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Sérgio Vieira: “A I Liga precisava do Farense. Lembro-me de 1994/95, quando ficou em 5º. Quero superar o que foi alcançado pelo Paco Fortes”

18 anos depois, o Farense volta à I Liga. O obreiro da subida é Sérgio Vieira, um homem do norte que aprecia a vida algarvia e que acaba de renovar com o clube de Faro por mais três épocas. Depois de um ano difícil, sem campo de treinos fixo - que até obrigou à prática em sintéticos - e com muitos milhares de quilómetros percorridos, há agora objetivos mais ambiciosos para "um histórico do futebol português", com a bitola a fixar-se naquela época de 1994/95, quando o Farense de Paco Fortes garantiu o 5º lugar e a Taça UEFA: "Presenciei ao longo de cerca de 20 anos o crescimento do Sporting de Braga, clube do meu distrito, no qual joguei na formação. Acho que isso é algo que pode acontecer num clube quando as pessoas acreditam"

Mariana Cabral

Sérgio Vieira subiu o Farense à I Liga, em 2019/20, e irá continuar em Faro em 2020/21

Gualter Fatia

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Foi fácil renovar com o Farense?
Nós tínhamos vontade de continuar, existia essa vontade de parte a parte. Ao longo da época, fomos conquistando essa vontade de continuarmos juntos neste projeto. Quero treinar projetos em que tenha a convicção de que iremos ter sucesso, do ponto de vista dos objetivos a que nos propomos, e, para isso, precisamos de refletir, analisar e definir estratégias, para perceber se teremos esses fatores. Porque acho que não faz sentido estar a continuar num projeto se não acredito nele. A renovação significa para mim a continuidade de uma relação extremamente profissional, com grande simbiose de valores humanos e de ambições profissionais entre as partes envolvidas. Significa também a oportunidade de continuar a fazer história num grande clube do futebol português.

Que objetivos definiram?
Relativamente aos objetivos, passam por estabilizar o clube na elite do futebol português e criar bases de sustentabilidade para objetivos mais ambiciosos. Evolução e sustentabilidade são prioridades para o clube.

Já esperavas a subida do Farense?
Antes da pandemia, naturalmente tínhamos uma convicção muito grande de que iríamos subir e iríamos lutar pelo 1º lugar de forma muito determinada. Isso já tínhamos desde o primeiro dia de trabalho e os nossos jogadores, a equipa técnica e as pessoas que estiveram diariamente no processo de treino sabem disso, porque foi o que afirmámos constantemente ao longo do tempo. Depois, com a pandemia, tivemos uma situação de incerteza, porque não sabíamos o que ia acontecer, se íamos jogar ou não, se o campeonato seria cancelado e de que forma... Independentemente disso, sabíamos que, por todo o campeonato que realizámos, sempre nos lugares de topo da tabela, qualquer que fosse a decisão, aceitávamos, quer fosse para jogar ou para cancelar.

Ficaste triste por acabar em 2º lugar e não em 1º?
Eu, pessoalmente, fiquei bastante triste, por todas as circunstâncias das últimas duas temporadas, porque queria ser campeão. Mas o aspeto mais importante é o sentimento que temos relativamente ao todo, que é o clube, os jogadores, os adeptos, o nosso presidente e toda a estrutura, portanto fiquei extremamente feliz pela subida, naturalmente.

O Luís Freire disse que o Nacional, que terminou em 1º lugar, tinha sido a melhor equipa da II Liga. Concordas?
Respeito todos os treinadores, todos os meus colegas, eles têm as opiniões deles. Respeito o Luís, respeito o Filó, respeito o Pedro Duarte, respeito o Vasco Seabra, respeito a opinião de todos. Mas, para mim, o mais importante é ter as minhas próprias convicções e a fundamentação das convicções é provada ao longo do tempo, o treinador tem de provar ao longo das diferentes épocas as suas convicções. Cada treinador defende as suas convicções, sejam elas vistas do ponto de vista qualitativo ou quantitativo. Os critérios que são definidos por cada treinador só a ele lhe dizem respeito. Posso dizer que fomos a melhor equipa, porque fomos a equipa que mais vezes esteve em 1º lugar e que mais vezes esteve em lugar de subida na II Liga, ou seja, tanto em 1º como em 2º lugar. Fomos a equipa que superou grandes dificuldades estruturais e que não vinha da I Liga, como era o caso das do topo, que desceram este ano, assim como o Estoril, que desceu há dois anos... Entre muitos outros fatores complicados.

