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Frasco: “Depois da final com a Juventus, ia para o controlo antidoping, enganei-me e entrei no balneário deles: recebi uma ovação”

Em miúdo deu nas vistas numa praia de Leça da Palmeira, em Matosinhos, quando jogava com os amigos. Começou no Leixões, onde chegou a ouvir que "era pequenito" e que "não ia dar nada", foi cobiçado por dois clubes grandes e acabou por mudar-se para o Estádio das Antas, onde, ao longo de 306 jogos, conquistaria quatro campeonatos, duas Taças de Portugal, uma Taça dos Campeões Europeus, uma Intercontinental e uma Supertaça Europeia. Entretanto, após um Euro 84 onde exibiu elegância e categoria, não quis saber de convites para França e Itália. Depois da vitória de Viena, em 87, até cantou ópera. Em conversa com a Tribuna Expresso, o atual treinador adjunto dos juvenis dos dragões recorda os 11 anos como futebolista do FC Porto, o Europeu em França (onde por um acaso feliz jogou com o número do ídolo), os colegas, "o senhor Pedroto", as alegrias e as angustias - principalmente duas, sempre com Platini ao barulho - e a infância

Hugo Tavares da Silva

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Há umas semanas os jogos de Portugal em 84 passaram no Canal 11. Viu?
Não vi todos. Vi alguns, a maior parte vi...

O que lhe pareceu o número 14?
[risos] Acho que era um jogador que se integrava bem naquela equipa. Tínhamos uma equipa mais ou menos consistente, já com alguma maturidade internacional. A equipa do FC Porto já tinha atingido uma final da Taça das Taças. O Benfica também, salvo erro, tinha ido a uma final da Taça UEFA. A equipa [de 84] era constituída mais por jogadores do FC Porto… Obviamente que havia aquelas divisões entre Benfica e Porto, mas dentro do campo penso que isso não se notava.

E recebeu muitas mensagens e telefonemas?
Sim, recebi mensagens, até de jogadores que treino. Diziam que não sabiam e que nunca me tinham visto jogar. Ficaram de facto um bocado admirados porque não pensavam que eu tivesse aquela qualidade... mas, quer dizer, eu não gosto muito de falar sobre mim, gosto mais que sejam os outros. Eu tinha as minhas características, como é óbvio, e uma pessoa sente-se lisonjeada por ser elogiada. Mas, de uma maneira geral, recebi muitas mensagens e tive pessoas que me telefonaram a dizer ‘está a dar o jogo, pá!’ e ‘estás ali na televisão’.

Houve alguma mensagem ou telefonema mais surpreendente?
O que mais me surpreendeu foi um miúdo meu, que é nosso guarda-redes. Mandou-me uma mensagem muito interessante, que registei. Compartilhava com o pai, dizendo que não tinha noção do valor e da qualidade do jogo que eu desenvolvia. Foi uma mensagem um bocado surpreendente.

Max Colin

Quem não conhecia terá ficado surpreendido com a técnica. Hoje há aquele debate do tamanho, da força e da altura, o Frasco nem 1.70m tem e parecia que rodava por eles como…

É… Quer dizer, é um género de jogador. Acho que tinha boa técnica e era agressivo na reação à perda, e procurava obviamente sempre jogar para a frente. Às vezes jogava para trás porque era necessário, porque a equipa se calhar não permitia [ir para a frente]. Quando era no drible, no um contra um, conseguia desenvencilhar-me bem do jogador à frente. E, olhe, é com grande saudade e emoção que recordo estes tempos em que jogava.

Voltando ao Europeu. Aquilo era mesmo como se dizia, os colegas de seleção mal se falavam e nem se sentavam na mesma mesa?
Falar, falávamos [risos]. Mas, sim, de facto é verdade. À mesa não nos sentávamos: os do FC Porto sentavam-se numa mesa, os do Benfica sentavam-se noutra. Era assim, havia aquela rivalidade. Penso que depois, com o tempo, foi-se diluindo. Os selecionadores também foram inteligentes e começaram a pôr os jogadores das duas equipas juntos nos quartos, para que as coisas passassem. A seleção nacional, depois disso, conseguiu ter êxitos, e para se ter êxitos é preciso ter uma união muito forte e um entendimento daquilo que é o grupo.

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Mesmo com essa divisão toda, e com os quatro treinadores, é impressionante como é que se chega a uma meia-final. Isso fala muito da qualidade dos jogadores.
[pausa] Sim, é verdade. Na altura tínhamos jogadores de grande qualidade e com a nossa qualidade, vontade e querer conseguimos ir às meias-finais, e não conseguimos ir à final porque a estrelinha, que também é necessária às vezes no futebol, não aconteceu. Foi um bocado surpreendente para quem não contava.

