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“Estávamos num daqueles treinos de correria doida e o Bölöni diz ao Barbosa: ‘Pedro, isso ’tá lento’. Ele responde: ‘Sim, László, talento!’”

Diogo Matos foi campeão pelo Sporting, mas retirou-se do futebol aos 28 anos, devido às lesões, e acabou a ter uma carreira mais ativa fora de campo do que dentro dele, ainda que o trabalho que tem se baseie precisamente em juntar o que se passa na relva com o que se passa nos gabinetes, como explica em entrevista à Tribuna Expresso. Juntou a gestão ao treino, liderou a Academia do Sporting, começou a trabalhar com a Federação Portuguesa de Futebol no processo de certificação dos clubes formadores e, agora, é high performance expert da FIFA - cargo que intervala com o golfe, que aprendeu a jogar com o ex-colega Phill Babb

Mariana Cabral

PEDRO NUNES

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Estamos junto a um campo de golfe porque entretanto trocou o futebol pelo golfe?
[risos] Não. Vivo aqui perto, por isso dá-me jeito. Mas gosto muito de golfe e também estou a ajudar a Federação para aumentar a qualidade da oferta.

Gosta mais do que de futebol?
Não, isso não. Mas gosto muito. Acho que são perfeitamente complementares, quer a nível de atividade física, quer a nível mental. É uma necessidade que se vai criando e que vai aumentando cada vez mais, porque é um desporto muito desafiante, e eu gosto de desafios.

Como é que começou a jogar?
Comecei a jogar golfe ainda enquanto jogava futebol no Sporting. O Phill Babb vivia aqui em Cascais e nós íamos muitas vezes juntos para os treinos, e foi ele que me começou a desafiar para experimentar, porque ele jogava. Foi aí que comecei, jogava com ele e o [Peter] Schmeichel também vinha cá jogar de vez em quando - já não era jogador do Sporting mas vinha cá ter para jogar. Foi aí que comecei a gostar. Em Inglaterra os jogadores de futebol têm muito esta prática de jogar golfe.

O Phil Babb jogava bem?
Jogava, jogava. Tinha um handicap de single digit, como se diz [risos]. Acho que era sete ou oito. Ainda não cheguei lá, mas já vou no 10 - e já fui nove -, o que não é mau. Mas agora com menos tempo para a prática... Esta é uma modalidade que precisa de prática.

Phil Babb jogou no Sporting entre 2000 e 2002

Phil Babb jogou no Sporting entre 2000 e 2002

Matthew Ashton - EMPICS

Tem saudades do futebol?
Muitas. Como é que vou explicar... Tenho saudades do jogo. De jogar o jogo, de estar dentro de uma arena em que temos todos as mesmas regras, queremos todos fazer melhor e competir. Em todos os lances temos algo a provar a nós próprios e gosto disso, tenho alguma nostalgia dessa parte. Do resto, do meu ponto de vista, do que é a indústria do futebol, não tenho saudades, até porque hoje sou muito mais ativo do que era antes, fora de campo. Mas do jogo em si, da adrenalina antes do jogo, disso tenho saudades.

Do balneário?
Do balneário também, obviamente, mas quem foi jogador de futebol sabe que ficamos com estes hábitos de balneário, tanto que depois até dentro do grupo de amigos fazemos tudo para que seja quase como um balneário [risos].

Ainda joga por lazer?
Infelizmente já não. Ainda joguei um pouco, quer dizer, andei por aí, mas tive muitas lesões nos joelhos, foi também isso que me levou a acabar a carreira cedo.

Aos 28 anos.
Exato. Foram muitas lesões nos joelhos. A última, mais grave, ao serviço do Sporting, numa tournée nos EUA. Fui operado, mas foi uma situação bastante grave, nunca mais joguei a partir daí. Tomei uma decisão clara de antecipar o que estava na iminência de acontecer. Ainda tinha mais um ano de contrato com o Sporting e estava a acabar o meu curso de gestão no ISEG também, por isso tomei essa decisão.

Conseguia conciliar o curso com a carreira?
Conciliava com dificuldade, porque entrei na faculdade com estatuto de alta competição, com 17 anos. Fiz o percurso nas seleções jovens e nunca chumbei na escola, e aí tenho de agradecer aos meus pais, porque eu refilava muito, mas eles nunca me deixaram sair da escola: "Vais fazendo as duas coisas enquanto puderes". E fui sempre fazendo as duas, até ao dia em que assinei contrato profissional com o Sporting, aos 17 anos. Aí sim, já sendo profissional, já havia uma prioridade. Nunca desisti do curso, mas abrandei bastante, demorei muitos anos a acabá-lo, mas acabei. Disse que não me ia meter noutra, mas depois meti-me na FMH [Faculdade de Motricidade Humana] a tirar o mestrado em treino desportivo [risos]. A ideia foi fechar o meu currículo. Fui praticante de futebol a todos os níveis e tenho o mestrado em treino desportivo. Já tinha algumas luzes do que era a prática e agora tenho da orientação mais científica do mundo do futebol, porque temos de andar sempre a descobrir coisas novas para sermos diferenciadores. Da parte da gestão, depois de acabar o curso no ISEG, fui dirigente desportivo na Academia do Sporting, desde 2005, durante oito anos, e tenho a minha empresa [Youth Football Management] há cinco, seis anos.

