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Hugo Figueira: “O Filipe Cruz levava uma aparelhagem gigante para o balneário e antes dos jogos ouvíamos sempre a música do 007”

É o guarda-redes mais internacional da história da seleção nacional e uma figura omnipresente nas últimas décadas do andebol português: esteve no grupo que há 20 anos conseguiu no Euro 2000, na Croácia, a melhor classificação de sempre de Portugal na competição e ainda ajudou na qualificação para o Euro 2020, que arrancou na quinta-feira e que marca o regresso da seleção a uma Campeonato da Europa, 14 anos depois da última participação. Aos 40 anos, Hugo Figueira vai ver de fora, desde o Luxemburgo, onde joga e vive desde o início desta temporada, a estreia de Portugal, esta sexta-feira (17h15, Sport TV1), frente a França

Lídia Paralta Gomes

A Seleção Nacional que bateu a França no apuramento para o Europeu que arrancou na quinta-feira. Hugo Figueira é o 7.º, a partir da esquerda

Sebastien Bozon/Getty

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Hugo Figueira atende-nos o telemóvel desde a sua casa no Luxemburgo, para onde se mudou no início da temporada, após uma carreira que passou pelos maiores clubes do andebol português. Mas não é disso que queremos falar. Porque Hugo Figueira também é o mais internacional dos guarda-redes portugueses e era o benjamim daquela seleção nacional que há precisamente 20 anos foi à Croácia e de lá veio com um histórico 7.º lugar no Europeu. E duas décadas depois voltou a ser decisivo para o regresso de Portugal aos grandes palcos do andebol. Ajudou Portugal, por exemplo, a bater a França, a todo-poderosa França, que Portugal conseguiu vencer na caminhada para o Euro 2020, coisa que ninguém arriscaria prever há um par de anos.

Está na hora de uma viagem que vai de 2000 até 2020. Portugal estreia-se no Euro 2020 esta sexta-feira, em Trondheim, na Noruega. Frente à seleção francesa, nem de propósito.

Vamos ao passado: como é que um miúdo de 19 anos se sente no meio de um grupo como aquele que Portugal tinha no Euro 2000, com Viktor Tchikolaev, Carlos Resende, Filipe Cruz ou Eduardo Filipe?
Foi fantástico, era a minha primeira época nos seniores, na altura jogava no FC Maia e fui convocado para o Europeu, na Croácia. A nossa cidade era Rijeka. Foi uma vivência incrível, passava muito tempo no pavilhão. Imagina: Portugal jogava o terceiro jogo do dia, ao final da tarde, e eu ia logo às duas da tarde para o pavilhão para ver a Suécia. Era um bocado o benjamim da seleção, era o mais novo e fui ajudar, e acabou por ser um marco histórico porque vencemos seleções de nomeada, ganhámos à Eslovénia, à Noruega e o Carlos Resende foi o melhor lateral esquerdo da prova. Eram atletas que via na televisão e depois tive a sorte de partilhar o balneário com eles. Lembro-me que na altura estava muito em voga um novo filme do 007 e o Filipe Cruz levava sempre uma aparelhagem gigante para o balneário. A música que ouvíamos sempre antes de irmos para os jogos era a do 007, para nos motivar! Era uma daquelas aparelhagem "bigalhonas", dava cá um som! Uma pessoa ia no início do corredor e já se ouvia. Tínhamos uma grande seleção, o Tchikolaev tinha acabado de ser naturalizado, o Ricardo Costa, Rui Almeida, Ricardo Andorinho, Rui Rocha... e muitos mais.

E quem é que era o líder do grupo?
Havia muitos líderes dentro da mesma equipa. Havia jogadores mais introvertidos e outros mais extrovertidos. O Carlos Galambas animava muito a malta, mesmo hoje se uma pessoa falar com ele farta-se de rir! O Rui Rocha e o Ricardo Costa também. O Resende era e é uma pessoa muito acessível, principalmente para os mais jovens. Na altura era a grande referência de Portugal e toda a gente olhava para ele como um ídolo. O Eduardo Filipe era um bocadinho mais introvertido, mais comedido, mas depois tive a oportunidade de jogar com ele e com o Ricardo Costa, primeiro no FC Porto, e depois fomos os três para Espanha, para o Algeciras BM, e foi uma experiência incrível.

Na altura a Croácia ainda estava a levantar-se, poucos anos antes tinha sido um cenário de guerra. Isso sentia-se nas ruas?
Rijeka era uma estância balnear e não vimos que estivesse muito afetada. Eu basicamente passava as tardes e as noites enfiado no pavilhão, gravava os jogos dos possíveis adversários, também para ajudar a equipa técnica. E com isto tive a sorte de conhecer lá o meu maior ídolo.

