Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Quique Setién escolheu Damas para o seu top 4. Porquê? “Quique sempre idolatrou Chinchón e, como não podia deixar de ser, Vítor Damas”

A Tribuna Expresso trocou correspondência dos tempos modernos com um homem que guarda um arquivo dos verdiblancos há mais de 30 anos: "Para muitos, é o melhor guardameta da história do Real Racing Club"

Hugo Tavares da Silva

19.11.78. Real Racing Club – Real Zaragoza C. D. 3-2. De pé: Díaz, Geñupi, Madariaga, Junco, Preciado e Damas. Em baixo: Marcos, Macizo, Quique Setién, Javi e Giménez

Colección José Manuel Holgado

Partilhar

Goles son amores. É o que dizem muitas vezes em Espanha. Em fevereiro de 95, Enrique Setién Solar regou amor com amor e fez o 2-0 contra o Barça, o tal monstro sedutor que engordava como nenhum outro o conta-quilómetros pessoal, ganhando nas alturas do segundo poste a Pep Guardiola. O Racing Santander, com Radchenko na frente e Pedro Munitis a saltar do banco, venceu o ‘Dream Team’ de Johan Cruijff por 5-0.

Setién tinha 36 anos. Vinte e cinco anos depois desse golo e de tão bem regar a ideia que o derretia, foi contratado pelo Futbol Club Barcelona, o mesmo que naquele 11 de fevereiro tinha homens a defendê-lo como Hagi, Stoichkov, Amor e Bakero, para dar água ao que Cruijff semeou noutros tempos.

O treinador natural de Santander, de 61 anos, substituiu Ernesto Valverde e o debate sobre a realeza blaugrana tomou conta da apresentação e dos dias que se seguiram. Até hoje. Será eterno. Venceu com muita posse de bola? Qué bien, super-controlo. Não venceu e teve muita posse de bola? Ideia estéril, só contam as que entram, tío. Carreguemos então no botão imaginário 'fast forward' e vamos ao que interessa…

Para além de magicar os 1001 triângulos que os seus jogadores teriam de formar para o satisfazer, da reintrodução da tal pressão urgente de cinco segundos e do sequestro da única bola de futebol no campo, Quique Setién foi desafiado há uns dias a escolher o seu top 4 de futebolistas de todos os tempos. Uma das escolhas resgatou muitos sorrisos em Portugal.

Franz Beckenbauer, Andrés Iniesta e Johan Cruijff ocuparam defesa, meio-campo e ataque. Kaiser e Johan inventaram uma divina batalha ideológica na década de 70, que subiu às nuvens naquela final de 74 e elevou os perdedores a deuses. Iniesta, bem, é Iniesta e todos sabemos porque está ali. A surpresa morava na baliza.

19.12.76. Real Racing Club - Real Madrid, 3-3. De pé da esquerda para a direita: Díaz, Lolo, Camus, Arteche, Portu e Damas. Em baixo: Quinito, Sergio, Aitor Aguirre, Geñupi e Zuviría

19.12.76. Real Racing Club - Real Madrid, 3-3. De pé da esquerda para a direita: Díaz, Lolo, Camus, Arteche, Portu e Damas. Em baixo: Quinito, Sergio, Aitor Aguirre, Geñupi e Zuviría

Colección José Manuel Holgado (Fundación Real Racing Club)

A escolha foi Vítor Damas, um dos futebolistas mais importantes da história do Sporting Clube de Portugal, com quem partilhou balneário em Santander. “Quique Setién era então um jogador jovem que chegou à primeira equipa [do Racing] depois de brilhar nos juniores, com quem chegou a jogar as meias-finais do Campeonato de Espanha”, começa a contar à Tribuna Expresso um elemento da Fundación Real Racing Club.

Numa troca de correspondência dos tempos modernos, José Manuel Holgado continua: “Quique, que já era um grande racinguista e costumava ir ver os jogos da sua equipa, sempre idolatrou em especial Chinchón, um defesa de Huelva que deixou marca em Santander, e, como não podia deixar de ser, Vítor Damas, tanto pela sua maneira de ser como pelo seu grande rendimento. Não foi nenhuma surpresa que Quique tenha mencionado Damas nessa entrevista. Já o fizera em reiteradas ocasiões nestes últimos 40 anos”.