Tem mais interesse pelo campo ou pela parte de gestão? Ou ambas?
Toca ali no meio. A minha função é ligar o que se faz dentro de campo com o que se faz fora de campo.

Um gestor no futebol se não tiver conhecimento sobre o jogo dificilmente fará um bom trabalho.
Pois, hoje em dia estamos um bocado baralhados, porque às vezes quando olhamos para pessoas que estão no mundo do futebol a tomar decisões vemos que não têm passado. Ou pessoas que vão comentar e que são especialistas nas suas áreas, sejam elas direito ou cirurgia ou o que quer que seja. Mas o futebol é muito específico e as pessoas não percebem isso. Lá por sair nos jornais todos, haver três diários desportivos e estar constantemente a passar na televisão, não quer dizer que todos percebam do jogo. Tem de haver uma separação clara do que é o adepto... E eu digo que tenho saudades de ser adepto, por vezes. Falta-me a ignorância saudável de ir ver um jogo. Quando olho para um jogo agora estou a ver muitas coisas e gostava muito mais antigamente, quando ia ao estádio e era criança, e só via magia. Saía de lá e só imaginava a relva, a bola a saltar e nem dormia bem à noite. Hoje em dia perdi isso. Mas isto para dizer que há pessoas que deviam permanecer apenas no lado do adepto e gozar dessa ignorância saudável, em vez de se tentarem imiscuir no meio. Porque depois com toda esta pressão social e de comunicação que existe, isso afeta um bocado a decisão de quem é profissional da área, quem tem trajeto. Tenho 44 anos e tenho 35 anos de futebol, como praticante e como dirigente, trabalhando em variadíssimas instituições. Creio que isso fará de mim e de outras pessoas com trajetos semelhantes pessoas mais habilitadas para falar e para gerir futebol. Mas, enfim, hoje em dia é a realidade que temos.

Costuma ver algum programa em que essas pessoas falam de futebol?
Não vejo nenhum desses programas, porque acho que é contraproducente. Nem há grande realidade ali, há é recados. O único programa que de facto acompanhava, porque falavam de outra maneira, era o Maisfutebol, esse sim.

PEDRO NUNES

O que é isto de ser high performance expert da FIFA?
É um bocado uma consequência de tudo o que tenho feito neste meu percurso. Do ponto de vista da FIFA, tem a ver com o Mundial 2026, que vai ter 48 equipas. Olhando para o ranking mundial, começamos a ver alguns nomes que podem estar presentes no Mundial e que nunca estiveram antes. Isto levou os responsáveis da FIFA a refletir: "Se vamos ter a França, o Brasil, a Argentina a jogar contra estas equipas, então vamos ter 6-0, 5-0 e isto vai estragar o espetáculo, vai retirar imprevisibilidade ao resultado". A FIFA não quer que os adeptos percam o interesse em ver os jogos, por isso tem de ajudar a que isso não aconteça. Respondendo então à pergunta, é neste processo que estou envolvido, porque um high performance expert é alguém que liga o que está dentro e o que está fora do campo, para ajudar as federações que não são de topo, que estão mais para baixo no ranking, para que melhorem a sua performance, tanto na seleção A, como nas seleções jovens, como no futebol feminino.

Quantos experts há?
Somos cerca de 12,13 high performance experts e vamos ser distribuídos por mais de 120 member associations, como eles chamam, federações que fazem parte da FIFA. Eles recebem um questionário e depois vamos lá visitá-los, para identificar as áreas de melhoria. Depois voltamos à FIFA e fazemos um programa para essa federação, para que ela possa ter uma melhoria de performance a médio prazo. Depois a federação seleciona o que quer fazer e a FIFA está na disposição de cofinanciar a implementação desses programas durante cinco anos, até ao Mundial 2026. Andando para trás, isto é um pouco o que estou a fazer com a Federação Portuguesa de Futebol, que criou um programa perfeitamente definido, que é a certificação das entidades formadoras, que começou em 2015. Este ano já está em quatro vertentes: futebol masculino, futebol feminino, futsal masculino e futsal feminino. Obviamente sabemos que o futebol masculino, por todo o investimento que teve nos últimos anos, está uns passos à frente, por isso começou primeiro o processo.

A certificação obriga a que haja uma evolução nos métodos dos clubes?
Os restantes vão agora passar por mais dificuldades, mas são boas dificuldades, porque este processo é para os clubes perceberem que não há pressa em fazer as coisas, mas é necessário que haja uma evolução sustentável. O que a Federação está a fazer é dar aos clubes uma caixa de ferramentas, de boas práticas, já testadas e melhoradas ao longo dos anos. Este ano temos perto de mil entidades envolvidas no processo de certificação e em todas as visitas que fizemos ao longo destes anos nós bebemos e melhorámos o manual de certificação. As boas práticas têm sido atualizadas de acordo com a realidade que nos é transmitida pelos clubes. É um processo em que temos 100% de aceitação, os clubes recebem-nos de portas abertas e querem perceber em que podemos ajudar.

