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O agente Jorge Teixeira: “Concordo com o lay-off. Um jogador em 10 anos contribui muito mais para o Estado do que um trabalhador em 40 anos”

Jorge Teixeira, agente de futebol desde 2005, dá-nos a conhecer um bocadinho o modo como opera nas transferências de jogadores e treinadores e como vê este mercado. Se por um lado não nega que está nesta profissão para ganhar dinheiro, por outro recusa revelar qual o valor máximo que já ganhou numa única transferência. Garante que recebe sempre dos clubes, nunca dos jogadores e que as mulheres destes às vezes podem ser o seu guia.

Alexandra Simões de Abreu

D.R.

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De que forma esta pandemia está a afetar o negócio da venda de jogadores?
Esta pandemia afeta todo o mundo e todos os setores económicos e financeiros de todas as atividades, o futebol e a venda de jogadores não foge à regra, bem pelo contrário. Ainda para mais uma atividade que vive fundamentalmente do recurso financeiro dos clubes naquele momento e que é feito de forma exponencial de época para época. Nestas primeiras abordagens com os clubes, a prioridade de todos eles, pelo menos no meu caso, é sem excepção dar preferência a jogadores que terminam contrato, ou seja, jogadores livres. Situações de renovação de contrato que à primeira ideia não seriam tão fáceis de acontecer agora vêem-se com maior força. Por isso acho que o recurso financeiro à venda, ao trespasse do jogador sob contrato noutro clube vai ter um decréscimo histórico a nível percentual em todo o futebol.

Os jogadores vão passar a valer menos no mercado por causa da crise financeira que a pandemia está a gerar?
Isso seguramente, o valor do mercado baixou, aquelas transferências que se viam vão-se continuar a ver, não nos mesmos números, não nos mesmos valores. Os clubes de um momento para o outro não faliram todos, os recursos vão continuar a aparecer mesmo que seja de forma gradual. Mas julgo que para retomar essa força financeira que havia nessas grandes transferências vai-se gastar um pouco mais tempo. Na época que se avizinha garantidamente o valor do mercado vai baixar em todos os campeonatos.

Ainda assim mercado já mexe ou está atrasado relativamente às épocas anteriores?
O mercado está a mexer, principalmente nas abordagens, nas reuniões pelas plataformas possíveis. Já estamos a trabalhar, a fazer e a receber várias informações da parte dos clubes o que não quer dizer que se estejam a fechar contratos. Isso não, isso está muito mais atrasado relativamente às épocas anteriores, até mesmo porque toda esta indefinição dos campeonatos desportivos em todos os países a isso obriga. Há campeonatos que vão iniciar, há os que vão reiniciar e eventualmente parar porque isso também pode acontecer e há aqueles que pararam mesmo. Essa indefinição está a mexer muito com a direção desportiva dos clubes e com a tomada de decisão relativamente às contratações dos próximos anos. Comparativamente às épocas anteriores é um mercado que está muito parado, até porque ao dia de hoje alguns dos campeonatos em diversas partes do mundo já teriam terminado e já estariam a ser anunciados treinadores e jogadores para a próxima época.

Concorda que os clubes tenham recorrido ao lay-off?
Sim. Isso é uma discussão grande. Primeiro é uma discussão para a qual nós não estávamos preparados para ter agora. Foi uma situação que nunca sequer foi pensada no panorama do futebol. Mas uma situação excecional, obriga a medidas excecionais. O mundo parou e não foi só o futebol. Li um artigo de um sociólogo há bem pouco tempo que dizia que de todas as atividades do mundo que estão paradas, se o futebol pudesse operar, socialmente, para as pessoas que estão confinadas em casa, seria bom porque conseguiriam passar por tudo isto de uma forma mais aligeirada. Ou seja, o futebol tem importância na sociedade. E serve um bocadinho de saco de boxe de toda a gente. Os treinadores, os jogadores, os presidentes, os agentes, todos somos, digamos, os maus da fita, mas o que é certo é que socialmente temos um papel fundamental no bem estar e no alívio do stress das pessoas. Aliás, do que mais se fala além do vírus é quando é que os campeonatos vão começar, como é que se vão resolver as ligas, quem é que vai ser campeão?

Muita gente pergunta porque é que o Estado tem de ajudar os clubes se fazem parte de um sector privado que movimenta milhões.
Aí toca num ponto fundamental, o futebol é um setor privado mas dos que mais contribui para os cofres do Estado. Relativamente a contratos, a comissões, a tudo o que o futebol envolve e os contratos de quem ganha muito, são aqueles que tributam mais. O Estado tem de ajudar porque um jogador de futebol não tem direito a nada. Um jogador de futebol acaba a sua atividade profissional aos 33 ou 35 anos e não tem direito a uma reforma. Vai ter de arranjar outra atividade, vai ter de se adaptar ao mercado. Eu não estou a subestimar as outras actividades, nem a menosprezá-las, mas o que é certo é que um jogador contribui durante 10 ou 15 anos em quantidades elevadíssimas para o Estado, aos 35 anos deixa de poder exercer a sua actividade e depois não tem forma de ser ressarcido. Se reparamos bem, um jogador em 10 anos vai contribuir muito mais para o Estado do que um trabalhador que trabalhou 40 anos a ganhar 600 ou 700 euros. E também me coloco na pele dos clubes. Há uma cadeia que quebra, ainda agora um agente televisivo deixou de pagar os contratos, há uma receita que não entra nos clubes e depois não há milagres. Se os clubes não estão economicamente saudáveis, não têm capacidade para aguentar os contratos a 100%. Mas não é só no futebol, isto é um problema social e mundial.

Mas os clubes vivem muito acima das suas possibilidades.
Está bem melhor, muito melhor. As questões de incumprimento salarial que existem, são muito menos do que as que existiam. Os clubes têm uma preocupação muito maior de fazer cumprir os seus compromissos. É evidente que o mercado muitas vezes obriga a alguns riscos. Os clubes depois de se envolverem numa competição em que ninguém quer de lá sair, e quando digo isto falo na primeira liga, muitas vezes arriscam em demasia e vão-se cometendo alguns erros, algumas loucuras. Mas acho que o futebol está muito melhor relativamente a isso.

Jorge Teixeira jogou no FC Porto dos 9 aos 13 anos

Jorge Teixeira jogou no FC Porto dos 9 aos 13 anos

D.R.

Considera-se um agente, um intermediário ou um empresário de jogadores?
Acho que sou um bocadinho os três. Sou licenciado em gestão de desporto pelo Instituto Superior da Maia (ISMAI), fui diretor geral e desportivo no Leixões, e em 2005 iniciei o meu percurso no agenciamento de jogadores e treinadores. O agente é um intermediário, um mediador, um gestor de carreiras. A terminologia aqui não é o mais importante, mas a função que ocupamos na gestão do jogador. O que acho mais correto é agente de jogadores, porque é realmente um agente desportivo.

Foi diretor desportivo do Leixões quando o seu pai era presidente do Leixões.
Sim, eu termino o meu curso no ISMAI, preparamos a candidatura do meu pai ao Leixões e iniciamos um projeto de grande sucesso em 2000, que levou às grandes vitórias do Leixões, como subidas de divisão, final da Taça de Portugal, participação na Taça UEFA. Iniciámos todos um percurso muito novos, tanto eu como diretor desportivo, como o Carlos Carvalhal como treinador.

