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Albert Capellas: “Uma das vantagens de mover a bola é que ela nunca se cansa. Nunca vimos uma bola a suar”

Jogo de posição, Johan, preparação física, o pressing do Barça de Pep, o lado mental do futebol, Peter Bosz, Jordi Cruijff e formação. Em entrevista ao Expresso, Albert Capellas reflete sobre tudo isto. O espanhol, de 52 anos, é o selecionador dos sub-21 da Dinamarca. Antes passou pela formação do Barcelona e coordenou a academia do clube catalão, depois saltou para Vitesse, Brondby, Maccabi Tel Aviv, Borussia Dortmund e Chongqing Dangdai

Hugo Tavares da Silva

Alexandre Simoes

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Regressou à terra de Laudrup. Que tal?
Há uns anos estive a trabalhar no Brondby, que também é o clube de onde saiu Laudrup. Já conhecia pessoas da federação dinamarquesa porque colaborei com eles em algumas coisas no passado. Quando me ofereceram a possibilidade de treinar os sub-21 não pensei duas vezes. Primeiro, porque havia uma boa geração de futebolistas, era o início de um projeto. Não era como chegar a uma federação e a um país em que não conhecia ninguém; vim para uma terra na qual havia alguma segurança, porque estava apoiado por pessoas que já me conheciam; e vinha para um país em que já conhecia a liga, muitos jogadores, treinadores e o nível. Havia muitas vantagens, não ia começar do zero.

Cinco jogos, cinco vitórias rumo ao Europeu sub-21. É o primeiro estrangeiro no cargo. Que lhe pediram?
A primeira coisa que me pediram foi que a equipa jogasse de determinada maneira. A federação dinamarquesa tinha uma ideia de como queriam jogar futebol. Pediram-me que respeitasse a maneira de jogar que queriam implementar, não só nos sub-21 mas em todas as suas equipas inferiores. Tentam encontrar uma linha de jogo e um estilo muito claros. Vieram-me buscar porque já sabiam que eu também jogava dessa maneira, vale? Por isso, foi muito fácil dizer-lhes que sim, estávamos muito alinhados desde o princípio. Foram buscar um treinador estrangeiro também para conhecerem coisas novas. Para além da determinada maneira de jogar, procuravam a inspiração de um treinador de fora porque ofereceria todo o meu conhecimento para, se possível, tentar melhorar o modelo de jogo. Tendo em conta que venho da Catalunha, do Barcelona, com experiência na Holanda e Alemanha, e que estive com muitos treinadores, entendiam que era algo muito positivo para trazer valor para a federação. Depois, pediram-me um objetivo: a qualificação para o Europeu em 2021 (levam três apuramentos seguidos). Pediram-me para fazê-lo uma vez mais. Tentar jogar bem e, com esta metodologia, fazer o possível para classificar-nos para o Europeu.

Já se vê o jogo de posição nos jogos da Dinamarca?
Bom, não é o mesmo treinar um clube e treinar uma seleção. Tens muito menos tempo para treinar e implementar as tuas ideias. Está tudo muito baseado no scouting. Numa seleção muda muito se tens um jogador lesionado ou um jogador importante que não tem os minutos necessários, isto afeta. Estamos muito, muito satisfeitos da maneira como está a correr. Muitas das coisas que queremos implementar veem-se cada vez mais, como no último jogo que fizemos, contra a Ucrânia. Na primeira parte aproximámo-nos muito ao que procuramos. É uma evolução. Falta-nos um pouco manter posses de bola mais longas, estamos a trabalhar para o fazer e ter mais paciência em determinados momentos do jogo, mas, por outro lado, estamos a defender muito bem, estamos a fazer transições muito, muito bem. A pressão depois da perda [de bola], o pressing para a frente, os momentos em que temos de pressionar quando pressionamos à frente. A nível defensivo, evoluímos muito. A nível ofensivo, se olharmos desde o primeiro jogo para o último, também estamos a evoluir muito. Levamos cinco jogos. Sabes que isso no futebol não é nada (risos). Muito, muito contente e satisfeito pelo que estamos a fazer e pelo que estão a fazer os jogadores, que, no final de contas, são eles que jogam. Os treinadores só tentam guiá-los um bocado, dar-lhes um bocado de orientação e meter o mundo todo de acordo, para irmos todos na mesma direção. O mérito é dos jogadores.

