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Arrigo Sacchi: “Os jogos com o Milan eram um monólogo. E éramos sempre nós a falar”

Entre 1987 a 1991, nenhuma equipa dominou a Europa como o AC Milan de Arrigo Sacchi. E fê-lo em estilo, como o Barcelona de hoje. A equipa que há 21 anos ganhou ao Benfica na sua última final europeia (1-0, em Viena), é revista pelo seu ideólogo nesta entrevista ao Expresso. Para ele, o futebol nasce de uma ideia. A Tribuna Expresso republica uma entrevista de 7 de maio de 2011, no dia em que Sacchi cumpre 74 anos

Pedro Candeias

Este é Arrigo Sacchi, genial treinador de futebol que maravilhou o mundo com o seu poderosíssimo AC Milan

Vincenzo Lombardo

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Os benfiquistas não têm boas recordações de Arrigo Sacchi.
A final de 1990. Andávamos cansados e o Benfica fez o que tinha a fazer: defender. Mas tinha homens de carácter e o Rijkaard fez o golo. Ele vinha do Sporting, não era?

Esteve lá duas semanas, mas foi para o Saragoça. Agora houve um candidato à presidência do Sporting que até o apresentou como treinador.
É como lhe digo. Tive a sorte de treinar grandes homens no AC Milan, homens que vieram a tornar-se pessoas importantes no futebol. A Liga Europa será decidida entre clubes portugueses [FC Porto e Braga, em 20011]. Isto é... (interrompe) Uma coisa que vos deve encher de orgulho: uma final entre clubes do mesmo país é uma bella cosa.

Quem ganha?
Sou pago para comentar, não para dar prognósticos.

Está rendido ao Barcelona?
Encontro várias analogias entre este Barcelona e o AC Milan que treinei. Agora, não vou dizer que é favorito e já expliquei porquê. Joga bonito, mas também me dá prazer ver o Manchester United. Guardiola ou Mourinho? Gosto de ambos. São diferentes, mas igualmente fantásticos.

O Arrigo chegou ao futebol de uma forma nada usual.
Eu ajudava o meu pai na fábrica de sapatos enquanto jogava. Não era grande coisa (risos) e deixei-me disso quando me casei. Foi então que um diretor desportivo me perguntou se eu não queria ser treinador; aos 27 anos, tornei-me treinador no clube da terra, o Fusignano. Com jogadores bastante mais velhos do que o treinador, suponho. O guarda-redes tinha mais 13 anos do que eu. O avançado, mais oito.

Impôs-se facilmente?
Com competência e trabalho. Era um apaixonado do futebol, da escola brasileira, do Real Madrid dos anos 50 e da ‘Laranja Mecânica’ da Holanda. Depois, percorri todos os escalões do futebol. Sempre a subir.

E cruza-se com Berlusconi.
Esse foi o meu momento. Estava no Parma (1985-87), na série C1 (3.ª divisão). Em 1987, defrontei o AC Milan em duas ocasiões (para a Taça) e nas duas vencêmo-los por 1-0. O Berlusconi (presidente do Milan) chamou-me e disse: “Tens de vir comigo”. Só que eu estava em conversações com a Fiorentina. O Berlusconi falou comigo numa segunda-feira e eu na sexta-feira tinha de estar em Florença para assinar. A coisa proporcionou-se: um amigo meu, que trabalhava no Milan, marcou um encontro com o Berlusconi e o Galliani (diretor-geral). A reunião foi na quinta-feira. O Berlusconi não falou com a Fiorentina, contratou-me, e lá tive eu que ir a Florença dizer “não”.

A imprensa não lhe deu descanso quando chegou a Milão, em 1987.
Até ganhar o título no primeiro ano! Os jornalistas não me conheciam e eu tinha outras ideias: era contra o catenaccio e eles duvidavam porque eu nunca tinha sido futebolista. Numa universidade, saí-me com esta: “Não sabia que para ser jockey é necessário ser-se cavalo antes!”

Como conseguiu gerir as estrelas?
Tinha algumas, mas pu-las a trabalhar: cargas físicas elevadas, sempre com bola. Não estavam habituados e por isso impusemo-nos de forma faseada, senão ‘morriam’ (risos). Na pré-época, ganhámos ao Manchester United por 3-0 e depois ao Real por 3-1. Deixaram de nos convidar para jogos particulares. Fomos campeões de Itália a jogar bem e a divertir-mo-nos. Podíamos perder, mas perdíamos com a nossa ideia: pressionar, atacar. Como o Barça [então, de Guardiola], embora nós fôssemos mais potentes e eles sejam mais técnicos.

Gullit e van Basten eram difíceis?
Uma vez o Gullit perguntou-me porque é que nunca estava satisfeito. Respondi-lhe: “Quando tens 50% para me dar, aceito-os. Mas quando sei que tens 100% e me dás 60%, temos um problema.” O van Basten perguntava-me se ganhar não chegava, se era preciso dominar — meu caro!, os jogos com o Milan eram um monólogo e éramos nós a falar. Anos mais tarde, quando a “World Soccer” definiu o futebol desse Milan como o melhor do século, o Van Basten deu-me razão. Mas também me disse: “Porque me trata como os outros?” Retorqui: “És inteligente. Não percebes onde está o erro da pergunta?” Ele era um fenómeno, mas se estava mal, ia para o banco. Ponto final.

Nota-se uma ponta de vaidade.
Você não estaria orgulhoso? Veja: ganhámos a Champions de 1989 depois de eliminar o Real Madrid, com um empate em Espanha (1-1) e 5-0 em casa. Fomos à final e batemos o Steaua de Bucareste em Barcelona por 4-0! Dessa campanha, recordo-me também do encontro com o Estrela Vermelha em que o Donadoni caiu inconsciente e foi o médico jugoslavo a salvar-lhe a vida ao partir-lhe o maxilar para desobstruir a via respiratória. Passámos essa eliminatória nos penáltis. Tínhamos estrelas? Sim, mas elas tendem a jogar para elas; connosco não. Tínhamos um ideal! O Wenger e o Houllier chegaram a assistir a treinos nossos e ficaram extasiados. Diziam que a nossa defesa, quanto tínhamos de marcar o Maradona do Nápoles, era tão sincronizada como a dança das bailarinas gémeas alemãs Kessler.

Depois do AC Milan continuou a treinar mas não voltou a ganhar.
Mas não abandonei. Sou responsável pelas camadas jovens da Federação de Itália. Mas é assim: o futebol é obsessão e a obsessão é uma arte. 90% do meu tempo era dedicado ao futebol. E sempre tive isto na cabeça: se é para fazer é para fazer sempre melhor do que antes. Conto-lhe uma história. Nós, em seis meses, conquistámos tudo (1990): Taça dos Campeões, Supertaça Europeia e a Taça Intercontinental. O bom do Tassotti veio ter comigo e disse: “Somos os melhores do mundo!”. A minha resposta foi: “Sim, mas só até à meia-noite. Amanhã começa tudo de novo.” Isto consome-nos (quando em 2001, regressou ao Parma, deixou o clube com problemas de tensão). Bom, foi um prazer falar consigo mas agora tenho de ir ver o jogo do Porto. Boa noite

A Tribuna Expresso republica uma entrevista de 7 de maio de 2011, no dia em que Sacchi cumpre 74 anos