Só caíram com o "futebol champagne", com o tal quadrado mágico francês. Acha que aqueles médios de França estavam noutro patamar?
A França tinha uma grande equipa. Tinha um dos melhores jogadores do mundo naquela altura, o Platini. Tinha o quarteto muito forte, com Tigana, Giresse e Fernández, que era um pivô muito forte e muito consistente, às vezes era bastante agressivo. Eu tive algum problema com ele até, ele era muito alto mas não tive medo nenhum. A França tinha uma equipa muito consistente e tinha um meio-campo muito forte que fazia a diferença, isso é verdade.

Alain de Martignac

Antes do jogo, como é que estava o ambiente no balneário? A missão estava feita ou…?
Era de querer ganhar, queríamos ir à final. Foi com esse sentimento que entrámos em campo. No balneário sentia-se isso, independentemente daquelas divergências que existiam. Quando entrávamos, estávamos todos a puxar para o mesmo lado, isso refletia-se dentro do campo.

Qual foi o jogo que lhe deu mais gozo jogar no Europeu?
O jogo que me deu muito gozo foi contra a Roménia. Na primeira parte foi muito difícil. A Roménia tinha uma equipa muito forte, muito física. Na segunda parte acabámos por dar a volta. Foi um jogo em que tivemos de dar o máximo para os ultrapassar. Tivemos outro jogo também muito difícil, estava muito calor, eu lembro-me, em Estrasburgo, contra a Alemanha, empatámos. Tivemos de trabalhar, tivemos de ser inteligentes. Conseguimos um bom resultado. Depois foi as meias-finais, foi um jogo que marca para sempre a nossa memória. Uma parte negativa e uma parte positiva. Tanto uma equipa como outra proporcionaram um bom espectáculo, um bom jogo. Podíamos, pelo menos, ter ido aos penáltis, naquele último minuto, naquele último segundo. Em penáltis tudo podia acontecer, mas... mas, pronto, é esse jogo que é marcante, em termos de seleção nacional, para a minha vida.

Gerard Bedeau

Ficou muito tempo a pensar nisso?
Sim, aquilo marcou. Marca um jogador, em termos pessoais, porque sabemos que não é fácil. Fomos uma vez campeões da Europa, com felicidade também, que é preciso ter. É uma marca que ficou para a vida. Mais tarde estivemos noutras meias-finais [2000], acho que fomos prejudicados no jogo contra a França, e depois conseguimos ser campeões da Europa. Já merecíamos há algum tempo. É de louvar.

É sempre contra a França.
É sempre contra a França.

Há pouco falou na Roménia. Não sei se estou a fazer confusão com os jogos que vi, mas eles foram muito ao osso, ou não?
Exatamente, foi muito físico, muito agressivo. Eles tinham lá o [Lazlo] Bölöni, que treinou o Sporting. Era um jogador muito fibroso, muito consistente. Era uma equipa compacta e agressiva. Tivemos de saber tornear esses obstáculos, foi muito difícil.

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Antes desse Europeu, o António e outros tiveram outra desilusão...
Na Taça das Taças, sim. Jogámos em Basileia, contra a Juventus. Penso que o FC Porto fez um jogo fantástico. Merecíamos um resultado diferente, mas o futebol é mesmo assim. Penso que todos os jogadores têm um sentimento forte de que deram tudo, que merecíamos outro resultado. Não adianta chorar, a vida é o que é. E continuámos e fomos para a frente e conseguimos ser campeões em 87, passados três anos. Foi um sinónimo da maturidade, a maior parte dos jogadores já tinha a experiência de terem jogado em vários jogos internacionais. Tínhamos estado numa final e soubemos o que era preciso fazer, era preciso ser muito fortes defensivamente para ganhar esses jogos. Em 87 aquilo foi fantástico, na segunda parte fizemos um jogo extraordinário. Ser campeão da Europa é, de facto, o marco mais elevado que tenho na minha vida.

Antes de ir aí, deixe-me pegar na Juventus. Eles tinham cinco ou seis campeões do mundo mais Boniek e Platini, não era uma brincadeira, mas sofreram muito com o carrossel do FC Porto, não foi?
Exato, exato. Posso dizer-lhe uma coisa: no fim do jogo fui ao controlo antidoping e, quando ia, entrei no balneário dos jogadores da Juventus. Enganei-me. Eles viram-me com a camisola do FC Porto e todos eles deram uma salva de palmas. Era sinal de que tínhamos feito um jogo fantástico. Eles reconheceram isso. Foi um grande momento, eu não contava com aquilo. Enganei-me, entrei naquela porta, era o balneário deles e recebi uma grande ovação de palmas... Não ganhámos mas tivemos sempre a consciência de que o podíamos ter conseguido.

David Cannon

Já vi alguns jogos de Platini e acho que nunca o vi molhar tanto a sopa como naquele jogo. O Frasco sofreu um bocadinho até com Platini...
[risos] Faz parte do futebol. Eu levava umas porradas, também dava. Porradas no sentido de querer disputar a bola, ter amor ao jogo, participar, querer ganhar, aquela vontade. E ele também queria. Ele fez muitos carrinhos, não sei se era muito normal ele fazer isso. De facto, o Platini fez muitos carrinhos e deu ali algumas porraditas. Faz parte do futebol.