Anders Kjaerbye / www.fodboldbilleder.dk

Tenho de perguntar: o que é o jogo posicional e para que serve?
O jogo de posição é uma maneira de jogar tão válida como muitas outras. É jogar futebol tendo em conta e baseando tudo em função da bola. Muita gente pensa que o jogo de posição é só fazer muitos passes. E ter muito a bola. Às vezes sim, às vezes não. Não é só isso. O jogo de posição baseia-se nos três P: de posse de bola, que é tentar ter a bola; de posição, estar muito bem posicionado no campo, não só para atacar melhor como também para, se perdermos a bola, estarmos muito bem posicionados para fazermos uma transição muito agressiva, para fazer uma pressão para a frente; por último, de pressing: no momento em que perdemos a bola, é um momento em que a equipa contrária está desorganizada - porque está focada em roubar a bola -, é um momento de caos. Se formos capazes de recuperar a bola nos cinco segundos seguintes, pressionando de maneira muito agressiva, e se recuperamos, graças a este momento de caos, conseguimos duas coisas: apanhar a equipa contrária a abrir-se, havendo assim espaço para um contra-ataque muito rápido (geram-se muitas ocasiões de golo quando recuperamos a bola rápido); se pressionamos e recuperamos a bola muito perto da área, ou em campo contrário, evita que tenhamos de correr muitíssimos metros para trás, não só um jogador mas toda a equipa, por isso poupa-nos muito esforço físico. Ainda que pareça que requer muito esforço físico pressionar muito forte assim que perdes a bola, é de três, quatro, cinco segundos, e normalmente é de apenas dois, três jogadores que estão mais perto da bola. Recupera-se muito rápido desse esforço, em menos de um minuto já recuperaram toda a energia. Esse esforço a pressionar permite-nos evitar que toda a equipa tenha de correr 60, 70 metros para trás. É um vantagem fisicamente.

...
Depois há outro ponto: a frustração. Se estás numa posse de bola longa e, no momento que a equipa contrária te rouba a bola, tu recuperas logo de seguida, estás a ganhar o jogo a nível mental. Estás a frustrar a equipa rival. Quando sentem isso, começas a ganhar mentalmente. Por isso, o jogo de posição tem muitas coisas. E por isso é tão difícil. Não é só ter a bola, é controlar muitas mais fases do jogo, especialmente nas transições. Por outro lado, o jogo de posição baseia-se também em mudar a tua equipa em função do rival, por isso há que o estudar muito bem. Se queres ter a bola, tens de fazer muitas coisas, além de não a perderes facilmente. Se queremos ter uns 60% de posse de bola, temos de a recuperar rápido, pressionando muito à frente, temos de evitar que saiam curto, organizar-nos para ganhar segundas bolas, temos de estudar muito bem como nos vão pressionar para tentar sair por onde está a vantagem, por onde podemos sair, onde podemos encontrar os triângulos e, sobretudo, como podemos gerar o homem livre que nos vai permitir uma saída de bola limpa. Sabemos que, se temos uma boa saída de bola, a jogada pode terminar em jogada de golo e em campo contrário. Requer inteligência, preparação e muita comunicação, pois há que explicá-lo aos jogadores. E sobretudo convencê-los. São eles que jogam. Se não somos capaz de os convencer, por muito que o tenhamos claro, é mais difícil. Se queremos jogar tão agressivos, pressionar à frente, ser agressivos na defesa, é importante ter a bola 60, 70% porque vais fazer muitos menos sprints. Se tens a bola 40%, quer dizer que o rival tem muito mais bola, terás de te desgastar muito mais a nível defensivo, por isso será muito mais difícil manter a intensidade defensiva. E não só: quando recuperas a bola, estás cansado porque estás a correr muito. Vais tomar piores decisões, vais ser menos preciso com a bola. Por isso dizemos que, como mínimo, queremos 60%. É o parâmetro que entendemos ser, a partir daí (60, 58, 62%), muito mais fácil jogar o jogo de posição em toda a sua plenitude. Uma das vantagens de mover a bola é que ela nunca se cansa. Nunca vimos uma bola a suar (risos).

Às vezes sinto que as pessoas que não gostam deste tipo de jogo nunca andaram a correr atrás de uma bola...
(risos) Claro. Muita gente pensa que é uma maneira de jogar romântica. Eu não jogo futebol por romantismo, jogo para tentar ganhar. A maneira que entendemos o jogo de posição não é por Johan Cruijff ou Guardiola o terem feito. Não. É porque queremos ganhar e porque temos dados que nos demonstram que, jogando desta maneira, aumentamos as possibilidades de ganhar. E isso não quer dizer que não se pode perder, porque não há nenhum sistema infalível. Perde-se com todos os sistemas. E com todos se ganha. A única coisa que sabemos é que, se jogarmos bem desta maneira, se tivermos os jogadores adequados e se jogarmos de maneira inteligente, os algoritmos, a big data, os dados dizem-nos que temos mais possibilidades de ganhar. Às vezes, claro, podemos ter 70% de posse de bola, ter a bola e perder o jogo 2-0. Isto não acontece porque fizemos o jogo de posição, mas sim porque, quando perdemos a bola, não fizemos algumas vigilâncias defensivas. É outro problema, não fizemos as coisas bem quando estávamos a atacar e permitimos contra-ataques. Aí é preciso melhorar o que estamos a fazer mal no jogo de posição.