Por exemplo?
A localização geográfica do clube, as nossas condições de treino, porque tínhamos de andar todos os dias a treinar em locais bem distantes uns dos outros...

Os locais de treino do Farense em 2019/20

Os locais de treino do Farense em 2019/20

O Farense não tem um local específico para treinos?
Não, não tem. Tem o São Luís, mas lá só podemos treinar uma vez por semana. Ou duas, quando não jogamos em casa. Mas os outros três ou quatro treinos têm de ser realizados noutros sítios, de 25 minutos a uma hora de distância. Para ir e depois para voltar. É um desgaste grande, que influencia toda a dinâmica de trabalho, naturalmente. Mas isto para te dizer, em relação à pergunta inicial, que tudo depende dos critérios de cada treinador.

Para ti, o Farense foi a melhor equipa da II Liga?
Sim, para mim foi a melhor equipa, naturalmente. Foi a equipa que mais tempo esteve no topo da tabela, desde o início do campeonato, vencemos as tais dificuldades estruturais, de quem não vinha da I Liga, e, não sendo à partida considerados candidatos à subida pela maioria das pessoas, conseguimos ter um grande mérito a superar essas dificuldades. E somos a única equipa do Algarve na II Liga, o que implica mais deslocações - sendo que o Nacional também tinha grandes deslocações, sendo um clube de uma ilha. Mas tudo depende. O Filó também pode dizer que foi o Feirense, o Vasco pode dizer o Mafra, o Pedro Duarte no Estoril... Isto é muito subjectivo. Como disse, temos de mostrar ao longo do tempo que a qualidade com que realizámos o trabalho se mantém, é constante. Não houve nenhuma equipa que se tenha destacado por completo das outras em termos do jogo.

Já que falaste no jogo, como era o Farense no jogo jogado?
No jogo jogado o Farense foi uma equipa extremamente responsável, do ponto de vista qualitativo e quantitativo. Fizemos grandes jogos, tivemos grandes vitórias, muito bem conseguidas, contra Mafra, Feirense, Chaves, Varzim, Oliveirense - uma equipa muito tranquila na tabela que tinha goleado o Benfica B por 5-0 na jornada anterior e nós fizemos um grande jogo no São Luís, dominámos todos os aspetos do jogo, posse, oportunidades, situações de envolvimento no último quarto de campo ofensivo... Tivemos grandes jogos, depois tivemos jogos em que tivemos mais dificuldades, em função das circunstâncias do momento, como lesões, por exemplo. Mas acredito que o Farense foi uma equipa que teve muita qualidade coletiva e individual.

Quando já chegaste ao Farense já sabias como é que a equipa iria jogar ou isso dependeu da avaliação dos jogadores?
Quando cheguei ao Farense já tinha o meu modelo de jogo, com as minhas ideias, não só em relação à forma como queria jogar, mas também sobre todos os fatores que são importantes para uma equipa ter sucesso. Naturalmente, nas dezenas de fatores, existe uma hierarquia e muitos desses fatores no Farense são difíceis.

Como os que já disseste anteriormente?
Sim, as condições de trabalho. Treinar todos os dias em pisos diferentes faz com que a biomecânica das ações técnicas - finalização, passe, receção, combinações - seja totalmente condicionada pelo bater da bola, por exemplo. Isso, para quem treina em sintético, como nós treinávamos em todas as semanas praticamente...

Treinavam em sintético?
Exatamente, treinávamos num sintético no centro da cidade. Depois treinávamos num campo mais mole na Guia, por exemplo, depois íamos para Vila Real de Santo António, depois íamos para Lagos... Basta ver no mapa onde ficam essas cidades. Nós fizemos, inclusive, uma contabilização dos quilómetros que fizemos, do número de campos em que treinámos... Se quiseres até te posso mostrar isso.

