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“Há um negócio a decorrer: os clubes portugueses usados como barrigas de aluguer. Depois, os jogadores não recebem e são abandonados”

Numa altura em que a AD Oliveirense SAD foi declarada insolvente e não paga desde janeiro aos seus jogadores, o líder do Sindicato dos Jogadores espera que a situação do clube minhoto sirva de exemplo a quem, refém de projetos megalómanos, serve de 'barriga de aluguer' de investidores externos. Joaquim Evangelista diz à Tribuna Expresso que o Sindicato irá manter o apoio aos estrangeiros vítimas de abusos laborais, mas teme que o cenário se replique no Mirandês, que acolheu 12 argentinos recrutados por Sebastian Diericx

Isabel Paulo

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Quantos clubes já pediram ajuda ao Sindicato esta época? O drama dos salários em atraso aconteceu desde a suspensão das competições devido à pandemia ou já era anterior?
Foram já vários os pedidos esta época e, infelizmente, o incumprimento salarial afetou clubes da I e II Ligas, bem como do Campeonato de Portugal. A situação de instabilidade, nos casos mais problemáticos, era anterior à covid-19. Nas competições profissionais temos mecanismos de licenciamento e controlo financeiro que têm permitido mitigar este fenómeno, mas no Campeonato de Portugal existe maior fragilidade, até pela precariedade dos vínculos laborais neste escalão. Obviamente, a suspensão das competições devido ao surto do coronavírus veio agravar a situação de clubes e sociedades desportivas, que financeiramente já se encontravam bem.

Quais os clubes que vivem situações mais difíceis?
É difícil particularizar, há muitos casos difíceis. Na I Liga, a situação do Desportivo das Aves-Futebol SAD é a pior, dado o incumprimento salarial ser muito anterior a esta crise, o que deixa os jogadores numa posição de enorme fragilidade. Na segunda Liga, vários clubes mostraram dificuldade em regularizar o controlo financeiro de março, mas, felizmente, acabaram por conseguir, o que permite aos jogadores encarar o futuro com maior tranquilidade. No Campeonato de Portugal, a situação é muito complicada. Esta época, já garantimos o apoio aos plantéis da AD Oliveirense SAD, Leiria SAD, União da Madeira SAD, Olímpico do Montijo. Estamos a trabalhar para ajudar financeiramente também o plantel da Fátima SAD, além de outros casos já estão sinalizados para intervenção. Temos muitas situações preocupantes.

A SAD da AD Oliveirense tem quantos jogadores contratos? Quantos estrangeiros estão a viver sem dinheiro?
A SAD da AD Oliveirense recrutou um plantel composto na esmagadora maioria dos casos por jogadores profissionais, com contrato profissional registado na FPF e de diferentes nacionalidades. Os estrangeiros são predominantemente argentinos, a nacionalidade do administrador, Sebástian Diericx.

O Sindicato tentou entrar em contacto com o investidor e detentor da SAD?
Desde o mês de outubro de 2019 que tentámos estabelecer essa ponte, dar um sinal de confiança e apoiar num momento em que ele alegava estar com dificuldades para transferir dinheiro para a SAD, de modo a cumprir obrigações, por viver em Chicago, nos EUA. O voto de confiança foi dado, o Fundo de Garantia Salarial desbloqueou uma situação de greve iminente. Agora não existem existem mais desculpas para não pagar aos jogadores. O que aconteceu foram atos de má gestão, atrás de atos de má gestão, que culminaram num pedido de insolvência de um ex-treinador espanhol. O pedido do Administrador Judicial, nomeado pelo tribunal para avaliar a situação financeira da SAD, foi no sentido de encerrar a atividade da da AD Oliveirense SAD, sobretudo por causa das alegadas irregularidades que encontrou. O que se exigia do investidor e da sua equipa era que, num momento de crise, desse uma resposta para assegurar, pelo menos, que os jogadores estrangeiros não ficassem abandonados e garantir condições para regressarem a casa. Infelizmente isso não aconteceu.

