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Sérgio Cecílio é diretor de scouting na Dinamarca: “O português faz treinos relaxados. Aqui, um amigável parece a final da Champions”

Foi há pouco mais de um ano para o HB Køge, clube da segunda divisão da Dinamarca, onde lidera o departamento de scouting e partilha casa com alguns jogadores. Mas, na verdade, é muito mais do que isso, porque é head scout do projeto da Capelli Sports, uma marca americana que decidiu investir no futebol, já tem vários clubes, quer formar futebolistas para alimentar o clube-mãe dinamarquês e “ser conhecido como formador de jogadores”

Diogo Pombo

D.R.

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Como é que é um português acaba a ser diretor de scouting de um clube dinamarquês?
Bom, comecei a visitar o HB Køge em 2016 e fiquei amigo. O presidente foi-me apresentado pelo [Sebastian] Svärd, que jogou no Vitória de Guimarães, e ficámos amigos. A partir daí, comecei a ir lá, eles começaram a vir cá e surgiu o convite em janeiro do ano passado para começar logo em fevereiro.

Porque foste lá da primeira vez?
Convidaram-me, pronto, para estabelecer um contacto, uma relação, começarmos a ficar amigos, e porque lhes tinha recomendado um jogador que passou pelas academias onde trabalhava cá. Gostaram e acharam que poderia ser uma ajuda para eles. Depois, houve aquela química e empatia e, pronto, ficámos amigos. Aceitei logo mal houve convite. Disseram-me que estavam só a preparar as coisas para me poderem receber e cumpriram. Passado um mês e tal chamaram-me para ir e eu, bora, vamos.

Nunca tinhas tido um cargo parecido num clube. Não foi um bocado arriscado?
Foi arriscar bastante, mas mais da parte deles do que da minha [ri-se].

O que sabias do HB Køge?
Antes de ir, pela primeira vez, pesquisei. Depois, quando lá fui, deram-me a conhecer a história do clube e achei que a nível de rumo e de estratégia era muito parecido com aquilo de que gosto e idealizo num clube - a questão de apostar nos jogadores jovens para os vender. É um clube vendedor, vindo da fusão entre dois clubes. Em 10 anos, já venderam muitos, essencialmente para Inglaterra. Gosto dessa estratégia e continuamos a segui-la.

Porque o clube tem uma empresa por trás, que é dona de vários clubes.
É a Capelli, que, há ano e meio, quase dois, comprou 20% do clube. Entretanto, com esses 20%, começaram a trabalhar mais proximamente com o HB Køge, viram que valia a pena, que o clube era bem gerido, gostaram das pessoas e decidiram avançar para mais 51%. Portanto, agora têm 76%.

A ideia é terem um projeto como o da Red Bull no futebol?
Não tanto. Querem ficar conhecidos como formadores de jogadores. Têm várias academias nos EUA com o nome da Cedar Stars Academy, têm uma percentagem grande na Rush Soccer Academies, que tem mais de 80 locais no mundo. Depois, detêm percentagens de alguns clubes, como o Duisburg, na Alemanha [terceira divisão], e têm acordos com várias equipas, inclusivamente o Estoril, em Portugal, o AEK de Atenas, clubes na Polónia e outros na Alemanha, mais em escalões inferiores. Nos EUA, então, nem se fala. Em 2019, já conseguiram ganhar 14% de mercado à Adidas. Está a crescer e eles querem crescer em todos os aspetos, para ficarem conhecidos como formadores de jogadores. O que passa por criar qualquer coisa em Portugal, porque gostam muito do futebol português.

Estão a pensar em investir cá?
Já está certo que vamos investir, sim. Muito brevemente, já a começar na próxima época.

Qual será o nível?
A ideia é começar tudo de raiz, portanto, será sempre a arrancar na distrital, talvez com um orçamento mais baixo. Mais, depois, o nível a atingir é pelo menos o Campeonato de Portugal, de certeza. Se ficarmos por aí não tem grande problema, desde que consigamos cumprir os objetivos de formação de jogadores e transferências entre o grupo, basicamente.