Racing 2-1 Levante U. D. (24 de fevereiro de 1980). De pé: Mantilla, Chiri, Villita, Juan Carlos, Macizo e Damas. Em baixo: Toño, Geñupi, Quique Setién, Piru e Escobar

Racing 2-1 Levante U. D. (24 de fevereiro de 1980). De pé: Mantilla, Chiri, Villita, Juan Carlos, Macizo e Damas. Em baixo: Toño, Geñupi, Quique Setién, Piru e Escobar

Colección Teodosio Alba

Holgado, coordenador de atividades na Fundación Real Racing Club, na qual está há cinco anos, colabora com este clube desde 2003, sobretudo a escrever nas páginas do jornal e livros sobre a história de jogadores, treinadores e presidentes dos verdiblancos. A lembrança de Vítor Damas, um enorme guarda-redes que morreu há quase 17 anos, é terna para este homem que guarda um arquivo do Racing há mais de 30 anos. “Era uma pessoa tranquila na sua vida e na sua maneira de se expressar com as pessoas. Ao contrário de Quinito, outro português que coincidiu com ele no Racing, o Vítor era mais caseiro, enquanto o extremo era um homem que gostava muito de sair e divertir-se. O Damas recordava sempre Santander e o Racing, onde ainda tinha contacto com alguns ex-companheiros”.

José Manuel Holgado diz que a lenda do Sporting, um lisboeta nascido em 1947 e formado em Alvalade, chegou a Santander com humildade. “A sua fama de grande guarda-redes não o fez sentir-se superior a ninguém. Desde o primeiro dia sentiu-se mais um e a cidade acolheu-o muito bem graças à sua proximidade com os adeptos. Nunca teve um problema durante os quatro anos no Racing, de 1976 a 1980.”

Vítor Damas, uma imagem que se pode ver em tamanho natural na Preferencia Oeste de los Campos de Sport, onde joga o Real Racing Club

Vítor Damas, uma imagem que se pode ver em tamanho natural na Preferencia Oeste de los Campos de Sport, onde joga o Real Racing Club

Fundación Real Racing Club

Holgado coloca o Racing de então como um clube com um dos orçamentos mais baixos da Primeira Divisão de Espanha. “Lutava para não descer de categoria, o oposto do que era o Sporting Clube de Portugal, onde a exigência era muito maior. Apesar disso, o nome do Racing sempre foi importante em Espanha, pois foi um dos dez clubes históricos que fundaram a Primeira Divisão na temporada 1928/29”, contextualiza.

Talvez por isso, por esse tabuleiro de xadrez que não prometia grandes meiguices na alma, a chegada de Damas tenha sido especial. “A contratação surpreendeu toda a afición do Racing num primeiro momento, poucos anos antes o clube jogou na Segunda Divisão. Tratava-se de um guarda-redes da seleção de Portugal e com uma trajetória muito importante. Havia dois guarda-redes muito jovens, saídos da cantera racinguista, por isso o clube procurou um portero com experiência e que lhes desse confiança. Desde o princípio, Damas foi um dos jogadores mais queridos do clube para os adeptos. A sua categoria de jogador internacional e ter chegado de um grande clube com o Sporting lisboeta ajudou-o a ganhar crédito e o respeito de todos, ainda que fosse também uma pressão à qual já estava habituado."

E que tal era na baliza? “Era um guarda-redes que demonstrou segurança. Era excelente nas saídas pelo ar e tinha muita jerarquía para orientar a defesa. Não era um guardameta de grandes filigranas, ao contrário, era sóbrio e sempre concentrado no jogo. Chamava à atenção jogar com vestimenta negra, similar à que vestia o famoso guarda-redes soviético Lev Yashin. Damas manteve um grande nível nos quatro anos que esteve em Espanha, tanto que chegou a ser nomeado o melhor estrangeiro da Liga Espanhola. Não era um guarda-redes de altos e baixos, era um grande bastião dos jogos que o Racing jogava nos Campos de Sport, onde era uma equipa muito difícil de bater.”

