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O mundial de surf vai chegar mais cedo a Portugal e Francisco Spínola explica-o: "A garantia de termos ondas épicas é maior em fevereiro"

A World Surf League decidiu cancelar, de uma vez, esta época e, ao mesmo tempo, baralhar tudo e voltar a dar, anunciando novidades para a próxima, que começará já em novembro e terminará em agosto de 2021, com um novo formato. Portugal passará a ser a segunda paragem do circuito mundial de surf, entre 18 e 28 de fevereiro, mas há até a hipótese de ser a primeira, porque o estado do Havai ainda tem de autorizar que haja competição por lá. Francisco Spínola, diretor da WSL para a Europa, África e Médio Oriente, explica o que vai mudar, em entrevista à Tribuna Expresso, e garante que faz todo o sentido aproveitar as ondulações de inverno que chegam à costa portuguesa: "A nossa época de surf é gigantesca e é isso que vamos provar"

Diogo Pombo

Francisco Spínola é diretor-geral da World Surf League para a Europa, África e Médio Oriente desde 2018

NUNO BOTELHO

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A partir de 2021, a etapa de Peniche do circuito mundial será em fevereiro, e não em outubro. Porquê?
Isto tem a ver com as mudanças estruturais que o tour vai ter. Em vez de ser uma liga pura, como era antigamente, o ano passado, em que o título se decidiu no último heat do ano, em que foi o primeiro [Ítalo Ferreira] contra o segundo [Gabriel Medina], em Pipeline, tivemos a maior visualização ao vivo de sempre, quer no site e nas apps da WSL, quer no feedback que tivemos dos nossos parceiros de broadcast. Portanto, é lógico que é isso que o público quer. Está à procura de uma espécie de confronto final. Essa foi a ideia para se fazer essa transformação no tour.

Mas isso será o novo formato das WSL Finals, que também já foi anunciado.
Sim. O CT [Championship Tour] passa a começar em janeiro e vai até agosto, setembro, dependendo de ano para ano, porque essa finalíssima, o tal playoff final, vai ser itinerante. Pode ficar uns anos num sítio e outros anos noutro. A ideia por trás disto é que haja uma liga durante o ano que apura os finalistas que vão ao confronto final, que será um dia de evento para tentar perceber quem vai ser o campeão do mundo. É um formato diferente que vamos experimentar.

Onde haja melhores ondas no mundo, naquela altura?
Exatamente, por isso é que estamos a fazer em agosto, porque nos abre uma panóplia muito maior de sítios onde possamos surfar do que em dezembro, quando estamos cingidos ao hemisfério norte, quer seja no Havai ou fosse na Europa. Isso nem está fora de hipótese, mas, neste momento, parte-se então o CT e o QS [Qualification Series]. Os antigos eventos de 10.000 pontos passam a chamar-se Challenger Series, fica uma liga completamente distinta, e os eventos QS passam a ser mais regionais.

O que significa isto para Portugal?
Temos a garantia de que, em fevereiro, apesar de estar frio e ser um evento mais de inverno e não tanto de fim de verão, como era, há a probabilidade de apanharmos ondas muito melhores em Supertubos, com ondas de mais de dois metros, a bombar a séria, e digo Supertubos como digo a costa portuguesa, porque em fevereiro é desde Sagres a Viana do Castelo com ondas incríveis. Está mais frio, é verdade, começa a altura dos ventos leste e de nordeste. Mas, por outro lado, para o nosso principal parceiro, que é o Turismo de Portugal, em vez de termos dois eventos colados, que eram o QS da Ericeira e o CT de Peniche, vamos manter a prova na Ericeira - para ser um evento muito mais de calor, ondas boas, calor e mais numa lógica de festival -, para termos agora um evento em fevereiro. Por muito mais pessoas que tenhamos na praia, acabamos por ter milhões e milhões de pessoas a ver a prova no broadcast e o que nos interessa é a qualidade das ondas. A garantia de termos ondas épicas é maior ao fazermos um evento no final de fevereiro. Entretanto, os bancos de areia já foram todos lavrados, já choveu imenso no inverno e os estudos que fizemos dizem-nos que, nessa altura, já teremos ondas épicas.

