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Luís Freire: "A lei não se coaduna com a realidade. O sistema não permite aos treinadores terem uma normal progressão de carreira"

O treinador principal do Nacional da Madeira não o será, na ficha de jogo, durante a próxima época. Luís Freire subiu a equipa madeirense à I Liga, mas não foi um dos candidatos selecionados para o curso de nível III aberto pela Federação Portuguesa de Futebol e sugere que se abram cursos "com mais frequência" e que se reconheça "o mérito desportivo" dos treinadores que vêm de baixo

Mariana Cabral

Luís Freire, 34 anos, está no Nacional da Madeira desde o início da época. Antes, esteve no Estoril, no Mafra, no Pêro Pinheiro e no Ericeirense

Gregório Cunha

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Como é que soubeste que não entraste?
Soube quando vi que saiu a lista dos admitidos e estava lá como suplente, foi numa sexta-feira, às onze da noite. Fiquei surpreso, inicialmente, e depois fiquei um pouco revoltado internamente com a situação. Basicamente foi isso.

O que fizeste depois?
Falei com a ANTF e expus ao presidente [José Pereira] o meu caso. Transmiti-lhe a minha insatisfação, tal como agora transmito publicamente, perante os critérios de seleção e perante a minha situação em específico, porque acabo por fazer uma carreira de treinador, há oito anos para cá, sempre como treinador principal, começando no distrital, onde subi duas vezes com o Ericeirense e duas vezes com o Pêro Pinheiro. Quando cheguei ao Mafra, no Campeonato de Portugal, candidatei-me ao nível 3 [UEFA A]. Era treinador principal e podia estar em pé e dar indicações, porque tinha habilitações suficientes, já que tenho o nível 2 [UEFA B] desde 2009. Portanto era treinador principal do Mafra legalmente e foi como tal que concorri ao curso de UEFA A que abriu na altura, mas a minha candidatura foi rejeitada porque diziam que não tinha dois anos enquanto treinador nos campeonatos nacionais. No final dessa época, subi de divisão com o Mafra, para a II Liga, e é aqui que começa o problema, porque sendo treinador principal do Mafra e subindo o Mafra, passo a estar ilegal se quiser continuar no Mafra. Portanto, obrigam-me a ser treinador adjunto, no papel, a partir daí. Ou seja, eu subo Mafra do Campeonato de Portugal para a II Liga, enquanto treinador com o nível 2, e depois obrigam-me a estar ilegal, a ser inscrito como adjunto, na II Liga, não me permitindo tirar o nível 3, porque não tinha os tais dois anos enquanto treinador nos campeonatos nacionais. Também estive no Estoril e no Nacional da Madeira como adjunto, no papel, apesar de eu ser treinador principal desde sempre. Não tendo acesso ao curso UEFA A, acabo por também subir o Nacional de divisão, da II Liga e para a I Liga, e faço todo este trajeto com mérito desportivo, com trabalho e com sacrifício, meu e da minha equipa técnica, até chegar à I Liga, onde vou continuar com o nível 2, porque agora também não entrei no nível 3. Isto prova o quê? Prova que, em Portugal, quem começa por baixo não tem abertura de cursos à velocidade necessária consoante a realidade. E a realidade possível é que um treinador pode subir as divisões todas e não há lei nenhuma que proteja o treinador que tem mérito desportivo, vindo de baixo. Este é o grande problema da lei e não vejo ninguém a manifestar-se nem ninguém preocupado com esta situação. Não entrei, passou algum tempo, transmiti ao senhor José Pereira a minha preocupação, ele disse-me que estes são os critérios e que as regras tem de ser cumpridas. O problema é quando a lei não está bem porque não se coaduna com a realidade. Tem de haver preocupação das pessoas responsáveis em adequar a lei à realidade e a realidade é que pode haver outro Luís Freire, pode estar alguém neste momento no Campeonato de Portugal a subir de divisão, depois até sobe outra vez de divisão, e entretanto ainda nem abriram os cursos. E esse treinador vai ser o quê? Vai ter de ser o terceiro adjunto da equipa, no papel? Tem de se fazer alguma coisa, isto não pode continuar. Quem está nas divisões inferiores tem direito a sonhar em ser treinador de I Liga e os cursos têm de responder a essa necessidade. Isto devia ser claro para toda a gente.

É prejudicial para os treinadores?
Claro, isto traz problemas financeiros, para mim e para o clube, porque estou sujeito a multas e sou tratado como ilegal, quando fiz tudo para estar legal e não tive oportunidade. O sistema tem de dar oportunidades iguais.