Fotografia de uma reportagem com Vítor Damas na imprensa de Cantabria

Fotografia de uma reportagem com Vítor Damas na imprensa de Cantabria

Fotografía de Manuel Bustamante

Mais abaixo, numa das cartas destes poucos sedutores tempos modernos, José Holgado conta a história de quando Damas chorou de angústia. “No dia 14 de abril de 1979, jogavam contra a Real Zaragoza no estádio La Romareda. O encontro estava quase a acabar com um empate a dois golos. Nesse momento, um erro de Damas levou à vitória da equipa aragonesa. O árbitro indicou o final do jogo e o guarda-redes luso ficou deitado na sua baliza a chorar por aquele erro ter custado a derrota do Racing. Sentia-se culpado pela derrota da sua equipa.”

Holgado recorda que os adeptos “adoravam Damas”. Começou por ganhar o carinho de toda a afición pelas “boas exibições” e, depois, também pela “humildade e personalidade”. Sem meias palavras: “Hoje, quarenta anos depois do seu último jogo no Racing, Damas é tão recordado em Santander que, para muitos, é o melhor guardameta da história do Real Racing Club”.

Os cántabros venceram por 2-1 o Real Oviedo C. F. no dia 4 de maio de 1980. Em cima: Mantilla, Junco, Villita, Preciado, Geñupi e Damas. Em baixo: Alarcón, Juan Carlos, Quique Setién, Choya e Toño

Os cántabros venceram por 2-1 o Real Oviedo C. F. no dia 4 de maio de 1980. Em cima: Mantilla, Junco, Villita, Preciado, Geñupi e Damas. Em baixo: Alarcón, Juan Carlos, Quique Setién, Choya e Toño

Colección José Manuel Holgado (Fundación Real Racing Club)

Na altura, lembra Holgado, os guarda-redes importantes da época eram Reina (Atlético de Madrid), Esnaola (Betis), Arconada (Real Sociedad), Miguel Ángel (Real Madrid) e, “acima de todos”, Iríbar, “o conhecido portero que sempre jogou no Athletic Club de Bilbao e na seleção espanhola”.

Percebe-se agora porque Quique Setién escolheu o português. Resgatemos as palavras do agora treinador do Barça para o justificar: “Como guarda-redes vou escolher Vítor Damas, um portero português. Foi o meu primeiro guarda-redes no futebol profissional. Era um guarda-redes extraordinário, para além de um grande jogador. Fui muitas vezes vê-lo ao [estádio] Sardinero até que pude jogar com ele. Parecia-me um dos melhores guarda-redes que vi na vida”.

19.11.78. Real Racing Club 3–2 Real Zaragoza C. D. De pé: Díaz, Geñupi, Madariaga, Junco, Preciado e Damas. Em baixo: Marcos, Macizo, Quique Setién, Javi e Giménez

19.11.78. Real Racing Club 3–2 Real Zaragoza C. D. De pé: Díaz, Geñupi, Madariaga, Junco, Preciado e Damas. Em baixo: Marcos, Macizo, Quique Setién, Javi e Giménez

Colección José Manuel Holgado

Vítor Damas ainda regressaria a Portugal para jogar em Guimarães e Portimão. Em 84 regressou a Alvalade: é o terceiro futebolista do Sporting com mais jogos (444), só atrás de Rui Patrício (467) e Hilário (475).

Holgado ainda não acabou, é daquelas cartas com o cheirinho doce do passado. “Destacaria duas histórias”, anuncia. “Antes da sua chegada a Santander, ao saber-se da contratação por parte do Racing, houve uma grande agitação no FC Porto, que considerava ter garantido aquela transferência. A outra história aconteceu antes de jogar a sua última temporada das quatro no Racing, em 1979/80. Marcel Domingo, o treinador do Recreativo de Huelva que o tinha elogiado naqueles anos, recusou assinar com o português por considerá-lo muito velho. O Damas não estaria assim tão mal, pois ainda jogou mais dez anos…”

*A Tribuna Expresso agradece a colaboração de José Manuel Holgado e da Fundación Real Racing Club