Os quilómetros percorridos pelo Farense para disputar a II Liga em 2019/20

Os quilómetros percorridos pelo Farense para disputar a II Liga em 2019/20

Mas é pouco comum uma equipa da II Liga estar a treinar num sintético.
Pois é. E uma equipa que lutou para subir e fez o campeonato surpreendente que nós fizemos, andando sempre pelo topo da tabela. É muito complicado. No mapa que fizemos, previ, antes do início da prova, que ia haver ali uma fase de dezembro até fevereiro que seria crítica. Internamente já tinha previsto isto, por todos os fatores associados, e de facto foi o que aconteceu. É fácil dizer coisas agora, mas eu não estou a dizer isto agora: em junho, quando reuni com o presidente, e em agosto, quando falámos sobre a época que iria começar, com os nossos atletas, e ao longo de setembro, outubro e novembro, sempre alertei os jogadores para isso. E no mês de dezembro tivemos um cuidado muito grande. Outra coisa que só se sabia internamente, mas que agora já pode ser pública: nós tivemos uma única lesão muscular ao longo da época. Uma só. E foi o Jorge Filipe, que vinha da Arábia Saudita, com uma intensidade de treino muito baixa. Tudo o resto, todas as outras lesões foram traumáticas. Entorses nos sintéticos, nos relvados que não dava para regar antes do treino, o Ryan Gauld que levou uma cotovelada, o Otavinho que foi operado a uma hérnia inguinal... Foram sempre situações que não têm a ver com a gestão das cargas e com a qualidade do treino. Ou seja, mesmo perante estas circunstâncias, perante as condições de trabalho e a exigência, fizemos um trabalho fantástico. Nós, a equipa técnica, o clube, os jogadores, toda a gente fez um trabalho fantástico. Nós na 3ª jornada estivemos em 3º lugar, mas em igualdade pontual com o 2º, e na 16ª jornada estávamos em 2º mas com os mesmos pontos do 1º. Estivemos sempre no topo. Como disse, depende dos critérios avaliação. O Freire é um excelente treinador e eu tenho uma relação normal com ele, fez um excelente trabalho, e já no ano passado tinha feito um bom trabalho no Estoril. Tem mostrado a sua competência e respeito-o muito.

A época de 2019/20 do Farense

A época de 2019/20 do Farense

Mencionaste o Ryan Gauld, que foi muito falado este ano porque teve mais rendimento. O que conseguiste tirar dele?
Não podemos dizer que o Ryan teve muito rendimento esta época. Na segunda parte da época, o Ryan destacou-se e a época no seu todo foi positiva, mas o trabalho que ele foi desenvolvendo ao longo do ano começou a dar frutos a partir de novembro, dezembro mais ou menos. Aí começou a ver-se de forma constante aquilo que era a sua qualidade. Isto foi um mérito enorme dele, que é um jogador fantástico.

Já tinhas então o teu modelo de jogo pensado antes de chegar ao Farense. Adaptaste algo quando chegaste?
Tive de adaptar algumas dinâmicas do jogo ofensivo, em função das circunstâncias e da efetividade com que essas situações poderiam acontecer versus o risco para os objetivos coletivos. Porque eu posso pensar em mim, mas acho que os treinadores têm de pensar muito mais nos clubes e nos objetivos dos clubes. Acho que o pensamento de qualquer treinador terá de ser muito mais nos objetivos do clube do que nos seus próprios objetivos.