Mas, para o turismo, é a época baixa.
Completamente. Há 11 anos, quando começámos a fazer o CT em Peniche, o meio e final de outubro era uma época morta. Não havia ninguém. Neste momento, criámos uma época em que as pessoas dizem que é melhor do que o verão. Hoje faturamos mais do que no verão.

Então, imaginemos, se o evento se mantém em fevereiro, em Peniche, durante a próxima década, a vossa ideia é criar um novo boom de surf nessa altura?
Para o Turismo de Portugal, eles veem isto com bons olhos, porque já criámos, no fundo, uma época que não existia em outubro. Hoje em dia, vais a Peniche no final de outubro e não consegues marcar nada. Porquê? Há o campeonato e mais as pessoas todas que já o viram durante anos e sabem que aquela altura é boa. Se as nossas previsões e organização estiverem corretas, vão dar altas ondas no final de fevereiro, quando já começa a haver dias de sol, de t-shirt - e fizemos um estudo sobre os últimos anos para perceber isto. E mais uma vez reforço o que nos interessa: as ondas. Não vou para o Havai em agosto, quando o clima é muito bom, mas não há ondas. Vou lá em dezembro, durante o inverno havaiano, quando há ondas. A lógica aqui também é mostrar que fevereiro é uma excelente época de ondas. As pessoas que vão ver pelo broadcast verão grandes ondas. Imagina, no norte da Europa a nevar, mas com 2h30 de voo estás em Portugal, com grandes ondas, e para a região do Oeste, em época baixa, todos os euros que chegarem vão ser um euro a mais. Mesmo agora, em outubro, já começa a haver algum custo de oportunidade. O campeonato foi uma âncora, que trouxe pessoas e criou uma época [de turismo] na região.

A WSL pode 'dar-se ao luxo' de arriscar porque já existe a infraestrutura em Peniche.
Quando falei com a maioria dos stakeholders da região disseram que será como começar a época mais cedo. Portanto, do ponto de vista do Turismo de Portugal e da questão do surf gerar impacto económico, não há dúvida que é uma boa decisão. Ainda para mais quando mantemos um evento, também por volta daquela altura, outubro, na Ericeira. Ambos os eventos acabam por ganhar, porque ficam mais espaçados. Para as pessoas, por exemplo, que vivem em Madrid e querem vir assistir aos campeonatos, podem vir setembro ou outubro e depois, outra vez, em fevereiro. Isto sabendo que Espanha não tem um evento do CT ou do Challenger Series. Antes, com os eventos colados, se calhar as pessoas vinham e não ficavam cá três semanas, nem vinham, iam embora e voltavam uns dias depois. O mais certo era não o fazerem. As pessoas tinham que dar prioridade a um evento em vez do outro. Neste momento, estamos a tentar que o evento da Ericeira consiga agregar a comunidade toda e, passados uns meses, as pessoas possam vir outra vez porque já estão, de novo, com a sede de ver surf. Já me estou a alongar, mas estes eventos especiais que vamos fazer vão ser mini-CTs. No fim do dia, com tanto tempo sem surf, mesmo que os surfistas do tour não estejam lá todos, as pessoas vão ver.

NUNO BOTELHO

Agora estamos a falar do WSL Countdown, provas a feijões que haverá até novembro. Estão a contar com aconteça o mesmo, por exemplo, que se viu na Alemanha, onde as audiências aumentaram com o regresso da Bundesliga?
Por exemplo, sim, os primeiros jogos tiveram recordes de audiência porque a malta está sedente de ver qualquer coisa.