Peter Robinson - EMPICS

Chegou a dizer que esses dois jogos são as suas maiores desilusões, mas o futebol recompensou-o três anos depois [vs. Bayern]. Foi muito doloroso ficar no banco?
Sim, mas entrei aos 65 minutos. Estávamos a perder e tive a felicidade de participar e de conseguirmos dar a volta ao resultado. Foi uma coisa... uma alegria enorme, um sentimento que eu acho até difícil de descrever. Quando era miúdo, o meu pai era pescador, eu vivia em Leça da Palmeira e jogávamos na rua, e eu fazia coleção das figurinhas dos jogadores e dos campinhos europeus. E aquilo era um sonho. Nunca na minha vida, mas nunca mesmo, pensei ser jogador de futebol e muito menos ser campeão europeu. Foi um sonho que se concretizou, um sonho de menino. Foi uma felicidade enorme.

O golo de calcanhar de Madjer começa nos seus pés...
Sim, driblo um jogador à entrada da área, cruzei, o Juary remata, a bola sobra e o Madjer faz o golo com uma frieza tremenda. Penso que não é qualquer jogador que tem a frieza de fazer um golo assim. Se ele falha aquela bola, de calcanhar, nós íamos para cima dele e íamos dar-lhe cabo da cabeça. O Madjer era um jogador fantástico, um artista, com uma qualidade técnica muito acima da média.

Peter Robinson - EMPICS

E pensa nisso, vai tendo uns flashs desses tempos?
De vez em quando. Não estou sempre a lembrar-me do passado, mas, quando as coisas passam na televisão ou vejo o lance do golo, obviamente que me emociona. Estar lá e ter vivido aquilo com os meus colegas, é isso que vem à memória.

Como é que foi a festa nessa noite?
Você repare que eu até cantei ópera, veja lá [gargalhada, sempre serena]. A alegria era tão grande que até ópera foi cantada. Tivemos um percurso difícil [aeroporto-estádio], a estrada estava cheia de gente. Aquilo foi até de madrugada, foi uma festa fantástica. O primeiro título internacional do FC Porto, aquilo era para comemorar até às 500, como se costuma dizer.

Estava muita gente nas Antas a recebê-los?
Foi uma loucura, era gente por todo o lado. Foi uma loucura para a cidade, para os portistas, para as pessoas da cidade, eu penso que também aqueles que não eram portistas estavam connosco. Era um mar de gente, fomos todos eufóricos.

Peter Robinson - EMPICS

É um apreciador de ópera, então?
[risos] Cantei um bocado, foi uma brincadeira. Estávamos todos felizes, saiu o que tinha de sair. Valia tudo.

Mais tarde, na Intercontinental, contra o Peñarol, o António não jogou.
Fomos 18 jogadores, só podiam equipar 16. Fiquei eu e o Jaime Pacheco de fora. Ficámos na bancada. No dia anterior estava um calor fantástico, depois acordámos com neve. Não sei se foi por isso ou se não foi, não sei, que o Ivic entendeu não me meter nos 16. O jogo aconteceu, esteve para ser alterado o dia, mas houve uma negociação e aquilo avançou. Foi extremamente difícil para as duas equipas. Ao intervalo via os nossos jogadores com algodão e álcool, e com lume, para aquecer os pés. Eles estavam com os pés gelados. Foi bastante difícil, mas foi saboroso, acabámos por, mais uma vez, vencer com um golo do Gomes e do Madjer.

Peter Robinson - EMPICS

Acha que ficou de fora por ser mais franzino?
Sinceramente não sei, o Ivic é que podia dizer. Estávamos todos a contar participar no jogo, calhou-me a mim e ao Jaime Pacheco ficarmos na bancada, a apoiar a equipa por fora. Mas participei na Supertaça Europeia [vs. Ajax]. Nesse ano conseguimos três vitórias fantásticas.

Havia alguém com quem jogasse de olhos fechados? Vejo aqui que jogou oito anos com Jaime Pacheco e Sousa, nove com Fernando Gomes...
Sim, jogava assim com o João Pinto, Lima Pereira, Sousa, Jaime Pacheco, com o Fernando Gomes, que era um exímio marcador de golos, e eu já sabia onde é que ele se encontrava, portanto o cruzamento saía quase automaticamente. Éramos uma equipa muito ligada, depois esta equipa ainda veio a ser mais reforçada com o Mlynarczyk, Madjer, André, Quim, Celso, enfim, ficámos com uma equipa ainda mais poderosa.