Não há pruridos em mostrar o que se faz?
Nós desmistificamos um bocado isso. Digo sempre que no futebol não há magia. Há uma ideia e há várias maneiras de implementar o que queremos, e cada um tem a sua forma. Não queremos que ninguém nos diga os segredos que tem, fazemos perguntas objetivas sobre o esqueleto para chegar a uma entidade formadora bem estruturada. O clube tem a sua base e depois a partir daqui pode fazer como quiser, a FPF não pede para fazer desta ou daquela maneira, para jogarem desta ou daquela forma. Se quiserem jogar com nove avançados, um defesa e um guarda-redes, e o processo de treino for o guarda-redes chutar a bola para a frente e os nove avançados saltarem, ok, mas queremos que expliquem como é que fazem isso, e se isso respeita as etapas de desenvolvimento, e se há registo das unidades de treino e tudo mais. Não nos queremos meter. Mas é claro que este exemplo não acontece, porque os técnicos no nosso país felizmente têm um nível evoluído, falamos muito a mesma linguagem, seja a nível académico ou nos cursos de treinador. Portanto, voltando atrás, isto é o que temos feito em Portugal há cinco anos e é o que nos pedem para ajudar a fazer a nível mundial. Para mim é um passo em frente, é bastante interessante e vai aumentar a minha experiência. Obviamente sei muito mais do que sabia há cinco anos e agora vou ter experiência mais internacional e vou saber mais ainda.

PEDRO NUNES

Quando deixou de jogar, alguma vez pensou ser treinador?
Como estava inscrito em gestão desde cedo, sempre pensei mais nisso. Isto é um bocado como o último passe, aquele passe de rutura que dá para golo: não se procura, ele aparece. E depois há quem o veja, quem o antecipe e quem o saiba executar. E é um bocado isto, eu bem que podia pensar que nunca saberia o que iria fazer. Mas de repente os defesas abrem-se e há ali uma oportunidade. Eu percebi e executei o passe com alguma qualidade [risos], e entrei por esta via. Se me diz que há aqui paixão que me podia levar a ser treinador, por um lado sim, porque gosto de liderar, gosto de ver as consequências dos meus atos de liderança, da implementação das minhas ideias, mas depois há todo um lado que é de dependência... Às vezes vemos algumas decisões que são tomadas em relação a treinadores, seja para entrarem, seja para saírem dos clubes, que não são muito racionais e isso já me baralha um bocado. Gosto de ter um processo de tomada de decisão estruturado, daí a minha carreira, desde 2005, no dirigismo.

Entre 2005 e 2013 trabalhou no Sporting e foi diretor da Academia.
Sim, mas estive como diretor da Academia só dois anos, a partir de 2011. Antes estava na direção da Academia, quem liderava era o Pedro Mil-Homens, que hoje em dia é diretor do Seixal [da formação do Benfica], juntamente com o Jean Paul, que também está hoje no Seixal, o José Manuel Torcato...

Só falta o Diogo. Também foi convidado para ir para o Benfica?
[risos] Olhe, eu sou profissional. Vamos imaginar, hipoteticamente...

Então convidaram?
Se isso acontecesse, seria algo inaceitável em Portugal, ninguém perceberia. Mas nós olhamos lá para fora e é assim que funciona o mercado. Em Inglaterra, há quem saia do Tottenham e vá para o Arsenal, depois sai do Arsenal e vai para o Manchester United. São profissionais da área. Se não, não há espaço de trabalho. Eu hoje em dia digo: 'Ainda bem que trabalho com a Federação e não tenho uma situação destas que possa criar algum constrangimento' [risos]. É o que dá o ambiente criado no nosso futebol, não é? Por exemplo, o Benfica tem lá pessoas que trabalharam na Academia do Sporting, então é um sinal que passaram um bocado por cima disso e foram à procura dos profissionais que queriam e os resultados parece que têm comprovado isso. Não quer dizer que não haja outros bons profissionais noutros sítios, claro que há, mas o que estou a dizer é que tem de acabar este preconceito, porque é um preconceito que não abona muito em relação ao nosso futebol e que não tem nada a ver com a competência que deve ser trazida para os clubes.

Na altura em que o Diogo estava lá, a formação do Sporting era vista como a melhor de Portugal.
Sim, na altura era. Éramos uma equipa bastante coesa, há bocado também não referi o Aurélio Pereira, outra referência, obviamente. Estávamos todos com os remos na água, todos virados para o mesmo lado. Tínhamos uma administração que dava autonomia ao futebol de formação, o que é fundamental, porque na formação temos projetos de médio e longo prazo, por isso é que a formação me atrai. Não estou a dizer que não haja um plano no futebol profissional, mas é algo que tem de ser diferente, porque a equipa é avaliada ao domingo, à quarta e ao domingo, e com três derrotas qualquer grande plano começa a ir por água abaixo. Mas há ideias principais das quais não nos devemos desviar. E quando se fala de formação às vezes divide-se as coisas: "Ah isso é o futebol dos miúdos, eu sou do futebol sénior". Não tem nada a ver. São projetos de futebol e um projeto de sucesso do futebol sénior inclui futebol de formação.

