Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

César Peixoto: "Se tivesse continuado a tirar cursos em Portugal, se calhar hoje ainda nem estava a treinar. Isto atrasa a vida das pessoas"

Tentou candidatar-se ao curso de nível IV (UEFA Pro) e não entrou, por não ter o mínimo de três épocas feitas em campeonatos nacionais. César Peixoto critica os requisitos e critérios exigidos pela Federação Portuguesa de Futebol e argumenta que "as pessoas têm de perceber que isto em nada beneficia o futebol"

Mariana Cabral

Gualter Fatia/Getty

Partilhar

Ficaste surpreso por não entrar no UEFA Pro?
Fiquei estupefacto por não ter entrado, porque quando fiz a inscrição estive a ver e cumpria todos os parâmetros e mais alguns, como treinador e como jogador. Depois de enviar a inscrição, pediram-me [a FPF] o 'Cross-border' [formulário da UEFA], porque eu fiz o segundo e terceiro níveis na Irlanda do Norte, e no e-mail dizia para eu enviar isso, porque à partida seria aceite no curso. Arranjei isso no mesmo dia em que me pediram. O curso começava dia 13, segunda-feira, salvo erro, e recebi a informação de que não tinha entrado na sexta-feira anterior, às 23h, o que achei estranho, estando em cima do fim de semana, com os serviços da FPF e toda a gente a não estar a trabalhar, o que significava que não havia muita alternativa para poder recorrer ou até perceber por que razão não tinha entrado.

Falaste com a FPF ou com a ANTF?
Sim, falei com o advogado da ANTF e depois ele queria reencaminhar-me para outra pessoa responsável, mas acabei por não conseguir falar com ninguém. Tentei entrar em contacto com a FPF, liguei umas 12 vezes para o senhor Arnaldo Cunha, que me disseram que era o responsável, até que ele me atendeu e a justificação que me foi dada foi muito básica, agarrada a um critério que eles impõem que diz que eu teria de ter três anos como treinador em campeonatos nacionais, mas como eu só tinha dois, não podia entrar. O que acho estranho é que preencho claramente todos os critérios necessários e o único requisito que não preencho, que é este dos três anos de treinador, é um requisito que no UEFA Coaching Convention [o documento que rege os cursos na Europa] nem consta, porque só exigem um ano enquanto treinador. Só aqui em Portugal é que alteraram isso para três anos.

O que fizeste depois?
Entretanto o senhor Arnaldo Cunha disse-me para enviar um e-mail para a FPF, a tentar pedir explicações. Foi o que eu fiz. Enviei e o Tiago Craveiro respondeu-me encaminhando a questão para o Arnaldo Cunha e ele responde-me exatamente como e tinha respondido ao telefone, acabando por me bloquear a entrada no curso, de forma estranha, até porque se formos ver os critérios de alguns treinadores ou adjuntos que entraram no curso, há ali alguns duvidosos.

Quando é que tiraste o UEFA A?
Há dois ou três anos. Tirei primeiro o UEFA B, terminei, depois fui novamente a Belfast, na Irlanda do Norte, e tirei o UEFA A lá também.

Por que razão já nessa altura foste para a Irlanda?
Porque há imenso tempo que não havia cursos de treinadores em Portugal e quando voltaram a abrir foi com essas tais regras que acho absurdas, porque cada nível de treinador demora três ou quatro anos para ser completado e para nos formarmos. No final, somando isso tudo, só aos 45 anos, mais ou menos, é que poderia ser treinador de futebol, o que é outra coisa que não se consegue perceber. Demora-se mais tempo a tirar um curso de treinador de futebol do que de médico. E tendo nós, enquanto ex-jogadores profissionais de alta competição, tantos anos de carreira, ainda ter de esperar mais oito ou nove anos para ser treinador de I Liga, para exercer uma profissão dentro da área onde passámos toda a vida... Acho que é um absurdo. As pessoas têm de perceber que isto em nada beneficia o futebol e nós temos bons treinadores portugueses, cá e lá fora, e até são treinadores anteriores a estas novas regras e são na mesma bons treinadores, portanto acho que isso não faz sentido nenhum.

O que pensas fazer agora? Voltar à Irlanda?
Sim. Infelizmente eu já podia também ter feito o UEFA Pro na Irlanda, como já tinha feito o B e o A, mas esperei para fazer aqui em Portugal, porque sabia que este ano iriam abrir o curso, porque no ano passado não abriram. Pretendia fazer aqui em Portugal e, na verdade, se as regras fossem diferentes, o que eu queria era ter feito todos os níveis aqui em Portugal e não na Irlanda. Fazia todo o sentido, com todo o orgulho, mas nós temos de nos procurar formar enquanto treinadores o mais rápido possível, para conseguirmos trabalhar. Esperei para entrar em Portugal, porque achei que iria ter todos os predicados necessários para ter acesso ao UEFA Pro, tendo estado as últimas duas épocas a trabalhar como treinador principal no futebol profissional [na 2ª Liga]. Não me cabia na cabeça, sequer, não entrar. Se as coisas fossem "normais", como nos outros países, teria tirado aqui, porque sou português e é em Portugal que trabalho. Aliás, quando comecei a formar-me, cheguei a inscrever-me em Braga e fiz a primeira parte teórica do curso, mas quando percebi estas novas regras dos cursos, decidi ir tirar lá fora, porque se tivesse continuado a tirar os cursos em Portugal se calhar hoje ainda nem estava a treinar.

Na Irlanda já podes tirar o UEFA Pro, uma vez que só pedem um ano de experiência como treinador, correto?
Sim. Só aqui é que há isso nos três anos. Já podia ter tirado na Irlanda e hoje teria o UEFA Pro. Vou tentar, não vou desistir. As pessoas têm de perceber que o facto de não haver muitos cursos, aliado a estas regras todas e mais algumas, atrasa e prejudica muito a vida dos treinadores, sejam principais ou adjuntos.

Já foste prejudicado por isso?
No meu caso, sou treinador principal e posso confessar que no início desta época, depois do trabalho bem sucedido no Varzim, tive uma oportunidade de uma equipa na I Liga e acabei por não ir porque o presidente não queria contratar mais um treinador sem o 4º nível, porque estava sempre a pagar multas. Há os casos como o Rúben Amorim, como o Silas, como o Custódio e outros, porque as regras atrasam a vida a toda a gente. Depois há alguns que têm sorte, porque há presidentes que apostam neles mesmo não tendo o 4.º nível, mas há outros que não. Isto atrasa a vida das pessoas e tem de ser mudado de uma vez por todas, seja a ANTF a fazer alguma coisa, seja o Governo, seja a FPF, porque isto assim não dá. Não faz sentido nós ficarmos tantos anos à espera de estarmos formados enquanto treinadores para ir para a I Liga.