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Ana Ramires e a saúde mental dos atletas isolados: “A ferramenta mais fundamental que existe é o treinador. A seguir é que é a videochamada”

Com as competições das mais variadas modalidades suspensas, atletas e treinadores ficaram sem a sua rotina habitual. Mas há estratégias para mitigar o isolamento provocado pela pandemia de covid-19, explica à Tribuna Expresso Ana Bispo Ramires, psicóloga do Comité Olímpico de Portugal e responsável, com o apoio da Ordem dos Psicólogos, pela coordenação de quatro manuais, lançados esta semana, de recomendações específicas para atletas, treinadores, famílias e psicólogos de desporto

Mariana Cabral

Pedro Vilela

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Como é que está a sua saúde mental?
A minha?

Sim, primeiro vamos à sua.
[risos] Obviamente que em períodos como este que estamos a viver, acabamos por ser muito mais solicitados, quer seja por parte dos nossos atletas, quer seja por parte das organizações. No meu caso em particular, como, além dos atletas, trabalho com pessoas com cargos de direção em empresas, também sou solicitada por essas pessoas com um alto nível de responsabilidade. No geral, acabamos por ser mais solicitados para intervir num contexto que é propenso a que haja fenómenos de natureza emocional mais ativados. Antes de mais, os psicólogos também são pessoas, não é? É curioso porque costumo brincar com os colegas com quem trabalho, dizendo-lhes que se nós, os psicólogos, queremos trabalhar no alto rendimento, temos de ser atletas de alto rendimento. Dificilmente consigo promover algum tipo de alteração na forma de estar dos meus clientes se não a fizer comigo, se não passar por esse mesmo processo. Ou seja, obviamente, como qualquer cidadão, já experimentei momentos de apreensão e de preocupação. Também de alguma desorientação, principalmente numa fase inicial deste fenómeno, porque às tantas era muito difícil conseguir identificar fontes credíveis de informação e isso para nós é muito importante ter, porque permite-nos tranquilizar os nossos clientes. A questão é que, teoricamente, se tivermos um processo bem oleado, temos estratégias e ferramentas para nos tranquilizarmos de modo mais rápido e garantir as questões da saúde mental. Aquilo que eu promovo com os meus clientes - redes de apoio, exercício físico, alimentação, qualidade de sono - é fundamental.

Então, agora, que tem muito mais solicitações e muito menos tempo disponível, decidiu meter-se a fazer quatro manuais de recomendações para atletas, treinadores, famílias e psicólogos?
[risos] Voltamos à tal questão do alto rendimento. A malta habituada ao alto rendimento, quando fica em quarentena, inventa: "Deixa cá ver agora o que é que eu posso fazer..." [risos] Fora de brincadeiras, estes quatro manuais são produto de um grupo de pessoas que já andava a ser reunido há cerca de seis meses, que é o Grupo de Atuação em Psicologia e Performance (GAPP). Na prática, tentamos trazer para a psicologia do desporto uma ligação mais estreita com a comunidade. Essa é uma das nossas preocupações. Queremos evidenciar o papel da psicologia junto da comunidade, na sua ação individual e na sua ação em equipas multidisciplinares, por isso é que temos também uma nutricionista de alto rendimento a trabalhar connosco e uma outra psicóloga que não é da área da desporto, é da área do trauma e dá-nos aqui um suporte importante para tudo o que sejam situações de crise com atletas.

Foi o GAPP que fez estes manuais?
O GAPP era um projeto que já estava em andamento e a situação de pandemia precipitou a ativação deste grupo. Somos oito elementos: o grupo é coordenado por mim, é subcoordenado pelo João Lameiras, que está na Federação Portuguesa de Atletismo, temos também a Ana Barreto, que está na Federação Portuguesa de Ténis, a Assunção Neto, que é a pessoa especializada em trauma, o Carlos Fernandes, da Academia Rafa Nadal by Movistar, o Duarte Araújo, na área da investigação, o Francisco Fardilha, também na área da investigação, e a Inês Miranda Fernandes, na área da nutrição de alto rendimento. Na realidade, o grupo está subdividido em áreas diferentes e uma das coisas, por exemplo, que queremos lançar é um podcast desta área em particular, da psicologia do desporto e do alto rendimento. Isto para dizer que nas últimas três semanas estivemos muito envolvidos, a reunir informação, alguma dela já disponível no meio, porque algumas das diretrizes são da própria Direção-Geral de Saúde. Queríamos trazer medidas práticas e adaptá-las para o contexto desportivo, naquilo que consideramos serem as populações mais importantes: treinadores, atletas, famílias - estas muito frequentemente esquecidas e não devem ser, porque o cidadão comum nem imagina o que é ter um atleta a trepar paredes em casa porque não consegue treinar. Não é gerir o marido, a mulher ou o filho - é gerir alguém que antes tinha uma rotina bastante elevada e com bastante dispêndio energético e que neste momento já não tem. Daí acharmos que era pertinente construir estes quatro manuais, incluindo também um para dar suporte aos nossos colegas psicólogos que estão no terreno a trabalhar e que possam ter menos experiência e possam querer algumas orientações para a sua intervenção.