A prioridade será alimentar a equipa base no HB Køge?
Exatamente. A equipa principal será sempre na Dinamarca, onde estamos a crescer com um estádio novo, um aumento da estrutura, cada vez mais staff e mais qualificado, até na parte administrativa. Para dar um exemplo, quando entrei havia cinco funcionários administrativos e agora temos 19. O clube está a crescer em todos os aspetos e o objetivo é chegar à Superliga dinamarquesa em dois anos, quando tivermos o estádio novo pronto. Já está em fase adiantada, mas só daqui a um ano e meio estará completo. Esse objetivo passa pelo futebol masculino e, também, o feminino, pelo qual também estou responsável e em que estamos a lutar para subir à primeira divisão - e o principal objetivo é, daqui a cinco anos, estarmos a jogar na Liga dos Campeões. Na equipa masculina, é chegar à Superliga e, depois, logo se vê. Estas apostas - que não sei se serão compras de clubes, investimentos ou clubes criados de raiz -, a juntar ao que já temos, serão para alimentar a equipa principal da Dinamarca e a formação de jogadores.

Têm um prazo para isto tudo acontecer?
10/15 anos. Sabemos que, na formação, tens sempre de fazer projetos a, pelo menos, 10 anos. Não podes contar só com aqueles que já lá tens agora e projetar para cinco anos, o que pode acontecer, claro, mas tens de contar sempre com 10 anos, que é o processo todo de formação.

D.R.

Como é um dia normal de trabalho na Dinamarca?
Começa muito cedo, às 7h. Faço de tudo um pouco, apesar de, no contrato, ser o head scout. Vejo muitos jogos, óbvio, não só ao vivo como por vídeo. Sou eu que falo com os agentes e ligo com eles, portanto, logo aí já não é o trabalho de head scout. Mesmo quando falam primeiro com o presidente, ele encaminha-os para mim. Assisto aos nossos treinos, porque acredito que, para fazer um bom scouting, tens de conhecer bem o que tens, como está aquilo que tens e como estão os jogadores a evoluir. Faço de tudo um pouco, não tenho um padrão para dizer que chego ao trabalho e há isto, isto e isto para fazer. Não há dias iguais. E, depois, com o novo projeto da Capelli Sports, também tenho viajado bastante. Vamos aos clubes parceiros, ou aos que nos pedem, para vermos no que podemos ajudar. Sou responsável pelo scouting nesses clubes e temos mais duas pessoas: uma da parte do marketing e vendas, outra para a parte técnica e de metodologia de treino. Vemos o que se pode fazer com, e sem dinheiro, e fazemos o nosso relatório final.

E se num desses clubes houver um jogador interessante, o que acontece?
Por exemplo, temos um scout nos EUA e se ele me disser que um certo jogador é bom e tem potencial, faz um relatório. Vejo por vídeo, vou lá vê-lo e sou eu quem tem a responsabilidade de decidir onde é melhor esse jogador estar.

Sendo scout, como vês se um jogador tem capacidade e potencial suficientes para estar na segunda divisão da Dinamarca?
Tenho que dizer que a segunda divisão dinamarquesa tem mais qualidade do que se pensa. É muito física? É, mas foi uma surpresa. Depois, depende de vários fatores: tenho de ver o jogador ao vivo, peço informações, vejo os antecedentes médicos. A parte das informações é muito importante, tens que ter pessoas em quem confies, até as redes sociais vejo para tentar aprender um bocadinho sobre o jogador. E a parte final é pensar como seria a adaptação ao estilo de vida na Dinamarca e ao estilo de treino. Mesmo sendo português e gostando muito do jogador português, não vejo muitos a jogarem na Dinamarca.

Porquê?
Os treinos são muito exigentes e os portugueses estão habituados a treinos mais relaxados. Para os dinamarqueses, o treino é como se fosse um jogo. Por exemplo, o nosso campeonato para três meses, não há jogos, e cada vez que fazemos um amigável parece a final da Liga dos Campeões. Os jogadores portugueses não lidam tão bem com isso, um amigável é um amigável. Tenho lá o Pedro Silva [guarda-redes, ex-Tondela], que ainda está em fase de adaptação e achou uma grande diferença. Tenho o Marian Huja, que jogou três anos no Watford e já estava habituado à exigência. Mas não estou a ver um jogador português com mentalidade para vir para aqui. Claro que há, mas tem que se procurar bem.

Nem na primeira liga?
Atenção, mesmo jogando na segunda liga ou no Campeonato de Portugal, não quer dizer que não tenham qualidade. Tem a ver com a mentalidade. Por exemplo, treinar com zero graus e sempre a 100%, porque os dinamarqueses são muito exigentes nisso. Se não treinares a 100%, nunca vais jogar. É óbvio que os jogadores portugueses têm mais do que qualidade para jogarem na Dinamarca, o problema é tudo o resto. E quem diz portugueses diz brasileiros, ou mesmo espanhóis, não vês muitos na segunda liga, nem mesmo na primeira.

