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Covid-19. O lendário Mike Stewart: “Conseguiria aguentar meses sem mar. Tens de usar o poder da mente, a imaginação, visualizar-te a surfar”

Tem 56 anos, foi nove vezes campeão do mundo de bodyboard e, no início de março, ganhou o Pipeline Classic de bodysurf pela 16.ª vez. Mike Stewart é quase um só com o mar, mas diz que, se a pandemia da Covid-19 o ditar, no Havai, será capaz de ficar longe do oceano "durante meses", usando o poder da mente e da imaginação, como já o fez. Em entrevista à Tribuna Expresso, o americano diz não concordar com o encerramento das praias porque "o oceano é um bom escape para as pessoas desde que não se juntem e mantenham as distâncias". E considera o isolamento social como uma oportunidade para "nos focarmos na família e no que é realmente importante, até em nós mesmos"

Diogo Pombo

Aos 56 anos, Mike Stewart ainda compete no circuito mundial de bodyboard (que está suspenso) e ganha provas de bodysurf em Pipeline, no Havai, onde também vai Kelly Slater.

Andy Chiza

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Li há pouco [quarta-feira] que há 14 casos confirmados aí no Havai. Como estão as coisas por aí?
O que estão a dizer é que, tipicamente, os casos registados são apenas 10% dos casos reais, ou seja, provavelmente há muito mais pessoas já infetadas, só que ainda não foram testadas. Ninguém sabe ao certo. Certamente que isto se vai tornar numa situação exponencial muito rapidamente.

Como estás a lidar com tudo?
Não sei se "preocupação" é a palavra certa, mas, sim, estou um pouco preocupado com o impacto que terá nas pessoas que já vivem com dificuldades económicas, onde dependem de cada salário para colocar comida em casa e não têm qualquer tipo de almofada. Será muito difícil para elas, muitas pessoas serão afetadas por isto de forma pesada. Para mim, o impacto e a instabilidade que toda a situação pode causar na economia é o que mais me preocupa. Com o vírus em si, não estou assim tão preocupado.

Porquê?
Bom, tanto eu como a minha família somos bastante saudáveis, estamos ok, e, pelo que percebi, provavelmente vamos ser infetados, mas vamos ultrapassá-lo. Claro que tenho pais que já são idosos e preocupo-me com eles, claro. Provavelmente, 10% da população idosa vai desaparecer, o que é super assustador. Mas, como disse, não estou muito preocupado com o vírus, estou mais com o impacto que o medo está a criar no mercado. Vai ser mau.

É bastante imprevisível, ninguém sabe ao certo o que pode acontecer.
Sim. O que acho que também pode passar-se é a mutação - o vírus pode mudar para o bem ou para o mal. E no verão, com mais calor, será melhor ou pior? Dependerá disso. Essa parte também é bastante preocupante. Mas, aqui, acho que toda a gente se tem tentado isolar. Há pouco, li algo da Organização Mundial de Saúde, que pediu a toda a gente para tomar medidas mais dramáticas. Acho que o principal receio é que mais países acabem como a Itália, onde, infelizmente, não encararam o vírus de forma séria, ou rápida o suficiente. Da mesma maneira que não estou muito preocupado com o coronavírus em si, tenho receio do quadro geral das coisas. Não há maneira de o sistema de saúde de qualquer país consiga suportar o aumento exponencial do contágio. O colapso do sistema hospitalar será catastrófico para qualquer nação.

Isso será a pior coisa que pode acontecer.
Em Itália, todo o país já está de quarentena, algo que não era instituído desde o tempo da guerra. E, nos hospitais, estão a tratar as pessoas que têm maior probabilidade de sobreviver, não necessariamente aqueles que estão em pior estado. Isso não tem precedentes. São tempos um pouco loucos. Penso que isto era inevitável, se olharmos para a população.

E coisas boas?
Acho que temos muita coisa a nosso favor. Temos a internet, temos tecnologia com a qual podemos aprender com esta experiência. Não sei se poderemos aprender tanto quanto os asiáticos, com as epidemias que tiveram, mas parece que já conseguiram controlá-las porque tomaram medidas imediatas, isolando as pessoas e fazendo o necessário para mitigar os impactos. Acho que nem toda a gente percebe o impacto que isto terá em tudo. O nosso governo está atabalhoado, a tentar fazer coisas para estimular a economia, porque os mercados estavam em queda livre. Hoje, por acaso, ainda não fui ver, mas ontem já estavam a recuperar um pouco. Mas acho que é apenas temporário, teremos muitos desafios pela frente.

Enquanto surfistas, bodyboarders ou bodysurfers, o que podem vocês fazer?
Bom, já estive em situações de isolamento quando era mais jovem. Saí da universidade e fui para Taiwan tentar começar um negócio de pranchas. Basicamente, fiquei isolado durante quase dois meses. Durante todo o tempo em lá estive senti uma falta terrível do mar, terrível mesmo, tudo aquilo era tão alienígena ao que estava habituado e estava sozinho. Acabou por ser interessante. Sempre fui uma pessoa um pouco solitária, mas essa viagem exemplificou-me a sensação de parecer estar num planeta diferente. Senti-me bastante sozinho.

Mike Stewart já foi nove vezes campeão mundial de bodyboard, a última em 1994.

Mike Stewart já foi nove vezes campeão mundial de bodyboard, a última em 1994.