Antes de ser diretor desportivo do Leixões, chegou a jogar futebol?
Sim, comecei num torneio em Leça, em que fui chamado para fazer testes ano FC Porto. Cheguei ao antigo campo da Constituição e estavam lá mais 100 miúdos à experiência, fiquei eu e mais outro jogador. A equipa das escolas do FCP já estava formada na altura. Foram quatro anos fantásticos que passei ali, dos nove aos 13 anos.

Nunca lhe passou pela cabeça ser profissional de futebol?
Fiz a formação no FCP, depois vim para o Leixões, mas não fui futebolista porque era mau profissional [risos]. O meu pai foi jogador, foi treinador e foi presidente. E na altura em que termino a formação como júnior vou jogar para a III divisão para Vila Nova de Foz Côa, tinha 18 para 19 anos. O meu pai aí já era treinador e no final dessa época teve uma conversa comigo.

O que lhe disse?
Que eu tinha alguma qualidade técnica para ser jogador, mas não tinha a outra parte que é também muito importante, o ser bom profissional, o gostar de treinar, o gostar de cumprir horários, eu não tinha isso na altura. Foi uma das decisões mais importantes da minha vida, porque ter um pai treinador que nos diz aquilo...Fiquei muito chateado com ele na altura, mas mais à frente entendi que me deu o melhor conselho.

Quando terminou o curso do ISMAI já sabia o que queria fazer da vida ou ser agente surgiu com a experiência no Leixões?
Termino o serviço militar e a minha primeira ideia era entrar em educação física e desporto pelo ISMAI, só que nesse ano a faculdade inicia o curso de gestão de desporto, eu vou buscando algumas informações e seduz-me a parte do dirigismo e da gestão desportiva. No final do curso o meu pai prepara a sua candidatura ao Leixões e eu já faço a preparação dessa mesma candidatura, depois fico cinco anos no Leixões e o meu pai continua durante oito ou nove. Fazemos um trajeto brilhante em que conheci pessoas muito importantes na minha carreira, como o Carlos Carvalhal e o professor José Gomes que na fase final em que estou no Leixões é das pessoas que mais me motiva para enveredar por outro tipo de caminhos. A minha posição no Leixões estava um bocadinho limitada porque não podia crescer muito mais do que ser diretor geral do Leixões. Isto foi há 15 anos, não havia tantos agentes como há hoje.

Antes disso já tinha feito alguma transferência de jogadores enquanto diretor desportivo?
Não. Enquanto diretor desportivo trabalhava única e exclusivamente com o Leixões. Acho que foi um trabalho pouco valorizado pelas pessoas em Matosinhos porque nós pegamos no Leixões numa altura em que estava quase a descer à III divisão e levámos o Leixões aos campeonatos profissionais, com provas europeias, com final da Taça de Portugal, com a valorização do clube. Consegui que o Leixões tivesse 10 mil sócios ativos, o que naquela altura era muita coisa, enchemos estádios, criámos uma dinâmica muito forte a nível nacional.

Chegaram a passar uma eliminatória da Taça UEFA.
Sim, a primeira, e perdemos na segunda com o PAOK, ganhamos em casa e perdemos fora, e o Leixões era do terceiro escalão do futebol português. Ficou nos registos da UEFA como o primeiro clube do terceiro escalão que passou a primeira eliminatória da Taça UEFA. Ainda hoje vigora esse registo máximo do clube.

Jorge Teixeira (à direita) com o amigo Miguel Ribeiro com quem jogou na formação do Leixões

Jorge Teixeira (à direita) com o amigo Miguel Ribeiro com quem jogou na formação do Leixões

D.R.

Como descobre a vocação para agente de jogadores?
Já enquanto dirigente tinha uma relação de proximidade muito grande com os jogadores e com os treinadores. Nessa época de 2004/05, eu tinha uma relação muito próxima com o Professor José Gomes, falávamos muito de futebol, da forma como gostávamos de ver os jogadores e as equipas jogar. Ele motivou-me. Eu era novo, na altura ainda não era casado, tinha uma visão da vida e profissional muito abrangente e arrisquei.

O que é preciso para uma pessoa se tornar agente?
Acho que o primeiro requisito para ser agente ou profissional de qualquer atividade, é ser-se sério e ser verdadeiro naquilo que se faz. A seriedade, o falar verdade, o ter uma proximidade com as pessoas com quem se trabalha, acho que isso me define, tendo em conta até o número de anos que os meus jogadores estão comigo. Os nossos contratos são renováveis de dois em dois anos e tenho jogadores que me acompanham há 10, 12 anos.

Estava a referir-me aos requisitos burocráticos. O que é preciso para se ser agente de futebol?
Isso foi mudando. Mesmo havendo um sindicato, as regras foram mudadas. Inicialmente era uma garantia bancária e tínhamos que nos inscrever na FIFA. Isso mudou e agora qualquer pessoa que seja idónea pode ser representante ou intermediário e depois temos que nos registar em várias federações. Eu ainda há pouco tempo registei-me como intermediário na federação dos Emirados porque é um mercado onde estou a investir há uns anos. Temos que nos registar para fazer contratos legais com os jogadores que representamos.

Qual foi o primeiro jogador que agenciou, como é que surgiu?
Os primeiros jogadores que me acompanharam eram meus jogadores do Leixões na altura, como era o caso do Jorge Gonçalves, do Rúben Ribeiro, do Rui Duarte, do Élvis.

E o primeiro negócio que fez?
Extra Leixões o primeiro jogador em que peguei e ainda hoje me acompanha, passados 15 anos, foi o Ricardo Machado. Peguei nele ainda era júnior nos Dragões Sandinenses transferi-o para o Nacional da Madeira e fiz a carreira dele toda.

Como é que chega até ele? Como é que um agente descobre os talentos, os seus jogadores?
A ver jogos, a avaliar qualidade. Depois disso o agente demonstra vontade para poder representar o jogador, e se o jogador demonstra vontade e confiança no agente para gerir a sua carreira é uma relação que se cria.

O que é que propõe ao jogador, que tipo de contrato é que celebram?
O que propomos é sermos o gestor da carreira de forma exclusiva. Fazemos um contrato de colaboração entre as partes, onde existem direitos e deveres, como um contrato de mediação de outra actividade qualquer, em que nós como agentes do jogador somos os seus representantes legais em tudo o que diz respeito a contratos, rescisões, renovações, tudo o que tenha a ver com o panorama desportivo e oficial do jogador. Os contratos têm uma duração de dois anos. Ao fim desses dois anos, podem ser renovados ou não, mediante o acordo entre as partes.

Isso significa que o jogador lhe paga um "x" por mês?
Cada um tem o seu modus operandi. No meu caso, sou um prestador de serviços ao clube e entendo-me sempre com os clubes para onde o jogador vai. O jogador a mim apenas me deve fidelidade e compromisso. Entendo-me sempre com o clube para onde o jogador vai. Agora a FIFA está a fazer sair novas directrizes no que diz respeito a isso, em que indica, informa e aliás até quer documentar que deve ser o jogador legalmente a pagar ao agente.