Têm um perfil identificado de jogador?
Temos, por posição até. É um perfil identificado pelo clube e o treinador que vem tem que se adaptar a isso. A estratégia é do clube e o treinador tem que estar identificado com essa estratégia.

Qual é o perfil de lateral que o clube prefere, por exemplo?
Normalmente, gostamos de laterais ofensivos, inteligentes, com muita atitude, porque, lá está, é muito considerada na Dinamarca, e que seja mais alto do que o normal. Por acaso, agora até temos um lateral direito baixo [ri-se], mas que já jogou na Liga dos Campeões, tem qualidade. Conta muito a atitude e a inteligência.

Mas valorizam mais um lateral que faça overlaps e vá à linha, ou um mais associativo e com jogo interior?
Um que defenda com mais segurança. O que posso dizer em relação ao nosso lateral direito é que tem mais jogo exterior. O esquerdo já não é tanto assim. A identificação das características que queremos nos jogadores só foi feita o ano passado, portanto, ainda não temos todos enquadrados com isso. Na formação já temos alguns.

E o treinador atual aceitou bem isso?
Ele é lituano e foi jogador do clube durante muitos anos, subiu o clube duas vezes à Superliga e está perfeitamente enquadrado. Gosta do clube e do país, também jogou e treinou no Brondby. Tem palavra a dizer nas contratações e, felizmente, tem bastante confiança no nosso trabalho. Basicamente, só tem de confirmar. Claro que tem sempre a última palavra. Faço um relatório, ele vê e pronto. Até agora, temos uma relação de confiança e ele nem precisa assim tanto de ver.

Em média, quanto tempo demoras a identificar um jogador, observá-lo, fazer um relatório e recomendar a contratação?
Não há um tempo padrão. Vejo vários jogos dele, prefiro sempre ao vivo, porque na televisão ou no vídeo quase só acompanhas onde está a bola. Depois de ver os comportamentos ao vivo posso, aí sim, com a ajuda do vídeo, ver outras coisas. Normalmente, e sei que é um bocado relativo, começo pelos dados estatísticos. Ligo muito à estatística e toda a gente no clube gosta, também. É importante que, nos últimos três anos, o jogador tenha jogado regularmente. E volto a dizer, é importante mas não é condição. O Pedro Silva está agora connosco e não jogou no último ano e meio. Indica que não teve grandes lesões. Isto fazendo um scouting normal, em que não haja recomendações. Vejo os dados estatísticos, depois vejo ao vivo e depois em vídeo. Se, nestes três parâmetros, estiver sempre bem, é para avançar.

Já foste ver um jogador e, depois de veres o aquecimento, decidiste esquecer?
Sim, já, e era português [ri-se]. Não vou dizer quem. Acho que nem chegou a saber, nem tinha que saber, porque se só se motivasse sabendo que estava a ser observado, também não valia a pena.

Disseste há pouco que vives na mesma casa com os jogadores.
Não é muito normal, não, mas cada um tem o seu espaço. Mas isso não influencia decisões, pode é influenciar comportamentos da parte dos jogadores. Foi uma decisão do clube, também porque, como viajo bastante, nem sempre estou lá. Portanto, não lidamos uns com os outros todos os dias, a toda a hora. E os jogadores são muito privados, fecham-se muito nos quartos, que é algo que me mete um pouco de confusão, mas isso é uma questão pessoal. Prefiro agarrar na bicicleta e ir dar uma volta, eles preferem estar sossegados no quarto.

Achas que te encaram como um polícia?
Não me parece, mas já sabem que, se pisarem o risco... [ri-se]

D.R.

Gostarias de evoluir para outras funções ou gostas mesmo de scouting?
Gosto bastante, além de que, neste projeto, não sou head scout apenas de um clube normal. Isto é ser diretor de scouting num projeto com vários clubes, várias realidades e com várias culturas futebolísticas diferentes. Agrada-me muito mais do que ter estas funções apenas num clube.

