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13 minutos em contrarrelógio com Fabian Cancellara: "Quando olho para trás vejo que a alcunha Spartacus combina com a minha história"

Foi um dos ciclistas mais preponderantes das últimas duas décadas. Rei das clássicas e um dos maiores especialistas do contrarrelógio da história, o gladiador Fabian Cancellara retirou-se em 2016 após mais um ouro olímpico. No domingo, a Eurosport vai revisitar os melhores momentos da carreira do suíço. E, antes disso, Cancellara trocou dois dedos de conversa com a Tribuna Expresso

Lídia Paralta Gomes

Tim de Waele/Getty

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Como explicar em poucas linhas o palmarés de Fabian Cancellara? Bem, podemos dizer que foi um dos maiores, senão o maior, especialista no contrarrelógio deste século, algo que os quatro títulos de campeão mundial na disciplina e as duas medalhas de ouro olímpicas, em 2008 e a última das quais na despedida, no Rio de Janeiro, em 2016, poderão facilmente comprovar.

Mas há mais. O suíço, nascido há 39 anos, é também um dos reis das clássicas de primavera, os chamados Monumentos do ciclismo, dos quais ficaremos provavelmente órfãos neste 2020 tão diferente de tudo o que até hoje conhecemos. Não houve Paris-Roubaix, o inferno do norte onde Cancellara foi campeão três vezes (2006, 2010 e 2013). Não houve Volta à Flandres, onde fez também hat-trick (2010, 2013 e 2014), porque para estradas em paralelo e em condições tramadas, chamem Cancellara.

E depois ainda há oito vitórias em etapas na Volta a França, as três na Volta a Espanha, o Tirreno-Adriático ou a sua Volta à Suíça… uff.

Não terá por isso sido fácil para a Eurosport escolher apenas alguns dos melhores momentos da carreira do Spartacus. Porque eles nunca mais acabam. À falta de competição, o canal vai dedicar boa parte da programação de domingo às vitórias mais espantosas do suíço que, sob esta premissa, trocou dois dedos de conversa com a Tribuna Expresso.

Foram 13 minutos em contrarrelógio com o maior especialista do dito.

Olá Fabian, desculpe, só tenho 10 minutos, por isso, sem mais demoras, vou começar já a disparar questões.
Bora lá, full gas!

O que tem feito nestes últimos dois meses de quarentena, confinamento, distanciamento social? A rotina mudou muito?
Sim, claro, tenho sido até professor, tenho sido um bocadinho de tudo. Na Suíça já podemos sair e fazer pequenas corridas de bicicleta ou caminhadas. As pessoas continuam quase todas em teletrabalho. Só tínhamos os supermercados e hospitais abertos, agora aos poucos estamos a tentar ligar de novo os motores da economia e as escolas também estão quase a abrir. A minha empresa também tem estado parada. Mas estou saudável, eu e a minha família estamos bem, só temos estado mais por casa. De resto... não há provas de ciclismo na televisão, não há desporto de todo, infelizmente. Cada país está a lidar com os seus problemas.

A que se tem dedicado desde que anunciou a retirada, em 2016?
Tenho a minha própria empresa que organiza corridas de ciclismo, chamada "Chasing Cancellara". São corridas que estão abertas a todo o tipo de pessoas, não é para profissionais. É uma espécie de boutique series e eu estou 100% envolvido, do início ao fim, seja no briefing, seja nas medalhas. Adoro ainda estar completamente dentro do ciclismo e em projetos relacionados com as duas rodas, tenho aí mais uns projetos para sair nas próximas semanas. Na televisão, com a Eurosport, também espero que algumas coisas possam surgir, se o coronavírus nos facilitar a vida. Porque o ciclismo é a minha paixão, é onde eu me sinto em casa e por isso é que fico feliz por continuar neste mundo das duas rodas.