Albert Capellas no Brondby

Albert Capellas no Brondby

Lars Ronbog

Há pouco falava do pressing. Lembro-me de um vídeo de Marcelo Bielsa em que este admitiu a Johan Cruijff que o Barça de Guardiola tinha algo maravilhoso: quando perdiam a bola, corriam para a frente.
Claro. Primeiro porque é mais fácil correr para a frente. É menos cansativo e tens mais informação. O Guardiola aproveitava esse momento caótico para pressionar à frente e tentar recuperar a bola o mais perto possível da baliza rival. Depois, recuperada a bola, decidia-se se se fazia um contra-ataque rápido, se havia vantagem, ou se jogávamos para trás, trocávamos três, quatro passes e rodávamos o jogo pelo outro lado, para ganhar tempo ou, por exemplo, para descansar, caso estivéssemos cansados e o jogo estivesse muito aberto. Aí vamos fazer 20, 30 passes para ter o jogo do nosso lado, para controlar o tempo, o timing, o ritmo, para nos posicionarmos melhor no campo. Quando estamos em controlo do tempo do jogo, voltamos a atacar. É verdade: defender correndo em frente é mais eficaz e mais agressivo. Temos de ser muito agressivos, não se pode duvidar. É uma das grandes coisas que o Guardiola fez no Barcelona: melhorar muito todo o sistema defensivo da equipa.

Viver perto de Camp Nou mudou a sua história, certo?
Sim, eu tinha o meu apartamento a cinco minutos do Camp Nou. Tive a sorte de ver muitíssimos, muitíssimos - quando digo muitíssimos são centenas - de treinos do Johan Cruijff. A ciudad deportiva, nessa altura, estava aberta. Ia ver os treinos, estava lá sozinho. Tive a sorte de ver Laudrup, Romário, Guardiola, Stoichkov, Koeman, essa geração incrível de jogadores. Guillermo Amor, Alexanko. Foi incrível. Foi aí que descobri os jogos de posição: 4x4+3, 6x6+4, 3x3+2... E como jogavam estes jogos a dois toques, como moviam a bola muito rápido e a intensidade defensiva que colocavam nesses exercícios para recuperar a bola. Foi aí que nasceu a minha paixão pelo jogo de posição. Cativou-me. Estava a ver os melhores jogadores do mundo a treinar daquela maneira e depois via como jogavam no fim de semana ou durante a semana na Taça dos Campeões e teve muito impacto em mim. Isso é sorte, eh: tive a sorte do Johan Cruijff ter estado oito anos no clube, tive a sorte do Johan Cruyff ter influenciado muito o futebol de formação, tive a sorte de conhecer muitos treinadores do futebol de base e de ver muitos jogos da formação também. E tive a sorte de viver como se geriu toda a metodologia do Fútbol Club Barcelona porque vivia ao lado. Não era porque sabia mais ou era mais inteligente, não. Eu estava ali. Nesse sentido cativou-me e decidi que o queria para as minhas equipas. Lembro-me de ver Xavi nos infantis A a jogar como organizador, a 4, num 3-4-3, e depois vi toda a evolução dele até chegar à primeira equipa, até ganhar o Campeonato do Mundo. E dás-te conta de quanta força tem essa metodologia, sobretudo quando é implementada nas equipas mais jovens. A primeira equipa tem a mesma filosofia, por isso quando os jogadores chegam lá é uma maravilha. Dás-te conta de que estes jogadores, que são pequenos, quem sabe noutro modelo ou noutro futebol não teriam a possibilidade de jogar ao mais alto nível, como Xavi e Iniesta. Graças a esta metodologia e a esta maneira de treinar, de entender o futebol, dando prioridade à bola, movendo-a, dando prioridade à inteligência no jogo, estes jogadores têm a habilidade para jogar ao máximo nível. É dar uma oportunidade muito grande aos jogadores que têm muitíssimo talento. E existem jogadores desses em todos os países, mas normalmente perdem-se pelo caminho porque muitos treinadores dão prioridade ao físico em detrimento da inteligência.

Treino do Barcelona em outubro de 88

Treino do Barcelona em outubro de 88

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Chegou a conhecer Johan quando completou o master no Instituto Johan Cruijff. Como era a figura? Que coisas dizia?
O Johan era excecional. Era a pessoa que, quando falava, nunca dizia uma coisa sem sentido. Era uma pessoa muito, muito, muito intuitiva e teve um talento incrível como jogador, formando depois parte dessas personagens eternas do mundo do futebol como Maradona, Pelé e Eusébio. São lendas do futebol. Como treinador também. Foi exatamente igual. Tinha muitíssima personalidade. Muitíssima. Como treinador explicava o porquê das coisas e convencia o jogador do porquê de ter de fazer-se assim. Estava muito certo do que queria. Essas são, talvez, as maiores parecenças entre Guardiola e Johan Cruijff: tinham muito claro o como queriam jogar e o porquê, justificavam-no aos jogadores e tinham uma personalidade grande o suficiente para não mudar a ideia, porque estavam muito convencidos, e não faziam os jogadores duvidarem. O que se passa muitas vezes é que, quando um treinador perde ou algo não funciona, tentamos mudar o sistema, duvidamos, mudamos posições, e isto acaba por prejudicar a equipa. Estamos a jogar um pouco com a sorte: vamos ver se damos com a chave e mudamos o sistema para ver se podemos ganhar. Eles não: tinham muito claro que queriam jogar assim. O Johan Cruijff tinha muito claro que queria jogar assim. Não duvidava. Era um dos grandes segredos do Johan como treinador. Para além da sua filosofia de jogo, era sobretudo o convencimento da maneira correta de jogar futebol.