Este projeto da Capelli Sports foi bem recebido na Dinamarca?
Sim, muito bem, porque o nosso presidente [Per Rud] é uma pessoa muito respeitada, que trabalha na Liga e está nos sítios do poder de decisão, apesar do clube ser da segunda divisão. No geral, toda a gente sabe que, onde ele se mete, é uma coisa séria e honesta. Não vamos andar a fazer tráfico de jogadores, vamos criar estruturas fortes em vários países para, depois, alimentar o clube na Dinamarca. Portanto, até é uma coisa boa. Ninguém está a dizer que vamos ter um plantel só com estrangeiros, não, os jogadores dinamarqueses continuam a ser a prioridade. Como te disse, apostamos muito na formação. Ainda agora tivemos um jogo treino e temos miúdos de 17 anos no plantel. Isto não tem nada a ver com chegar ali e pôr a equipa toda a com estrangeiros. Agora, se pudermos arranjar o melhor jogador da nossa equipa no Gana, o melhor do clube de Portugal, para podermos ter ambos lá, melhor ainda.

Mas de onde veio este interesse da empresa pelo futebol?
O dono da Capelli tem uma paixão pelo futebol. Já tinha a marca de roupa, criou a marca desportiva, criou uma academia para os filhos deles jogadores - não vou dizer que são jogadores top, mas, por acaso, jogam bem - e, ao início, o objetivo até era vender roupa. Mas, com a paixão que tem pelo futebol, o grande objetivo passou a ser formar jogadores. É uma coisa que o cativa e em que está a investir bastante.

O que fazias antes disto? Qual é o teu passado no futebol?
Não é grande coisa [ri-se]. Trabalhava nas academias do Sporting, basicamente fazia scouting para algumas agências de representação de jogadores e ajudava alguns clubes, mas nunca foi nada profissional, era mais um part-time. Um hobbie, por assim dizer. Fui ganhando experiência, aprendi bastante, lido com muitas pessoas que sabem bem mais do que eu e que me ajudam, e tenho andado a fazer tudo para me valorizar como scout. Mas, no futebol, não tenho grande passado. Ainda tentei ser jogador, era um sonho, mas não havia qualidade para isso. Havia qualidade para ir jogando, não para ser jogador de futebol [ri-se de novo].

O que é preciso para alguém ser scout? É preciso estudar?
Não é bem estudar, é mais ter conhecimento, não só dos comportamentos em jogo, mas também acredito que tem de perceber a condição humana. Podes ter um futebolista a fazer um jogo miserável, mas, pela atitude dentro e fora de campo, saber que tem ali qualquer coisa. Não é só olhar e ver se este gajo é bom ou mau. Não, tens de ir a fundo, sempre, em todas as vertentes. É muito importante saber como é um jogador fora do jogo. Temos muito bom ambiente na Dinamarca e não podemos ter uma maçã podre, como dizia um ex-presidente do Sporting. Acredito que a parte humana é muito importante.

Mas não é imprevisível saber como irá um jogador reagir, por exemplo, se estiver um mês e meio sem jogar porque há alguém melhor na sua posição?
Há jogadores que "morrem" completamente. Aí, os treinadores podem dar uma ajuda, mas é sempre complicado, porque tens um jogador que não joga, depois não dá o máximo nos treinos porque sabe que não está a jogar, depois, como não dá o máximo, também não vai jogar. Dá para ver, em jogadores muito bons, que simplesmente não se adaptaram à realidade, daí o meu receio com alguns jogadores portugueses. Óbvio que ninguém me cobra isso, mas, imagina que começo a levar portugueses para o clube e nenhum rende? Tem de ser bem escolhido. O Marian tem corrido bem, este ano não jogou tanto, foi mais o ano passado, mas tem 20 anos e está com quase 50 jogos na segunda liga. As pessoas estão contentes. O Liam Jordan [sul-africano, ex-Sporting B] é dos melhores jogadores do plantel. Se for assim, nunca vão dizer nada. Mais vale arriscar só com muita certeza.

Já aconteceu o contrário?
Tivemos um jogador muito interessante [Pablo Arboine], que agora está na seleção da Costa Rica, que esteve dois meses no clube e praticamente não jogou. Não se adaptou à língua. Veio da Noruega, emprestado pelo Sarpsborg, o que ainda é mais estranho. Só falava espanhol, eu era uma ajuda, o treinador adjunto que tínhamos na altura, o Daniel [Gonçalves], era outra ajuda, mas, pronto, o treinador também não apostou nele. O jogador saiu, voltou a jogar e regressou à seleção. Como veio da Noruega, não me passou pela cabeça que não se adaptasse. Ele tem qualidade, pura e simplesmente não se adaptou. Também não tinha jogado muito na Noruega, mas estava num clube com orçamento brutal para jogar a fase de grupos da Liga Europa. Já lá estava há cerca de oito meses, pensei que já estava minimamente adaptado, pelos vistos não, mas não quer dizer que não tenha qualidade. Tanto tem que está na seleção outra vez.