Os surfistas gostaram da ideia de o evento de Peniche ser em fevereiro?
Gostam de ideia geral, mas claro que há uns que não gostam. Isto não é consensual. Tudo o que envolva mudanças grandes tem sempre resistência. A WSL não tem uma varinha mágica, não sabemos se isto vai resultar. Mas, se não resultar, podemos sempre voltar às fórmulas antigas. Em termos de ondas, dificilmente pode acontecer não haver ondas em fevereiro, mais do que em outubro. O que pode acontecer é uma grande tempestade, por exemplo. O que acho é que é uma oportunidade grande e os nossos parceiros, que são quem suporta o evento - o Turismo de Portugal, as marcas de surf e a MEO, o nosso patrocinador principal, com quem temos um contrato de três anos -, acharam a ideia espetacular. Porque, no fundo, a MEO já percebeu que é importante a ativação da marca no local da prova, sim, e que, eventualmente, poderemos ter menos pessoas lá, em fevereiro, mas a internet e as plataformas digitais disparam. E, sendo eles uma marca global, isto abre-nos até oportunidades para tentarmos ver se a Altice em França estaria interessada em começar a patrocinar surf, onde vai deixar de existir CT no próximo ano. Porque em França a época boa para fazer o evento é setembro/outubro, em fevereiro é-lhes muito arriscado. O que, mais uma vez, mostra a flexibilidade que Portugal tem. Quando dizemos que vão encontrar ondas em todo o lado, ao longo do ano, não é chit-chat [conversa de circunstância]. No Havai, por exemplo, se mudas um evento quatro meses já não dá, estás fora da época de surf. Em Portugal, a época de surf é gigantesca e é isso que vamos provar. Temos potencial, pelo menos, de outubro até fevereiro. Este ano, na prova das ondas gigantes da Nazaré, a 11 de fevereiro, as pessoas estavam de t-shirt na praia e, nesse dia, estavam ondas de gala em Supertubos. Estavam 3 metros, 3,5 metros.

Isso prova o quê?
A conversa de que, em Portugal, temos boas ondas em todo o lado, que parece de venda da banha da cobra, é mesmo assim. E quem percebe disto sabe-o. Em França há muito boas ondas, mas a costa está toda virada na mesma direção, não tens alternativas. No pior dos cenários, se houver uma grande tempestade em que não possamos haver a prova na região do oeste, podemos acabar por fazer a prova em Santo Amaro ou em Carcavelos, no limite. É isso que é preciso que as pessoas percebam: a flexibilidade de espaço e tempo de Portugal é brutal. Consegues ter surf desde setembro até junho, julho. Portugal tem das melhores ondas do mundo, mas, sobretudo, tem uma flexibilidade brutal. Quando se diz que o turismo está sobrecarregado, é tanga. As pessoas pensam é nos meses de julho e agosto, de verão, em que sim, está saturado. O truque é espalhar os turistas no tempo e no espaço. O que os eventos de surf fazem é exatamente isso, não há uma prova que seja numa metrópole, ou na altura em que os turistas já cá estejam. Estamos alinhamos com a estratégia de quebrar a sazonalidade do destino e das metrópoles. Por isso é que os americanos e os brasileiros são tão importantes, pois, por regra, são turistas que gostam de viajar, não ficam na cidade. Vejo uma oportunidade em abrirmos um novo potencial de atração de turismo de surf numa época baixíssima de turismo, mas na época que achamos ser a premium do surf em Portugal.

Falta mais de meio ano, mas, realisticamente, esperam que o impacto económico da prova seja o mesmo?
Acredito que, provavelmente, neste primeiro ano não seja tão forte em termos de atração de turistas, em comparação com anos anteriores. Tal como a edição de 2009 não teve nada a ver com a de 2019. Tivemos 10 anos a carregar e a descobrir. Claro que mudou muito. Um dia de comunicação hoje em dia se calhar era um mês nessa altura. Hoje em dia, com as redes sociais, as notícias e a informação... Tudo evoluiu muito rápido e a prova disso é a nossa etapa da Nazaré, onde em 72 horas se monta tudo e vêm surfistas do Havai, do outro lado do mundo, para surfar. Agora temos seis meses para comunicar isto. Gosto de colocar as expetativas mais baixas e prefiro pensar que a prova pode não ter tanto impacto económico como o ano passado. Se as ondas forem boas tens, em média, mais 25% de audiência. As pessoas querem ver os surfistas preferidos, esteja bom ou mão querem ver o John John [Florence], o Kelly Slater, do [Gabriel] Medina, que são sempre os heats com maior visualização. É-nos muito fácil medir os dados da internet, pelo streaming, e vemos piques gigantes nas finais, nos surfistas e quando há grandes ondas. Cada evento com ondas boas tem sempre visualizações muito maiores. Se as ondas estiverem muito boas, até vês o Jadson André contra o Michel Bourez em Teahupo'o a mandarem tubos. Quem não gosta de ver isso? Se Supertubos estiver com os dentes de fora vais ter uma visibilidade gigantesca e também estamos a apostar nisso.