Em 1999 chegou onde sempre quis: FC Barcelona. Foi adjunto da equipa B e coordenador da La Masia. Que exigia aos treinadores de formação?
Pedíamos que a ambição do clube fosse formar jovens jogadores para chegarem à primeira equipa. Era a nossa missão. Estávamos ali para ajudar os jovens talentos, para acompanhá-los na evolução deles, até que tenham hipóteses de jogar na primeira equipa. A filosofia da primeira equipa, nessa altura, visava ter um mínimo de 50% de jogadores provenientes do futebol de base, por isso tínhamos uma grande responsabilidade. Outra coisa que pedíamos era que todos trabalhássemos como equipa. Um treinador não era o treinador dos cadete A ou cadete B, ou juvenil A ou infantil B – éramos treinadores que ajudávamos o clube a desenvolver os jovens talentos para chegarem à primeira equipa. Trabalhámos muitíssimo o trabalho em equipa, beneficiámos muito da inteligência coletiva. Fazíamos muitas reuniões: para falar dos infantis A, por exemplo, os treinadores das equipas acima e abaixo também opinavam sobre o jogo, filosofia e sobretudo como se podia ajudar esses jogadores a ter mais possibilidades de chegar à primeira equipa. Não permitíamos que um treinador contratasse ou dispensasse um jogador. Só um treinador não o podia fazer. Essas decisões eram tomadas em grupo. Se, no final da temporada, havia um jogador que não tinha cumprido com as expectativas e um treinador dizia que não o queria para o ano a seguir, isso não era permitido. Havia uma avaliação, falava-se com os treinadores que o treinaram nos anos anteriores, falava-se com os treinadores que o teriam nos anos a seguir, e tentávamos descobrir se esse jogador continuava a ter potencial. Entre todos, decidíamos se podia continuar ou se teria de encontrar uma solução fora do clube. Foi uma das chaves. Quatro e seis olhos veem muito mais do que dois.

Pedíamos-lhes também que, na hora de treinar e jogar, todos treinassem e jogassem da mesma maneira. Todas as equipas tentavam jogar com o mesmo sistema (3-4-3 ou 4-3-3). Outro segredo era o scouting. Tínhamos um perfil muito determinado para cada uma das posições no campo. Explicávamos aos scouts do clube como jogávamos e que perfil de jogador queríamos para cada uma das posições. Quando os olheiros nos apresentavam os jogadores para seguir, já estavam muito alinhados com a nossa maneira de jogar. Nessa altura, como coordenadores do futebol de base, dizíamos aos treinadores que exercícios deviam fazer, e dávamos-lhes as sessões de treino e eles tinham de aplicá-las. Isto, dito assim, parece muito agressivo, no? Que um treinador não possa preparar o seu treino... mas, por outro lado, há que entender o contexto: estávamos lá, víamos todos os treinos, participávamos nos treinos e falávamos diariamente com os treinadores. Durante a semana já íamos falando do que íamos fazer na seguinte. Quando os treinadores recebiam os treinos, já estava tudo muito falado e alinhado com os treinadores. Por isso, eles não viam isso como uma intromissão ao trabalho deles. Como eles tinham participado no processo, recebiam-no muito bem. Para isto há que ter claro o perfil de treinador que se procura. No futebol de base, nessa altura, pedíamos que o objetivo fosse ajudar os jovens a chegarem à primeira equipa, mas o que muitos treinadores queriam era serem profissionais de futebol. Tentávamos detectar muito bem o perfil para cada um dos escalões. Quando falamos de equipas de 8, 9, 10 e 11 anos, o que procurávamos era um perfil mais educador, que viessem da faculdade, com muito conhecimento de futebol, com muita paciência e que soubessem tratar os meninos muito bem. Ao invés, quando procuras treinadores para Juvenil A ou Barça B, procuramos um perfil de treinador com potencial para chegar à 1.ª divisão ou, quem sabe, treinar no futuro a primeira equipa do Barcelona. Guardiola começou no Barça B. Luis Enrique também. E também treinadores como Óscar García, que começou no Juvenil A e chegou ao Red Bull Salzburgo e agora está no Celta de Vigo. Quando um jogador tinha 16, 17, 18 anos, já se procurava um treinador com potencial para chegar à primeira equipa e sobretudo com experiência no futebol profissional. Quando viveste o futebol profissional, há muitíssimos detalhes que não estão escritos nos livros e que os tens de viver para poder transmiti-los aos jogadores nesta última etapa para chegar à primeira equipa. Tentávamos diferenciar estes tipos de treinadores. Uma das coisas que fizemos também foi dar muita importância ao preparador físico. Muitas vezes, em muitos clubes, o preparador físico só se encarrega do aquecimento e do que não está relacionado com a bola. Fizemos ao contrário: o preparador físico era quase o melhor treinador de todos. Era um treino estruturado, com a parte física, técnica, tática, tudo junto. O preparador físico tinha de ter muitos conhecimentos de futebol e da nossa maneira de jogar para preparar os treinos adequados.