Mas as pessoas com que falaste sobre ele não te avisaram?
Recomendaram-me a contratação. Era precisamente o que precisávamos na altura, um central rápido e agressivo, às vezes um pouco agressivo em demasia nos treinos [ri-se]. A pessoa que me deu a recomendação não mentiu, ele, de facto, era rápido, era agressivo e era aquilo de que necessitávamos. Não tenho nada a dizer sobre a pessoa, era bom miúdo e humilde, ainda hoje falo com ele. Foi mesmo uma questão de adaptação e de falta de aposta do treinador, também temos que ser honestos. Não sabemos, caso tivesse jogado, se se teria adaptado mais depressa. Não estou a querer culpar o treinador, estou a dizer que é uma das vertentes para analisar este falhanço.

Na Dinamarca há mais paciência e dão mais tempo a quem chega de fora?
Sim, muito mais. Eles costumam dizer que, no sul da Europa, basta duas derrotas e mudam tudo. E é verdade, não tão ao extremo, mas é verdade. Na Dinamarca há muito mais paciência. São pessoas organizadas, fazem projetos para tudo e seguem isso à risca. Trocámos de treinador a meio da época, o que não é uma coisa muito normal para o nosso clube - foi apenas a segunda vez em 17 anos, com este presidente. Mas foi uma coisa ponderada e o próprio treinador reconheceu que não conseguia. Teve tempo, a época passada já não tinha corrido bem e continuou a ser o nosso treinador. Há muita paciência.

Já tinham um perfil definido quando foram buscar este treinador?
Sim, temos sempre, mas, neste caso, foi diferente. Achávamos que precisávamos de uma liderança forte, de uma pessoa identificada com este campeonato, alguém que conhecesse a realidade da Dinamarca, que falasse dinamarquês - apesar de fazer tudo em inglês, porque temos jogadores estrangeiros - e ele tem isso tudo. É lituano [Auri Skarbalius], mas jogou muitos anos na Dinamarca. Para aquilo que precisávamos no momento, enquadra-se perfeitamente.

D.R.

Mas, então, quais foram os pontos do perfil padrão que não tiveram em conta?
A única questão é a idade, porque normalmente optamos por treinadores jovens e este é um bocado mais velho [46 anos]. Mas acabou por ser quase tudo dentro dos parâmetros.

E qual é a forma de jogar que querem para o clube?
Normalmente, mais em posse, mais sul da Europa. Mas, neste momento, vamos optar por pressão mais alta, com a equipa subida, porque, dentro de campo, a equipa não estava muito coesa e estamos a precisar de fazer golos. É óbvio que poderemos sofrer mais, mas, se marcarmos mais do que eles, não haverá problema. Vamos ter um futebol mais atacante do que é normal. Com o treinador anterior tínhamos muita posse, muitos passes durante o jogo e poucos remates. Mas o estilo de jogo do clube é mais técnico, com muita posse de bola, mas com mais remates do que os que estávamos a ter. Na Dinamarca, os jogadores são mais tecnicistas do que se pensa, não se vê tanto porque eles só saem do país para sítios onde ganhem mais dinheiro. Não vês um dinamarquês a vir para um clube da primeira liga portuguesa para se arriscar a não receber. Já tem uma boa vida na Dinamarca e pode lá ficar sossegado. Prefere ir para a Alemanha ou para Inglaterra.

Perguntei-te pela forma de jogar porque, em Portugal, ainda vemos muitos clubes a trocarem de treinador a meio da época, com um estilo de jogo que não tem nada a ver com o anterior.
Este, como disse, já estava identificado com o clube e já subiu por duas vezes à Superliga a jogar como vamos jogar agora - mas, quando lá chegou, continuou a jogar assim e desceu [ri-se]. Mas, pronto, pode ser a solução para agora. É o que vai tentar fazer.

O que acontece quando vais observar jogadores a um dos clubes do projeto?
Agora vêm três jogadores do nosso clube no Gana. Fui lá com um ex-treinador do clube, que agora está nesse clube, o Interallies, que pertence à Capelli, e escolhemos os três melhores. Não os conhecia, fui lá, estive três semanas no Gana, vi treinos, jogos, estive com eles e fiz todo o processo de scouting.