Nem sempre.
A não ser, tudo bem, que se prefira só comprar jogadores feitos e não se gasta milhões na formação. Pode ser uma estratégia que também pode resultar e o futebol tem este lado interessante também. Um jogador pode ter vários indicadores negativos, está sempre mal orientado, recebe mal a bola, está mal posicionado, mas se de repente marca um golo, os jornais passam uma semana a dizer que é o maior craque da equipa. Portanto o futebol tem vários caminhos para chegar ao sucesso, mas, para o nosso futebol, do nosso ponto de vista, o caminho para um clube chegar ao sucesso e ser competitivo na Europa, que é o que interessa hoje em dia, deve ter um processo assente no futebol de formação, a médio e longo prazo. Isso permite que se saiba que, quando se perde ao domingo, há um edifício ao lado a crescer e todos os dias há ali mais um tijolo a ser acrescentado. E o que acontece no edifício do futebol profissional não afeta negativamente o edifício do futebol de formação.

Foi o que aconteceu na altura em que estava na Academia?
Naquela altura tivemos uma administração, do presidente Filipe Soares Franco, que teve essa visão de dar autonomia à formação na Academia e as ideias foram postas em prática. E algo que considero que foi muito a base do meu trabalho, em 2008/09: a decisão de concorrermos a uma certificação ISO 9001. Internamente queríamos ser avaliados pelo nosso trabalho, por uma entidade externa. Não havia ninguém para fazê-lo. Ainda tentei falar com alguém de um clube em Espanha, que trabalhava muito bem, para fazermos um intercâmbio: nós íamos lá avaliá-los e eles vinham avaliar-nos, mas depois não houve concordância. Então pedimos a uma entidade que fazia aquilo para outras indústrias, porque a norma ISO 9001, ao fim ao cabo, tem a ver com um processo de gestão de qualidade universal. Fiquei responsável por esse processo e posso dizer que me ajudou muito, porque na altura estivemos um ano e meio, internamente, a discutir como é que fazíamos as coisas. Passámos a ter algo estruturado, porque escrevemos quais eram os processos e o que se passava e quem eram os responsáveis pelas áreas, para que a informação ficasse para o clube e não para as pessoas. E esse modo de trabalhar afetou-me muito a nível profissional, porque foi uma ferramenta de gestão para trabalhar. Desde então, tenho utilizado essa aprendizagem, na gestão da minha empresa, na gestão do processo de certificação em parceria com a Federação Portuguesa de Futebol. Portanto, acho que se pode dizer que naquela altura estávamos numa posição de liderança no processo de formação. Hoje em dia não sei, porque não estou dentro dos clubes, e sendo um avaliador do processo de certificação também não posso estar aqui a referir quem está melhor ou pior.

Acho que é geral a perceção de que a formação do Sporting piorou nos últimos anos.
Acho que se pode tirar essa conclusão, comparando com os indicadores anteriores.

Naquela altura, quem chamava mais a atenção na formação, em termos de potencial?
Eram vários. Mas nunca se sabe bem quem vai dar jogador. Se houvesse alguém a saber isso a 100%, já estava milionário em algum lado do mundo. Essa bola de cristal não existe. O que existe é um processo que vai atenuando os nossos erros. Porque o futebol é feito de erros e quem é melhor no futebol é quem comete menos erros. No jogo é a mesma coisa. Quem cometer menos erros na escolha dos atletas a integrar o seu processo de desenvolvimento e depois na escolha dos atletas que saem do seu processo de desenvolvimento, os dispensados, é quem tem mais sucesso. As pessoas às vezes esquecem-se, mas uma decisão de saída de um atleta é tão importante como a de entrada, porque se mandarmos embora o jovem errado, podemos estar a mandar embora um futuro jogador.

Alguma vez mandou embora o jovem errado?
As decisões eram tomadas em grupo. Obviamente a parte técnica tinha muito mais peso, mas havia um processo, havia várias pessoas a fazer relatórios de avaliação e no fim discutia-se o último relatório, do diretor técnico. O processo defende o erro e é exatamente isso que temos de fazer. Se formos monitorizando como é que ele vai evoluindo, como é que foi avaliado o seu potencial, o que é que ele foi concretizando ao longo do tempo... Depois é mais fácil acharmos que não vamos errar, podendo sempre errar. Mas há outro ponto fundamental aqui no meio, que é a 'campionite', que tem de ser combatida. Há muitos artigos disponíveis sobre isto e às vezes as pessoas parece que os ignoram, mas não deviam: refiro-me à idade relativa. Os jogadores que chegam ao futebol profissional são, na esmagadora maioria, nascidos no primeiro semestre do ano. Ou seja, Portugal, que tem de aumentar o número de jogadores e jogadores de qualidade para continuarmos na crista da onda do futebol, devia olhar mais para o segundo semestre. E não olha porque os treinadores e os clubes e os dirigentes estão a olhar para a vitória imediata. Porque se tivermos um jogador completamente definido fisicamente aos 15 anos, mas com poucos atributos de potencial para poder crescer, e outro que ainda está atrasado maturacionalmente, mas que fisicamente até irá chegar ao patamar daquele atleta, e tem outros atributos técnicos...

