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Cândido Costa chegou a casa em Ovar na sexta-feira 13 e não mais saiu: “Tenho dias em que estou confiante, outros que estou borrado de medo”

Habituado a driblar adversários, o antigo futebolista e agora comentador Cândido Costa está há vários dias cercado por um oponente invísivel num terreno fechado, enquanto espera pela chegada do seu pequeno Salvador que vem a caminho

André Manuel Correia

Rui Duarte Silva

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Vive em que zona do concelho?
Eu moro no Furadouro, no sul do concelho. É a zona balnear de Ovar. Sempre que quero dar um mergulho, tenho a praia mesmo ao lado.

É algo que costuma fazer frequentemente?
Desde miúdo. Eu nasci em São João da Madeira, mas sempre tive uma ligação muito forte ao Furadouro. Os meus pais, desde que eu era pequeno, faziam campismo aqui. Foi aqui que fiz amigos, foi aqui que comecei a sair à noite. E, depois, quando vim de Lisboa para jogar no F.C. Porto, comprei casa no Furadouro. Já cá vivo há mais de 20 anos, desde 1999.

Vive com quem?
Vivo com a minha esposa. Vou ser pai. A Cidália está grávida de cinco meses e meio. Tenho também dois filhos do primeiro casamento que vivem com a mãe e não estão em Ovar.

Passou uma semana desde que foi montada a cerca sanitária em Ovar. Como tem sido viver estes dias num concelho onde foi decretado o estado de calamidade pública?
Há uma série de acontecimentos algo caricatos. Eu e a Cidália decidimos que a melhor altura para fazer uma semana de férias seria este mês, porque o menino — vai ser um rapaz — nasce em julho. Achámos que era um plano sustentado, até pelas nossas obrigações profissionais e uma vez que não iríamos ter hipótese disso no verão. Fomos para os Açores. Estávamos lá quando os primeiros casos começaram a surgir em Portugal. Tínhamos a viagem de regresso marcada para dia 15, mas acabámos por antecipar quando percebemos o que estava a acontecer no país. Curiosamente, saímos do ambiente paradisíaco dos Açores, que ainda não tinha nenhum caso confirmado, e viemos colocar-nos aqui no epicentro da pandemia. Chegámos a casa na sexta-feira, 13 de março.

Estão em isolamento desde essa sexta-feira 13?
Estamos metidos em casa desde então. A situação de isolamento ficou, depois, ainda mais agravada com esta quarentena musculada, que nos remete para um confinamento total, desde que foram fechadas as fronteiras de Ovar e estamos limitados geograficamente pelas forças policiais.

Fazem apenas as deslocações estritamente indispensáveis?
No primeiro fim de semana, depois de chegarmos dos Açores, ainda nos aventurámos a fazer umas caminhadas, porque como a Cidália está grávida convém mexer-se um bocado. Deixámos de o fazer quando vimos que a polícia estava a ter uma postura de aconselhamento à população — através dos veículos que circulam pelas ruas emitindo avisos com megafones — pedindo às pessoas para que fiquem em casa e evitem deslocações, a não ser que seja para adquirir bens de primeira necessidade. Quando temos de sair para comprar alimentos, como foi o caso desta manhã, metemo-nos no carro e vamos a uma superfície comercial muito próxima de casa, mas levamos máscaras e luvas connosco. Quando voltamos, fazemos tudo aquilo que é recomendado. Deixamos o calçado lá fora e lavamos imediatamente as mãos. Tentamos ter o máximo de cuidado possível.

Das poucas vezes que sai à rua, qual é o cenário que vê? As pessoas estão a acatar as recomendações?
Ainda hoje de manhã, quando passámos de carro na avenida principal, havia algumas pessoas. Se me perguntares um número, eu diria 30 ou 40 pessoas ao longo da avenida. Achei estranho e preocupa-me um pouco. Ainda assim, noto que as pessoas foram transformando os seus comportamentos. Se quando cheguei dos Açores via uma ou duas pessoas com máscara, hoje vejo uma ou duas pessoas sem máscara. A população, paulatinamente, está mais consciente de que este é um inimigo terrível.

Como era um dia normal na sua vida? Que hábitos tinha dos quais agora se vê privado?
Tenho uma vida perfeitamente normal, juntamente com a minha companheira. Não fazemos nada de excêntrico ou transcendente. Ao fim de semana, tentávamos sempre acordar cedo, para ir beber um cafézinho junto à avenida, ver o mar, fazer uma caminhada, comprar um peixinho para grelhar ao almoço e à tarde, se estiver agradável, ir um bocadinho à praia. O que custa mais agora é ter aqui o mar tão perto — vivemos a 500 metros — e não poder tirar partido disso. Isso é o que me tem custado mais. Tem-me importunado muito pensar quanto tempo precisaremos para nos livrarmos destas amarras. Estamos todos cientes de que é preciso ficarmos separados. Mas de quanto tempo vamos precisar para que sejamos capazes de nos aproximar novamente?