Também já entraram em contacto com o presidente do clube, sócio minoritário da SAD?
Já. Aquando da nossa primeira intervenção em outubro, encontrámos um clube refém das escolhas que tinha efeito no negócio com a SAD, na mão dos investidores argentinos. Está-se perante o exemplo típico do que não deve ser feito - um projeto megalómano, muito superior à sua real capacidade de sustentabilidade financeira, um disparate. É certo que o clube foi tentando ajudar, mas quando se chega ao descalabro de ser declarada a insolvência da SAD, após atos de gestão ruinosa, alguns enquadráveis criminalmente, não há estrutura de suporte que resolva os problemas. Neste momento, a verdade é que o Sr. Sebastian Diericx e a sua equipa deviam ter dado a cara, tinham o dever de mover todos os esforços possíveis para evitar que os jogadores ficassem sem dinheiro para alimentação e bens essenciais. Principalmente os estrangeiros, sem rede familiar de apoio. Espero que este caso sirva de exemplo a todos os clubes que se colocam na mão deste tipo de pessoas, perante projetos desportivos absolutamente desfasados da realidade. Só pode competir com condições profissionais quem efetivamente tem estrutura desportiva e capacidade organizativa para tal.

Quanto é que o Sindicato já abonou aos jogadores da AD Oliveirense?
Em apoios, somando o Fundo de Garantia Salarial acionado em outubro para pôr cobro à greve anunciada antes do do jogo para a Taça de Portugal frente ao Santa Clara, mais o apoio que demos agora para a subsistência dos estrangeiros, já ultrapassámos os € 20.000. Não deixaremos nenhum jogador desamparado, mas este esforço financeiro diz bem da gravidade da situação em que este clube se colocou.

Como justifica a vinda de tantos estrangeiros, tratando-se de um clube que compete no Campeonato de Portugal?
O sindicato tem sido particularmente crítico deste tipo de gestão desportiva, muitas vezes isoladamente. O Campeonato de Portugal não é o patamar para recrutamento massivo de estrangeiros, não gera as receitas, nem tem condições que justifiquem esse investimento. O que está em causa é a ambição desmedida dos dirigentes e alguns intermediários que querem lucrar com transferências de jogadores e não se importam de arriscar o bem estar e segurança de quem recrutam. Estamos a falar da base da pirâmide, um espaço que devia ser dado por natureza aos jogadores formados localmente para desenvolverem as suas capacidades e preparem o passo seguinte - o das competições profissionais. Não é possível, por isso, encontrar racionalidade neste tipo de gestão. Ao Sindicato cabe denunciar e assegurar que quem recruta estes jogadores, e os deixa à sua sorte, não sai impune. Infelizmente muitos continuam a beneficiar do silêncio, o que lhes dá um sentimento de impunidade.

As associações distritais são coniventes com este tipo de situações? O que as faz fechar os olhos?
Em primeiro lugar, devemos evitar generalizações. Começa a haver uma tomada de consciência de alguns dirigentes e a formação contínua promovida pela FPF tem ajudado. Mas na maioria das associações distritais ainda prevalece um sentimento de desresponsabilização, como se não pudessem fazer nada, como se o que acontece nos clubes do seu distrito não lhes diga respeito. É uma ideia errada e uma inércia que nos deixa revoltados. Há claramente um negócio em curso e um circuito que começa com o pagamento das taxas de transferência internacional. Cada estrangeiro representa o pagamento de uma taxa de inscrição de € 2.025, não sendo para as associações distritais, claramente, uma prioridade acabar com isto, porque beneficiam do negócio. Enquanto não estivermos todos unidos para combater estes fenómenos, haverá sempre casos de jogadores abandonados e vítimas de abusos laborais.

Qual a razão do súbito interesse de agentes e investidores argentinos num campeonato supostamente amador?
Usar clubes portugueses como 'barrigas de aluguer', dar minutos a jogadores numa competição de âmbito nacional, num país europeu, criar visibilidade e vender o seu 'produto'. Basta que consigam uma transferência bem sucedida, para um clube de maior dimensão, e já compensaram o investimento feito em dezenas de jogadores. Isto é uma bola de neve. Chegam a propor a dirigentes de clubes pagar os salários aos jogadores para que eles possam ter minutos nas nossas competições. Tudo isto é grave, um risco enorme para a segurança e integridade das nossas competições. Neste momento, o Campeonato de Portugal é tudo menos amador.