Ah sim? Quem era?
O guarda-redes da Suécia, o Tomas Svensson. O médico da nossa seleção, o Artur Pereira de Castro, dava-se muito bem com o Svensson e apresentou-mo. Os guarda-redes da Suécia nesse Europeu eram o Svensson e o Mats Olsson, que depois foi selecionador de Portugal. Na altura o meu maior ídolo era o Svensson e quando o conheci foi uma situação caricata: o Dr. Pereira de Castro chama-me ao corredor e quando eu saio do balneário está lá o Tomas Svensson a falar com ele, numa amena cavaqueira. Apresentei-me e fiquei a olhar para ele assim como quem olha para uma pessoa inatingível, que só nos meus maiores sonhos ia um dia encontrar. Tive imensa sorte. O Svensson uns anos antes tinha sobrevivido a um desastre de avião e, se calhar por causa dessa situação, transportava para o campo a sua maluquice. Uma pessoa olhava para ele e parecia que andava no outro mundo e depois voltava cá abaixo. Mas os guarda-redes são todos assim meio loucos. Aquilo para mim... no meu primeiro ano de seniores, acabado de chegar à seleção A, a jogar o Campeonato da Europa e conhecer aquele monstro das balizas, para mim foi um sonho, até hoje guardo esse momento no meu coração e tenho de agradecer ao Dr. Pereira de Castro por me ter ajudado a realizar um sonho de criança.

Como estreante em grandes competições, fizeram-te alguma?
Sim, aquelas praxes normais. Lembro-me de no voo para lá me dizerem: "Ó Figueira, agora vais escolher o menu para todos". E lá fui eu perguntar a toda a gente no avião o que é que queriam comer, se era carne ou peixe, tudo numa grande risota.

Quanto à competição, começa o Europeu e de repente já tinham ganho à Eslovénia e à Islândia. Foi aí que perceberam que podiam chegar a uma classificação interessante?
Nós fomos para lá com aquele pensamento de ir jogo a jogo, porque não sabíamos muito bem o valor das outras seleções. E depois começámos a acreditar e chegámos ao 7.º lugar.

Figueira joga atualmente no HB Esch, campeão do Luxemburgo

Figueira joga atualmente no HB Esch, campeão do Luxemburgo

D.R.

Já falaste um bocadinho do Carlos Resende. Vocês sentiam que ele nesse Europeu estava num verdadeiro estado de graça?
Estava incrível. Cada remate dele à baliza ou dava golo ou livre de 7 metros [risos]!

Tiveste várias experiências com ele, como colega de equipa, adversário e nos últimos anos como treinador, no Benfica. E já disseste que ele ajudava muito os mais novos, o que nem sempre vemos nas grandes estrelas.
Para mim, o Resende foi e é o baluarte do andebol português. Ele próprio diz que chegou a ter excelentes propostas para ir jogar para fora, mas que não tinha necessidade porque em Portugal já jogava a Liga dos Campeões. Ele era, e é, muito humano. Quer sempre que toda a gente esteja bem e se puder ajudar com a sua experiência ajuda. No Europeu de 2000, nós mais novos olhávamos sempre para ele como uma referência, tanto a nível pessoal como enquanto jogador. A primeira vez que me lembro de jogar contra ele foi quando estava no Sporting, ainda era júnior e na altura, ainda na antiga Nave de Alvalade, entrei para tentar defender um 7 metros dele. Por acaso marcou-me golo...

Depois de 2000, Portugal participa em mais três Europeus seguidos, mas depois falha a participação nos seis seguintes, de 2008 para cá. O que é que se passou neste período?
Acho que tínhamos bons jogadores na formação, mas a partir de certa altura começaram a deixar a modalidade, porque começaram a direcionar a sua vida para as suas profissões. No meio disto tudo houve uma guerra entre a Liga e a Federação que prejudicou muito o andebol português e depois rebenta a crise, que afeta todos os setores. Em Portugal deixou-se de se investir tanto no desporto. Mas há cinco, seis anos começou a haver novamente investimento.

Entretanto foi crescendo uma nova geração que consegue finalmente voltar a um Europeu. Que caminho fez o andebol português para que tal fosse possível?
Houve mais investimento por parte dos clubes, que começaram a trazer mais jogadores estrangeiros para o nosso campeonato, o que levou a um aumento da qualidade. E com isto os jogadores portugueses começaram também a perceber que não deviam nada aos jogadores estrangeiros e que também tinham muita qualidade. Acho que de há dois ou três anos para cá começámos a colher esses frutos. Ninguém diria que o FC Porto ia vencer o Montpellier em França e o Kiel na Alemanha, que o Sporting ia fazer excelentes campanhas na Liga dos Campeões, tanto este ano como no ano passado, que o FC Porto ia chegar à final four da Taça EHF na temporada passada. O andebol português está numa fase bastante positiva e quero acreditar que podemos passar tanto a França como a Noruega. A Bósnia também é uma excelente seleção, mas comparada com essas duas ainda não está no mesmo patamar.

É possível sonhar com o apuramento para a main round?
É uma tarefa hercúlea, mas com querer e a ambição de fazer acontecer - agora está muito em voga dizer isto do "fazer acontecer" - acredito que podemos passar à fase seguinte.