Já não se vê os jogadores ficarem muitos anos nas equipas. Era benéfico?
Eu acho que sim, a equipa vai-se conhecendo melhor, vai-se entrosando. Pode não ganhar todos os anos consecutivamente, mas está sempre próxima da vitória. Agora os jogadores estão sempre a mudar, o treinador tem de alterar isto e aquilo, torna-se mais difícil. Tem de recomeçar do zero. Não é que não consiga ganhar, mas tem de ser o seu trabalho de meter aquilo a funcionar como quer. Antigamente, de facto, era assim. E éramos quase todos portugueses. Na final de Basileia éramos todos portugueses, o Walsh [suplente] foi o único estrangeiro. Em 87, tínhamos um ou dois. O futebol alterou-se completamente. Os jogadores são livres e circulam, as coisas mudaram.

Peter Robinson - EMPICS

Falou na Supertaça Europeia, o António jogou apenas na primeira mão, em Amesterdão. Que lhe pareceu aquela equipa treinada por Cruyff?
Era muito bem orientada. Era uma equipa ofensiva, jogava sempre para a frente, era muito difícil de... Tinha o Bergkamp, salvo erro, na altura.

Com 18 anos, jogou na direita.
Exatamente. Era uma equipa atrevida, tinha personalidade, à imagem do seu treinador. Eu admirava muito o Johan Cruyff, como jogador, era o meu ídolo. Eu gostava muito dele. Os jogadores tinham a marca do treinador, personalidade para sair a jogar, saber aquilo que pretendiam. Era uma equipa muito difícil. Nós também tínhamos uma equipa muito forte, com jogadores de grande qualidade e conseguimos ganhar.

Disse que Cruyff era o seu ídolo, mas os números no Euro 84 foram distribuídos por sorteio, ou não?
Foi, foi... ahh, o 14! Foi [um acaso] feliz. Mas não teve nada a ver, aquilo foi sorteado. Houve um ou dois jogadores que mudaram, eles lá se entenderam. O Cruyff era o meu ídolo. O Pelé era um grande jogador mas praticamente não o vi jogar ao vivo. O Cruyff foi o jogador que mais admirei.

Michel Barrault

Nesse jogo com o Ajax pareceu-me que, para além de tocarem muito bem entre eles, faziam uma pressão brutal, era sufocante, o campo parecia muito pequeno, parecia impossível jogar. Sentiu isso?
Senti. Era uma equipa pressionante, era aguerrida, com um sentimento de muito querer, determinada. Foi muito difícil. Tivemos outras oportunidades de golo, que o Rui Barros teve ali mais uma ou duas oportunidades de golo. Mas o nosso guarda-redes fez também uma boa exibição. O Mlynarczyk era um guarda-redes extraordinário, com uma presença na baliza, frio, parecia um congelador, no sentido de estar calmo e sereno. Quando era preciso, ele estava sempre presente.

O Ajax esteve realmente muito por cima no jogo, mas o Porto só não goleou porque Rui Barros, para além do belíssimo golo que fez, ainda apareceu mais três vezes isolado e não marcou. Julgo que foi Fernando Gomes que o isolou três ou quatro vezes. Era o plano de Ivic, explorar a profundidade? Aquela linha defensiva estava sempre super subida...
Exatamente, ele gostava muito do contra-ataque. Fomos uma equipa que estivemos ali praticamente sempre a defender, a trabalhar, a correr e lutar, ajudávamo-nos uns aos outros. Tivemos uma pontinha de sorte que não tivemos noutros jogos e noutras finais. Mas estivemos sempre com o intuito de chegar à baliza adversária. Concretizámos uma [jogada], merecemos essa vitória, demos o máximo. Não tenho dúvidas nenhumas que o Johan Cruyff era um treinador que sabia o que queria. A equipa era compacta, quando perdiam a bola reagiam rápido, era extremamente difícil de ultrapassar...

Mas Rui Barros deu cabo deles.
Pois foi [gargalhada]. O Rui Barros era super rápido.

É curioso: nestes tempos em que falamos tanto de físico e técnica, aqueles debates que parecem mais ou menos eternos, Rui Barros e Frasco eram duas figuras supostamente frágeis fisicamente mas o futebol acabou por falar mais alto.
Eu acho que sim. Uma pessoa tem de ter agressividade, mas tem de ter qualidade. Se não tiver qualidade é difícil. Agora, tem de ter vontade, querer, determinação, garra, espírito de luta e tem de reagir à perda da bola, que é cada vez mais fundamental. Mas depois há outras qualidades que o definem como jogador de grande equipa. Para estar numa grande equipa tem de se ter mais qualquer coisa do que só lutar, não é? Tem de saber ultrapassar as dificuldades, resolver problemas. Quando as coisas estão difíceis, saber congelar a bola, jogá-la. Todos os momentos do jogo são importantes. Um jogador que saiba interpretar estes momentos é um jogador que consegue valorizar-se em qualquer equipa europeia ou internacional. Rui Barros era pequenino mas era espectacular. A carreira dele demonstra isso.