Pelas competências que adquiriram por estar no desporto de competição, acha que os atletas estão mais preparados para suportar este isolamento, em comparação com as pessoas "comuns"?
Diria que, à partida e tendencialmente, se estivermos a falar de desporto de alta competição, sim. Porque estamos a falar de pessoas que estão habituadas a lidar com disciplina, estão habituadas à instalação de uma rotina, estão habituadas a serem rigorosas no cumprimento dessa rotina e estão habituadas a superar obstáculos. Quando surge um desafio, imagine, por exemplo, uma lesão ou um treinador que não escolhe o atleta para jogar. Os atletas, principalmente os que estão treinados na nossa área, focam-se muito mais naquilo que controlam para poderem ultrapassar a situação, do que naquilo que não controlam. Se considerarmos que um dos principais fatores de instabilidade... Por acaso surgiu agora um estudo engraçado da Universidade do Minho que fala sobre isto, e que tem a ver com o facto de se as pessoas souberem que isto acaba daqui a 15 dias, então imediatamente têm uma resposta emocional de... [suspira de alívio]. Há uma previsibilidade de voltar à normalidade. Agora, não havendo esta previsibilidade, o que é esperado na população em geral é que haja momentos de maior perturbação emocional. Os atletas já estão habituados a um contexto de maior incerteza, já que não sabem se serão selecionados pelo treinador, não sabem se as condições vão estar boas, não sabem se o árbitro vai apitar bem - ou seja, um conjunto de situações de incerteza com as quais estão habituados a lidar, portanto, tendencialmente, podem ter mais recursos para fazê-lo. Não sei se todos sabem fazer a transferência das competências, porque isso é outra coisa. Tenho de ter consciência e disciplina e planeamento e rotina também aqui, neste contexto de isolamento social, porque vão ser úteis para me fazer passar da melhor forma por esta situação. Acho, garantidamente, que a sociedade civil, digamos assim, pode aprender com o desporto. Uma das coisas é isso mesmo: passar a integrar a incerteza como uma certeza na sua realidade diária, porque a segurança psicológica que todos procuramos nas coisinhas estáveis, na realidade, é meramente aparente. A vida ensina-nos isto em muitos momentos.

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Estas vantagens que os atletas têm, ao focarem-se nas soluções, são, na prática, aqueles exemplos que temos visto de formas criativas de treinar, como uma nadadora numa piscina insuflável, por exemplo?
Sim, sim. São atletas focados nos recursos que têm e em adaptar o meio que têm à sua volta para continuarem a fazer coisas. Até porque um contexto de isolamento para atletas de alto rendimento... Pensemos naqueles que neste momento poderiam estar em preparação olímpica. Obviamente que neste momento estariam a competir, a competir, a competir, a competir, a competir, para tentar a qualificação, caso ela não estivesse assegurada. Neste momento não há competição para atleta nenhum, portanto é a melhor altura para os atletas se preocuparem com aquelas pequenas questões processuais que depois em competição vão dar uma evidência grande na melhoria de rendimento. Coisas que técnica ou taticamente não fazem tão bem, para que possam ganhar mais competências nessas áreas e depois possam surgir ainda mais robustos, no pós-isolamento. Aliás, umas das principais características da resiliência tem a ver com isto, é nós pegarmos na adversidade e surgirmos depois com mais competências ainda. É este o desafio que os nossos atletas normalmente têm, mas é também o desafio que o cidadão comum agora tem à sua frente.