Há umas semanas, em entrevista ao Expresso (AQUI), Albert Puig disse que o maior erro que os treinadores de futebol juvenil cometem é não darem espaço ao erro, ao fracasso…
Há que entender em que contexto disse isso. Creio que entendo o que quis dizer. Os treinadores querem ganhar no FC Barcelona. Quando começas a jogar tens muito claro como queres jogar e que perfil de jogador queres. Acontece que, nas idades mais abaixo, as possibilidades de perder são mais altas. Quando perdem, o que fazem muitos treinadores? Mudam. Mudam o perfil de scouting, procuram jogadores mais físicos porque sabem que aumentam as possibilidades de ganhar. É algo que no Barcelona não deixávamos acontecer. Se perdes, no pasa nada. Continua a evoluir, porque sabemos que, a partir do momento em que implantamos esta maneira de jogar, no princípio vamos perder e mais tarde vamos ganhar. Permitimos que os jogadores percam e aprendam com a derrota. Isso fá-los crescer. E, depois, em vez de se transformar num problema, é uma oportunidade de crescimento. É uma das coisas que o Barça tinha claro e creio ser a isso que se referia o Albert Puig. Muitas vezes vemos a derrota como um problema, quando, na realidade, se analisarmos bem o porquê da derrota e se explica aos jogadores o porquê, aí podem sacar-se muitíssimas aprendizagens que, no futuro, serão benéficas para o jogador, equipa e até para o clube. Muitas vezes digo: um passo atrás são três passos à frente.

Capellas no Vitesse

Capellas no Vitesse

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O Albert também foi preparador físico. Que mitos existem à volta dessa actividade?
Bom, agora vais ter algumas manchetes (gargalhada)... Para nós, a preparação física não existe, falamos de preparação futebolística. Há que entender a preparação física. Não se pode separá-la do jogo, há que entendê-lo como um conjunto. Não preparamos fisicamente os futebolistas, preparamos futebolisticamente os futebolistas para jogarem futebol. Tentamos que seja tudo com bola, vale? Integrar o jogo na preparação física. Foi isso que criámos. O Paco Seirul-lo chama-lhe 'modelo estruturado'. Por outro lado há o mito do aquecimento...

Era a pergunta que vinha a seguir...
(risos) Muito bem. Em muitas equipas do futebol de base utilizam-se 20, 25 minutos para aquecer. Nós entendíamos que o aquecimento deveria ser muito, muito curto e acelerar de menos a mais de uma maneira muito rápida. Entendíamos que, com seis, sete minutos, era mais que suficiente para preparar a equipa para fazer um bom treino. Com isto ficávamos diariamente com 15 minutos extra para tática. Ao fim do ano e dos anos, é muito tempo de experiência para os jogadores. Éramos muito mais eficazes. Em 35 anos que levo como treinador, a verdade é que acho que nunca vi um jogador lesionar-se por causa do aquecimento, de um mau aquecimento. O jogador lesiona-se quando tem muita fadiga acumulada. Quando tem essa fadiga acumulada e tem que voltar a treinar, o risco de lesão tem a ver com a fadiga e não com um mau aquecimento.

Nem se veem lesões quando entram a frio num jogo...
Claro. Não é por mau aquecimento, mas por acumularem muita fadiga e o corpo diz basta. Por isso o mais importante no mundo do futebol é controlar as cargas de treino. Temos a periodização... vocês, em Portugal, têm a 'Periodização Tática'... dos treinos para calcular quanta carga e quanta intensidade estamos a dar a cada dia de treino para evitar que jogadores acumulem fadiga e evitar lesões. Fazíamos isto muito bem. Utilizávamos o aquecimento, mais do que para aquecer (ou também), sobretudo para preparar o cérebro ("cuidado que agora vou fazer um esforço de alta intensidade"), para trabalhar aspetos globais de team building, para que os jogadores se toquem, agarrem e empurrem, porque o contacto físico acelera os processos de comunicação entre os jogadores e eles estabelecem laços de uma maneira mais rápida, o que lhes vai permitir depois jogarem melhor. Outra coisa que fazíamos: não se podia fazer dois aquecimentos iguais. Se aqueces sempre com o mesmo tipo de aquecimento, o jogador relaxa, não presta atenção, baixa o nível de concentração... e o que acontece? Está 20 minutos a aquecer e, quando começa o exercício de verdade, é quando começa a aquecer a sério, começando pela concentração. Obrigávamos o jogador a estar concentrado desde o momento em que pisa o campo. Eram sempre aquecimentos distintos, obrigávamo-los a ouvir, a prestar atenção, porque todos os dias aprendiam coisas novas. A concentração é uma das coisas mais importantes no mundo do futebol. O aquecimento não era um mero trâmite, mas sim uma parte importante do treino.

Paco Seirul-lo

Paco Seirul-lo

Mike Egerton - EMPICS

Para ativar mentalmente.
Exato. Havia muitíssimos objetivos que se metiam em prática no aquecimento. Por exemplo, tentávamos fazer muitos aquecimentos com bola, muitos, em que se metiam movimentos táticos que seriam trabalhados depois ou para o jogo do fim de semana. Se sabíamos que uma das chaves para superar o rival era tentar meter bolas entre linhas, então o aquecimento teria receção-passe, em que se procurava um 1-2 [tabela] e depois um passe entre linhas para jogar com o terceiro homem e deixá-lo de frente [para o jogo]. Assim tentávamos direcionar a maneira de pensar do jogador para o que teria de fazer no fim de semana, procurando os passes na diagonal e o terceiro homem.

