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João Aranha: "Andei tanto tempo em África a pedir às pessoas que lavassem as mãos, por causa da cólera, e agora a história é a mesma"

É presidente da Federação Portuguesa de Surf desde 2013, mas, antes, trabalhou vários anos e esteve em missões com a Médicos do Mundo. Lidou com cenários de guerra no Sri Lanka e, também, de epidemia, sobretudo na Guiné-Bissau. "Víamos pessoas nos corredores dos hospitais e sabíamos que iam morrer, não tínhamos maneira de fazer alguma coisa", conta João Aranha, numa entrevista à Tribuna Expresso sobre as experiências em situações extremas, na qual condena, também, quem insiste em ir surfar durante o estado de emergência

Diogo Pombo

D.R.

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O que pensa do facto de haver quem vá surfar durante o estado de emergência?
É um problema de civismo, basicamente. Cada um faz o que lhe cabe na consciência. Fazendo-o, acho que está errado, obviamente. Temos de cumprir as normas e respeitar ao máximo o estado de emergência que existe e tentar sair desta pandemia o mais depressa possível. E esse tipo de atitudes não ajuda em nada. Mas cada um fica com a sua consciência. Também condeno a forma como a internet se anda a comportar, com uma perseguição atroz a quem não está a cumprir, um tipo de atitude que também não faz sentido.

Deram alguma indicação aos atletas federados?
Sim, toda a comunicação da FPS aponta para o cumprimento das normas do estado de emergência e, como tal, defendemos que as regras existem para serem cumpridas. Em todas as comunicações temos apelado ao ficar em casa e ao surf poder esperar. Quando sairmos desta quarentena as ondas vão lá continuar e vamos voltar a fazer surf.

Isso inclui os surfistas abrangidos pelo estatuto de Alto Rendimento?
Por acaso, hoje [14 de abril] tivemos uma reunião com os atletas da categoria Open, via Zoom, e, apesar de terem a exceção legal, a informação que nos deram é que todos eles estão em casa. Se quiserem ir podem e a lei permite, mas todos estão em casa.

Já não é a primeira vez que passa pela experiência de uma epidemia, certo?
Estive ligado aos Médicos Sem Fronteiras e aos Médicos do Mundo, mais tempo até nestes últimos. Tive várias missões no terreno relacionados com catástrofe, com guerra e epidemias, foi um bocado parte da minha vida.

Onde?
Fiz parte de uma das primeiras missões a chegar ao Sri Lanka, após o tsunami [no Oceano Índico, em 2004]. A equipa dos Médicos do Mundo já lá estava, eu cheguei depois e estivemos lá no rescaldo do tsunami. Só num dia morreram 40 mil pessoas e, quando chegámos, tivemos que fazer um trabalho de recuperação, já não havia nada a salvar. Por outro lado, houve uma aprendizagem interessante, porque de engraçado não teve nada, pois era um país que estava a viver uma guerra civil, que opunha no terreno duas etnias, os cingaleses e os tamil. Quando lá chegámos já tinham morrido umas 70 mil pessoas por causa da guerra civil, ao longo de alguns anos. O nosso primeiro trabalho foi recolher cadáveres e juntá-los em estádios de críquete para os familiares poderem reconhecê-los. E, depois, tentar perceber o que poderíamos fazer, pois, na realidade, não havia ninguém para salvar.

Qual era a vossa missão?
Era médica, basicamente. Tentámos reconstruir hospitais e criar um plano de emergência e evacuação no caso de haver outro tsunami. Infelizmente, uns meses depois de lá estarmos, houve um alarme e as coisas correram todas ao contrário. Foram uns meses de aprendizagem no terreno com Organizações Não Governamentais [ONG], porque o Sri Lanka tinha uma riqueza de ONG que era uma coisa assombrosa. Havia regiões com cerca de 200 ONG a competirem por projetos. Era uma doideira, às tantas já havia mais operadores de missões do que pessoas disponíveis para ajudar. Foi um trabalho provocado por uma catástrofe, com coisas sinistras, mas em contacto com pessoas que tinham uma alegria de viver incrível. Às vezes, eles respondiam-nos: "Mas vocês acham que vieram cá fazer o quê? Perdemos quase 70 mil pessoas nos últimos anos e só num dia foram 40 mil".