Acha que isto pode deixar marcas psicológicas que vão mudar a sociedade?
Vai ter um impacto fortíssimo na forma como as pessoas se relacionam. Não tenho a menor dúvida. Podemos voltar a ser capazes de nos abraçar, mas acho que vai levar algum tempo. O medo é um adversário que teremos de vencer todos juntos. Prevejo um aumento de quadros depressivos em grande parte da população portuguesa.

E como é que aí em casa vai mantendo a saúde mental? Como é para um rebelde viver numa quase reclusão?
É terrível, mas eu tenho uma ótima relação com a minha mulher e isso ajuda muito. Estou sempre a apoiá-la em tudo e a fazer o que ela me pede, até para limpar a minha cabeça e não ficar atrofiado. É sempre uma festa entre os dois. Juro que não estou a dizer isto sob coação. [risos] Tomamos o pequeno-almoço juntos, depois vamos para a sala, abro o computador e dedico algum tempo para estudar a atualidade desportiva, de forma a estar sempre informado, porque posso ser chamado a intervir para fazer algum direto. Vemos umas séries, fazemos umas brincadeiras para passar o tempo e cantamos karaoke caseiro. Fazemos também algumas sessões de fitness, até porque tenho alguma tendência para ganhar peso. Depois de ter deixado de jogar, perdi a intensidade física e eu gosto muito de comer [risos]. Andava a equilibrar isso com um dia-a-dia ativo, através de umas corridinhas. Sinto muita falta disso. Mas este é também um momento que nos permite, a todos, refletir sobre a velocidade em que vivemos. Estes dias que nos obrigam a reduzir o motor e a andar em ralenti, humanizam-nos mais. Estávamos a ficar muito industrializados. Serve para repensar as nossas prioridades. O valor que dou agora às pessoas — e que se calhar há uma semana não dava — é muito maior.

De que forma isto também afetou a sua vida profissional? O que faz atualmente?
Tenho uma vida muita ocupada com duas profissões e sinto saudades disso. Esta calmaria faz-me alguma confusão. Inicialmente até foi agradável, mas agora já começo a desesperar. [risos] Eu trabalho como gestor comercial na empresa de material escolar do meu irmão, embora não seja a tempo inteiro, porque todas as terças, quartas e quintas estou em Lisboa para fazer comentário desportivo. Além disso, o facto de a Cidália estar grávida também me traz responsabilidades acrescidas. A minha vida, por norma, é sempre a mil e de repente tudo pára. De repente, percebemos o quanto somos frágeis. Estamos completamente à mercê da natureza e das vicissitudes da vida. A minha primeira preocupação são as pessoas, aquelas de quem gosto ou aquelas que podem estar a passar por grandes dificuldades. É isso que me apoquenta neste momento.

Tem amigos ou pessoas próximas infetados?
Felizmente, não. Mas tenho os meus pais retidos em Miami. Eles foram lá para assistirem ao nascimento da filha do meu irmão. Estão lá há mais de 20 dias, deveriam ter regressado este domingo, mas não podem. Outra parte também complicada é o facto de a Cidália ter uma família muito grande, com 11 irmãos, que neste momento não pode visitar. Ela é muito ligada aos pais, que já têm alguma idade, e isso custa-lhe imenso.

Na carreira de um futebolista são muito poucos os momentos de situação isolada. Agora, fora das quatro linhas, está isolado mas rodeado por um adversário invisível. Qual é a sua estratégia para vencer este desafio?Todas as guerras que travei na minha vida foram sempre contra alguma coisa palpável. Neste caso, é uma guerra quase inglória, porque não dá para enfrentar o adversário olhos nos olhos. Em qualquer luta o que é que se pede? Foco, bravura, coragem, força, destreza, preparação, sentimento espartano... Nesta batalha pedem-nos para ficar em casa de pijama a ver séries. Tenho dias em que estou mais confiante, outros em que estou completamente borrado de medo. Faço filmes na minha cabeça, penso se o meu filho vai nascer num ambiente de degeneração humana e de morte.

Como se chama o filho que vem a caminho?
Vai chamar-se Salvador.

Um nome bastante apropriado...
É um nome bíblico. A nós, irá salvar-nos certamente.