Quão diferentes eram Ivic, Pedroto e Artur Jorge?
O senhor Pedroto foi o máximo que vi em toda a vida como treinador. Era um líder natural, impunha-se com naturalidade. Tinha ideias, sabia o que pretendia. Em termos de comunicação, foi um grande iniciador no saber desestabilizar as outras equipas com a sua interação na comunicação social. Tinha uma visão do futuro muito ampla. Posso dizer-lhe, por exemplo, que o senhor Pedroto incentivou-nos, aos jogadores, ao Gomes, ao Sousa, a mim, ao Lima Pereira, a irmos tirar o curso de treinador para, depois de jogadores, continuarmos uma carreira. Normalmente os treinadores nem se preocupam com isso. Ele tinha essa visão. Ele dizia-nos "o futebol vai abrir, vai ser global, era importante vocês estudarem inglês e francês porque isto vai ser global". Outra coisa importante, que caracteriza esta visão do senhor Pedroto, ele dizia-me que os juízes de linha, no futuro, iam ter uma importância fundamental no futebol. Você veja o que veio a acontecer. Ele tinha essa visão do que era o jogo, a evolução do futebol. E se vivesse mais uns tempos, se calhar ia ver que ia existir o vídeo-árbitro [risos]. O Ivic era um treinador trabalhador, como o Artur Jorge. O Ivic era mais defensivo, gostava de defender e de jogar no contra-ataque. O Artur Jorge era de uma maneira diferente, gostava de mostrar a sua autoridade, mas também um grande treinador. Os três foram fundamentais nas nossas carreiras. O senhor Pedroto não foi campeão europeu, mas acho que foi ele que deixou a semente para o FC Porto chegar a esse patamar.

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O António definiu-se há pouco como alguém que gostava de jogar para a frente. Com Ivic sofreu um bocadinho, não?
Era difícil [gargalhada]. Ele queria pala longa, ele dizia "pala longa". Era um treinador com as suas características, era trabalhador, tinha uma paixão muito grande pelo futebol. Queria estar sempre a ver futebol. Tinha aquela maneira [ideia de jogo], nós não gostávamos muito, gostávamos mais de jogar. Como é óbvio, não é? Complicava um bocado a vida a quem gostava de ter a bola no pé. Enfim, um jogador tem de se adaptar. Um treinador chega, tem a sua visão de como se joga e obviamente que o jogador tem de se adaptar. Se não se adaptar, tem de falar com o treinador. Com o diálogo as coisas podem resolver-se.

Quando se começa a jogar à bola nas nuvens, quem é mais franzino sofre mais, não é?
Exatamente. Éramos franzinos mas éramos agressivos, atenção. Nós, nos duelos, não ficávamos atrás. Lembro-me de um jogo, antes da final de Basileia, em 84, jogámos na Escócia contra o Aberdeen, eles tinham lá um defesa esquerdo altíssimo e eu saltava com ele e ele não ganhava a bola nas alturas. É preciso saber e ter a artimanha de saber ganhar os duelos.

Usar os braços...
Pois, tem de se saber quando se salta, o tempo, quando é que se mete o ombro, enfim. Os pequeninos também têm de se saber desenvencilhar, não é? Senão estão tramados [risos].

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Alex Ferguson estava no Aberdeen.
Era o Alex Ferguson, exatamente. Grande treinador, depois foi para o Manchester United. Era um grande amigo do senhor Pedroto. Criaram uma amizade antes desta eliminatória, julgo. Mas, pronto, os pequeninos têm de se saber defender, tem de ser hábil, astuto. Eh, pá, tem de ser fino, tem de abrir os olhos e defender-se da melhor maneira. O Messi é um jogador pequenino e é fabuloso, pela qualidade e discernimento, marca golos e dá golos. É uma máquina. Os pequeninos também chegam onde chegam os grandes. O Cristiano é grande e é fantástico também, é o melhor jogador português, do mundo e dificilmente vai-se encontrar assim outro jogador. Mas os pequeninos também têm o seu lugar na história.

Jogou com e contra muitos futebolistas de qualidade. Apreciava algum especialmente?
Sim, já falei no Madjer e havia outro que me fascinava, o António Oliveira. Era um jogador extraordinário, com uma técnica fabulosa, rápido, era extremo e marcava também muitos golos. O Jordão era um grande jogador. Fernando Gomes, Jaime Pacheco, André, Sousa, sei lá...

...
O Futre era um jogador fabuloso, com características muito próprias, intensidade e objetividade, com espírito de grupo. Era um jogador fenomenal.

David Cannon

Quase fez aquele golo maradoniano contra o Bayern. Ele fazia muito disso nos treinos? Como define aquele pé esquerdo?
Era um jogador genial. Aquilo que fazia nos jogos fazia-o quase sempre nos treinos. Gostava de driblar e bola na frente, era rápido, difícil de derrubar, com uma verticalidade impressionante. Tanto cruzava como fazia golos. Tinha um pé esquerdo completamente fabuloso. Dominava a bola com uma facilidade excecional, tinha uma mudança de velocidade que era uma coisa incrível, por isso foi um dos melhores jogadores de todos os tempos, como é óbvio.