Mas lidou com algum cenário de epidemia?
Neste caso, havia problemas de salubridade, porque a água entrou terreno dentro, havia muito pó no ar e registaram-se muitas doenças respiratórias. Em termos de emergência médica, tinha muito a ver com o apoio psicológico. O rasto de destruição deixado pelo tsunami provocou muitos problemas de saúde em muita gente em termos respiratórios, de infeções e de doenças de pele. Havia cidades completamente devastadas pela guerra. Havia o problema de como poderíamos ir dar apoio ao norte da ilha se temos de atravessar o país - a minha área era Gestão e Logística e aquilo era um inferno, porque imagina o que é ter de atravessar quatro fronteiras dentro do mesmo país. Era de loucos. O que se juntava aos atentados que continuava a haver por causa da guerra civil. Na altura, fizeram explodir uma praça onde trabalhávamos e mais de metade desapareceu de um momento para o outro.

Não tinham medo de sair à rua?
A noção do perigo era difícil. Quando vias o exército na rua percebias imediatamente, como é lógico, mas não havia insegurança para quem lá estava a ajudar. Era perigoso, porque a qualquer momento podia explodir uma bomba, mas os atentados era dirigidos entre cingaleses e tamil. Uma vez, tínhamos uma reunião no Palácio Governamental com um ministro e, antes do encontro, fomos varridos pelo sopro de uma explosão que rebentou com o edifício e matou várias pessoas, incluindo o ministro. A calma daquela gente era tal que disseram-nos que aquilo acontecia muitas vezes, mas, dali a 10 dias, já íamos ter um ministro novo para fazermos reuniões. Foi um choque.

Cartaz de aviso no Sri Lanka.

Cartaz de aviso no Sri Lanka.

D.R.

Repito a pergunta: chegou a lidar com uma epidemia?
Estivemos ligados à do ébola, no Congo, mas foi antes. Foi uma missão rápida porque se tratava de um fecho de instalações, extremamente perigosa para todos nós. Mas, epidemia mesmo propriamente dita, foi na Guiné, de cólera. Fomos a primeira ONG a chegar, juntamente com a AMI.

Isso foi em que ano?
Em 2005, quando houve um surto de cólera na Guiné-Bissau. Não teve nada a ver com esta, apesar de nem ser uma doença africana, até é europeia. Surgiu, na altura, nas cortes de França, graças à fantástica higiene que tinham. Podes morrer com cólera em dois dias.

O vosso trabalho passava por conter essa epidemia?
A nossa missão foi lançada pela European Commission on Humanitarian Resources, que financiava algumas operações em África. Esta epidemia foi uma razia gigante e sugerimos que se enviasse uma missão de combate para o terreno. Tínhamos sete hospitais de campanha espalhados pelo país e, teoricamente, tínhamos de utilizar um hospital local. Quando lá entrámos, a primeira coisa que pensámos foi que, ali dentro, toda a gente ia morrer. Não era possível, estava tudo alagado, as condições eram horrorosas. O que fizemos foi pedir algumas escolas emprestadas ao governo, levámos umas camas do exército que tinham sido levadas para lá e montámos os hospitais de campanha. E lançámos uma campanha pelo país de sensibilização para a limpeza. A cultura é um fator determinante nestas coisas e quando uma família toda quer cumprimentar o morto, faz com que a aldeia inteira fique, depois, contaminada. Conseguir contrariar esse costume, essa maneira de viver, era crítico.