Em termos práticos, isso seria, por exemplo, um treinador que aproveitaria este período...
[interrompe] Para melhorar as suas competências de liderança, a ler ou em formações ou o que seja. Eu, por exemplo, com os meus treinadores, lanço desafios: vamos tentar isolar dois ou três treinadores na sua área que sejam muito bons e vamos tentar identificar o que os distingue. Vamos importar essas características e vamos buscá-las para ver se podemos integrá-las quando voltarmos à prática. Agora, imagine um treinador de futebol, como é o caso da Mariana. Chego ao pé de si e digo-lhe assim: "Então, Mariana, agora como trabalho de casa vai pegar em três treinadores, vai estudá-los bem, vai ver jogos deles, vai ler biografias deles, vai importar essa informação toda e vai trazê-la para nós trabalharmos". Só que a Mariana no fim de semana a seguir tinha um jogo importante. Obviamente este trabalho de casa não seria prioritário para si nesse caso. Portanto, seja para treinadores, seja para atletas, este é mesmo o momento ideal para limpar - na ginástica diz-se limpar esquemas -, ou seja, pôr o processo mais bonito. São aquelas coisas que nós ainda fazemos de forma mais atabalhoada e nas quais podemos ganhar um bocadinho mais de competência.

Aqueles conselhos que vamos ouvindo sobre a necessidade de, mesmo em casa, despirmos o pijama e vestirmos roupa normal - isso é mesmo assim?
Despir o pijama é o mais sério possível. Vou explicar porquê: o nosso cérebro cria significados, portanto, quando está na sua casa, o seu corpo faz [baixa os braços]. Em casa, relaxa. Portanto, se nós queremos replicar um contexto de trabalho, temos de consegui-lo nem que seja na ponta da mesa da sala, que é onde eu estou neste momento. Neste enquadramento da ponta da mesa, comporto-me como se estivesse no trabalho. A rotina da minha semana de trabalho deve ser igual: fazer exercício, tomar banho, vestir, trabalhar. Tudo igual. Porque nós reconhecemos e reagimos a estímulos. Além disso, somos animais de rotinas, a rotina traz-nos segurança, porque controlamos a rotina e porque a rotina faz-nos ver que estamos a conseguir construir coisas e estamos a conseguir manter o nível de performance. Isto dá-nos segurança. A questão não tem a ver com a adversidade que está no meio, nunca tem a ver com a adversidade que está no meio. Porque há um israelita que está habituado a ouvir bombas e toma café com esse barulho, mas um europeu que nunca ouviu uma bomba na vida, se ouve um barulho, salta. O ser humano tem uma capacidade de adaptação infindável, portanto nunca tem a ver com a adversidade, tem a ver com os recursos que nós achamos que temos para lidar com a adversidade. O segredo não está em deixar de ter incertezas na minha vida, em esperar que deixem de acontecer coisas inesperadas, é o inverso: tenho de desenvolver a perceção de que tenho recursos, competências e capacidade para me adaptar ao que vem de fora.

É mais benéfico o atleta, o treinador ou o cidadão focar-se puramente no dia que vai ter pela frente ou vale a pena ter objetivos para a semana, ou para o mês, mesmo não sabendo o que vai acontecer brevemente?
Depende das áreas, porque isto varia consoante o contexto em que as pessoas estão. Mas nós, estando em isolamento ou não, devemos sempre definir os nossos objetivos. E os nossos objetivos a curto prazo devem estar ancorados naquilo que queremos a médio e a longo prazo. Vou dar um exemplo: posso definir um curso de línguas que vou aproveitar para começar a fazer. Encaixo num horário e começo a desencadear isso, porque isso depois melhora as minhas competências profissionais. Posso ir agregando conhecimento e pequenas coisas que me façam surgir de forma diferente quando isto tudo terminar. A questão dos objetivos é sempre fundamental estruturar. Porque a sensação de tarefa cumprida para um ser humano é muito forte. Ou seja, esforço, resultado, esforço, resultado. Portanto, colocar os atletas ou as pessoas a sentir que estão a contribuir para o seu futuro, a contribuir para o bem-estar da família ou a contribuir para o bem-estar da comunidade é fundamental.

