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Dos Açores para a Cidade do Futebol: “Vacas à volta do estádio não vamos ter, mas se houver uns passarinhos já nos damos por contentes”

Há pessoas que, perante um problema, preferem focar-se na solução e não nas dificuldades. Rui Cordeiro, presidente do Santa Clara desde 2015, é uma dessas pessoas, mesmo quando o problema implica sair de São Miguel por dois meses e a solução passa por terminar a I Liga exclusivamente em solo continental, na Cidade de Futebol, gastando entre 300 a €400 mil. Mesmo sem "vacas à volta do estádio", o presidente do 9º classificado do campeonato assegura à Tribuna Expresso que a comitiva açoriana está pronta para terminar a prova, mas pede ajuda à Liga e à FPF para custear os 60 dias longe de casa

Mariana Cabral

Rui Cordeiro, presidente do Santa Clara

CD Santa Clara

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Foi fácil chegar a um entendimento para jogar as últimas jornadas no continente?
Foi uma decisão difícil. É claro que preferíamos jogar na nossa terra, nos Açores. Mas, dada a previsibilidade da manutenção das quarentenas obrigatórias, sob aquilo que são as normas da DGS, e dada a questão dos voos disponíveis... Face à retoma do campeonato no dia 4 de junho e após auscultar o Governo dos Açores e os nossos parceiros, entendemos que devíamos ter essa iniciativa de procurar uma solução, que passaria por jogar em Portugal continental. O presidente da Federação, o dr. Fernando Gomes, e o CEO, o Tiago Craveiro, desde a primeira hora demostraram total cooperação para que a solução de jogar na Cidade do Futebol fosse possível e no espaço de 48 horas conseguimos chegar a esse entendimento, com a Federação e com a Liga, no sentido de levar os Açores para a Cidade do Futebol.

Na 25ª jornada há Santa Clara-Sporting de Braga. Já sabem quando vai ser disputado o jogo?
Ainda não sabemos, os calendários vão ser definidos na próxima sexta-feira.

Vão ficar alojados onde?
Ainda estamos a definir em que unidade hoteleira vamos pernoitar, mas será perto da Cidade do Futebol, já que os treinos e os jogos serão realizados lá, assim como as refeições. Ainda estamos a definir toda a logística, a marcação das viagens, a preparação de todo o material, para conseguirmos rapidamente ter tudo alinhavado, para na primeira semana de junho viajarmos então para Portugal continental e aí enfrentarmos as restantes jornadas do campeonato.

Quem irá custear o alojamento e as refeições no continente?
Nós esperamos a compreensão e a solidariedade, quer da Liga, quer da Federação, porque existirão custos adicionais, obviamente, como disseste, na parte da estadia e da alimentação, que não teríamos se estivéssemos aqui na nossa terra. Temos a certeza que irá existir essa solidariedade para ajudar a custear estas despesas que vamos ter, até pelo esforço que os açorianos estão a fazer para que o campeonato se conclua e haja uma imagem positiva de diálogo e compreensão entre todos neste momento tão difícil e desafiante para o futebol português.

Além dos custos que irão ter, faz sentido haver uma compensação financeira adicional por ficarem a jogar fora da região?
Não diria uma compensação financeira, diria uma espécie de fundo de solidariedade e de comparticipação nos custos extra que vamos ter com a retoma do campeonato. Porque a verdade é que não iremos deixar receita na região, nem em hotelaria, nem em viagens, e essa receita faz falta aos agentes económicos da região. Por outro lado, iremos ter custos adicionais e estes custos têm de ser mitigados através de um esforço comum do futebol português, para que o campeonato possa ser finalizado.

Estamos a falar de custos na ordem de que valores?
Estamos a falar de custos adicionais entre os 300 e os 400 mil euros. Porque estamos a falar de 60 dias de alojamento e 60 dias de alimentação, mais os transportes. É grande um custo adicional para a SAD do Santa Clara.