Era já pouco tímido como o vemos hoje em dia? Ainda era um menino na final de Viena.
Era um menino quando veio para nós. Recebemo-lo com os braços abertos, era um miúdo com a sua personalidade, sabia o que queria, entrosou-se muito bem no grupo de trabalho. Não era, como é óbvio, a pessoa aberta e alegre e sem problemas nenhuns como é hoje em dia. Mas era um menino com uma personalidade e uma perspicácia muito forte. Naqueles jogos em que às vezes precisávamos que aparecesse um jogador, ele era aquele que desestabilizava e conseguia dar-nos o prazer de ganhar jogos.

E lá fora, admirava alguém?
O jogador que mais apreciei foi o Cruyff. Mas, como adversário, joguei contra o Platini, demonstrou ser um jogador muito bom. O Tigana e o Giresse, jogadores inteligentíssimos e rápidos. Também não tinham grande corpo, não é?, parecidos mais ou menos comigo. Estes jogadores eram fantásticos.

Michel Barrault

Chegou ao Porto depois de jogar no Leixões, um clube que estava na Segunda Divisão. Como foi essa transição para um clube grande?
Em 78 cheguei ao FC Porto. Havia um diretor que perguntou: "Quem é aquele moço? É jogador?" [risos]. Fui bem recebido. O senhor Pedroto era o treinador, o senhor Jorge Nuno Pinto da Costa era o chefe do departamento do futebol, o senhor Américo de Sá era o presidente. Tive uma felicidade enorme nesse ano, fiz os 30 jogos do campeonato, e depois foi o caminhar de uma carreira que me deixa feliz, que orgulharia qualquer jogador.

Esteve em 30 jogos e marcou dois golos. Lembra-se dos 25 golos que marcou no Porto?
Sinceramente... lembro-me de um jogo em Setúbal, marquei com o pé esquerdo. Lembro-me de um golo ao Benfica para a Supertaça, que ganhámos 4-1, lá no Estádio da Luz. Lembro-me de um golo ao Braga, que o Quinito ficou todo chateado. Entrei ao primeiro poste, no Estádio das Antas, e marquei golo de cabeça. Isso lembro-me porque o Quinito, o treinador do Braga, dizia "aquele anão chegou ali ao primeiro poste e fez-nos golo, como é que é possível?" [risos].

O que lhe pedia Pedroto?
Dizia-me para jogar rápido, sempre com a cabeça levantada, tentando procurar o jogo para a frente, com desmarcações. Era assim que desenvolvíamos o nosso jogo.

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O António jogou contra o seu irmão Constantino no campeonato, certo?
Joguei, joguei. Quando ele estava no Salgueiros, salvo erro.

Divertiam-se? Picavam-se? Nem se conheciam? Como é que era isso lá dentro?
Lá dentro do campo não se conhece ninguém [gargalhada]. Dentro do campo não se conhece ninguém. Somos profissionais, temos de respeitar o adversário, aliás acho que procurava sempre fazer isso, às vezes podia exceder-me um bocado, mas não era com intenção, era com intenção de querer ganhar as bolas. Mas, quando se entra em campo, pode ser irmão, tio, tia, primo, pai, seja quem for, temos de ser profissionais e dar o máximo por quem se representa.

Tudo começou no Leixões. Como foi esse início? Quem é que o levou a treinar lá?
Comecei a jogar mini-basket. Depois, alguém me viu jogar na praia e disseram ao senhor Óscar Marques, que veio falar com a minha mãe. Ao princípio, a minha mãe e o meu pai não me queriam deixar jogar. Na altura só se podia jogar com 16 anos nos juvenis, eu tinha 15 anos. Mas o senhor Óscar lá conseguiu dar a volta à minha mãe e vinha-me buscar de táxi e levava-me para o treino. Sempre tive gosto pelo futebol, mas no liceu, antigamente, nós disputávamos todas as modalidades. Jogávamos andebol, basquetebol, futebol, era tudo. Estávamos predestinados para qualquer desporto, mas o futebol era aquele que eu mais gostava. Comecei no Leixões, fiz a minha carreira, mas muita gente dizia que eu era pequenito, que não ia dar nada, que não ia conseguir. Derivado da minha determinação, do meu pensamento, do saber o que eu queria e das minhas qualidades, técnicas, físicas, táticas e psicológicas, consegui ultrapassar, penso que fiz uma carreira simpática, uma carreira bonita. Podia ter feito mais qualquer coisa, mas as lesões e outras coisas que acontecem na vida às vezes não permitem que cheguemos a objetivos mais elevados.