Como vê o panorama do ciclismo para esta temporada? Há cancelamentos, adiamentos, as três grandes voltas provavelmente só no outono. Não é quase um alívio estar retirado quando acontece algo assim?
Sim, é um momento difícil para os ciclistas. Espero que as competições possam voltar, eu acredito que vão voltar. Não sei se vai ser possível fazer as grandes voltas com três semanas, talvez com duas semanas, para assim também haver espaço para outras corridas. Porque neste momento em vários países tens regras que não te permitem competir até ao final de agosto e acho que espremer tudo desde setembro até ao final de outubro ou novembro não será tarefa fácil. O ciclismo é um desporto global, os ciclistas e fãs vêm de todos os lugares do mundo. E se o ciclismo pode ser feito sem espectadores? Bem, eu acho que é possível, mas é complicado controlar. Temos os Mundiais de ciclismo aqui na Suíça em setembro, não sei como será. Mas eu acredito que ainda teremos provas de ciclismo este ano.

De amarelo, no Tour de 2015

De amarelo, no Tour de 2015

JEFF PACHOUD/Getty

Olhando para uma história de 17 anos, qual é a vitória mais saborosa da sua carreira?
Humm, tenho muitas! Acho que ganhar nos Jogos Olímpicos é fantástico, mas diria que a Volta à Flandres de 2013 é a vitória que me vem logo à cabeça. Porque tive um 2012 difícil: caí na Volta à Flandres, caí na prova de estrada dos Jogos Olímpicos e tudo devido a erros meus. O ano de 2013 entra na minha história, se formos aos pormenores, do quão em baixo estive e como consegui voltar ao topo... Flandres 2013 é uma vitória muito importante.

E entre andar de amarelo na Volta a França ou ser primeiro num dos Monumentos do ciclismo, qual é a melhor sensação?
Ganhar é sempre a melhor sensação. Ganhar os Jogos Olímpicos? É enorme, é de loucos. Ganhar um dos Monumentos do ciclismo? É incrível. É fantástico estar no topo da lista de vencedores de algumas dessas corridas. Ganhei a Flandres, ganhei o Paris-Roubaix, ganhei San Remo. Fico muito orgulhoso de todas essas vitórias e cada uma delas, individualmente, foram vitórias incríveis. Todas elas são muito presentes, lembro-me bem de todas elas.

O Fabian deixou o ciclismo depois de recuperar o título olímpico do contrarrelógio no Rio de Janeiro, numa prova muito, muito técnica. Foi uma espécie de plano: ser campeão olímpico e ter a despedida perfeita?
Na verdade, no início da temporada os Jogos Olímpicos do Rio não eram uma prioridade, porque era um percurso muito complicado. E toda a gente dizia "é muito difícil, demasiado difícil para ti". Foi intenso. O meu sonho sempre foi acabar a carreira no melhor momento, retirar-me em grande e isso poderia acontecer em qualquer corrida, mas é um cenário de sonho acabar a carreira assim nuns Jogos Olímpicos.

Ainda se lembra da primeira coisa que fez depois de pendurar a bicicleta?
Estava só muito feliz por ir para casa, por saber que durante algum tempo não teria de viajar, de sacrificar-me, de perder coisas. Só ficar em casa com a família e amigos.

Cancellara a festejar o primeiro ouro olímpico, em Pequim 2018. Voltaria a ser campeão olímpico no Rio 2016

Cancellara a festejar o primeiro ouro olímpico, em Pequim 2018. Voltaria a ser campeão olímpico no Rio 2016

Ola Fagerstrom/Getty

Vou roubar mais uns minutos. De onde vem a alcunha "Spartacus"?
Ah, começou em 2004 quando um outro ciclista, o Roberto Petito, chegou ao pé de mim e disse "Ei, Fabian, tu pareces o Spartacus. Ombros largos, cheio de força. Sempre em movimento". E foi assim que o nome apareceu. No início o nome não pegou muito, só mais tarde, mas honestamente, quando olho para trás, para a minha carreira, o nome Spartacus combina com a minha história.

Até porque é preciso ser um bocadinho Spartacus para ganhar três vezes o Paris-Roubaix.
Sim, sim, seguramente.

É a corrida mais desafiante do calendário? A mim aquilo parece-me sempre de loucos.
É uma corrida de loucos, mas não é a mais louca. Não faltam por aí corridas loucas. Mas o Paris-Roubaix, por causa dos equipamentos, por causa dos paralelos, definitivamente é uma das mais complicadas.

Sente falta da competição?
Não, estou bem! Continuo no mundo do ciclismo, apenas de uma forma diferente. Quando vou ver ao vivo algumas das provas é sempre porreiro, mas a verdade é que estou muito feliz com o que tenho atualmente.