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Filipe Froes, o médico consultor da Liga: “Sou um defesa-direito sarrafeiro. Mal de nós se um vírus nos tirasse o futebol para sempre”

Filipe Froes é médico pneumologista, consultor da Direção-Geral de Saúde e, também, da Liga de Clubes, que está a ajudar pro bono (em conjunto com o também médico António Diniz) na elaboração dos planos de retoma da competição. Sem poder comentar diretamente o parecer técnico que deu origem às condições de regresso apresentadas, no domingo, pela FPF, o médico diz à Tribuna Expresso que "é normal" o primeiro rastreio detetar jogadores infetados e que o objetivo passou por minimizar o risco, porque "o risco não se consegue abolir"

Diogo Pombo

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Considera adequadas as condições de regresso do parecer técnico da Direção-Geral da Saúde?
Isso é um documento da DGS sobre as condições de retoma do futebol. Sou um simples consultor na área da saúde pública da Liga de Clubes que colaborou com eles, mas não para os substituir, nem eles me mandataram para os substituir. Posso dizer aquilo que tenho dito: a retoma do futebol terá de ser feita com critérios de segurança e responsabilidade, de acordo com os critérios estabelecidos pela Direção-Geral de Saúde e não posso dizer mais nada.

Como avalia os oito casos positivos de jogadores que foram confirmados no domingo?
Já disse que os casos positivos eram normais e expectáveis, por isso é que o rastreio foi feito nesta norma, precisamente para identificar os jogadores que pudessem estar positivos, para que todos os restantes retomassem, em segurança, a atividade, e que não houvesse mais nenhum caso quando o futebol recomeçasse.

É expectável, para a DGS, que venham a ser detetados novos casos de jogadores infetados?
Acho que é normal que este primeiro rastreio detete alguns jogadores. Espero que nos próximos já não encontrem mais ninguém. O objetivo, nesta fase, é criar condições de identificar os casos confirmados [positivos] e evitar que haja casos confirmados a treinar com casos negativos, podendo correr o risco de contagiar mais elementos do plantel que, mais tarde, poderão ser detetados e, numa fase mais tardia, serem impedidos de dar a sua colaboração à retoma do futebol. O que se fez, de acordo com a proposta da Liga e compaginada no documento da DGS, foi um rastreio inicial para, progressivamente, dar condições de segurança e, digamos, de não infeção nos indivíduos que vão jogar.

Os jogadores ficam mais protegidos com estas medidas?
Acho que se forem cumpridos os preceitos que foram apresentados e estão a ser avaliados, o objetivo é garantir a segurança de todos os jogadores e intervenientes e dar o exemplo da retoma de uma atividade que não é essencial, mas que é importante, e que possa servir de exemplo para a retoma de outras atividades.

Já não é a primeira vez que diz que o futebol pode ser um exemplo.
Eu e o meu colega António Diniz, que somos os dois médicos, ambos temos os mesmos cargos oficiais e fizemos isto pro bono, até numa perspetiva de dar o futebol como exemplo para a necessário retoma de outras atividades num contexto de saúde pública que tem de ser implementado e, ao mesmo tempo, garanta a máxima segurança possível. Gosto de futebol, sou um defesa-direito sarrafeiro, mas entendemos que, depois ter termos sido contactados, era uma oportunidade de utilizarmos os nossos conhecimentos, conjuntamente com os conhecimentos dos departamentos médicos e da Liga de Clubes, para dar o exemplo. Isto é possível fazer? É. Exige algum trabalho de adaptação? Exige. Mas pode ser feito de maneira a garantir a segurança de todos, o que não quer dizer que não haja pessoas que possam testar positivo. No hospital, de vez em quando, há colegas meus que testam positivo, mas isso não quer dizer que o hospital deixa de funcionar ou que não mantenha níveis elevadíssimos de segurança.

É uma questão de minimização de riscos?
O meu objetivo era abolir o risco, mas o risco não se consegue abolir, porque é totalmente impossível. Mas é minimizar o risco de maneira a garantir sempre a segurança de todos os intervenientes. O risco não se consegue abolir porque as pessoas têm vida, não é? Há uma maneira de minimizar, que é testá-las e pô-las num sítio, como fez o Big Brother - mas o futebol não é o Big Brother. As pessoas têm a sua vida, mas, no que diz respeito à atividade do futebol, é procurar minimizar o risco de maneira a garantir, em tempos de pandemia, a segurança de todos os intervenientes e dar exemplo a todas as atividade. Nós precisamos de uma boa notícia, que é esta: o novo normal é adaptável às nossas atividades. Temos que mudar a nossa vida, mas é legítimo que a adaptação e implementação destas medidas permitam que estas atividades sejam executadas. Que a vida continue.

Na medida do possível.
Mal de nós se um vírus nos tirasse para sempre o futebol, ou nos tirasse para sempre a vida em sociedade, ou nos tirasse para sempre a possibilidade de convivermos uns com os outros.

Mas o futebol não seria uma atividade prioritária.
É a tal coisa de ser uma das mais importantes entre as menos importantes. É das atividades mais importantes das menos importantes.

Três jogadores do FC Porto e um do Sporting manifestaram o seu desagrado em relação às condições de regresso apresentadas.
Acho perfeitamente normal que as pessoas tenham dúvidas e é das discussões entre as diferentes partes que, muitas vezes, se resolvem os problemas. Acho perfeitamente normal; se as pessoas têm dúvidas, devem manifestá-las. Estou habituado a lidar com clareza com as pessoas, fico preocupado é quando as pessoas não se sentem à vontade para exprimirem as suas preocupações. Acho que é normal que se veja o enquadramento dessas medidas e que as pessoas reflitam sobre o impacto que têm. Aceito com naturalidade e normalidade que haja dúvidas e legitimidade para o seu esclarecimento da parte dos jogadores. Provavelmente, se fosse jogador, também quereria ser esclarecido.

Há liberdade e margem para o Código de Conduta ser alterado?
Havendo argumentação e dependendo da validade da argumentação apresentada. Tudo é passível de ser adaptado de acordo com a argumentação apresentada. Na minha profissão, mudamos muita coisa de acordo com a argumentação, validação e fundamentação. Nada é imutável e intocável.