Matt Roberts/Getty

Mas a situação atual é um pouco diferente, hoje é um isolamento forçado.
Quando estava em Taiwan não me sentia confortável em sair de casa porque estava numa localidade rural, perto de Tainan, no início dos anos 80. Às vezes, as pessoas começavam a desaparecer, era um tempo estranho. Não me sentia confortável se andasse a passear. Basicamente, ficava em casa, saía para ir à fábrica e voltava logo para casa. Fiz isso durante semanas e semanas. O que acho mais importante salientar é que apaziguemos a nossa mente e tentemos habitar num estado de espírito positivo, sabes? Todos os dias tentava visualizar-me no mar, a surfar. E no dia em que regressei a casa, havia um prova de bodyboard, em Point Panic, e ganhei. Não surfava há dois meses.

Isto serve para ilustrar o poder da mente?
Man, o poder da mente é tremendo e as pessoas têm que começar a utilizá-lo mais um pouco.

Hoje em dia há a internet, os telemóveis e as redes sociais. Há muito mais distrações.
Sim, mas podes permanecer num mindset de surf só pelo facto de ires vendo coisas, por exemplo, no Instagram ou no YouTube. Nem tudo é mau. Mas, sinceramente, acho que o oceano é dos melhores sítios para se estar. Sei que, em Portugal, já estão a tirar pessoas da praia, acho que isso é incorreto. Não sei se o coronavírus sobrevive na água salgada, que até pode ser antissética neste tipo de coisas. A praia e o oceano são um bom escape para as pessoas desde que não se juntem e mantenham as distâncias.

Infelizmente, há pessoas que tendem a ignorar essas recomendações.
Isso é de loucos. Ontem falei com a Joana [Schenker], que me disse que os centros comerciais estão abertos, mas as praias estão fechadas. Para mim, isto é uma loucura absoluta, é pensar ao contrário. Se as pessoas precisam de ir a algum sítio, que vão para o oceano. Esse é o meu conselho. Em relação ao estado mental das pessoas, o que se está a passar é uma oportunidade para reagrupar e recuperar o fôlego do peso que os computadores e a vida na internet colocaram sobre nós. Da intensidade de tudo. Podemos focar-nos na família e no que é realmente importante, até em nós mesmos - fazendo alongamentos, exercícios de respiração ou coisas físicas que possamos fazer em casa. Estou contente por estar em casa, onde posso ser produtivo.

Tens receio que fechem as praias aí no Havai?
A questão é que existem as praias principais e, depois, há as que não são conhecidas por muita gente. Há várias formas de ter acesso ao oceano, não temos que ir às maiores praias. Consigo e vou chegar ao mar, se tiver que ser, vou arranjar maneira [solta uma gargalhada]. Não sei se vão fechar as praias, talvez as grandes, mas não podem fechar o oceano. O Havai está rodeado de água, não há maneira de conseguirem forçar ou policiar isso. Nem sei se o vão querer fazer.

Num sítio como o Havai, onde se vive para o mar e para as ondas.
Pois, o oceano providencia comida a muitas pessoas, acontece o mesmo em Portugal. Não sei como isso funciona, as pessoas poderão a continuar pescar?

Não sei. Mas os supermercados e mercados continuam abertos.
Que é outra coisa: acho muito importante que as coisas tentem continuar abertas e a funcionar, talvez de forma diferente. Será fulcral que o comércio, simplesmente, não pare, porque se o fizerem haverá problemas, as pessoas perderão empregos, o que acontecerá de qualquer maneira, mas pode ser mitigado, tanto quanto a propagação da doença. Acho que isso será benéfico para a sociedade.

Imaginas-te a ficar sem contacto com o mar durante duas semanas?
Sim, sim, conseguiria fazê-lo, sem dúvida. Provavelmente, conseguiria durante meses. Já o fiz antes, como disse. Tens de usar a mente, visualizar e puxar pelo poder da tua imaginação em formas que te possam ajudar.

Tens estado em contacto com outros bodyboarders?
Daqui, nem por isso. Mas tenho falado com outras pessoas que, sobretudo, se preocupam com o contágio do coronavírus e como o podemos tentar evitar. A incerteza alimenta uma resposta nervosa, o que é natural e vai acontecer.

No início de março, ganhaste o Pipeline Bodysurfing Classic pela 16.ª vez. É capaz de ter sido um dos últimos eventos desportivos antes de ser decretada a pandemia mundial.
[Ri-se] Pode ter sido, porque tudo tem sido cancelado, além de poder ter sido um dos últimos ajuntamentos de pessoas. Pode ser verdade, sim. Foi incrível, foi um dia muito bonito e agradável.

O Kelly Slater participou, certo?
Sim, ele apareceu e é bastante bom, por acaso.

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    Faltou à própria cerimónia de graduation do liceu, algo que desaconselha a fazerem, para ir à primeira competição em que participou deitado numa prancha. Garante que está em melhor forma hoje, aos 55 anos, do que nessa altura. Chamam a Mike Stewart, nove vezes campeão do mundo, o padrinho do bodyboard, que teve “a sorte” de muito cedo ter começado a trabalhar com Tom Morey, o pai da modalidade, que se levantou da cadeira durante o seu casamento. Há Kelly Slater no surf e há Mike Stewart no bodyboard, a lenda viva que esteve em Viana do Castelo, na etapa do circuito mundial, e explicou à Tribuna Expresso como a animosidade entre as duas modalidades apareceu quando "a perceção de ser cool" começou a ser associada ao surf