Ana Bispo Ramires trabalha com o Comité Olímpico de Portugal há dois anos

Ana Bispo Ramires trabalha com o Comité Olímpico de Portugal há dois anos

Pedro Vilela

Na perspetiva oposta, ter um atleta a introduzir agora de forma mais frequente na sua rotina a Playstation e os videojogos é prejudicial?
Não é fantástico. Como nada é fantástico se acontecer de forma indiscriminada. Vou andar aqui um bocadinho para trás: uma das grandes oportunidades que este isolamento nos traz é a nossa capacidade de aprendermos a relacionar-nos em família. Porque antes passávamos muito mais tempo fora de casa do que com a nossa família. Isto é uma oportunidade ou um potencial conflito. As situações são neutras, eu é que tenho a lidar com elas de forma mais positiva ou mais negativa. Ou seja, em todas as situações há sempre alguma coisa que podemos procurar e trabalhar. Neste momento, para as famílias, há um grande desafio, enorme mesmo, porque a nossa normalidade mudou muito repentinamente, nomeadamente com os encarregados de educação a terem de trabalhar com os miúdos em casa, por exemplo. Passada uma fase natural de adaptação em que vamos andar todos um bocadinho "não mexas aqui, mexe ali", reformulando-se a matilha em casa, com os papéis já estabelecidos, há aqui uma grande oportunidade para as famílias recuperarem algo mais relacional, como se fazia antes, com os jogos de tabuleiro, as cartas, o 'stop' e afins. Isto, sim, pode ser uma boa alavanca para que as famílias recuperem um pouco da sua normalidade, que já estava bastante perdida. Por isso, a questão da Playstation pode surgir novamente integrada num espaço de rotina, tal como anteriormente surgia. Se for usada indiscriminadamente, para que as rotinas dos atletas ou dos miúdos, seja quem for, passem a ser marcadas por se deitarem às duas da manhã porque ficaram a jogar online e acham que estar a jogar online é socializar, isto não.

Por outro lado, as ferramentas de videochamada, para quem está isolado, são muito úteis.
São, são muito boas, até para uma outra população da qual não estamos a falar aqui: para os nossos avós e pais, com 90 anos de idade, que podem estar longe. Isso acaba por ser uma ferramenta de proximidade quando eles já têm capacidade para mexer neste tipo de coisas. Eu diria assim: para os atletas em geral, particularmente para os que estão mais isolados, a ferramenta mais fundamental que existe é o treinador. A seguir é que é a videochamada [risos]. Os treinadores têm aqui um desafio gigante na vida deles, um bocadinho à semelhança daquilo que falávamos sobre os psicólogos: primeiro há a pessoa, que tem de se organizar e organizar a sua família, mas depois há o treinador que continua a ter atletas. E se nós vamos ficar à espera que o isolamento passe... Isso nós não controlamos. O que nós controlamos é aquilo que eu, treinador, posso fazer hoje para manter a ligação com o meu atleta, mantê-lo comprometido e mantê-lo alinhado. Esta é a primeira ferramenta de ligação com os atletas: fazê-los permanecer em rotinas que sejam saudáveis. Seja o treinador, seja o preparador físico, há que criar à volta do atleta um entorno em que ele se sinta de facto em rede. E também é fundamental promover a ligação com os restantes atletas.

Ultimamente fala-se muito da mudança para o "teletrabalho". A "telepsicologia" também é viável?
Já há muito tempo que acompanho pessoas pela "telepsicologia", como lhe está a Mariana a chamar [risos]. Atletas meus que jogam em Inglaterra, que jogam em Espanha, gestores que estão em Angola, gestores que estão na Arábia, que passam muito tempo a viajar - para nós, esta é uma ferramenta perfeitamente normal e natural. Para uma dada geração de atletas, isto é fácil, porque já estão muito habituados a tecnologia, portanto este tipo de trabalho para eles é pacífico. Para iniciar uma relação, não acho que seja a melhor ferramenta. Imagine um atleta que não conheço de lado nenhum e com quem nunca trabalhei. Havendo a possibilidade presencial, não acho que à distância seja a melhor forma de iniciar uma relação. O frente a frente é sempre muito mais rico, vê-se o corpo todo e não apenas o rosto, e recolhe-se informação que é importante para nós. Mas quem não tem cão caça com gato. Neste contexto, as ferramentas que temos são as videochamadas e obviamente que tentamos fazer o melhor possível com elas, porque é possível trabalhar com os atletas neste tipo de enquadramento.