Como se sensibilizam as pessoas nestes casos?
Muitas vezes, mandávamos gente para casa e, no dia seguinte, voltavam. É uma questão cultural. Quando chegámos tínhamos toda a logística montada. É um pouco frio contar isto, mas, hoje em dia, existe um kit da cólera, um kit de higiene, um kit de salubridade, o que for. São kits em que já vem tudo preparado, em caixas, para determinada população. Se disseres que o objetivo é tratar 4.000 infetados, por exemplo, tens de pedir um kit para esse número de pessoas. Um kit é composto pela caixa um, dois, três e sucessivamente até à 10 e têm de vir por essa ordem. Houve uma barraca qualquer, que até hoje ainda não percebi, e enviaram as últimas caixas em vez das primeiras. Ou seja, só tínhamos a fase do retorno à calma, não tínhamos a fase do combate direto. Era terrível. Que me lembre, só tínhamos medicamentos para um terço das pessoas. Víamos pessoas nos corredores e sabíamos que iam morrer, não tínhamos maneira de fazer alguma coisa, porque estávamos à espera dos tais kits. Passámos de um país com centenas de ONGs para outro em que todos os dias morriam pessoas nas tuas mãos.

Nessas circunstâncias, como é que uma pessoa que está lá para ajudar o consegue continuar a fazer?
Só o facto de teres alguém para salvar já te ajuda. Como chefe de equipa, aquilo é um bocado Big Brother: estás numa casa fechada com sete ou oito pessoas que não conheces. A vivência é complicada, as pessoas vão-se adaptando umas às outras, mas cada uma tem a sua particularidade.

E todos os dias têm que dar tudo o que têm a quem precisa de ajuda.
Depois, há o problema da motivação. Do enfermeiro ou do médico que percebe que não é capaz de fazer mais, que ficam a olhar para ti e dizem "João, o que estou aqui a fazer?". E só lhe podes responder para aguentar mais uns dias e esperar que chegue o medicamento que falta. Tinha um médico comigo que era moldavo, tinha combatido no Afeganistão e era pediatra, tinha uma experiência incrível. Era com quem convivia todos os dias, éramos chefes de missão. As coisas funcionavam muito por nos tentarmos motivar uns aos outros. Depois, estávamos num país também à beira de uma guerra civil, onde havia confusão todos os dias. Quando lá estive, o [João] Nino Vieira estava exilado em Portugal, durante o surto. E o país na miséria, estavas constantemente a ser parado na estrada por pessoas a pedirem dinheiro, para te ameaçarem ou para a polícia apontar armas, que nem balas tinham porque não havia dinheiro para nada.

Tenda da missão da Médicos do Mundo na Guiné-Bissau, em 2005.

Tenda da missão da Médicos do Mundo na Guiné-Bissau, em 2005.

D.R.

Não tem nada a ver com lidar com uma epidemia em Portugal.
Logo pelo facto de não ter de desenhar um plano de emergência para sair de casa e chegar ao aeroporto o mais depressa possível. Cá não há esse problema. Lá, todos os dias atestava o depósito dos carros, que estavam estacionados sempre virados para a rua, porque a qualquer momento poderíamos precisar de sair dali a correr. Mas, com esta pandemia, o efeito económico vai ser brutal. É assustador o que pode acontecer. Obviamente que isto é horrível e, se calhar, o que vou dizer é incorreto. Esta epidemia, reforço, é horrível, vai morrer muita gente, mas, se olharmos para trás e para todas as que houve, na realidade até é mais leve que as outras - a gripe espanhola, a gripe das aves, a peste negra na Idade Média.

Hoje existem outros meios médicos e tecnológicos.
Posso ter uma frieza pelo que já vivi, mas claro que isto me preocupa. Posso estar mais habituado a ler comunicados e perceber o que se está a passar, mas, de resto, isto preocupa-me brutalmente.

Mas, perante tudo que já aconteceu, chegou a ficar assustado?
Ao início, fiquei preocupado com a forma como as pessoas iriam reagir. E continua a preocupar-me como irão as pessoas reagir a seguir. Mas, comparando com os outros países, acho que o nosso exemplo está a ser brilhante. As pessoas fecharam-se em casa sem ninguém mandar, quando o governo mandou já lá estávamos. Acho que isso foi um fator muito positivo. O que me preocupa mais agora são coisas mais ligadas a nós, ao surf.