A WSL decidiu cancelar os circuitos deste ano, mas podiam ter esperado e ir vendo, como o futebol ou a Fórmula 1.
A diferença, lá está, é que podes fazer esses eventos onde quiseres. Basta haver dinheiro. Se metes dinheiro constróis um estádio e um circuito. Por isso acho que esses eventos não têm vantagens competitivas nenhumas. Estás sempre sujeito a que uns espanhóis ou uns marroquinos com mais dinheiro cheguem com mais dinheiro e digam "dá cá a tua prova, que tenho um estádio ou uma pista nova, ponho aqui mais não sei quantos milhões e adeus". No nosso caso, não. Estás cingido aos países com ondas boas, que não são assim tantos, como dentro desses países não há ondas boas o ano inteiro. Para nós, era impossível começar agora o circuito, por exemplo. Não podíamos fazer as provas da Austrália agora, que não há ondas lá, não estamos na época das ondas boas. O surf não funciona assim. O surf tem fatores naturais. Quando investes dinheiro não queres que amanhã o tipo do lado, que é mais rico do que tu, acorde, decida meter mais dinheiro e te roube aquilo, que é o que tem acontecido em tudo. Portugal só tem as finais e a Fórmula 1 no ano da covid-19, quando ninguém quer. Neste caso não é isso. É uma vantagem competitiva porque não há comparação. Amanhã, os alemães não vão fazer uma onda igual à da Nazaré, nem os chineses vão conseguir copiar a de Supertubos. Essa é a realidade. Estás a investir num recurso natural que não é copiável. Portugal consegue fazer o evento em outubro ou em fevereiro, estamos sempre salvaguardados, desde que, obviamente, a Altice e o Turismo de Portugal nos continuem a apoiar, que é o que a WSL pede - termos um x assegurado e, depois, vem muito dinheiro dos patrocinadores internacionais. E estás salvaguardado que a prova não vai para lado nenhum só porque um xeique decidiu passar um cheque, porque não tem ondas como as nossas. Por isso acredito tanto que o dinheiro investido nisto é bem gasto. Os nossos estádios custaram zero, nem precisam de manutenção, se todas as pessoas tiveram consciência basta limpar, e pronto. Desde que não construam pontões que estraguem ondas, não precisamos de nada.

Stephanie Gilmore em Supertubos, onde surfou na ação Rising Tides, em que a WSL coloca surfistas do circuito na água com as jovens em ascensão do país do evento (no caso, foram Teresa Bonvalot, Mafalda Lopes e Yoland Hopkins).

Stephanie Gilmore em Supertubos, onde surfou na ação Rising Tides, em que a WSL coloca surfistas do circuito na água com as jovens em ascensão do país do evento (no caso, foram Teresa Bonvalot, Mafalda Lopes e Yoland Hopkins).

Damien Poullenot/WSL

O circuito de qualificação (QS) também foi cancelado. O que vai acontecer aos pontos que os surfistas já tinham?
Ainda estamos a decidir como se vai fazer. Possivelmente, vão manter os pontos e, para o ano, o QS é um acumular com os pontos que já tinham. É fácil, consegues somá-los, não se fazem as provas que se fizeram este ano. É uma das hipóteses, ainda não está decidido.