A estreia é frente a França, duas vezes campeã olímpica, seis vezes campeã mundial, três vezes campeã europeia, mas o Hugo sabe o que é derrotá-los, aliás, fê-lo há poucos meses, na qualificação para este Europeu.
Sim, sim, já sei o que é ganhar-lhes. É engraçado, se perguntasses a todos os jogadores da nossa seleção antes do jogo qual era a probabilidade de ganharmos à França se calhar era 2, 3, 4% no máximo. O pavilhão de Guimarães estava cheio, mas se calhar foi toda a gente ver os franceses [risos]. O jogo começou a correr-nos de feição e a França quando percebe que o jogo lhes está a correr mal começa a ficar nervosa. Quando começam a melhorar já foi tarde. Ninguém diria que poderíamos vencer a França em Guimarães. E quatro dias depois, lá, em Estrasburgo, só ali aos 48 minutos de jogo é que eles descolam para três golos de vantagem.

Agora num contexto diferente, numa grande competição, será possível repetir a gracinha?
Vai ser diferente, eles já estão avisados, já sabem que Portugal vai jogar com o seu modelo de jogo mais consolidado. Vai ser mais complicado, mas o sonho comanda a vida! A primeira grande vitória foi chegarmos ao Europeu 14 anos depois e a segunda grande vitória será ter um desempenho honroso e que dignifique o andebol português, porque nós temos muita qualidade. Nós que estamos cá fora ouvimos, toda a gente fala das equipas portuguesas. Se não fosse possível ganhar à França eu diria para ficarmos em casa. São 60 minutos e pode haver 10 minutos maus tanto da França como da Noruega e um Portugal motivado e a jogar bem pode ganhar.

Estiveste na qualificação, mas ficaste de fora da lista final para o Europeu. Ficaste triste?
Não, não fiquei triste por não ter sido convocado, já fiquei contente por ter entrado na lista preliminar, estou de prevenção, caso aconteça algum azar, mas espero que não, espero que toda a gente esteja lá bem e de saúde e que não se magoem! É tempo de novos valores do andebol português aparecerem, como o Gustavo Capdeville.

O Gustavo Capdeville é um bocadinho o Hugo Figueira deste Europeu, vinte anos depois.
Sim, sim [risos]. O Quintana tem feito grandes jogos na Champions e o Humberto Gomes também é um excelente guarda-redes, com a sua qualidade e veterania. A posição de guarda-redes deve ser isso mesmo: um misto de juventude com veterania e experiência. Estamos muito bem servidos de guarda-redes. Só quero que eles façam 30 defesas por jogo e que nós vençamos os jogos todos.

Conheces como ninguém as duas gerações, tanto a que esteve no Europeu há 20 anos como esta nova. Achas que são gerações comparáveis?
É muito difícil responder, porque o andebol de há 20 anos é totalmente diferente do andebol destes dias. Há 20 anos não era tão rápido, havia especialistas na defesa e no ataque, o que fazia com que tudo demorasse mais tempo. Isso agora não acontece, os jogadores têm de ser polivalentes e jogar nas duas partes do campo. Ainda há equipas que o fazem, mas isso corta o próprio espetáculo, as pessoas querem ver andebol rápido e bonito.

Voltando agora a ti, esta temporada estás a ter uma nova experiência no estrangeiro, 15 anos depois de jogares em Espanha. Deixaste o Benfica e foste jogar para o Luxemburgo. Como é que surgiu esta hipótese?
Apareceu a oportunidade de jogar no HB Esch, que é o campeão do Luxemburgo e vencedor da Taça. Gostei do projeto, somos uma equipa jovem de atletas, uns profissionais e outros que jogam e trabalham - eu sou um dos profissionais. Podem não acreditar, mas o campeonato cá é engraçado, com cinco ou seis equipas que em Portugal lutariam não pelos três primeiros, porque FC Porto, Sporting e Benfica têm grandes orçamentos, mas ali na nossa segunda linha, a partir do 4.º lugar. Já tem muitos estrangeiros com qualidade, húngaros, sérvios, alemães. E na própria seleção do Luxemburgo já começam a aparecer jovens com valor.

Levaste a família?
Vim com a minha mulher e com as minhas duas filhas, uma com 10 e a mais nova com 5 anos. Estamos super bem, o Luxemburgo também basicamente é como se estivesses em Portugal, vais ao café e falas português, aqui na rua há uma churrascaria que também é de portugueses, no supermercado trabalham portugueses, em tudo o que é lado trabalham portugueses. Só o clima é que é mais frescote, mas nada que não se suporte, o país está bem preparado, as casas, os autocarros, os pavilhões estão sempre quentinhos, não é como em Portugal. Está a ser uma agradável surpresa e estamos felizes por estarmos aqui, as miúdas estão felizes e adaptadas na escola.

Um guarda-redes de 40 anos no andebol não é propriamente velho, mas já pensas no que fazer no futuro? Vais continuar a jogar, vais ficar por aí no Luxemburgo?
Neste momento estou aqui, numa escolha que me deixa feliz, as crianças estão bem e a minha mulher vai começar agora a trabalhar, também. Acho que a minha vida e a minha carreira nos próximos anos vão passar por aqui, mas nunca se sabe o dia de amanhã, por isso não gosto muito de fazer projetos a longo prazo, depois pode dar para o torto.