Neste período de isolamento já teve contactos novos de pessoas a solicitar acompanhamento?
Sim, já tivemos pedidos, mais até de organizações, que pedem que haja uma intervenção conjunta para ajudar a criar um clima emocional na organização que seja mais estável e mais seguro. Acho que isso é um excelente indicador de haver empresas que estão preocupadas em dar ferramentas aos trabalhadores. Os manuais que apresentámos têm todos coisas muito práticas e isso ajuda as pessoas a focarem-se naquilo que controlam. Com as organizações é a mesma coisa, porque temos a possibilidade de falar em direto para todos e depois discutir algumas estratégias, e isso dá segurança às pessoas, porque aquilo que um pergunta é muitas vezes a duvida de muitos. Se o isolamento se arrastar, acho que ainda vão surgir mais pedidos.

No isolamento, a tendência para o atleta é ver a situação a melhorar ou a piorar?
Não nos podemos esquecer de uma coisa: vamos ter diferentes níveis de adaptação, à medida que se vai sabendo se as competições voltam ou não voltam, com os atletas a poderem começar a desmobilizar um bocadinho. E quando começam a desmobilizar, entram em aborrecimento e, aí sim, pode vir a quebra de rotinas, também porque têm noção que podem não fazer agora, mas quando voltarem agarram bem nas coisas e rapidamente se preparam. Há aqui um risco de haver um período de quebra. Ao princípio, logo após o isolamento, há aquela coisa de querermos logo reagir e fazer e acontecer. Agora, não sabendo se vai ou não haver, é diferente.

CHARLY TRIBALLEAU

Em relação aos Jogos Olímpicos, já se sabe que só em 2021.
Por exemplo, todas as pessoas relacionadas com os Jogos Olímpicos agora já sabem que é só daqui a um ano, portanto pode, de facto, haver uma quebra. Isso é normal em qualquer ser humano. Pode haver algum esvaziamento de objetivos e de ter de se perceber novamente para onde dirigir a energia. Aí sim, é muito importante que as estruturas que suportam estes atletas possam ajudá-los a recriar objetivos e metas tangíveis e importantes para ter agora. E às vezes metas que até nem têm nada a ver com a prática da sua modalidade. Por exemplo: há atletas que saem de casa muitas vezes e estão nove meses por ano fora a competir, portanto este é o período essencial para voltarem à casa de partida, que é a família, e reforçarem os laços, porque quando voltarem a sair a sua bagagem vai mais forte. Não nos podemos esquecer que os mecanismos de resiliência compreendem os recursos internos do sujeito, a família do sujeito e a rede de suporte social do sujeito, que são os amigos. Este também é o timing de colocar moedinhas nesse porquinho mealheiro, porque depois quando voltar a sair vou despreocupar-me com essa questão. Ainda ontem estava a fazer uma destas formações online com uma organização e dizia que a nossa característica de sempre é sermos muito bons a reagir: de repente ficamos mais benévolos, de repente ajudamos mais a comunidade, até deixamos papéis aos vizinhos a dizer que levamos as compras. A questão é se depois mantemos este comportamento, quando baixarem os níveis de ameaça. Daí ser importante aproveitar este isolamento social para pararmos um bocadinho, todos, e refletirmos: onde é que estou na minha vida? O que é que fiz para cá chegar? Que áreas é que quero melhor? Como é que posso integrar isso na minha forma de estar no futuro? Há aqui um conjunto de situações que são uma oportunidade para as pessoas saírem disto com um manancial de competências mais fortalecido.

Mesmo concordando com o adiamento dos Jogos Olímpicos, ficou triste por já não ir Tóquio?
Acho que temos de privilegiar a vida e ponto final. Se há medidas importantes que têm de ser tomadas para isso, sejam tomadas. Estejam elas certas ou não. A Mariana coloca uma questão engraçada, que é se eu fiquei triste por não ir... São muitos anos a virar frangos, sabe? Na nossa intervenção, enquanto psicólogos, não há este espaço para grandes tristezas ou alegrias de dar pulinhos. Há uma realidade que se altera e há que dar uma resposta. A nossa missão é servir os nossos atletas e ajudá-los a cada momento, independentemente da circunstância. Também podemos estar a preparar atletas e depois na altura podem lesionar-se e não conseguir ir. Obviamente os Jogos Olímpicos são sempre o grande palco das modalidades, de comemoração daquilo que é o desporto, mas não é uma questão de olhar para isto como ser bom ou mau. A tarefa agora é esta e vamos reformular e continuar a trabalhar.

E vão para o ano.
Não é para ir este ano, é para ir para o ano. É pacífico.

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