O que vai ser ao certo o Portuguese Cup of Surfing?
A partir do momento em que se tomou a decisão que o tour não vai continuar, não faria sentido parar o surf mundial. Neste momento, sabemos que há restrições impostas a viagens, mas, lá está, uma coisa que todos aprendemos é que tudo muda. Eu já estive fechado em casa, já achei que isto não era nada, depois não sei o quê... Vamos esperar, porque isto não está nas nossas mãos, estás nas de quem tem que estar - governo, cientistas, médicos e especialistas. O que temos é de ir acompanhando. A WSL criou uma série de eventos, chamados Countdown Series, que no fundo são provas para os surfistas do CT. Imagina que, em setembro, quando estamos a pensar fazer a prova em Portugal, a situação melhora, poderemos ter cá os surfistas todos. Mas, se não for esse o caso, teremos apenas os surfistas europeus e brasileiros, sendo que sabemos, por exemplo, que o Kanoa Igarashi vive cá. A partir daí ficam a faltar os australianos e os americanos, de resto terias cá quase todos.

Mas basta, por exemplo, a situação nos EUA piorar ainda mais e ser imposta uma quarentena obrigatória a todos os viajantes para que tudo mude para os surfistas.
Claro, mas, mesmo assim, eles podem decidir vir e, quando voltarem, ficam 15 dias em casa. É o que acontece na Austrália, onde eles estão a fazer boatrips para Bali, na Indonésia, mas quando voltam têm de cumprir uma quarentena num hotel. Para um surfista profissional é o preço a pagar. Depois ficas fechado a editar as fotografias da surf trip, eu não me importava [ri-se]. Pode muito bem acontecer isso. Mas a lógica da WSL foi criarmos estes eventos especiais e regionais para que o surf não pare, a plataforma não pare e conseguirmos dar surf aos fãs. E isto também é para os surfistas, porque o prize money dos eventos está a ser assegurado. É importante tentar que isto não pare, não sabemos quanto tempo isto vai durar.

Onde e quando se vai realizar esse evento em Portugal?
Para criarmos aqui um entusiasmo - porque, à partida, o evento terá que ser à porta fechada ou muito limitado em termos de espetadores, que vamos monitorizar com as autoridades de saúde para percebermos quantas pessoas poderão estar no local - quisemos criar alguma coisa nova. A nossa ideia, como foi em 2009, é fazermos um evento tipo um search [sem localização previamente estipulada]. Vamos investir mais na transmissão. Em Peniche tínhamos um evento monstro, com 20 e tal mil pessoas, agora, como isso não vai acontecer de certeza, damos a incerteza aos milhões que vão estar a ver. Não vão saber. É isso que estamos a tentar criar, um conceito some where in Portugal, que pode ir onde quisermos. Voltar ao conceito original em Portugal. Vamos fazer um conjunto de vídeos a promover o evento com as praias onde ele possa vir a acontecer. Não estás a focar-te só na onda de Supertubos, mas dizes que pode ser nesta direita, nesta esquerda ou naquela onda. Vamos promover as várias ondas onde a prova possa vir a acontecer. Para o Turismo de Portugal é um no brainer, para a MEO, a narrativa só é possível porque temos um parceiro de comunicações que nos permite ter velocidade de upload e download para levarmos o sinal para os quatro cantos do mundo. É uma grande história, todos acharam uma ideia do caraças. Só que não dá para fazer sempre. Estamos a tentar transformar o nosso ponto fraco, que é o facto de não podermos ter público, no nosso ponto forte. Não temos público? Então vamos tentar surfar onde esteja melhor.

O Erik Logan, CEO da WSL desde janeiro, tem um passado muito ligado à televisão. Trabalhou com a Oprah Winfrey, por exemplo. Esta aposta na transmissão e no streaming vem também dele?
Ele vem da Oprah, mas também esteve uns tempos na WSL como presidente da área de Media. Enquanto que a Sophie [Goldschmidt], antiga CEO, era uma pessoa muito de desporto, desporto, desporto, que fez muito pela WSL, sem dúvida, mas o passado dela era desporto - NBA, Rugby League, ténis -, agora estamos a falar de alguém que vem do mundo dos media e que até é surfista. Foi um evoluir. A Sophie, no fundo, profissionalizou mais o surf, não há dúvida, e agora tens uma pessoa que conhece toda a gente em Los Angeles e era o braço direito da Oprah. O site vai ter uma mudança brutal, vai ser um site de conteúdos, que faz sentido, porque o surf não é só surf de competição, o surf é um estilo de vida e é gigante para lá da competição. Essa é a realidade.