Estamos a falar, por exemplo, de um Bernardo Silva.
Um Bernardo Silva, exatamente. Ou um João Moutinho. Ele entra numa altura em que o Tinga foi vendido de repente e não havia solução. Olharam para baixo para ir buscar alguém para jogar e foi o João, e jogou bem. Tínhamos uma frase lá que usávamos muitas vezes: "Não existe sorte, existe preparação e oportunidade." Alguém está preparado e tem uma oportunidade. Foi o que aconteceu nesse caso. O Bernardo Silva também é um ótimo exemplo. Ainda por cima os que maturam mais tardiamente cumprem melhor as janelas de treinabilidade, ou seja, há uma altura da vida em que recebem melhor um certo tipo de treino. Ainda há muito trabalho a fazer nesta área. Quem conseguir aguentar esta pressão dos resultados na formação e conseguir trazer mais jogadores de qualidade poderá ter uma vantagem a breve prazo.

Além do João Moutinho, havia mais exemplos?
Havia dois que eram diferentes dos restantes: o Ricardo Esgaio, um nazareno cheio de raça, com bom espírito, que corria e corria e corria, e tinha os valores todos no sítio certo. Tinha muita disponibilidade, era um jogador de equipa e tinha o suficiente no lado técnico também.

Mas não ficou no Sporting.
Não, mas é capitão do Sporting de Braga, faz golos, faz assistências. Depois esse tipo de decisões nos clubes grandes são complicadas. Outro atleta que tinha qualidade, e tem ainda, apesar de ter sido fustigado por lesões, era o Chaby, jogador de um fino recorte técnico. Mas depois o futebol tem várias coisas a envolvê-lo e nem sempre os melhores conseguem aparecer. Eram jogadores que estimava muito porque eram bons rapazes. Não é preciso ser mau rapaz para ter sucesso no futebol.

Quem era o melhor jogador da geração do Diogo?
Apesar de eu ter mais um ano do que ele, o Dani era da minha geração, jogou comigo todos os anos, e era ele o jogador de maior destaque em todas as vertentes.

Fora de campo também.
[risos] O Dani tinha algo de que as pessoas não têm conhecimento: ele sempre deu tudo dentro de campo. Era um ótimo colega de equipa e dava sempre tudo. Nesses dias em que se calhar não estava tão disponível se calhar dava um bocadinho menos, mas era um ótimo jogador e tinha uma ótima relação com todos. Era um craque de encher os olhos, fez coisas perfeitamente incríveis.

Lembra-se de histórias com ele?
Tínhamos uma história... Já passou tanto tempo que já posso contar. A nossa seleção que foi ao Mundial sub-20 no Qatar, naquela altura, era muito unida. Estava o Dani, o Nuno Gomes, o Quim, o Agostinho, o José Soares, o Alfredo Bóia, o Bruno Caires... Era uma boa equipa, muito unida, e sabíamos que tínhamos dois ou três que faziam a diferença: o Dani, o Nuno Gomes, depois o Agostinho e o Ramires, que eram muito rápidos... No Qatar nós jogávamos sempre com uns 35 graus de temperatura, um calor enorme. Então, se andássemos todos a correr, todos a fazer o campo inteiro, como era suposto fazermos, havia ali uma altura em que não iríamos conseguir fazer muito mais. Então nós, jogadores, juntámo-nos, falámos todos e dissemos: "Eh pá, a nata, ou seja, Dani e Nuno Gomes, está proibida de passar para trás do meio-campo". E eles: "Não pode ser, depois o mister vê..." "Não te preocupes com o mister, que ele, se perceber o que se passa, um dia há-de entender. Nós aqui atrás tratamos de tudo e vocês resolvem lá à frente". Com 19 anos até tínhamos maturidade [risos]. A coisa correu bem, ficámos em terceiro lugar e perdemos com o Brasil com um golo nos descontos.

Quem era o selecionador?
Era o mister Nelo Vingada. No fim do Mundial, ele puxou-me para o lado e disse: "Eu sei o que vocês fizeram". [risos] Ele percebeu perfeitamente, entendeu o que o grupo queria fazer, é uma pessoa muito inteligente. Foi engraçado. Mas aos 19 anos não tinha, de todo, o conhecimento que os jogadores desta idade hoje têm em Portugal. O meu filho também joga, com 15 anos, no Estoril, e vejo isso.

Em quê?
No conhecimento tático, na linguagem, nos comportamentos no jogo, tudo isso. Eu não tinha e sei que na minha equipa poucos tinham.

Era um jogo menos organizado?
Era um jogo um pouco mais anárquico. O que não era péssimo, porque isso às vezes em idades mais baixas não é mau. Aos 19 anos já não, mas em idades mais baixas, porque aí se calhar vemos ações que não víamos se o futebol fosse padronizado.

O Diogo era capitão na formação...
Sim, fui capitão nas camadas jovens, durante vários anos, e fui internacional em todos os escalões também.