Concorda?
Não.

Porquê?
Porque quando um agente está a levar um jogador para determinado clube, também está a fazer uma prestação de serviços a esse clube, está a levar-lhe mais valia, esse próprio jogador amanhã vai ser vendido e esse é um serviço que tem que ser pago porque quem de direito. Na minha opinião essa alteração cria logo um inconveniente entre o agente e o jogador que é estarem a falar de questões monetárias. Acho que isso deve ser feito entre o agente e o clube, porque o jogador tem de estar preocupado e concentrado em treinar, em jogar e em garantir o seu salário e não deve estar preocupado com essas questões.

Os jogadores a si nunca lhe pagam ou pagaram?
Sim, entendo-me sempre com os clubes.

São sempre os clubes que lhe dão uma comissão do negócio.
Ou não. Há jogadores que vão para os clubes e nós não cobramos ou ficamos com uma percentagem do passe. Cada negócio e cada caso é um caso.

Jorge Teixeira, Carlos Carvalhal e José Manuel Teixeira

Jorge Teixeira, Carlos Carvalhal e José Manuel Teixeira

D.R.

Um dos jogadores mais conhecidos que promoveu foi o Luisinho, que chegou a jogar no Benfica. Como é que o descobre?
O Luisinho estava associado a uma grande empresa mundial de agenciamento de jogadores, não interessa referir o nome, e jogava no terceiro escalão do futebol português. Na altura ele já teria 24 anos. Eu tinha um jogador no clube onde o Luisinho jogava na altura e fiz-lhe uma abordagem. No final dessa época ele demonstra algum desagrado com a empresa que o agenciava porque lhe propuseram renovar contrato com a mesma equipa e ele entendia que tinha condições para outros vôos. O pai dele toma a decisão de que tem de mudar a gestão da carreira dele e eu assumo com ele um compromisso nesse ano, de o colocar imediatamente nos campeonatos profissionais. Ele vai para o Desportivo das Aves nesse ano, depois coloco-o na rota da primeira Liga, no Paços de Ferreira, fazemos a venda dele ao Benfica no ano a seguir a ele chegar à primeira Liga e depois fazemos cinco anos magníficos em Espanha, no Desportivo da Corunha. No ano passado fiz a venda dele para o Huesca, também na primeira Liga em Espanha, onde continua até hoje. É uma relação de muitos anos. Vejo no trajeto e percurso do Luisinho também muito do meu trabalho. Hoje para além de sermos jogador e agente temos uma relação familiar muito grande. Sou padrinho da sua filha, temos uma relação que ultrapassa o futebol, já entrou na esfera familiar e obviamente que vejo nele um motivo de grande orgulho. Estamos a falar de um jogador que, a seguir ao Ronaldo, deve ser dos jogadores com mais jogos na Liga Espanhola, tem mais de 170 jogos na Liga Espanhola.

O Luisinho teve um conflito em Espanha, com o Víctor Sánchez. Pode resumir o que é que aconteceu e qual foi o seu papel nessa altura?
Foi uma situação perfeitamente injusta. O clube teve um treino de porta aberta e dois jogadores, numa situação absolutamente normal de treino onde estava a imprensa, tiveram uma desavença no decorrer de um lance. O treinador, obviamente e bem, mandou os dois jogadores para o banho, mas depois teve dois pesos e duas medidas. Foi uma situação entre os dois jogadores que toda a gente viu, foi pública. E o Luisinho foi colocado a treinar à parte e o outro jogador não, no treino seguinte estava a fazer o mesmo treino com os colegas, quando ninguém promoveu nada, foi uma situação de treino em que se envolveram os dois de igual forma. Isto foi muito falado em Espanha, o treinador teve dois pesos e duas medidas, e aí o agente tem que preservar o jogador, tem que salvaguardar o jogador para que não se exponha. Fui para a frente de combate na defesa intransigente dos seus direitos junto do clube e até a nível público. No final desse ano o clube tomou a decisão de que nem o treinador, nem o Luisinho poderiam ficar juntos e entendeu que a justiça estava do lado do jogador. O Luisinho continuou no Desportivo da Corunha, o Víctor Sánchez saiu do clube. É uma página passada que foi resolvida na altura.

Sentiu que em Espanha existe uma certa xenofobia em relação aos jogadores portugueses?
Está a utilizar um termo muito forte, eu não queria ir a tanto. Mas é verdade que para um português se impôr em Espanha tem de fazer muito mais do que qualquer outro de outra nacionalidade. Pouquíssimos jogadores portugueses conseguem ter êxito em Espanha. São sempre mal amados. Veja-se o caso do melhor do mundo, sai de Madrid por não se sentir acarinhado, por não se sentir protegido e estamos a falar do melhor jogador do mundo. E dava-lhe variadíssimos casos, mesmo de treinadores que chegaram lá de forma precoce e que imediatamente foram saneados, como o caso do Nuno Espírito Santo, do Miguel Cardoso, do Domingos Paciência. Tem a ver com questões se calhar até culturais, de algum tipo de rivalidade entre Portugal e Espanha. Felizmente não é o caso do Luisinho que continua a ter um trajeto de sucesso em Espanha onde já está há sete anos.

Jorge Teixeira no meio de Sidnei e Luisinho

Jorge Teixeira no meio de Sidnei e Luisinho

D.R.

É verdade que, antes de Espanha, aconselhou o Luisinho a ir para o Paços de Ferreira em vez de ir para o Marítimo onde ia ganhar mais dinheiro?
Quando começo a trabalhar com o Luisinho, ele estava no Moreirense da II B e levo-o para o Aves. Entre o Moreirense e o Aves, a realidade familiar que se vivia dentro do clube era muito semelhante e o Luisinho voltou a ter sucesso. No ano seguinte, tenho várias opções para o Luisinho, o Marítimo, o Beira-Mar do Leonardo Jardim, o Rio Ave, o Paços de Ferreira, ou seja, tinha um mercado aberto porque o Luisinho foi considerado dos melhores jogadores da Liga. O Marítimo proporcionou-lhe melhores condições financeiras do que o Paços, só que na perspectiva do gestor de carreira, e conhecendo o Luisinho, a sua família, ele tinha um filho ainda pequeno, mudar a família para a Madeira, não era a melhor opção. O Marítimo tinha uma equipa B e os jogadores que o Marítimo contratava das segundas divisões, inicialmente passavam por um período na equipa B. Conhecendo o Luisinho e a sua expectativa de chegar à I Liga e de se impor imediatamente, entendi que a melhor opção seria o Paços de Ferreira. Obviamente que ele questionou-me porque ia ganhar menos. E eu respondi: "Vamos arriscar porque o Paços vai de encontro ao tipo de clube onde tens estado durante estes anos todos". O Paços era um clube muito semelhante ao Moreirense e ao Aves da altura. Era um clube cumpridor, familiar, que na altura tinha o Rui Vitória como treinador e o Luisinho faz uma época excecional. Essa foi uma aposta ganha. No final desse mesmo ano ele é transferido para o Benfica.