Qual é o salário médio no Campeonato de Portugal? A FPF está a par desta situação de descalabro?
O salário mínimo para a competição representa 1,5 x o salário mínimo nacional bruto (€ 952,5). Alguns dirigentes queixam-se que é muito elevado, deveria ser o mínimo nacional, mas depois vemos os orçamentos das SADs que lutam pelos lugares de subida e percebemos que estamos longe de ter nesta questão o verdadeiro problema. Os salários médios, pagos por debaixo da mesa, são superiores. Existem milhares de contratos precários, jogadores a receber abaixo do mínimo nacional, mas a viverem da atividade, além do recrutamento massivo de estrangeiros com salários próximos da realidade de uma segunda liga. Conscientes disso, estamos a trabalhar desde o início da época com a FPF no sentido de desenvolver um novo modelo de licenciamento e controlo financeiro para o Campeonato de Portugal, onde os clubes com reais condições para profissionalizar jogadores sejam fiscalizados e obrigados à prestação de garantias, algo que até agora não acontece. Só nessa altura aceitaremos discutir que medidas podem ser tomadas para ajudar os clubes a serem sustentáveis.

Os jogadores da AD Oliveirense têm quantos meses de salários em atraso? Vão voltar a competir, após a suspensão competitiva, ou estão inibidos face à declaração de insolvência da SAD?
Existem salários por regularizar, alguns créditos poderão ser solicitados ao Fundo de Garantia Salarial da Segurança Social, mas poucos. Desde final de fevereiro que o Administrador de Insolvência viu confirmado pelo tribunal a decisão de encerramento da atividade da SAD, encontrando inúmeras irregularidades na gestão. Parte do dinheiro “investido” não passava pelas contas da SAD. Além disso, o Administrador Judicial promoveu a cessação de todos os vínculos laborais e respetivos vínculos desportivos amadores, pelo que desde essa data os jogadores encontram-se desempregados. A situação é caótica para estes profissionais que se viram sem emprego a meio da época. Neste momento existe um recurso interposto pela administração da SAD em apreciação, que não tem efeitos suspensivos. A decisão só produz efeitos definitivos quando transitar em julgado, mas a verdade é que esta SAD não tem quaisquer condições para continuar a competir e não tem qualquer legitimidade para recrutar jogadores. É importante que todos os agentes desportivos saibam disto.

Já referiu que há dirigentes a aproveitarem-se do surto e da paragem competitiva para se desculparem de erros de gestão. Que tipo de erros?
Dependência de investidores informais, muitos presidentes de SAD´s são “testas de ferro” e não o beneficiário último, orçamentos desfasados da realidade, fontes de receita inflacionadas, dependência de investimento externo que não é suportado em qualquer espécie de garantia, endividamento reiterado. A covid-19 só veio pôr a nu, mais cedo do que esperado, problemas graves que muitos clubes do CP já atravessavam, por viverem acima das possibilidades.

Alguns dos jogadores da AD Oliveirense já foram emprestados?
Os que tinham vínculo com a AD Oliveirense SAD viram-no cessado coercivamente pelo Administrador de Insolvência. Não significa isso que quem os recrutou não tenha de ser responsabilizado. O abandono nestas circunstâncias é crime. Um grupo de 12 jogadores foi encaminhado meses antes destes problemas para o GD Mirandês, sob o acordo informal, de que seria o Sr. Sebastian Diericx a pagar os seus salários durante esta época. Informalmente quem manda é ele, formalmente são jogadores profissionais do GD Mirandês, com contrato registado na FPF e não recebem há oito meses, embora alojamento e alimentação providenciada pelo clube não lhes falte, segundo nos informaram. No limite, quem terá de responder é também o GD Mirandês que foi conivente com tudo isto. A situação mais grave é a dos estrangeiros que estavam a competir pela AD Oliveirense SAD e a quem, de um dia para o outro, passou a faltar tudo.

Nesta casa longe de casa há um colchão, duas cadeiras, uma mesa - e a água é aquecida ao sol dentro de garrafões na varanda

A SAD da AD Oliveirense faliu e os jogadores estrangeiros, sem dinheiro, desesperam pelo retorno a casa. Esta é uma história que ninguém quer contar