Nunca teve um convite para ir para fora?
Tive. Na altura, o Jaime Pacheco também teve, em 84, para Itália. O Benfica quis-me quando eu estava no Leixões. Depois de estar no Porto também vieram os do Sporting. Nunca troquei. Depois de estar no FC Porto senti-me sempre bem, fui bem tratado, o nosso presidente Jorge Nuno Pinto da Costa, que é um homem extraordinário, um líder autêntico, uma pessoa com capacidade de gerir todas as situações, não é só futebol, foi alguém que sempre me deu apoio. Penso que ele até refere isso, num livro, quando Sousa e Jaime Pacheco vão para o Sporting, que eu tinha amor pelo FC Porto. Senti-me bem, e sinto-me bem. Neste momento estou nas camadas jovens, sinto-me uma pessoa feliz porque estou no clube que eu gosto.

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Mas para fora não teve nenhum convite?
Tive um convite para ir para Itália, e um clube francês também me queria, em 84. Mas eu nem quis falar. Estava bem no FC Porto. Repare, antigamente gostávamos muito de estar perto da família, com a família, nunca fui uma pessoa de ser emigrante. Sentia-me bem no Porto, jogava, tratavam-me bem, incentivavam-me, os adeptos eram espectaculares. Ainda agora continuam a sê-lo. Hoje em dia é mais fácil, não havia empresários naquela altura. Os negócios são feitos por interesses deste e daquele, às vezes o clube precisa de ter dinheiro e precisa de vender jogadores. Eram coisas completamente diferentes.

Mas não me disse quais foram os clubes, não pode dizer?
Eu tenho impressão que o clube francês era o Marselha. E o italiano... sinceramente... já nem me lembro qual era o clube. Não quis falar. Veio um indivíduo qualquer falar comigo e eu disse que não estava interessado. Na altura era assim, hoje em dia tens um empresário, que se senta contigo, conversa, diz o que se passa, o que se pretende. Era completamente diferente.

Foi sempre médio?
Sempre médio, médio centro-direito. Sempre. Joguei sempre nesse lugar.

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É verdade que lhe chamavam "Pelézinho" no Leixões?
Era o Pelézinho. Aliás, a minha mulher trata-me por Pelé ainda: "Oh, Pelé" [risos]... Conheci-a nessa altura, ela tinha 15 anos e eu ainda jogava nos juvenis. Toda a gente dizia ''Oh, Pelé", "Oh, Pelézinho". Ainda hoje, com 65 anos, a minha mulher trata-me por Pelé. É engraçado.

Grande elogio.
É, exatamente. Mas quem me meteu esse nome, é engraçado, foi um rapaz de Leça que jogava comigo nos campos. Era um rapaz chamado Mesquita, nem sei se já faleceu. Esse rapaz é que dizia "Oh, Pelézinho" e aquilo ficou.

Era porque a bola obedecia, se calhar.
Sim, sim, sim, pois, devia ser... a técnica acho que era boa. Quando vim para o Porto comecei a ser o Frasco. O nome Frasco ficou e perdura até agora, e vai perdurar.

Divertia-se a jogar futebol ou às vezes era demasiado sério e nem dava para desfrutar?
Eu divertia-me a jogar futebol. Eu tinha e tenho paixão, só não posso agora por causa do meu joelho. Se o meu joelho permitisse ainda jogava, jogava com os veteranos, como é óbvio. A paixão está sempre cá dentro. Eu sempre tive prazer em jogar futebol. Foi o que mais adorei na minha vida, se desse ainda continuava a jogar, mas infelizmente fui operado a este joelho, já há muitos anos. Ando para aqui cheio de artroses e não sei quê [risos]. Temos que aguentar estas lesões.

Max Colin

Agora é treinador dos juvenis. Como é que deve ser um treinador de formação?
Tem que ser uma pessoa que seja um exemplo para os jogadores e que os treine no sentido de os potencializar em todas as situações. O FC Porto tem departamentos que ajudam os nossos jogadores em todos os aspetos. Temos psicólogos que apoiam os miúdos na escola, temos treinadores que treinam o técnico, tático. Agora, temos de ter a capacidade, como treinadores, de tentar potenciar o máximo possível as capacidades e características do jogador. Estamos a formar jogadores, gostamos que uma equipa seja forte e unida, mas, na formação, o individual tem de ser potencializado ao máximo. É nesse sentido que se deve fazer a intervenção na formação, para que o jogador tenha todas as capacidades para chegar a sénior e impor-se na primeira equipa. Não é fácil, não é fácil, muito poucos chegam lá acima. Temos a obrigação de trabalhá-los, melhorá-los. Há vários departamentos, também fazemos trabalho individual. Hoje em dia trabalha-se muito bem na formação.

É importante ter sido futebolista para passar a mensagem?
Eu acho que também é importante, porque pelo menos tenho algum sentimento, aquela experiência de vida que pode ajudar os miúdos neste aspeto ou naquele, quando se sentem mais desiludidos, fazemos acreditar e dizemos que as coisas não são fáceis, não é para ninguém. Temos de saber ultrapassar, acreditar, as coisas às vezes não saem bem. Se calhar quem não jogou também pode ter essa perspectiva, não sei, mas eu acho que quem jogou tem uma perspectiva mais lata em relação ao que é o desenvolvimento dos jogadores.