E os aquecimentos de jogo, aqueles 30, 35 minutos são realmente necessários? Paco Seirul-lo falava em mero ato socioafetivo...
Há muitas maneiras de fazer um aquecimento. Há preparadores físicos que controlam cada uma das fases do aquecimento: dois minutos de mobilidade articular, três minutos de acelerações, um minuto de alongamentos, quatro minutos de jogo de posição, com tudo muito definido; há outros preparadores físicos, como o Paco Seirul-lo, que davam muito mais liberdade ao jogador. Há que procurar a combinação: dirigir um pouco, mas também dar espaço para que cada jogador, mentalmente, se prepare. No fim de contas, falamos de 11 jogadores, são todos distintos e todos eles têm uma maneira diferente de abordar o jogo. Há um que requer mais intensidade, que gosta de estar mais ativado, outro que gosta de estar mais tranquilo, que gosta de tocar menos na bola... Cada pessoa é um mundo. O Paco dizia que o importante era o jogador saber o que precisava de fazer para chegar bem ao jogo, para começarmos ligados desde o minuto 1. O Paco procurava, e eu também, esta socialização em que procuramos as inter-relações entre os jogadores, e encontrar momentos que os obrigamos a ativarem-se, seja nas acelerações ou jogo de posição, em que não procuras apenas o toque de bola, mas também o timing, que combinem entre eles, se procurem e contactem. Estás a reproduzir um aspeto que vai acontecer durante o jogo. Era o que Paco Seirul-lo chamava 'Situações Simuladoras Preferenciais'. Há muitas maneiras. Depois também há o tema importante dos alongamentos...

...
Há muita gente que acredita muito nos alongamentos e há muitos jogadores que não acreditam nada nos alongamentos. Eu sou dos que pensa que isto é um tema muito pessoal. Se há um jogador que gosta de alongar, que alongue, porque lhe sabe bem. Afinal, é a preparação dele. Se há um jogador que gosta muito pouco de alongar e o obrigas a fazê-lo, estás a obrigá-lo a fazer algo que não gosta e, quem sabe, não o estás a ajudar a preparar-se bem. O que previne as lesões não é um bom aquecimento, ou um bom alongamento, o que previne as lesões é não sobrecarregar os jogadores. Prefiro o alongamento balístico, muito mais dinâmico, pois estás a dizer ao corpo que vai fazer um exercício de alta intensidade. É um alerta. É como a história do ginásio. Joga-se num campo de futebol, não se joga num ginásio. Há muitos jogadores que gostam muito de ir ao ginásio. É importante saber que tipo de trabalho fazem no ginásio. Há muitos exercícios que podem ser bons para um jogador e para outro podem ser muito maus. Não é para todos. Um gosta do café cortado, o outro de café com leite, o outro de um café italiano e o outro de um café americano. E há outro que não gosta de café. No? Em Portugal tens o exemplo do Cristiano Ronaldo. É uma pessoa que trabalha muitíssimo no ginásio e funcionou muito bem. Tens um campeão do mundo como o Xavi que, em quase toda a carreira futebolística, quase não pisou o ginásio. Quem tem razão? Na minha opinião, os dois (risos).

Cesar Luis Menotti

Cesar Luis Menotti

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Há uma frase de Menotti interessante: "Nunca vi uma equipa a ganhar 3-0 e cansada". O que se passa nos jogos é muitas vezes mental, não?
É absolutamente mental. Estou 100% de acordo. Há outra frase de Di Stefano, creio, que era: "Um jogador parece que está cansado e quando marca um golo faz um sprint de 100 metros até ao outro lado do campo" (risos). Ou seja, um jogador marca e faz um sprint, mas 30 segundos antes parecia que não podia com a alma. Imagina uma equipa com 10 jogadores, num dia chuvoso, com o campo enlameado, a perder 2-0, sem criar ocasiões de golo. Faltam cinco minutos, há um canto e marcam golo. Automaticamente esse 2-1 dá força a uma equipa que estava morta e começam a correr. É mental.