E como é que chega a profissional?
Até foi um bocado pena a altura em que chego a profissional, porque o Bobby Robson gostava bastante de mim. Eu era júnior de primeiro ano e treinava uma ou duas vezes por ano com os seniores, isto na altura em que o Bobby Robson é despedido, num grande ato de gestão do presidente da altura... Eu estava no balneário nesse dia em que ele foi lá despedir-se e lembro-me que praticamente todos os jogadores choraram, e eu também. Ele era um senhor, a todos os níveis, e tinha uma ligação muito interessante connosco. Depois veio o Carlos Queiroz, com outras ideias e outras pessoas de fora, que foram contratadas para a minha posição, portanto não houve aposta em mim, apesar de eu ter contrato profissional. Fui então para o clube com o qual o Sporting tinha protocolo na altura, o Alverca. Depois subimos de divisão. No ano seguinte fui emprestado à Académica e depois acabei contrato com o Sporting e o Alverca convidou-me para voltar. Enquanto estava na Académica, tive uma lesão, no Torneio de Toulon, e acho que isso ajudou a resolver o caso para o Sporting, porque eu acabava contrato naquela altura. Ou seja, fiquei lesionado no joelho e sem seguro. Na altura o médico da Federação, o Dr. Bagão Félix, teve a decência de me ajudar e de conseguir que fosse operado e recuperasse, mas demorei bastante tempo. Depois voltei para o Alverca, já o Alverca tinha então protocolo com o Benfica, e subimos até à 1ª Divisão. Depois, em 2001, curiosamente depois de um jogo no estádio da Luz em que ganhámos 2-0 e sou eleito de forma unânime o melhor em campo, o Sporting liga-me. Também houve contactos do Benfica, mas o Sporting voltou a contratar-me.

Sentiu-se vingado, por assim dizer?
Não, vingado não, até porque as pessoas já não eram as mesmas. Vi que todo o caminho, que tinha envolvido muito sofrimento, estava a ser recompensado. Nós nesse jogo com o Benfica tínhamos no Alverca um equipa que tinha o Maniche, o Ricardo Carvalho, o Ramires, o José Soares, jogadores que tinham feito formação ao mais alto nível em Portugal, em todas as seleções, e que depois não foram aproveitados pelos seus clubes. Na altura o Benfica, do lado de lá do campo, se calhar não tinha jogadores com tanto currículo de formação como nós.

Falaram sobre isso?
Lembro-me perfeitamente que o nosso discurso no balneário foi: "Não olhem para as camisolas. Olhem para o lado de lá e olhem para nós. Veem alguém que tenha feito um percurso melhor do que o nosso? Há alguma razão para eles serem melhores do que nós ou é só camisolas?" Foi um discurso interno de motivação e jogámos o jogo para ganhar e ganhámos 2-0, no antigo estádio da Luz.

Um discurso muito maduro para um balneário com jovens.
Não, isso acontecia muitas vezes. E a verdade é que muitas vezes as equipas que têm mais sucesso têm um núcleo duro no balneário que pensa e que reflete. Não pode ser só entrar lá para dentro e jogar o jogo, isso já acabou. Tem de se ter algumas competências extra. Não é uma pessoa que as tem, é o grupo, tem é de se conseguir trazer isso ao de cima.

O Diogo volta para o Sporting quando o clube se sagra campeão.
Exatamente, em 2001/02 fomos campeões e ganhámos a Taça.

Aí havia um núcleo duro no balneário.
Sim, encontrei aí um núcleo forte, de pessoas com quem me dou lindamente hoje em dia: Pedro Barbosa, Paulo Bento, Rui Jorge, João Pinto, Rui Bento, Phil Babb, André Cruz, Dimas... Era um balneário de peso. Eu próprio já tinha 24 ou 25 anos, portanto já tinha mais experiência e integrei-me perfeitamente.

É fácil entrar num balneário assim?
Já conhecia alguns deles, porque já tinha uma história no Sporting, já conhecia a casa, já conhecia as pessoas que trabalhavam no clube, dos sete anos em que tinha estado na formação. Mas claro que é complicado. As pessoas às vezes pensam que é fácil ir para fora jogar ou trabalhar e não é. Temos sempre de ter a nossa postura bem vincada para nos valorizarmos, há que conquistar o espaço. Tínhamos um grupo interessante e viveram-se histórias engraçadas.

Por exemplo?
O Pedro Barbosa tinha uma ótima. As pessoas não fazem ideia mas o Pedro é uma pessoa com um sentido de humor bastante apurado. Estávamos num treino, um daqueles treinos de correria doida que o Bölöni fazia, e o László vira-se para o Pedro e diz-lhe assim: "Pedro, Pedro, isso 'tá lento!". E o Barbosa responde-lhe: "Isso mesmo, László: talento. É talento!" [risos] Esta ficou-me na memória porque realmente tem muita graça. Era um grupo com um ótimo espírito, sólido, e acho que fizemos um campeonato com essa imagem.

Matthew Ashton - EMPICS

Havia alguém que se destacasse mais a liderar a equipa?
O Pedro era claramente o líder e foi um excelente capitão, defendia as posições dos jogadores, tendo sempre em consciência o que eram os objetivos do clube também.