Ele confiou 100% em si.
Exato. Recordo-me perfeitamente das palavras dele: "Tu melhor que ninguém sabes o que eu devo fazer. Confio em ti cegamente e se é para Paços que vamos, é para Paços que eu vou". Ainda hoje diz que foi dos clubes onde lhe deu mais prazer jogar.

Jorge Teixeira com Ricardo Machado (ao centro), jogador que é representado por si desde os 18 anos

Jorge Teixeira com Ricardo Machado (ao centro), jogador que é representado por si desde os 18 anos

D.R.

Antes de entrar no mercado espanhol, explorou o mercado romeno. Como é que um agente descobre e entra num mercado menos conhecido?
São targets, são investimentos que fazemos. Recordo que cheguei a viajar para a Roménia duas, três vezes e vinha de lá sem fazer nenhum tipo de operação, apenas tinha servido para trocar contatos, conhecer, aparecer nos jogos, mostrar o meu trabalho, até que me pudessem dar uma oportunidade de lá começar a trabalhar. Assim foi. O jogador que lá meti na altura foi o Leandro Tatu, no Estrela de Bucareste. Logo nesse ano comecei também a colocar jogadores com qualidade no Brasov. Levei variadíssimos jogadores de Portugal para esse clube e depois o sucesso dessas mesmas transferências vão continuando a cimentar o nosso trabalho e vai-se ganhando confiança com os clubes. Mas o start up de cada mercado é sempre muito difícil, em todos.

Mas o Jorge acorda um dia de manhã e diz vou experimentar o mercado romeno, ou o mercado búlgaro?
Não é bem assim, mas em alguns casos pode assemelhar-se a isso. É evidente que nós começamos a ver o budget que os clubes pagam em determinado país, começamos a trocar contactos muitas das vezes com agentes desses mesmos países que têm relações privilegiadas com este ou com aquele clube, fazemos um investimento nas viagens no que diz respeito a conhecer e a marcar reuniões pessoalmente com scoutings, com os directores desportivos dos clubes, para mostrar o nosso trabalho. Por isso é que digo que quando se fala em ser agente de futebol, intermediário ou mediador, é um bocado de tudo. Em determinada altura nós passamos também por ser vendedores. É evidente que não estamos aqui a vender mercadoria, mas estamos a mostrar o portefólio que representamos. Muitas vezes esse é um investimento do agente que não se vê, de que não se fala, só se fala no produto final e quando o jogador tem sucesso neste ou naquele clube, mas pouca gente sabe o que é que está por detrás disso. A preparação dessa operação, numa primeira fase,, em 70, 80% dos casos está no agente. Depois claro que a qualidade do jogador tem que falar mais alto.

Se não cobra aos jogadores onde é que vai buscar o retorno do dinheiro dessas viagens?
Evidente que cobro pela prestação de serviços aos clubes. Não cobro aos jogadores mas estamos nesta atividade para ganhar dinheiro e não perder. Vou tentar explicar. Eu tenho a minha carteira de jogadores e quando tento falar com este ou aquele clube, inicialmente é por email e telefone. Quando a situação evolui no sentido de haver uma perspectiva de se começar a trabalhar, nessa altura marcam-se reuniões e há essas deslocações aos países para nos conhecermos pessoalmente e a partir dali saber as necessidades que o clube tem. Quando a época termina há posições que precisam ser reforçadas e nós vamos indicando as opções que representamos. Se forem ao encontro do que o clube precisa, fazemos negócio, mas a maior parte das vezes nem fazemos. Nós aqui só estamos a falar das operações que conseguimos fazer, mas há outras tantas ou muitas mais que nós indicamos aos clubes e eles não vão pela nossa referência. Isto é um investimento, é o nosso investimento. Se fizermos negócio tudo muito bem vamos cobrar sobre isso, se não fizermos dá prejuízo. Perdemos num, vamos ganhar noutros.

No mercado romeno chegou a lidar com as excentricidades do presidente Becali?
Sim. No início o mercado romeno criou uma grande receção ao jogador português. Foram muitos jogadores do nosso campeonato para a Roménia, fizeram lá um grande trabalho e abriu a porta a que outros pudessem ir. Convivi no Estrela de Bucareste com o dono do clube, que ainda hoje é Gigi Becali, mais tarde convivi também com o problema salarial que lá se passou, porque a Roménia exagerou um pouco no que diz respeito aos contratos e nem o campeonato, nem os clubes estavam organizados financeiramente para o poderem fazer. Acabou por haver muito incumprimento salarial e tivemos variadíssimos problemas, não numa primeira fase em que correu tudo muito bem, mas numa segunda fase. Os dirigentes mentiam com muita facilidade, houve um trabalho muito grande da parte dos agentes, não só meu, mas também de outros colegas que lá tinham jogadores, para resolver muitos casos. Alguns deles foram resolvidos e discutidos na FIFA.

Jorge Teixeira colocou o treinador Pedro Emanuel no Al Tawon em 2018

Jorge Teixeira colocou o treinador Pedro Emanuel no Al Tawon em 2018

D.R.

Quando os jogadores mudam de clube e sobretudo quando vão para fora do país, deparam-se normalmente com dificuldades, desde logo com a barreira da língua. O papel do agente também é ajudá-lo nessa integração ou faz o negócio e vem embora?
Tocou num ponto fundamental. A barreira da língua, e hoje os jogadores já começam a preocupar-se mais com isso, limita muito as transferências, porque há jogadores que não dominam o inglês. Pelo menos do inglês os jogadores deviam ter noções básicas, para poderem comunicar em qualquer país. Porque ir para um país, não dominar a língua e não ter ideia nenhuma do que é falar inglês, é muito difícil. O ir a um supermercado, fazer uma compra, fazer um pagamento, limita muito. Muitos jogadores inibem a saída do país em função da barreira linguística. Claro que se formos para clubes de média e alta dimensão, os clubes já estão preparados, com tradutores, mas os outros não têm isso. Hoje felizmente os jogadores já se preocupam não só em ocupar os seus tempos com a família em situações de lazer, como já se preocupam em ocupar alguns dos seus tempos livres na desenvolvimento e aprendizagem de uma língua estrangeira.

Qual foi a situação mais difícil que teve que resolver nesse sentido. Seja por causa da língua ou até para encontrar uma casa?
Por exemplo, o Nildo Petrolina que estava no Beira-Mar, vendi-o para o Videoton da Hungria. Enquanto lá esteve uma equipa técnica portuguesa e como tinha colegas portugueses ou brasileiros, a situação foi fácil. Quando a equipa técnica saiu e o clube não estava preparado com tradutores ele sentiu-se completamente deslocado e pediu-me: "Jorge tira-me daqui, não consigo estar aqui. Não domino a língua e não falo inglês, tenho muita dificuldade. Não estou bem aqui, não me sinto feliz aqui". Ele tinha feito um contrato financeiramente muito bom, mas eu tive de rescindir o contrato e trazê-lo para Portugal novamente. Agora está na Arábia Saudita, e não é que domine a língua mas pelo menos já entende, já se vai fazendo entender, é evidente que está num clube onde tem um tradutor para ele, onde tem jogadores que falam português, está com uma equipa técnica portuguesa.