Como estão as contas da SAD atualmente?
Neste momento conseguimos ter as coisas equilibradas. Temos os ordenados em dia e o fisco e a segurança social com tudo regularizado. Agora, é preciso fazer uma previsão de liquidez extra face a estes custos. Daí apelarmos à Liga e à Federação para nos ajudarem a mitigar estes custos extra que não estavam previstos na nossa gestão da tesouraria. Fizemos as contas todas certinhas para chegar ao final da época desportiva com tudo pago e isto é uma despesa extra e temos de fazer face a essa despesa, por isso é que precisamos do apoio de todos os clubes, da Liga e da Federação.

Rui Cordeiro, presidente do Santa Clara, não aguentou as lágrimas na festa da subida em 2017/18, enrolado a uma bandeira dos Açores

Rui Cordeiro, presidente do Santa Clara, não aguentou as lágrimas na festa da subida em 2017/18, enrolado a uma bandeira dos Açores

EDUARDO COSTA/LUSA

Estamos a falar de um estágio que ainda dura cerca de dois meses. Os jogadores e o staff aceitaram bem esta situação?
Nós aqui estamos acostumados com furacões, sismos, intempéries, inundações. O que for. Temos uma capacidade grande de adaptação às circunstâncias, faz parte da nossa condição insular. É lutar em condições adversas, para nos apresentarmos da melhor forma possível. Vamos jogar na Cidade do Futebol e tenho a certeza absoluta que todos vão jogar como se estivessem nos Açores. Vamos representar o povo açoriano das nove ilhas e da diaspóra nestas últimas jornadas. E também vamos procurar levar um pouco dos Açores para a Cidade do Futebol, para nos sentirmos mais em casa, com mais verdura e frescura, tal e qual como nos Açores.

O relvado da Cidade do Futebol é capaz de ser melhor do que o do Estádio de São Miguel.
[risos] Nós temos aqui pastos muito bons, as vacas adoram estar cá, os turistas adoram a natureza... A gente adapta-se. Os jogadores já estão acostumados a treinar no estádio do Rocky Balboa, por isso tenho a certeza que se vão adaptar a jogar na Cidade do Futebol, que tem condições fantásticas. Sei que todos querem fazer uma boa reta final, praticar um bom futebol, melhorar a classificação da época passada e encher de orgulho os milhares de açorianos e açorianas que nos vão ver pela televisão.

O estádio do Rocky Balboa?
[risos] É o estádio de São Miguel. Embora nem sempre tenha reunidas as melhores condições para a prática desportiva, é o nosso estádio, no qual já subimos de divisão três vezes e já conseguimos a manutenção. É o estádio dos bravos açorianos. Quem quer ganhar ao Santa Clara, tem de comer relva [risos].

Também vens com a equipa para o continente?
Sim, sim. Irei com a equipa porque estamos todos a remar para o mesmo lado. Nesta fase tão difícil para os jogadores, o presidente faz questão de estar ao lado deles. Embora não jogando, tudo farei para que estejam reunidas as melhores condições de treino e de alojamento, para que consigamos fazer uma reta final à imagem dos Açores e acabar o campeonato em beleza.

Vais ser o único adepto açoriano na Cidade do Futebol a ver os jogos.
Não sei. É capaz de haver por lá umas aves migratórias a passar [risos]. Agora, vacas à volta do estádio de certeza absoluta que não vamos ter, mas se houver uns passarinhos já nos damos por contentes, que já dá para nos lembrarmos da natureza dos Açores, mesmo na Cidade do Futebol.

Presidente do Santa Clara: “Quando era miúdo, ia com a minha mãe para o estádio e ajudava a limpar aquilo tudo. Isto é um sonho de criança”

Rui Cordeiro é presidente do Santa Clara desde 2015 e esta época conseguiu finalmente o que todos os açorianos queriam: a subida à 1ª Liga, 15 anos depois da última presença. Enrolado a uma bandeira regional, chorou por amor ao clube e garante que vai manter a promessa que cumpriu: "Na terça-feira, com maior ou menor dificuldade, vamos subir o Pico e pôr as bandeiras dos Açores e do Santa Clara lá no topo"