Acha que atualmente tem faltado alguém que faça isso no Sporting?
Acho que quando o Pedro saiu, e depois o Paulo Bento e o Rui Jorge, se nos lembrarmos, tudo no mesmo ano... De repente temos o João Moutinho, com 21 anos, a ser a pessoa com mais experiência dentro do clube. Ou então eram jogadores de fora, como o Liedson e o Polga. Aí, após o ano da UEFA, acho que houve um desmembramento da equipa. Gerir uma equipa de futebol também tem muito a ver com a manutenção dos valores vigentes, pelo que há que ter um núcleo duro que vai dando ali uma passagem para acomodar os que vêm, porque todos os anos chegam novos, mas se eles chegam e não veem nenhum procedimento, nenhuma prática habitual, então cada um faz o que quer e isso depois vai depois refletir-se dentro do campo.

Como aconteceu recentemente?
Vai acontecendo em algumas equipas, vamos vendo isso. Falta identidade. O que é isso da identidade da equipa? Este é um dos aspetos essenciais, que tem a ver praticamente com uma herança do balneário. Depois o treinador tem a sua identidade e o clube também. Um treinador quando chega a um clube deve saber qual a identidade desse clube.

E um clube que tenha quatro treinadores numa época, como o Sporting?
Pois, não sei. Não tenho conhecimento suficiente do que se passou para estar a comentar essa situação. A única coisa que vejo de fora é que as pessoas estão a tentar reverter a situação, para já desportiva, nem falo das outras partes. O clube está numa situação em que não devia estar e estão a tentar reverter essa situação. Se estão a fazê-lo da melhor ou da pior maneira, não tenho todos os dados para emitir uma opinião fundamentada. Se calhar, se fosse eu, não fazia tudo da mesma maneira que estão a fazer agora, mas também não tenho todos os dados.

PEDRO NUNES

Os seus filhos jogam?
O mais velho, rapaz, joga, as três filhas não jogam futebol, jogam voleibol e ténis. Ele tem 15 anos, joga no Estoril e tem mais jeito do que o pai [risos]. Eu tinha outras características.

É médio também?
É, mas médio ofensivo, joga ali a '10' ou a '8'. Tem uma leitura de jogo e uma tomada de decisão muito interessantes, e executa bem.

Há pressão devido ao pai ter sido jogador?
Não sei se ele sente alguma pressão extra, mas nunca lha passei, nem quis passar. Claro que gosto de ir ver os jogos dele, gosto de acompanhá-lo, mas só falo com ele sobre coisas mais gerais. Ele lá tem o treinador dele para ensiná-lo a fazer as coisas.

Fica assustado com as reações de alguns pais nas bancadas?
Fico assustado, fico muito assustado.

Antigamente também era assim, quando jogava?
Acho que antigamente não reparava tanto, porque nunca liguei muito ao que se passava lá fora. E o meu pai também nunca ia ver os meus jogos, nem a minha mãe, diziam que ficavam nervosos [risos]. O meu pai conta uma história engraçada sobre isso. Uma vez ia lá buscar-me, num Sporting-Boavista em juniores jogado no estádio principal, em Alvalade, e então chegou lá mais cedo e foi ver uma parte do jogo. Fiz lá uma boa jogada, entrei na área e falhei o golo. E o meu pai: "Nabo, como é que falhaste isso?" E os sócios do Sporting quando ouviram viraram-se contra ele, por isso ele teve de se ir embora rapidamente [risos]. Mas hoje em dia isto está muito grave. Neste processo de certificação dos clubes, com a Federação, estamos a tentar fazer muito através da formação dos pais. Queremos que os clubes dêem formações aos pais, comuniquem com eles, saibam gerir expetativas. Tem também de haver aqui um passo em frente, tem de ser o Governo e as autoridades. Às vezes vejo os polícias nos estádios e faz-me confusão porque só estão lá para proteger o árbitro, dizem eles. Então se está alguém a cinco metros de um jogador, completamente alterado, a chamar nomes, não deve ser convidado a abandonar o recinto? Estamos a falar de uma prática desportiva, estão ali crianças. Acho que há muito para fazer e acho que o Estado também podia olhar para isto, porque vemos situações muito degradantes.

Quando era profissional, chegou a ser "apertado" por adeptos?
Sim, quando havia maus resultados no Sporting havia sempre muita pressão. Sabíamos que isso existia, mas tentávamos desligar e fazer o nosso trabalho. Acho que temos é de estar sempre é de consciência tranquila. Antigamente na formação também havia sempre carrinhas que nos levavam para todo o lado, não eram os pais a ir, hoje em dia é que são os pais a fazer os transportes em vez dos clubes, além de pagarem as mensalidades na maior parte das vezes. Não critico, percebo que às vezes aconteça para a subsistência dos clubes. O paradigma alterou-se, agora o futebol é uma atividade extracurricular, como outras tantas, todas pagas. O dirigismo desportivo tem de perceber que se o pai agora está a ser chamado a estar mais presente, então temos também de acomodá-lo melhor.