Na Arábia o choque cultural é ainda maior, há uma série de restrições. Como é que os jogadores reagem a esse tipo de condicionantes?
Eu faço uma preparação muito grande no que diz respeito à ida de um jogador ou treinador para o mercado árabe. Primeiro transmito-lhes uma ideia bem pior do que aquilo é. Tento mesmo criar um cenário mau para aquilo que vão encontrar para quando lá chegarem a sensação não ser assim tão má e a adaptação se tornar mais fácil. Pode parecer um bocado ridículo mas tenho tido algum sucesso. O que digo aos jogadores quando vai haver uma transferência para o mercado árabe é que se vão privar de uma vida social a 100%, é treinar, casa, casa, treino. As famílias têm de cumprir as tradições e as regras, o jogador que quiser levar para lá a família tem que ter noção disso, que vai num espírito de missão, vai para desenvolver a carreira e para que financeiramente consiga um contrato melhor. Tem de fazer não só um esforço físico em campo, mas também um esforço social e familiar. Por isso é que 80% dos jogadores que tenho no mercado árabe não leva as suas famílias. Quando lá chegam e percebem que não é tão negativo como lhes disse, vão-se adaptando de uma forma mais pacífica. Prefiro que seja assim, do que queiram regressar na primeira semana de treino.

Já lhe aconteceu um jogador chegar a um clube e querer regressar ao fim de uma semana ou duas?
Já.

Como é que se resolve uma situação dessas?
Temos de chegar a um entendimento com o clube. Inicialmente tentamos dar tempo para que as coisas se recomponham, se não der e o jogador não estiver feliz, temos de arranjar outro clube para onde o jogador possa ir, que é para que o clube que o contratou não ficar lesado financeiramente, criamos uma plataforma de entendimento entre as partes. Não aconteceu muitas vezes mas, quando assim é, temos de arranjar solução para todos porque isto não é só um negócio dos jogadores e dos agentes. Também temos de colocar-nos no papel do clube. Os clubes têm deveres mas também têm que ter direitos.

Jorge Teixeira levou Paulo Sérgio para o Al Taawon em 2019

Jorge Teixeira levou Paulo Sérgio para o Al Taawon em 2019

D.R.

Qual foi o mercado mais difícil onde trabalhou até hoje e porquê?
Dos mercados mais difíceis é onde estou a trabalhar neste momento, o mercado árabe. É um mercado muito atrativo, onde existe um leque de escolha muito grande e toda a gente quer entrar. Atualmente, com a abertura do número de estrangeiros, nomeadamente no que diz respeito ao mercado da Arábia Saudita, que abriu para sete estrangeiros, ainda lhes dá maior poder de escolha, o que dificulta mais o trabalho do agente porque a concorrência é muito grande. Temos de investir muito na relação humana, na confiança que vamos mantendo com o clube para poder trabalhar lá. É um mercado muito difícil de entrar, na Arábia Saudita podem dar-se ao luxo de escolher quem querem contratar e obviamente a concorrência é muito grande.

Concorda com o agenciamento de treinadores?
Não concordo com o agenciamento legal dos treinadores. Concordo com a intermediação dos treinadores. Imagine, eu como agente posso fazer intermediação de um treinador para um determinado clube e ser pago por esse serviço. Mas eu representar legalmente, ter um contrato entre a minha empresa e o treinador, não concordo. Pelo menos, para já.

Porquê?
Porque acho que pode criar a ideia de uma relação de promiscuidade entre o agente e o treinador e que não fica bem, na minha opinião, a quem dirige por exemplo. Acho que os treinadores não deviam estar legalmente ligados a nenhum agente. Como à mulher de César não basta ser séria, também tem de parecer. Para dar uma ideia de independência em todas as suas decisões. Não nos esqueçamos que muitas vezes o jogador, quando vai para um clube, vai com uma única missão de poder competir, treinar e jogar e servir esse clube. Quando um treinador vai para um clube, vai com as mesmas missões do jogador, mas também tem uma função de decisão na elaboração e na construção de um plantel. E sendo ele, na minha opinião, legalmente agenciado por este ou por aquele agente, não quer dizer que o faça, mas cria logo uma ideia de que… Imagine se esse agente vai colocar nesse clube três, quatro, cinco, seis jogadores, que até podem ir pela qualidade que os jogadores têm, mas sendo da mesma empresa que representa o treinador, fica uma situação incómoda para todas as partes.

É costume os agentes cobrar 10% de cada negócio?
Cada negócio é um caso. Em teoria criou-se há muito tempo essa ideia dos 10% sobre o valor do contrato do jogador. Mas em muitos dos casos o agente não os cobra ou prefere não os cobrar e ficar com uma percentagem do próprio jogador numa futura venda. Mas depois a FIFA também determinou a eliminação da terceira pessoa nos contratos. Ou seja, não era permitido um agente ficar com percentagens de venda nos contratos. Isso vai muito da mediação e do negócio de cada caso, não há uma regra. A FIFA quer determinar uma regra, tanto mais que agora está a lançar a regra também do valor dos 3% que o jogador tem de pagar ao agente. Isto vai mudando com alguma frequência.

Concorda com isso ou não?
Tenho de adaptar-me ao mercado, tenho as minhas ideias pessoais, mas também tenho que cumprir as regras do próprio mercado. Dizia-lhe a si que não concordo com o agenciamento oficial dos treinadores, mas se o mercado se orientar nesse sentido, eu não tenho outra solução e não posso ficar para trás. Isto é um mercado muito agressivo.

Também representa clubes?
Não. Tive no ano passado um projeto piloto para fazer um investimento num clube, o Nelas, um clube que não é profissional, de uma divisão inferior, mas entendo que não quero desvirtuar aquilo que é realmente a minha atividade e para já não penso nisso.

Qual era a sua ideia?
Criar um viveiro de jogadores de jovens, prepará-los para uma fase profissional, mas vi que me ocupava muito tempo e estava a desviar o meu foco que é a gestão da carreira dos meus atletas e entendi não continuar. Mas tenho uma convicção muito grande que um dia serei presidente do Leixões, disso não tenho dúvidas nenhumas.

É um objetivo?
Não é um objetivo, é uma convicção, é um sonho e é um projecto. O Leixões foi um projecto interrompido a meio, não tivemos condições para poder concluí-lo e o clube não pode ser o que tem sido nos últimos anos. O Leixões é muito mais do que isso tudo.

Jorge Teixeira tratou da transferência de André Santos para o CSU Cracovia, da Roménia em 2017

Jorge Teixeira tratou da transferência de André Santos para o CSU Cracovia, da Roménia em 2017

D.R.

Se diz que recebe dos clubes, isso não pode provocar alguma desconfiança por parte dos jogadores, no sentido de terem receio de que tome o partido do clube no negócio?
Não, o jogador está presente comigo em toda a negociação. Quando se elabora contratos e quando eu faço emissão de facturas e documentos oficiais, o jogador está presente comigo. O jogador sabe tudo o que se passa relativamente aos contratos e condições. Obviamente que o jogador sabe que a empresa que represento tem de ser ressarcida por esse trabalho, e que se não for o jogador a pagar, alguém tem de o fazer e por isso é que fazemos questão que seja o clube, para não colocar ainda mais ónus e encargos ao contrato do jogador. Eu faço questão que seja feito em simultâneo o contrato do jogador, com o contrato de intermediação, para que não existam dúvidas.

