalhar de novo para a aceitação. É um princípio básico da vida, trabalhar para que sejamos aceites e tenhamos sucesso. Foi o que fiz. Não falei nada, fiquei no meu cantinho, quietinho, e pronto, fiz o meu trabalho.

Há dias, o seleccionador nacional disse, no Canal 11, que quando chama jogadores novos e eles não impressionarem logo nos treinos, talvez não justifique continuar a chamá-los. Como foi quando voltaste a ser convocado?
Toda a gente faz isso. Quando chegamos aos treinos, acaba por ser um momento de avaliação. No meu caso, que era dos mais recentes, claro que o encarei como um teste. Trabalhei e fiz o possível.

Quando chegas ao jogo e és titular, já é mais fácil?
Olha, já não marcava há seis jogos aqui no Eintracht e tinha feito semanas espetaculares, a treinar muito bem, a fazer golos de todas as formas. E, nesta última que passou, a semana de treinos não correu assim nada de especial, pronto, já estava um bocado mais cansado ou, se calhar, desconcentrado, e acabei por fazer golo neste último jogo. Muitas vezes é relativo. O futebol é um bocado complexo. Há jogadores que, nos treinos, não são muito vistosos e são animais de jogo. É melhor ser um jogador de jogo do que um jogador de treino. Às vezes, podes treinar muito e fazer tudo, chegas ao jogo, vais ao primeiro poste e a bola entra no segundo, vais ao segundo e a bola vai ao primeiro. E há outras em que treinas mal, a bola bate-te no pé ou na cabeça e acabas por fazer um golo, ganhas confiança e tudo fica diferente.

  • Gonçalo Paciência: “Passava férias com o Mozer, que dava porrada no meu pai nos clássicos. Os jogadores dão-se bem fora de campo”

    Entrevistas Tribuna

    No dia em que Jonas se despediu do futebol, Gonçalo Paciência escreveu nas redes sociais para lhe agradecer a "belíssima carreira". O ex-avançado do FC Porto foi insultado por muitos adeptos e tinha consciência de que a publicação também teria esse impacto. Mas o português quis dar o exemplo, mesmo sabendo que não vai ser ele a "mudar o mundo". À Tribuna Expresso, diz que o futebol português tem que "ser mais livre", que os clubes deviam "deixar de ser tão picuinhas" e deixarem os jogadores "falarem mais" (No dia em que Fernando Santos convoca Gonçalo Paciência para a seleção, republicamos esta entrevista de 12 de julho de 2019)