Podes exemplificar, em termos práticos? É melhor não sair a jogar de forma curta, para não arriscar a perda de bola junto à própria baliza, por exemplo?
Quer dizer que temos de ser equilibrados na forma como exigimos algo a uma equipa, coletiva e individualmente. Muitas vezes não se é equilibrado, exige-se demasiado aos jogadores, com as condições de trabalho, entre outros fatores, a não permitirem que as ações aconteçam. Não sei se me fiz entender. Ou seja, não é só dizer que o jogador não consegue, é também ver que as condições que nós temos não nos possibilitam estar a desenvolver o que queremos. Imaginemos: sair a jogar. Como é que vamos forçar o jogo constantemente desde o nosso guarda-redes se nós treinamos em pisos totalmente diferentes, se nós jogamos em campos que - é público - já foram interditados, ou seja, o piso não permite jogar daquela forma. Então, nós, treinadores, vamos forçar isso, porque estamos a pensar em nós, na nossa valorização? Talvez as equipas que jogam por objetivos menos ambiciosos possam fazê-lo, porque podem perder mais vezes. Felizmente, treinei dois históricos do futebol português e a minha forma de ver o futebol com responsabilidade versus qualidade, ou melhor, versus qualidade não, porque a responsabilidade tem qualidade, juntando as duas, produziu resultado. Acho que é assim que os treinadores devem olhar para o futebol. É diferente quando treinamos um clube que tem capacidade financeira para tudo, como são os grandes clubes europeus. Aí sim, aí o treinador pode dizer que tem capacidade financeira, condições de trabalho, tem tudo, e aí vai ser aquilo que gostava de ser em relação ao futebol que quer do ponto de vista qualitativo.

Consideras-te então um treinador mais camaleão?
Não será essa expressão. Se quiseres, acho que podemos dizer que me considero um treinador em que a adaptabilidade tático-estratégica estará sempre presente nas equipas que treinar.

Em função disso, o sistema de jogo pode ser variável?
O Farense jogava em 4-3-3. A estrutura pode, naturalmente, ser variável. Qualquer treinador competente que domine o jogo de futebol terá de ser capaz de operacionalizar qualquer sistema de jogo que existe, nesta era moderna.

No Farense, o sistema poderia variar de um jogo para o outro, por questões estratégicas?
Sim, naturalmente. A nossa base era um 4-3-3, com um '6', um '8' e um '10' no meio-campo, ou seja, um médio de características mais defensivas, um médio que conseguisse ter um pouco dos dois momentos e um médio de características exclusivamente ofensivas. Sabendo que todos eles têm de ter características de todos os momentos, mesmo o '6' tem de ter capacidade para construir em diferentes espaços do campo. Depois os extremos, com características de velocidade e espaços exteriores, e um avançado. Muitas vezes o que poderia mudar era a organização da frente de ataque: em vez de termos um médio de características mais ofensivas próximo do avançado, termos realmente dois avançados, ficando com dois médios. Aliás, nós ganhámos jogos, e jogos importantes, por exemplo, contra o Chaves, contra o Feirense, contra o Varzim, uns em 4-3-3 e outros em 4-4-2.

Na I Liga, o modelo de jogo mantém-se o mesmo ou será alterado?
O modelo mantém-se o mesmo, a lógica é a mesma. Se eu tivesse milhões e milhões para gastar, poderia dizer que iríamos ser uma equipa muito parecida com o Barcelona do Guardiola ou com o City do Guardiola ou com o Bayern do Guardiola. Como isso não existe, existe sim um projeto bem estruturado, que vai dar passos para crescer e para valorizar a cidade, a região e o futebol português, aquilo que irei fazer em relação ao modelo de jogo é o que sempre fiz: irei refletir sobre os fatores de rendimento que teremos possibilidade de ter, ver que plantel é que temos e, mais uma vez, estabelecer como objetivo conciliar a qualidade com o rendimento, de uma forma muito equilibrada.

O Farense terminou a II Liga de 2019/20 com 48 pontos em 24 jogos, menos dois do que o líder Nacional da Madeira

O Farense terminou a II Liga de 2019/20 com 48 pontos em 24 jogos, menos dois do que o líder Nacional da Madeira

Gualter Fatia

Como é que o plantel deste ano foi constituído?
O plantel foi sendo construído com um aspeto muito importante em mente, que era a complementaridade, ou seja, em função da base do meu modelo de jogo, queríamos que as características dos nossos atletas se complementassem de uma forma harmoniosa, para que a equipa fosse forte coletivamente nos diferentes momentos do jogo. Havia uma mescla de jogadores experientes com jogadores mais jovens, havia jogadores que já tinham passado por divisões de maior importância e jogadores que nunca o tinham feito, que vinham do CNS [Campeonato de Portugal] ou que só tinham jogado II Liga. Basicamente foi isso.