Qual foi pedido mais estranho que lhe fizeram até hoje?
[risos] Uma das situações mais estranhas que tive de um clube até é recentemente. Foi curiosamente a saída do Paulo Sérgio do Al Taawon, da Arábia Saudita. Depois de ele estar a fazer um trabalho brilhante, de seis vitórias seguidas, perdeu um jogo e o presidente entendeu substituí-lo e perguntou-me, eu que tinha levado o Paulo Sérgio, por uma opção para o novo treinador. Disse-lhe que não me sentia cómodo para indicar um treinador, porque era uma situação tão recente, ou seja em teoria, o cadáver ainda nem tinha arrefecido e já estávamos a preparar uma nova operação. Disse-lhe que não me queria envolver nisso. Na altura estava na Arábia a fazer a renovação do Nildo Petrolina e do guarda-redes, do Cássio, e vim embora. Ele continuou a insistir para lhe dar uma opção de um treinador, porque confia muito em mim, já tivemos sucesso com o Pedro Emanuel, já tivemos sucesso com o Paulo Sérgio, que independentemente dos resultados era uma decisão muito dele… Para mim não tinha razoabilidade nenhuma despedir um treinador depois de seis vitórias seguidas, após uma derrota normalíssima, e depois pedir ao mesmo agente que substitua o seu treinador. Foi um pedido que me deixou chocado. Numa primeira fase não me sentia motivado para o fazer, regressei a Portugal, ele voltou-me a pressionar, que o treinador teria que ser eu a indicar porque confia muito em mim e eu passado duas semanas, indiquei-lhe o Vítor Capelo. O presidente não concordando numa primeira fase, porque dizia que o Vítor não tinha grande experiência a nível da primeira liga, acabou por aceitar e ainda hoje lá está.

O Paulo Sérgio não ficou chateado consigo?
Não porque falei sempre a verdade com ele. Na altura aquilo foi uma situação ridícula, eu pus-me completamente do lado do treinador. Fiz a defesa dos seus interesses na íntegra, disse-lhe que independentemente da relação de confiança que eu tinha com o presidente e com os jogadores que lá tinha, não ia beliscar em nada a minha defesa dos seus interesses. Tanto mais que o Paulo cumpriu o seu contrato, o clube teve com ele uma posição de seriedade e respeito. Venho embora e só passadas duas semanas é que se reativou a questão do novo treinador, porque se não fosse eu a colocar seria outro. Eu também tinha lá jogadores e queria o melhor do clube evidentemente. Ao colocar outro treinador de qualidade conseguiria manter o sucesso do projeto. O Paulo Sérgio é um treinador excecional, é um grande treinador, é dos melhores treinadores portugueses que temos na nossa liga. Estava a fazer um trabalho fantástico, estava a dois pontos do segundo lugar, com uma equipa de média dimensão, é um feito quase histórico. Foi uma decisão que aliás chocou toda a gente, não só a mim, mas como a toda a opinião pública na Arábia Saudita. Aí o agente pouco ou nada pode fazer.

Da parte dos jogadores qual foi o pedido mais estranho ou a situação mais estranha que teve de resolver?
Tenho uma situação insólita com o Ricardo Machado. Ele é uma pessoa que foge ao normal perfil do jogador de futebol. Levei-o muito novo para a Roménia, para o Brasov, depois vendi-o ao Dinamo de Bucareste, depois meti-o na Arábia Saudita. Normalmente nos dias de hoje um jogador de II liga quer logo comprar um carro de alta gama, se calhar ainda não tem um contrato condizente com isso mas já quer logo mostrar o que tem, ou o que aparenta ter. E o Ricardo só depois de vários anos é que me diz que está a pensar comprar um carro de alta gama, isto há coisa de dois ou três anos. Ele dizia-me_ "Jorge, a nossa carreira é curta, temos que ser o mais profissionais possíveis, temos de gerir o nosso dinheiro da forma mais racional possível e vamos ter tempo para comprar carros e para comprar coisas que nos deem prazer. Neste momento temos de ver o que é que a nossa carreira nos vai dar, para gerir a nossa vida no futuro". Sempre achei de uma humildade tão fora do normal, principalmente de um jogador que já fez contratos enormes e que continua a fazer, e que só há dois ou três anos é que comprou um carro novo de alta gama.

Jorge Teixeira com o amigo e braço direito Daniel Matos, o filho mais novo, José Manuel Teixeira

Jorge Teixeira com o amigo e braço direito Daniel Matos, o filho mais novo, José Manuel Teixeira

D.R.

As mulheres dos jogadores atrapalham ou ajudam o vosso trabalho?
Temos de tudo. A maior parte das mulheres dos jogadores eu nem as conheço, as outras têm um papel muito interventivo na carreira deles. Podia-lhe dar dois ou três casos de jogadores que me acompanham há mais tempo, em que a mulheres têm realmente um papel fundamental na gestão da vida e da própria carreira, no equilíbrio que eles têm. Uma delas é a esposa do Luisinho, que o acompanha desde miúdo. É um pilar fundamental na estabilidade e na carreira dele. Sempre com uma atitude pró-ativa, tem comigo uma relação muito próxima, não só comigo, mas também com a minha família. Tem uma sensibilidade e um acompanhamento ao futebol diferente até de outro tipo de mulheres.

Mas são a exceção, ou não?
Sim, estou a falar num registo bom. Agora tenho outras situações de mulheres, principalmente quando o jogador é muito jovem, que nós sentimos que há algum tipo de aproveitamento por isto ou por aquilo. Porque a vida do jogador é uma vida aparentemente boa, tem bons contratos, tem uma vida social muito solicitada, eles têm uma forma física invejável, têm um grupo de amigos muito grande e então há um tipo de namoradas e de mulheres que sentimos que não vai ser a mulher de uma vida.

Costuma dizer-lhes alguma coisa ou não?
Se eu sentir que já está a entrar num registo em que toda a gente se apercebe disso, obviamente que tenho esse tipo de conversa com o jogador que represento, no sentido de o aconselhar para o melhor para ele e para se focar naquilo que tem de fazer. Agora muitas vezes o próprio jogador não quer ouvir e passado uns anos, a experiência dá-nos razão ou não. Isso acontece em alguns casos, principalmente no início da carreira e principalmente com mulheres mais velhas. Há miúdos que com 20, 21, 22 anos começam a competir a a outros níveis, começam a frequentar outro tipo de ambientes que até então não estavam habituados e começam a dar-se com pessoas mais velhas. Preocupo-me também com isso, a forma como vão gerindo as suas vidas em função dos contratos que têm, tudo isso tem de ter um acompanhamento muito intenso da nossa parte.