O golo é o melhor preparador físico.
Absolutamente. Marcar golo é o melhor preparador físico. E não sofrer golos também. Manter a baliza a zero mantém-te muito mais ativado do que quando sofres. O futebol é absolutamente mental, por isso falo da regra dos cinco minutos: quando uma equipa marca um golo, os cinco minutos seguintes são muito emocionais. Passaram-se muitas coisas, removeram-se muitas coisas das almas dos jogadores. Há uma equipa que adquire energia e a outra equipa que ganha frustração. É um momento muito perigoso mas, de vez em quando, é muito bom de aproveitar. Se a minha equipa faz o 1-0, peço sempre muita concentração para os seguintes cinco minutos, sobretudo para que não soframos o 1-1. Mas há que tentar marcar o segundo porque a equipa contrária está frustrada, está descomposta. E ao contrário: se nos marcam o 1-0, como sabemos que é um momento muito perigoso emocionalmente, pedimos máxima atenção e concentração para marcar o 1-1 o quanto antes nesses cinco minutos, porque a outra equipa pode ter relaxado e pode permitir alguma oportunidade, mas sobretudo que não sofram o 2-0 nesses cinco minutos. No mundo do futebol há momentos que são chave: o início da primeira parte, os últimos minutos da primeira parte, o início da segunda parte e os últimos minutos da segunda parte. E, nesses períodos, cada vez que há um golo, os tais cinco minutos são chave. Porquê? Porque o futebol é muito emocional. Eu gosto que as minhas equipas comecem muito forte, nos inícios da primeira e segunda partes. Sei que, se começarmos forte e marcarmos rápido, as possibilidades de ganhar o jogo são mais altas. Há estatísticas que dizem que a equipa que marca primeiro tem muitas mais possibilidades de ganhar os jogos. É o que dizem as estatísticas, não sou eu. Claro que um dia vou perder um jogo mesmo marcando primeiro, mas, quando olhamos a longo prazo, sabemos que a equipa que marca primeiro tem mais possibilidades de ganhar os jogos. Isso é estatística pura e dura.

Peter Bosz escolheu-o para adjunto em Dortmund. Porquê?
Quando cheguei à Holanda, ao Vitesse, tive um secretário técnico que se chamava Ted van Leeuwen, que agora está no Twente, e que me disse que tinha de conhecer alguém com quem ia encaixar muito bem, que tinha de ir jantar com ele. Era Peter Bosz, que era muito amigo dele. No primeiro ano, em que o Peter Bosz ainda não era o treinador, fomos jantar muitas vezes. Falávamos muito de futebol, partilhávamos conhecimento. Quando o Peter Bosz treinava o Heracles, jogavam em 4-3-3, jogavam muito bem futebol, com o jogo de posição. Havia muitas semelhanças na nossa maneira de pensar. Depois, por coisas da vida, no meu quarto ano no Vitesse, o Ted van Leeuwen deu-me o prazer de trazer o Peter Bosz para o clube como treinador. Trabalhámos juntos. E ficávamos, pela tarde, a analisar o jogo, a definir como queríamos que a nossa equipa jogasse, quando temos a bola e não a temos, quando é que a devíamos recuperar, como queríamos sair a jogar... dedicávamos muitas horas a discutir. E a escrever. Tínhamos a confiança para eu dizer-lhe tudo o que pensava e ele para perguntar-me "porquê?". Desafiávamo-nos mutuamente, tendo claro que era ele quem mandava e tomava a última decisão. Afinal, eu ajudava a discutir. Aprendi muitíssimo, foi uma maravilha. Espero que para ele tenha sido um bocadinho bom (risos). Por coisas de futebol, fui para a Dinamarca, para o Brondby. O Vitesse prescindiu do diretor desportivo e também ficámos sem presidente. E ninguém podia tomar a decisão de renovar o meu contrato, por isso fui embora para procurar vida noutro clube. Quando me despedi do Peter, sabíamos que íamos voltar a trabalhar juntos em algum momento e foi no Borussia Dortmund. Temos uma relação de amizade muito boa e falamos muito. Estamos em projetos distintos, mas as possibilidades de voltarmos a trabalhar juntos estão sempre aí. É uma pessoa muito boa para trabalhar. As nossas ideias são parecidas.

Peter Bosz e Albert Capellas num treino em Dortmund

Peter Bosz e Albert Capellas num treino em Dortmund

Alexandre Simoes

Ele está num grande clube (Bayer Leverkusen) mas acredita que pode chegar mais alto e treinar os melhores clubes do mundo?
Sim, claro. Absolutamente. Tem muita experiência, tem as ideias claras. Também aprendeu da derrota, vale? (risos) Tivemos a sorte de estar no Borussia Dortmund, onde fomos, no início, a melhor equipa da Europa... e depois, num mês, tudo descambou. Aconteceram muitas coisas, foi uma grandíssima aprendizagem para nós. Está absolutamente preparado. É muito inteligente. Sabe muito bem o que quer, como quer jogar. Quanto melhor seja a equipa, mais potencial tem o Peter Bosz. Está absolutamente preparado.

Já sabe falar catalão, ou não?
(gargalhada demorada) Tens de lhe perguntar a ele. Alguma palavra saberá.