Há bocado o Diogo dizia que os jogadores agora têm mais conhecimento, assim como os treinadores. Não falta aqui a evolução dos dirigentes desportivos?
Concordo perfeitamente. Não é só isso, mas é mais um passo importante. Temos feito isso, posso dizê-lo, fazendo agora algum publicidade à Federação, que tem um programa chamado Portugal Football Schools, gerido pelo André Seabra, que pretende fornecer formação a todos os interessados. Por exemplo, há um curso de diretor de entidades formadoras e esse é bastante interessante, porque toca em várias áreas, em todos os critérios do processo de certificação. Faz a ligação entre o campo e o que está fora de campo. Temos uma panóplia de cursos, também em parceria com a Universidade Nova, e já milhares de pessoas passaram por lá. Penso que vamos ficar melhores ao nível do dirigismo. Vai demorar tempo e vai dar trabalho, mas é um processo evolutivo.

Já não teremos hoje em dia um dirigente mais sui generis, como o Sousa Cintra, por exemplo?
Na altura quando estava nas camadas jovens do Sporting eu gostava dele. Hoje em dia, não é questão de gostar ou não gostar, mas acho que está desfasado da realidade. Tudo bem, assumiu um papel para tentar ajudar o Sporting naquela fase... Mas não queria falar muito do Sporting. São decisões e atos que ficam marcados no tempo. Mandou embora um treinador que esteve cá uma semana, será que foi tudo bem medido? Será que o Sporting não vai ter agora uma penalização grande a propósito dessa situação? Hoje em dia as coisas têm de ser muito ponderadas e para isso tem de haver conhecimento, e não é só conhecimento da nossa quinta, é saber o que se passa nos orgãos internacionais, saber como é que o futebol está a evoluir. Os nossos dirigentes ainda estão muito virados cá para dentro, mas se formos vendo, quem olhou para fora e quis ter dimensão internacional, trouxe essa dimensão para o país, e estamos claramente a falar da direção da FPF nos últimos anos, que quis dar esse passo e tem trazido grandes mais-valias para o nosso futebol.

Matthew Ashton - EMPICS

Havia um jogador da sua altura que hoje em dia também teria dificuldades: o Mário Jardel.
Pois... Repare, era difícil se calhar ter uma oportunidade. Se fossem pôr um daqueles coletes GPS no Jardel como se faz hoje em dia, ele estaria sempre ali naquela zona. Se calhar também é um risco estar a olhar só para isso, porque claramente quem tinha índices de produtividade mais altos era o Jardel [risos]. Sabíamos que pôr a bola na área era sempre meio golo. Sempre. Fosse com os pés ou com a cabeça. Ele era tão desconectado da manobra geral da equipa que isso lhe dava vantagem, porque podia estar no seu espaço e colocar-se no sítio certo. Se calhar hoje teria mais dificuldade para ter uma oportunidade, se bem que os treinadores gostam sempre dos jogadores que marcam golos.

Bom, tivemos por cá Bas Dost e Óscar Cardozo, que nem sempre foram apreciados.
Pois, mas quantos golos marcaram? Por isso é que o futebol é um jogo coletivo: há uns que estão mais para correr, outros mais para pensar, outros mais para marcar golos, mas todos juntos fazem uma boa equipa, porque isto é um desporto coletivo. E também é aí que entra o treinador, para poder ter um modelo de jogo que possa ajudar os jogadores.

Houve algum treinador que o tenha marcado mais?
Aprendi com todos, verdade seja dita, coisas boas e coisas más. O Jesualdo Ferreira foi um treinador que me marcou pelo detalhe...

No Alverca?
Sim, no Alverca. Ele tinha uma preocupação muito grande pelo detalhe. O Mário Wilson tinha uma capacidade de perceção rápida, sabia como estavam os jogadores e o grupo. O José Couceiro, que é uma pessoa com um senso comum fantástico, que entende muito bem a gestão e a liderança de um grupo. Nas seleções também me marcou o Nelo Vingada, quando me estreei com 14 anos, nos Jogos Olímpicos da Juventude, porque o discurso dele e do Rui Caçador era um discurso claramente diferenciador. Era um ponto de vista menos agressivo e mais formativo.

Há algum clube que seja um ótimo exemplo a conciliar esses aspetos dentro de campo e fora de campo?
Isso toca muito na cultura dos clubes e dos países. Em Inglaterra, os jogadores e os treinadores tratam-se com normalidade, almoçam na mesma mesa, tratam-se pelo nome próprio, a equipa profissional almoça com a equipa de formação e todos interagem... Não há fantasmas. Em Portugal nós temos muitos fantasmas, muitas quintas. E isso limita-nos um bocado. Todas as pessoas acham que têm um segredo que não podem partilhar. Isso não existe. Há ideias, há formas de trabalhar, mas depois o mais importante é saber implementá-las e conseguir repeti-las. Penso que o futebol inglês é um bom exemplo pela naturalidade operacional que eles têm das coisas.

Vamos conseguir ter isso aqui um dia?
Gostava que sim, tal como perguntava há pouco dos dirigentes. Uma pessoa sozinha não faz nada. É preciso haver uma nova vaga de dirigentes, que saibam trabalhar em equipa e que falem do jogo, das coisas positivas do jogo, que voltem a trazer credibilidade. Temos de ter essa expetativa. Por isso é que também é extremamente importante formar bem os atletas. Porque eles, no futuro, podem ser treinadores, dirigentes, árbitros, jornalistas. Assim serão melhores agentes desportivos.