Disse há pouco tempo que não é favorável ao mercado de inverno. Porquê?
O mercado de inverno existe, temos de o respeitar e muitas vezes utilizamos para algum tipo de situações, nomeadamente quando há lesão, ou treinadores que mudam e o que vem pensa a dinâmica da equipa de uma outra forma e vai reforçar uma ou outra posição. Sob esse ponto de vista, no que diz respeito a pequenos retoques eu concordo. Agora quando se constrói um plantel de 23 jogadores e que depois no mercado de inverno se mandam embora 10 e se vão buscar 12… Acho que não há milagres porque ninguém consegue refazer uma equipa a meio da época e voltar a ter sucesso. O exemplo diz-nos isso. E muitas vezes as equipas cometem grandes loucuras, até sob o ponto de vista financeiro, desequilibram as contas dos clubes porque querem a todo o custo voltar ao trilho do sucesso e da vitória, pensam que ao mudar sete ou oito ou dez jogadores num plantel que vai resolver o problema e nós durante estes anos todos vemos que em pouquíssimos casos isso acontece. E mais, durante essa janela fatídica do mês de janeiro, vemos quebras no rendimento dos jogadores e das equipas incríveis. Porquê? Porque primeiro é a instabilidade interna que se vive, em que os jogadores vêem que os clubes estão no mercado e estão sempre com os seus postos de trabalho em risco, alguém vai sair em função de quem vai entrar. Depois a cabeça dos jogadores quando inicia o mercado de janeiro, sempre na perspectiva e na pressão do próprio agente para lhe arranjar um contrato melhor, cria instabilidade emocional que se vai refletir dentro de campo. Muitas vezes vemos jogadores que estão a ter uma performance boa e em janeiro quebram redondamente e nunca mais conseguem retomar os índices que tinham anteriormente.

Mas acha que esse mercado devia desaparecer ou ser regulado de outra forma?
Devia ser regulado de outra forma, pelo menos numa limitação de contratações, por exemplo. Devia haver um limite da substituição de jogadores, dois ou três eventualmente.

José Calos Pereira, presidente do Marítimo, José Gomes e Jorge Teixeira

José Calos Pereira, presidente do Marítimo, José Gomes e Jorge Teixeira

D.R.

Os clubes portugueses há uns anos compravam mais lá fora do que hoje. Tem a ver só com limitações financeiras?
E com a qualidade que nós cá temos, que é muito boa. E nós temos que manter mais tempo as nossas mais valias cá. Temos de criar financeiramente mais e melhores condições ao nosso campeonato, temos de saber vender melhor o nosso campeonato para conseguir congelar e manter mais tempo cá as nossas mais valias e não saírem tão cedo como foram os casos do Gonçalo Guedes, João Félix, Bernardo Silva. Se os mantivermos mais tempo no nosso campeonato este valoriza-se. Eu sei que não é fácil, é até utópico estarmos a falar nisto numa entrevista, porque precisamos de recursos financeiros, mas temos de pensar nisto de forma muito séria.

Como é que se podem criar essas condições financeiras?
Primeiro ponto, e isto é um repto que tem de ser lançado também à sociedade civil, em Portugal toda a gente gosta de futebol, toda a gente fala de futebol, mas aos estádios vão cada vez menos pessoas. Porquê? Não venham atribuir culpas aos clubes, ao preço dos bilhetes, porque para os concertos hoje em dia também se pagam 15 e 20 euros. Numa noite, socialmente, as pessoas gastam 20/30 euros. O espectáculo de futebol tem de ser valorizado e as pessoas têm que deixar de discutir tanto futebol e apoiar mais os seus clubes. E não é só os três grandes, são os clubes da terra, da região, da cidade.

Isso é suficiente?
Não, nem é desta rentabilidade que falo, é vender o nosso produto além fronteiras. O nosso campeonato não é vendido em quase lado nenhum. Fazemos as transmissões em Portugal, sai um jogo ou outro para um país onde haja uma comunidade portuguesa com maior significado e por aí fica. As grandes ligas que têm realmente capital financeiro para poder comprar os jogadores dos outros países estão fixadas onde? A nível televisivo em todo o mundo. Em Espanha, na China, nos Estados Unidos, ou seja, o produto deles é vendido além fronteiras e esse recurso vai injetar a tal liquidez, o tal recurso financeiro que os clubes têm para poder comprar e para poder manter. É evidente que é difícil ir ao Manchester United e comprar um jogador e se se compra é por valores que realmente lhes interessa. Mas é difícil um Manchester United ou um Real Madrid vender um jogador de 19, 20 anos. Alguma vez o Real Madrid vende um jogador de 20 anos? Não vende. Vende com a cláusula de rescisão. Os nossos clubes têm de ver, não comparativamente com essas grandes potencias porque temos um caminho longo para andar, mas têm de ver o produto final de alguns jogadores e mantê-los cá.

Qual é a sua opinião sobre os tetos salariais?
Não concordo. Acho que se houvesse tectos era para ganhar ainda mais, se calhar falo é nos tectos mínimos, não falo nos máximos. E porquê? Porque isto é uma indústria e o mercado tem que se orientar por aquilo que se factura. Quando se fala de transferências, de valores que ao olho do cidadão normal são exorbitantes, em teoria para quem os faz, o turnover muitas vezes desse investimento é feito em meia dúzia de meses. Aqui há uns anos quando o Cristiano Ronaldo vai do Manchester para o Real de Madrid e se perguntava como é que um jogador vale 100 milhões? O que é certo é que o Real de Madrid veio demonstrar que passados cinco ou seis meses o turnover desse investimento foi feito imediatamente ao nível da subida dos direitos televisivos, ao nível da venda do merchandising, de tudo. Ou seja, hoje o jogador é visto não só sob o ponto de vista desportivo e por aquilo que pode ganhar em campo, mas também naquilo que pode traduzir em discurso financeiro ao clube. Mas quando falamos desse tipo de vendas, estamos a falar de 2% ou 3% e não nos estamos a preocupar com os outros 97% de jogadores de todas as divisões, que fazem da sua vida o futebol e que se calhar ganham muito mal para aquilo que fazem. Temos na liga portuguesa jogadores profissionais que ganham o que ganham muitos jogadores numa quarta liga em Inglaterra, por exemplo, e estão a jogar na primeira liga em Portugal. Isso também desvaloriza o jogador normal que sai daqui e que vai para outro campeonato. As pessoas sabem que Portugal paga tão pouco, que se calhar pensam porque vamos dar 10 vezes mais? Damos quatro ou cinco vezes mais e ele já que vir. E vamos desvalorizando o nosso jogador.

Jorge Teixeira com o guarda redes Cássio que colocou no Al Taawon da Arábia Saudita

Jorge Teixeira com o guarda redes Cássio que colocou no Al Taawon da Arábia Saudita

D.R.

Em 2010 foi acusado de ter oferecido 50 mil euros em nome do Sporting Clube de Braga aos capitães da equipa do Leixões. Em que é que se traduziu este processo?
O processo foi arquivado, obviamente que foi mentira. Eu nem tinha relação sequer com o Sporting Clube de Braga, nem na altura conhecia o presidente do Braga. Isso foi tudo debatido, fomos julgados no Ministério Público, num Conselho de Disciplina da Liga, foi tudo mentira. Havia uma perspectiva do meu pai voltar ao Leixões, eu envolvia-me muito com o Leixões, tinha uma relação muito próxima com os jogadores do Leixões, o facto de eu poder dar um prémio nesse ou naquele jogo ao Leixões, poderia até fazê-lo porque tinha lá jogadores e sou um aficionado do meu clube. É o meu clube de sempre e tenho esse sonho de um dia vir a ser presidente do Leixões. Não havia fundamento nenhum para a acusação que me fizeram.