Como és recebido pelos jogadores nessas alturas?
Eles gostam e vêm isto como uma maneira de saírem para a Europa. O treinador que lá está, Henrik Lehm, tem um grande passado, é instrutor do nível UEFA Pro, na Dinamarca, e tem muita experiência. Tem muitos anos de futebol, aprendo muito com ele e chegámos à conclusão de que eles eram os três melhores jogadores. A adaptação será muito difícil, vão diretamente do Gana para a Dinamarca, se fosse para Portugal ou Espanha talvez fosse mais rápida. Os jogadores já estão inscritos, vão para a equipa principal, dois têm 20 anos e um tem 18, mas não estamos a contar com eles. Podemos ter uma boa surpresa, mas vamos dar-lhes tempo para se adaptarem bem.

Num caso destes, o clube fará alguma coisa diferente para recebê-los? Arranjar uma casa só para eles?
Não, até porque isso ia isolá-los, convém ficarem com os outros. A minha principal preocupação não é com aquilo que farão em campo, mas as pequenas questões, como ter alguém a cozinhar para eles. O que me preocupa é que as coisas fora de campo estejam bem para que, depois, dentro de campo, as coisas possam resultar. Porque qualidade eles têm, bastante.

Não pensaram em arranjar uma espécie de ama-seca para os ajudar?
Ama-seca sou eu e os outros jogadores [ri-se]. Temos que ser, todos têm um papel a desempenhar e daí ter dito que o ambiente é muito importante. Toda a gente ajuda no clube e as pessoas estão envolvidas em todas as áreas. Além dos 90 voluntários que temos a fazer de tudo um pouco, como ir buscar jogadores ao aeroporto, e até a mim, temos uma comunidade muito forte. Em dias de jogo temos cerca de 70 voluntários a ajudar, a quem damos a refeições e muitas vezes organizamos festas. Não é muito normal em Portugal.

Há pouco tempo perderam o Daniel Gonçalves, que era treinador adjunto, para o Santos, do Jesualdo Ferreira.
Foi muito mau para o que queríamos para o clube e para o projeto, mas temos que compreender. Foi aprender com o Jesualdo, foi para um clube muito grande, mas fica-nos sempre um bocadinho atravessado na garganta, como sei, porque conheço bem o Daniel, também lhe custou. Esteve três meses connosco. Saiu de uma maneira correta e terá sempre a porta aberta. Era adjunto, responsável pela preparação física e analista. Mas era sempre mais do que isso, como toda a gente no clube, integrava-se perfeitamente nos valores do clube, daí haver muita preocupação com o scouting fora de campo. Para este projeto, também vou recomendar pessoas que conheço e em quem confio, tal como os dinamarqueses o fazem. Tem que ser alguém que conheça os valores do clube e que queira crescer com o clube e o resto do projeto.

Imaginas-te a ficar muito tempo no HB Køge?
Sim, neste projeto imagino-me muito tempo. Não sei se será sempre neste clube, se noutro lado, mas vejo-me nisto por bastante tempo, desde que eles queiram [ri-se].

Do que conheces, há diferenças entre ser diretor de scouting num clube dinamarquês e num português?
Não penso que haja, há é mais envolvência no trabalho do dia-a-dia do clube. Porque, se calhar, um diretor em Portugal está mais na área dele. Eu faço de tudo um pouco e não me estou a lamentar, gosto disso. Assisto a todos os treinos da equipa principal, às vezes aos treinos da formação, posso dar-me ao luxo de fazer isso porque estou lá sozinho. Até já assisti aos jogos da equipa feminina e só agora vou começar a trabalhar também nessa área. Até aí vamos olhar para Portugal. Portanto, envolvo-me muito mais. Não o digo como lamento, sim com algum orgulho, mas ajudei a construir as bancadas que temos de substituição no campo, enquanto o estádio novo não é acabado. Não tenho qualquer tipo de problema com isso, até me sinto bastante valorizado pelas pessoas por ter ajudado em várias áreas. Desde que seja para o bem do clube, faz-se tudo.

E tempo livre?
Vejo futebol [ri-se]. Tento ver a liga portuguesa e, quando posso, ando muito de bicicleta. Digo-lhes muitas vezes que queria vê-los a andar de bicicleta em Lisboa, com todas as colinas. Mas, sim, tenho-me dedicado a isto a 100%.