E, se falarmos só no CT, o surf tem períodos de interregno muito grandes.
Claro, tens que ir alimentando, especialmente com conteúdos que te custam bola. Se há um swell incrível em Mundaka [no país basco, em Espanha] nem preciso de mandar lá ninguém, vão lá estar os surfistas e operadores de câmara todos, porque todos os surfistas viajam com eles. Muitas vezes nem preciso de comprar o conteúdo, porque quem paga aos câmaras são os surfistas, quem paga aos surfistas são as marcas, que têm todo o interesse que esse conteúdo esteja presente na maior plataforma de surf media do mundo. Isto são coisas básicas, fáceis de falar, mas difíceis de operacionalizar. A Sophie era muito tem de ser assim, muito virada para o surf de competição, porque também veio pôr um bocadinho de ordem na casa. Nos novos tempos, quando se passou da ASP [Association of Surfing Professionals] para a WSL [World Surf League, em 2015], isto tornou-se um monstro, era um escritóriozinho e passou a ser uma empresa gigante. A Sophie profissionalizou a estrutura, especialmente a parte competitiva, e agora veio o Erik com uma visão muito mais de media e conteúdo à volta disso.

Outra grande mudança será o facto de, a partir de 2021, o circuito feminino e masculino terem as mesmas etapas, nas mesmas ondas. Quinze anos depois, as mulheres vão voltar a competir em Teahupo'o, por exemplo.
Elas sempre quiseram. Se estamos a falar de igualdade de pagamento e de tudo, então tinha que haver uma igualdade de tudo mesmo. Portanto, faz sentido. Agora, estamos cá para ver. Haverá muitas que, se a onda estiver mesmo com os dentes de fora, vão ter medo. Como há muitos homens que entram com medo. Falas com o Kikas [Frederico Morais, único português no CT] e ele diz-te.

Esse era um caminho inevitável, tendo em conta que a WSL foi, em setembro de 2018, o primeiro circuito desporto com sede nos EUA a garantir a igualdade de pagamento entre homens e mulheres?
Foi uma condição que a administração e os donos da WSL decidiram que tinha de ser.

Portugal foi o primeiro país a fazer regressar o surf de competição após o confinamento. Isso impressionou quem manda na WSL?
O nosso próprio site, que normalmente não fala de ligas nacionais, destacou isso. Claro que foi coordenado aqui connosco, por um lado, porque sou português e tenho acesso a quem decidi publicar a notícia, por outro, o nosso principal patrocinador também é o da liga, portanto foi natural. E, sobretudo, porque, de facto, é uma notícia relevante. Foi o primeiro evento de surf a voltar. Esta crise é mundial mesmo, não há ninguém no mundo que não esteja a sofrer, portanto, essa notícia foi relevante para o planeta. É isso que a WSL também procura - eventos locais que possam ter um impacto internacional. Daí a Nazaré também ter tanto destaque no site da WSL, porque é um fenómeno mundial, o que acontece na Nazaré não acontece em mais lado nenhum. Só há dois ou três sítios parecidos. E depois os jornais e televisões pegam naquilo, porque, lá está, é um recurso natural que não é copiável. Se quiseres fazes uma Torre Eiffel em Roma amanhã, se houver um maluco qualquer para isso, aqui não, um maluco qualquer não vai fazer a Nazaré. Já há ondas artificiais, sim, mas nunca com estas características.

O facto de a liga nacional correr bem ajuda a convencer surfistas internacionais a virem competir a Portugal quando houver oportunidade?
Óbvio. Mas, do que temos falado com os atletas, nenhum deles está com problemas. O nosso problema não é a falta de segurança, temos as medidas todas certas e os surfistas confiam em nós. A questão é as restrições que existem para viajar que não são nossas, são dos governos e das direções-gerais de saúde desses países. Estamos a falar de surfistas, que são atletas, pessoas saudáveis, a esmagadora maioria com menos de 30 anos. Esta doença não afeta fortemente este tipo de pessoas. Eles não estão apavorados.

Portugal passará a ter a segunda etapa do circuito mundial de surf. Mulheres vão, finalmente, surfar as mesmas ondas que o homens

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