Anders Kjaerbye

Chegou a dizer, numa entrevista ao “Sport”, que se interessa por tudo o que rodeia a complexidade do jogo, ouvir, entender, opinar, decidir e retificar. Quem é que o fez pensar mais? Quem é que o desafiou como ninguém?
[silêncio] ... Ainda que ele não o saiba, quem me fez pensar muito foi o Guardiola. Fez-me analisar as suas equipas muitíssimo. Johan Cruijff também é uma grande inspiração, quase a maior. Com quem mais discuti de futebol, Peter Bosz. E uma das pessoas que ultimamente mais me influencia, pela maneira de ver as coisas, é o Jordi Cruijff. Tem a intuição que tinha o pai dele e vê as coisas de uma maneira distinta, que só as pessoas com um talento especial podem ver. O Jordi foi uma dessas pessoas, com os comentários dele, que me fez mudar coisas na minha maneira de pensar. Foi o último a chegar [à minha vida]. Depois de 35 anos de experiência, e com muitíssimos treinadores, ainda foi capaz de me mostrar certas coisas que sucedem no futebol. Se tiver de dizer dois ou três nomes: Johan Cruijff, o primeiro; Paco Seirul-lo, com quem tive a sorte de conviver muitos anos no Barcelona e na Universidade, por isso toda a minha vida está influenciada por ele, somos amigos e tento aprender tudo dele; e, depois, Peter Bosz. E isto porque foi com quem tive contacto, senão diria Guardiola, van Gaal, Arrigo Sacchi, Bielsa, até Simeone... Eu tento descobrir porque essas pessoas têm êxito. Porque têm êxito? O que estão a fazer tão bem? Mourinho. Por que razão Mourinho tem sucesso? O que me atrai em Mourinho é a mentalidade ganhadora. Como consegue que o jogador tenha essa mentalidade ganhadora? Tento descobrir porquê e pergunto aos jogadores que estiveram com eles: "que têm de especial?", "porquê?", "como te convencem?". Tento perguntar muito e analisar muito e depois vou fazendo o meu sistema de jogo, aprendendo com os melhores e criando a minha própria maneira de entender o jogo. Todos eles eram diferentes. Até pode ser a mesma ideia mas, quando vês os planos [de jogo], há muitas coisas que são distintas. Há muitas maneiras de jogar, no?

Fica aborrecido com o debate sobre o que é jogar bem?
Sim, claro.

Claro?...
Sim. Sobretudo quando é por gente que fala com desconhecimento. Para opinar há que ter muito claro o que se procura. Gosto muito de uma frase de Johan Cruijff que é genial: "Se as pessoas não sabiam porque ganhávamos, como vão saber porque perdemos?". Ouves debates e sabes que não entendem o que estás a fazer. Por isso gosto de falar de futebol quando dou entrevistas. É a maneira de fazer pedagogia. Quanto mais conhecimento tenham as pessoas à volta, melhor para o jogo. As pessoas que falam vão ter mais critério. Os jornalistas, jogadores, treinadores e presidentes... Nunca tenho medo de falar das minhas equipas, de como jogo, não tenho problemas. Sou daqueles que acredita que, se a equipa rival sabe como jogo e sabe que não vou mudar, vai tentar adaptar-se e serão eles a mudar. Se trabalho o meu modelo durante uma semana, dois, três, quatro ou um ano ou dois anos, estou a aperfeiçoar a minha maneira de jogar. Se tenho de me adaptar a como joga o rival, só tenho uma semana para o fazer. Esta maneira de pensar afasta-te da vitória. Isto não quer dizer que joguemos sempre da mesma maneira, com a mesma filosofia, há sempre matizes em função do rival, claro que há. Mas sem perder a essência.

No Brondby

No Brondby

Lars Ronbog

Foi adjunto ainda no Vitesse e no Brondby, onde também treinou os sub-17. Anda sempre a saltar entre formação e futebol sénior. O que o seduz mais, afinal?
Bom, o que me seduz é sentir que posso aportar coisas onde estou. Sentir-me útil. Sempre disse que não queria acabar a minha carreira sem jogar a Liga dos Campeões, ou sem jogar um Mundial ou Europeu. Quando falo de futebol posso ter uma missão muito mais ampla, quando dou conselhos aos jogadores. Retiro coisas boas e desfruto em todas as áreas. Quando estou com os jovens passo muito bem. Tento ajudá-los, com a minha experiência e conhecimento, para as coisas correrem bem e para que possam ter uma carreira longa ao mais alto nível. Quando estou no futebol profissional, a jogar as competições mais importantes da Europa, aproveito esta experiência, pois conheço do futebol mais humilde ao mais profissional. Nos meus 35 anos de carreira trabalhei em todas as áreas. Por isso gosto tanto do tema da seleção, é uma maneira distinta de entender o futebol a partir de outro ponto de vista. Uma das coisas que me falta é jogar um Mundial ou Europeu, para ver o que significam estas competições e medi-las estando dentro. Sou treinador, passo muito bem. Oxalá tivesse começado antes, é uma coisa de que me recrimino ("porque não comecei antes a treinar a este nível?"). Venho de um futebol muito modesto e não era ex-jogador, não era ninguém no futebol. Tive de lavrar por respeito e entendi que a melhor maneira para chegar ao futebol profissional era como adjunto. Como treinador principal, as minhas possibilidades eram muito poucas. Aprendi muito, sentia-me muito útil. Mas chegou um momento em que estava sempre a fazer o mesmo e senti-me um pouco vazio. Precisava de novos desafios e por isso decidi dar o passo para treinador [principal], para testar-me e forçar-me a ir para o nível seguinte. Mas, no fundo, sou um pedagogo também. Gosto de partilhar o conhecimento, ensinar os jogadores, dar aulas e seminários. Passo muito bem a educar. Estas distintas experiências permitem-me, quando estou a ensinar, falar com muito mais propriedade sobre todas as facetas do jogo.