Na altura a Associação Nacional de Agentes de Futebol disse que o Jorge não era agente licenciado por nenhuma federação.
Na altura não, nem eu nem a maior parte, ninguém era.

Mas já tinha atividade aberta, já era empresário, já tinha a sua empresa.
Sim, trabalhava como gestor desportivo na parte da gestão de carreiras, sim. Mas não era agente, trabalhava na gestão de carreira.

Admite que às vezes dava prémios de jogo aos jogadores do Leixões?
Cheguei a dar. Envolvia-me, muitas das vezes porque era importante o Leixões não descer de divisão, tinha uma relação muito próxima com o clube e com os jogadores. Não era uma situação que fazia regularmente, e não nesse sentido como é óbvio, isso nunca, claro que não.

Deixou de o fazer e afastou-se mais do Leixões?
Sim, afastei-me do Leixões. Observo a realidade do clube à distância.

Neste momento quantos jogadores é que tem em carteira?
38.

Tem algum limite?
Não há limite nenhum legal, posso ter 500 jogadores mas a Global Sports, por uma perspectiva e posição pessoal, limita muito o número de jogadores para que possa ser eu a fazer o acompanhamento e o tratamento deles todos. É por isso que tenho uma estrutura pequena, ao contrário de muitas empresas que se calhar têm 200 ou 300 jogadores e não conhecem 70% deles, só conhecem aqueles que eventualmente vão dar dinheiro ou vão dar notícia. Prefiro fazê-lo em número reduzido, é evidente que isto também me limita no desenvolvimento da própria empresa, mas prefiro diferenciar-me um bocadinho da concorrência nesse sentido.

Jorge Teixeira ajudou Paulo Sérgio a ir para o Portimonense esta época 2019/20

Jorge Teixeira ajudou Paulo Sérgio a ir para o Portimonense esta época 2019/20

D.R.

Os empresários costumam falar uns com os outros, dão-se bem, ou a concorrência não permite?
Há uma concorrência grande, mas ainda agora estive presente numa palestra num congresso juntamente com outros dois empresários. Hoje em dia temos de dar-nos bem, ser sérios uns com os outros porque não nos podemos esquecer que 60 ou 70% das operações são feitas em parcerias. Por exemplo ainda recentemente a transferência do João Félix foi feita pela Gestifute do Jorge Mendes, mas o agente dele é a Soccer Promaster e o Pedro Cordeiro. Mesmo essa grande transferência, por muitos considerada a transferência do ano, foi feita por dois empresários portugueses. Um com uma realidade e outro com outra. Porque muitas das vezes eu tenho o produto, o jogador, e o colega tem o cliente que é o clube e outras vezes o inverso. O importante é que toda a gente fique satisfeita, o clube, o agente, o jogador.

Alguma vez algum clube ficou a dever-lhe dinheiro?
Várias vezes.

Como é que resolve?
Eu nunca pus um clube em tribunal e vice-versa. O mesmo com os jogadores. Até que seja suportável financeiramente vou continuar a dizê-lo. No momento em que seja uma situação completamente descabida, é evidente que tem de doer a quem de direito. Para já nunca coloquei nenhum interveniente em tribunal, nem nunca nenhum interveniente me colocou a mim no que diz respeito a clubes ou jogadores, relativamente a salários ou verbas e tudo mais. Pensamos que perdemos atrás, mas vamos ganhar à frente.

Qual foi a percentagem mais alta que ganhou até hoje?
Acho que isso não é uma pergunta pertinente... Não vamos estar aqui a dizer o que é que vamos ganhar, o que já ganhamos ou deixamos de ganhar. Agora é evidente que estamos nisto pela vertente financeira e para fazer evoluir os jogadores.

Jorge Teixeira com a mulher e os dois filhos

Jorge Teixeira com a mulher e os dois filhos

D.R.

O próximo mercado emergente para os jogadores portugueses será qual?
Acho que os portugueses no que diz respeito ao futebol, somos os melhores do mundo. Um dos melhores treinadores do mundo é português, o melhor agente do mundo é português, o melhor jogador do mundo é português, o melhor jogador de futsal do mundo é português, o melhor jogador de futebol de praia do mundo é português, o dirigente com mais títulos em todo o mundo é português. Além fronteiras nós conseguimos ser campeões da Europa, ganhar a Liga dos Campeões, Ligas UEFA, conseguimos fazer uma final da UEFA com dois clubes portugueses, o FC Porto e o SC Braga, isto com a escassez dos recursos financeiros que temos em Portugal. Como é que em 11 milhões de habitantes, em vários segmentos e setores do futebol, conseguimos ser os melhores do mundo? O português vinga e vai ter sucesso em qualquer mercado. Há sempre mercados a explorar, agora dizer qual vai ser esse mercado, isso também é um bocadinho por assim dizer, a alma do negócio [riso]. Há cinco anos ninguém acreditava muito na Arábia Saudita e eu investi muito na Arábia Saudita, o start up disso foi feito com o professor José Gomes e na altura com o Ricardo Machado. Naquele tempo só era possível inscrever três jogadores estrangeiros. Hoje já temos inúmeros jogadores portugueses na Arábia Saudita, temos inúmeros jogadores do nosso campeonato que são brasileiros ou que são africanos mas do nosso campeonato e que jogam na Arábia Saudita. Temos vários treinadores que estão e que já passaram por lá, desde o Jorge Jesus, Rui Vitória, o Pedro Emanuel, o Vítor Campelos, o Paulo Sérgio, o José Gomes, o Jorge Silva...

Acha possível hoje um jogador ter uma carreira de sucesso sem um empresário?
É possível mas não é exequível. Esta atividade está formatada, está orientada com os seus agentes bem definidos, no que diz respeito a quem dirige, a quem treina, a quem joga e principalmente no que diz respeito a quem gere toda essa negociação. Eu acho que o agente no meio disto tudo é um denominador comum a todo o processo, porque se repararmos bem é aquele que consegue lidar com todos os sectores e todos os segmentos do futebol. O jogador normalmente tem uma relação próxima com o treinador; o treinador, em função da orgânica do próprio clube, faz a relação próxima ao presidente e o agente é que consegue falar com o jogador, com o presidente, é um denominador comum. Éramos vistos como o comissionista que vai para ganhar dinheiro do contrato do jogador, mas não se lembravam que é o agente que descobre o mercado, é o agente que trás o recurso financeiro no contrato para o jogador e para clube, porque faz vendas às vezes quase impossíveis. Se a carreira do jogador poderá ter sucesso sem o agente? Pode mas a gestão da sua carreira de uma forma profissional vai levá-lo a outros patamares que se calhar sozinho não chega.

A família sofre com as constantes viagens que faz?
Sim. Em janeiro passei seis dias em casa, em Portugal. E nós para além de sermos agentes, também temos vida. Sou casado, tenho dois filhos, o mais velho, o André tem 17 anos e o Rodrigo tem 10. A minha mulher, a Marta, tem de ser muitas vezes pai e mãe, porque posso estar em casa a jantar e passadas duas horas estou a fazer a mala. Ela diz que desde que casamos não me via tantas vezes em casa como agora.