Como a abertura das praias?
Quando é que isto vai abrir? Como o vão fazer? Nós não queremos abrir as praias, nós queremos é as ondas. Obviamente que terá de haver disciplina e a Austrália é um ótimo exemplo, porque têm feito umas campanhas para sensibilizar as pessoas. O Estado deveria, pelo menos, estar a mostrar que existem coisas pensadas, ou a serem pensadas. Claro que ainda é cedo, mas como é que as escolas de surf vão voltar à praia? Vamos criar um grupo de trabalho para tentar "ajudar" o Governo para percebermos como se vai abrir as praias.

As escolas, sim, precisam da praia.
O problema é que vão ter de se readaptar durante os primeiros tempos, porque o mercado desapareceu. Os estrangeiros não estão cá e ainda vão demorar a vir. Toda a parte do turismo vai ficar desativada durante um tempo. O número de alunos por aula vai ter que baixar e, se calhar, um instrutor só poderá dar uma aula a duas pessoas. O Estado tem que estar pronto para ajudar, acho eu.

Pelo desenrolar das coisas, não falta ainda algum tempo até isso acontecer?
O surf de lazer envolve dezenas de milhar de pessoas, que estão confinadas em casa e vão ter de sair. Não há nada a fazer. Contra mim falo, mas, na vertente desportiva, sim, acho que ainda vai demorar. Não posso deixar que haja campeonatos sem condições de segurança. Ninguém sabe como é que isto vai ser.

Como é que alguém com o seu percurso acaba na Federação Portuguesa de Surf?
Bom, comecei a fazer surf no final dos anos 70, e, na altura, surgiram as competições e desde essa altura que todos os meus amigos achavam que iam ser campeões de surf e eu sempre pensei em meter-me na organização. Depois apareceu a faculdade, montei uma empresa de gestão de resíduos e montámos circuitos de reciclagem que não havia em Portugal. Entretanto, como não queria esperar pela reforma dos 70 anos para fazer surf [ri-se], fiz uma pré-reforma, larguei essa empresa e fui viajar pelo mundo. Voltei para Portugal em 2004, pouco antes do tsunami e de ir trabalhar com os Médicos do Mundo. Regressei em finais de 2015 e comecei a trabalhar na NCS, que tinha projetos como o Outjazz e o mercado do Martim Moniz, em Lisboa, ou o LX Factory. E, nessa altura, também fiquei ligado à Associação Nacional de Surfistas [ANS], a convite do João Capucho.

E começou a ligação institucional ao surf.
Até me chamava, muito elogiosamente, o canivete suíço da ANS. Nessa altura foram surgindo as conversas sobre a federação e algo que já sabia há muito tempo que queria fazer. Com o regresso a Portugal, tive oportunidade de fazer contactos. E, pelo que fazia antigamente e pelo facto de fazer surf desde as primeiras gerações, conheço quase toda a gente ligada ao surf. Tudo isto também dá uma bagagem que já me permitia ter esta ideia. Entretanto, o João Capucho convidou-me para a lista dele, na qual iria ser, novamente, o canivete suíço para a fase de produção e gestão. A dada altura, o Capucho decidiu que não queria ser presidente, propôs que fosse eu e desde 2013 que lá fiquei.

Pelo seu passado, houve pessoas a pedirem-lhe conselhos ou a falar consigo quando apareceu a epidemia de covid-19?
É assim, não há muita gente a saber [ri-se], sou algo reservado, não me exponho muito nas redes sociais, nem invento muito. Os meus amigos mais próximos, sim, perguntaram-me por cuidados a ter, mas, quer dizer, não conheço esta doença. Mas, andei eu tanto tempo em África, a pedir a toda gente que lavasse as mãos, por causa do surto de cólera, e agora em Portugal a história é a mesma. São cuidados básicos de higiene que são fundamentais neste período. E, claro, há o contágio, o que para o povo português, que é tão caloroso, claro que é complicado. Mas, sim, algumas pessoas perguntaram-se sobre o que devia fazer, mas eu não sou um especialista. Tenho à vontade para falar sobre a cólera, mas não sobre a covid-19.