Mas foram essencialmente escolhidos por ti ou pelo departamento de scouting?
Foi um trabalho de equipa, com contribuições distintas, porque esta é mais uma área técnica, a questão da montagem do plantel. Mas, como qualquer outra decisão, é tomada em equipa, com treinador, equipa técnica, departamento de scouting e direção.

Que papel tinha aí o André Geraldes e por que razão é que ele sai no final da época?
Esse é uma tema que foi endereçado pelo clube publicamente, o próprio André também prestou uma declaração e portanto não é um tema que eu queira abordar.

Em 1995/96, o Farense disputou a Taça UEFA e foi eliminado pelo Lyon

Em 1995/96, o Farense disputou a Taça UEFA e foi eliminado pelo Lyon

THIERRY SALIOU/GETTY

Quando foste abordado para ir para o Farense, imagino que obviamente já conhecesses o clube, mas pergunto-te qual a primeira memória mais vívida que tens da história do Farense?
No início da época tive diversas possibilidades na II Liga, de clubes que também lutavam pela subida, mas quando vou para o Farense já vou porque queria treinar um histórico do futebol português. É um clube com uma massa adepta fantástica, que representa uma região. A I Liga precisava do Farense. A minha intenção inicial, e todas as pessoas envolvidas sabem disso, era fazer história no Farense, era voltar a colocar o Farense lá em cima. Isso não ficou só para mim, foi dito e partilhado por todos: queríamos fazer história no clube e fizemos. Fizemos uma época fantástica e colocámos o Farense na I Liga. Mas a referência histórica que tinha era a melhor classificação de sempre do clube, em 1994/95, quando conquistou um 5º lugar e conseguiu a qualificação para a Taça UEFA, sendo depois eliminado pelo Lyon. Esse é o momento histórico de que me lembro e penso que é tentando superar essa marca que poderemos também ficar na história do Farense. Mas quando penso no Farense é nisso que penso: uma equipa que esteve no topo do futebol português, não de uma forma constante e permanente, mas pelo menos momentaneamente.

Mas acho que é possível voltar a conseguir um feito desses?
Acredito que sim. Todos os clubes têm as suas potencialidades, têm características que lhes podem permitir crescer e tudo depende sempre das pessoas. Um clube é como uma família, é como uma empresa, é como um país: pode crescer em função das pessoas que compõem a sua organização. E o Farense acredito que pode crescer muito se as pessoas assim o entenderem. Eu presenciei ao longo de cerca de 20 anos o crescimento do Sporting de Braga, clube do meu distrito, no qual joguei na formação. Vi-o crescer estruturalmente, economicamente e desportivamente. Acho que isso é algo que pode acontecer num clube quando as pessoas acreditam.

Quando se pensa em treinadores do Farense, normalmente pensa-se no histórico Paco Fortes. Consegues ver-te a ter uma relevância semelhante no clube, no futuro?
Eu defino sempre isso. O Paco Fortes é a referência máxima do Farense a nível técnico, em termos de objetivos conquistados. Quando entrei neste clube, o meu objetivo passa a a ser também esse: quero superar as conquistas anteriores, superar o que foi alcançado pelo Paco Fortes. Agora, não sei se isso irá acontecer ou não, só o tempo poderá prová-lo, porque sabemos que o Paco Fortes passou muitos anos a conduzir o Farense e isso é algo que nos dias de hoje é um pouco complexo de acontecer, sabendo que não é impossível que aconteça, temos de ver o que o futuro nos reserva. Mas tenho esse objetivo dentro do clube e dentro da minha carreira, é uma forma de estar na vida.

Há uma outra grande referência do clube que está sempre junto da equipa técnica, o Manuel Balela.
O Manuel Balela é das pessoas que, juntamente com o presidente, mais ama o Farense. É uma pessoa extremamente ligada ao clube em termos afetivos e é uma pessoa extremamente competente do ponto de vista técnico e humano, e é uma pessoa que agregou muito ao clube ao longo da sua carreira e continua a fazê-lo de forma muito preponderante.