Teve as tais derrotas importantes que ajudam a formar um pouco o caráter.
Exatamente, exatamente.

Acha que, agora que os jogadores o viram jogar, vão respeitá-lo mais?
Eles respeitam-me...

Queria dizer mais no sentido de admiração.
Pois, se calhar. Esta pandemia veio alterar muita coisa. Os miúdos estavam em competição, que acabou em março, não se sabe o que vai acontecer nem quando vamos começar. Tiveram a oportunidade de ver muitos jogos na televisão, obviamente que têm a sua opinião. Provavelmente [admiram mais], não sei, poderá acontecer. Na perspetiva global, alguns miúdos são difíceis mas conseguimos sempre levá-los ao caminho, ao que queremos. O respeito é muito uns pelos os outros, o treinador tem de respeitar o jogador e ele tem de nos respeitar. Mas podem ficar, de facto, através deste visionamento de jogos, com um sentimento de admiração ("temos aqui uma pessoa que também jogava"). Nesse aspeto, penso que sim, que pode acontecer.

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Passou no futebol sénior, foi até adjunto de António Sousa no Beira-Mar. Não gostou do futebol profissional? Prefere formação?
Fui treinador durante 15 anos no futebol sénior. Estive no Vila Real, Ermesinde, Ovarense, Feirense, Aves, Louletano... De 93 a 96 também estive na formação do FC Porto, foi o senhor Raul Peixoto que me convidou para treinar os infantis. Depois voltei a sair, estive no Leça também. Em 2004, o presidente, através do senhor Pinheiro, convidou-me para integrar a formação do FC Porto. E foi a partir daí, de 2004 até agora tenho estado na formação, entre sub-14, sub-15, sub-17, sub-16 e sub-19. Já passei por todas. No ano passado fomos campeões da Europa, eu integrava, o Mário Silva era o treinador. Tenho sido sempre treinador adjunto. Fomos campeões nacionais também, temos feito um percurso bonito. Temos desenvolvido muitos jogadores, que neste momento, se tiverem oportunidade de jogar, e penso que sim, que o futuro é assim que vai ser, temos miúdos com grande capacidade para serem grandes jogadores. Fábio Silva, Fábio Vieira, Tomás Esteves, Romário, Vitinha, enfim, temos jogadores ali que podem tornar-se jogadores top.

E como foi a infância em Leça da Palmeira?
A minha mãe era doméstica, o meu pai pescador. Tenho dois irmãos. Tinha três, morreu-me um com quatro anitos. O Carlinhos, eu adorava aquele miúdo. Foi uma perda enorme para nós. Leça da Palmeira, há quase 55 anos, uma freguesia de Matosinhos, era pequenina, rural. A Petrogal ainda não existia, tínhamos ali campos para jogar futebol, de pé descalço. Íamos para a praia, temos ali a praia ao lado. Não tínhamos brinquedos, fazíamos uns barcos de folheta. Tínhamos uns baldes de chapa, cortávamos a chapa e fazíamos os barquitos e andávamos a fazer corridas na praia [risos]. Eram assim os nossos brinquedos. Na altura, a vida era um bocado complicada. Mas, graças a Deus, conseguimos viver. Digo-lhe uma coisa: era pobre mas era muito feliz. Havia felicidade, éramos amigos uns dos outros, brincávamos à noite até. Foi uma vida bonita. Sou casado, casei em 76. Tenho duas filhas, uma neta, a minha mulher. Somos muito felizes graças a Deus.

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Disse que não sonhava ser jogador em miúdo. O que pensava ser?
Sonhava mas nem pensava nisso. Via aqueles jogadores na televisão, em 66, víamos aqueles jogos de Portugal no Campeonato do Mundo. Depois fazíamos a coleção das cadernetas. Nunca pensei em ser jogador do Porto, em jogar jogos internacionais. Fazia um jogo na rua e nos campos por paixão. Era um gosto. Depois, com 18 anos, trabalhava nos escritórios da Salema, uma empresa de chapas, e o Leixões queria que eu fizesse contrato profissional, então tive ali uma hesitação. Porquê? Eu trabalhava, tinha um emprego certo, é a tal decisão: "Tens de ser profissional, tens de treinar, não podes trabalhar". Fiquei indeciso, não sabia se havia de aceitar. E, olhe, felizmente decidi assinar e foi essa decisão que me levou a ser profissional de futebol. Fui feliz, tive sorte também. Na vida também temos de ter aquela pontinha de sorte. Tive algumas lesões, que acontecem na nossa vida de jogador, mas continuei. Valeu a pena arriscar.

Tenho de acabar assim: quando é que apareceu o bigode e quando é que desapareceu?
O bigode aparece quando vou para a tropa, em 76, 77, salvo erro. E desapareceu creio que há 14, 15 anos... porque já me incomodava um bocado, percebe? [risos] Tinha de apará-lo, andar sempre [a cuidá-lo]. Decidi acabar com o bigode. Era uma marca bonita mas decidi e pronto.