Sérgio Vieira no banco, ladeado pelos adjuntos e pelo diretor Manuel Balela

Sérgio Vieira no banco, ladeado pelos adjuntos e pelo diretor Manuel Balela

Gualter Fatia

O clube anunciou recentemente que vai trocar o relvado do São Luís. A renovação das instalações é essencial?
Falaste do Manuel Balela e também é preciso falar do nosso presidente neste projeto do Farense. Tenho a certeza que são este tipo de projetos que fazem falta ao futebol português. As grandes liga europeias, como Itália, Espanha, França, Inglaterra, cresceram e destacaram-se porque os clubes têm grandes projetos, tanto estruturais como financeiros como desportivos. E o futebol português precisa disto, precisa de bons projetos que cresçam, não só dos grandes. Projetos como o do Famalicão, por exemplo, e agora como o do Farense, entre outros, porque é importante os clubes estruturarem-se, crescerem e darem mais qualidade ao futebol português. E o Farense é um exemplo disso. O Presidente João Rodrigues é uma pessoa, como já disse, que ama o Farense, que disponibilizou a sua vida pessoal para fazer crescer o clube e acredito que vai conseguir alcançar os objetivos ambiciosos a que se propôs, que é fazer história no clube e colocar o Farense, como ele diz, onde nunca esteve. É a expressão que ele costuma utilizar e isso é fantástico, porque a visão dele é a nível estrutural, humano, financeiro e desportivo.

Gostas de viver no Algarve?
Gosto muito.

Em Faro?
Não, estou a viver em Vilamoura. Mas gostamos muito.

É uma diferença muito grande, para um homem do norte?
Não, porque o Algarve, quer dizer, este ano foi diferente, não consegui ver bem, mas em oito ou nove meses do ano o que há são momentos tranquilos. Os momentos de maior afluência ao nível do turismo são outros, no verão. Depois, como tive a minha família cá, a minha esposa e a minha filhota, foi muito mais fácil o dia-a-dia, a dinâmica diária entre o pessoal e o profissional. Facilitou muito a adaptação.

Quantas vezes é que ouviste a frase "és de Faro, és Farense?"
[risos] Muitas, muitas vezes. Mas devo dizer que tenho a convicção que não são só as pessoas de Faro a ser do Farense, existem muitas pessoas em todo o Algarve e mesmo no Alentejo que têm um sentimento forte pelo Farense e que queriam muito ver um clube do sul envolver-se de uma forma positiva, com qualidade, no crescimento e na valorização do futebol português.

As pessoas abordavam-te na rua?
Sim, sim. O Farense é um clube especial porque foi do céu ao inferno muito rapidamente, em poucos anos, e as pessoas, nomeadamente a claque, nunca abandonaram o clube, mesmo nos momentos mais difíceis. Aprenderam a viver na dificuldade e acredito que vai haver um futuro como muitas alegrias. Todos juntos iremos dar passos importantes para o clube.

Tinhas relação com a claque?
Sim, eles do primeiro ao último segundo do jogo não paravam de apoiar, mesmo nos momentos difíceis, e isso é uma relação fantástica. Mesmo nos jogos fora estiveram lá. E tens aí os mapas de deslocações, com os quilómetros... Lembro-me de uma segunda-feira à noite em Matosinhos, dia de trabalho, às sete da noite, e eles estiveram lá a apoiar. E estavam em todos os jogos. Isso é fantástico para o Farense.

Sérgio Vieira: “Isto de se meter o aspeto tático em primeiro lugar no futebol, como foi vendido por aí, não é muito lógico”

Ao contrário do que é habitual para um treinador português - ou até europeu -, a carreira de Sérgio Vieira começou no Brasil. Depois de ter sido observador do Sporting de Braga e do Sporting, foi treinar Guaratinguetá, Atlético Paranaense, Ferroviária, América Mineiro e São Bernardo. Só regressou a Portugal a meio de 2017/18, para assumir o Moreirense, onde nem chegou a terminar a época, à semelhança do que aconteceu este ano, quando saiu do Famalicão pouco antes da equipa subir à Liga NOS. Agora, volta à 2ª Liga, para assumir o histórico Farense: "A vida de treinador é essa: é uma arte de cair, levantar e engolir sapos, até chegar onde nós queremos. E quando chegamos ao nível onde queremos chegar já engolimos menos sapos"