Os critérios não são estanques, mudam consoante os países.
O que se passa é que o senhor José Pereira, para criticar os treinadores é o primeiro, dizendo que os treinadores têm de ter habilitações. Eu concordo com ele, os treinadores devem ter habilitações. E ele defende uma coisa muito importante: os treinadores devem seguir o seu caminho, devem mostrar o seu trabalho, devem ter uma carreira, não devem aparecer do nada, quase. Isso é defensável. A questão é que depois há casos como o meu e não o vejo a falar. Ok, trabalhou, esforçou-se, andou nas distritais, trabalhou à noite, abdicou do trabalho, subiu divisões, chegou à I Liga e não entrou nos cursos. E eu é que vou ser penalizado por isto? Pagando multas, estando no banco sem me poder levantar, tendo os meus adjuntos a ter de ir para a bancada e a ter de contratar pessoas para a minha equipa técnica. Há um mal enorme que está a ser feito, neste caso a mim, mas pode acontecer a mais gente que vem aí. O mérito desportivo é considerado para ex-jogadores de futebol, por isso é que eles têm aceleradores de carreira enquanto treinadores, têm mais oportunidades de tirar os cursos, porque estiveram lá no campo e jogaram e ganharam, com mérito desportivo. O treinador que teve mérito desportivo, que também esteve lá no campo, na prática, a organizar as equipas, não tem o seu mérito desportivo reconhecido. Não pode haver discriminação. Ou há mérito desportivo para todos ou não há mérito desportivo para ninguém. Os critérios de seleção possibilitam o quê: eu, se fosse treinador adjunto de uma I Liga, por exemplo, na Zâmbia e estivesse três anos em casa, estava mesmo assim à frente do Luís Freire, que subiu o Pêro Pinheiro, o Mafra e o Nacional nos últimos quatro anos. Ou seja, o Luís Freire está atrás destes treinadores. Não vou estar a dar exemplos individuais, mas isto é possível pela lei. Se as pessoas não quiserem olhar para a lei para dizerem que a lei está mal, que está caducada, que é preciso fazer alguma coisa e falar sobre isto... O que é preciso é discutir o assunto, não é com maldade, é enquanto tentativa de resolver as coisas. Se há um problema, temos de resolvê-lo.

Tens conhecimento que na Escócia e na Irlanda há treinadores portugueses a tirar os cursos, porque só pedem um ano de exercício da profissão, tal como é pedido pela UEFA Convention?
Aí, há um problema que o senhor José Pereira também devia explicar: porque é que a UEFA discrimina Portugal? Portugal é discriminado no meio disto tudo. Porque em Portugal os cursos não podem abrir frequentemente, porque a UEFA não autoriza. Nós falamos com alguém com responsabilidades e dizem: "Eh pá, a UEFA é que manda nisso, não temos muito poder sobre isso." Mas depois em Espanha abrem anualmente, na Alemanha abrem anualmente... Ou o campeão europeu de futebol não tem poder para ver que tem 450 candidatos e que tem de fazer alguma coisa para abrir cursos? E a Espanha e a Alemanha já têm poder? Eles têm de nos explicar, a nós, que andamos lá todos os dias, o que se passa. Não é só dizer que são os critérios e há que cumprir a lei. Eh pá, ok, mas porque é que nos outros países há mais acesso a cursos de treinadores? Porque é que o Nagelsmann, na Alemanha, apareceu na Bundesliga aos 28 anos? Porque é que os ex-jogadores que tiveram mérito desportivo nas suas carreiras têm aceleradores e os treinadores que têm mérito não têm esses aceleradores? Porquê? Eu dei uma semana para as pessoas falarem e pensarem sobre isto, mas parece que está tudo bem, porque é a lei, porque são os critérios, está tudo certo. Mas não está tudo certo. Não é só para mim, é para todos os que querem ser treinadores de topo em Portugal.

O que entendes que deve ser feito?
O que sugiro é: abrir cursos com mais frequência, como acontece no estrangeiro, e reconhecer o mérito desportivo aos treinadores, para que os treinadores da distrital possam sonhar em chegar à I Liga. Se não, os treinadores sobem, sobem e depois têm de ouvir o presidente da ANTF a dizer que estão ilegais. Depois contaminamos, entre aspas, a opinião pública, dizendo que os treinadores não querem tirar os cursos, quando isso não é verdade. Há muitas pessoas que ficaram de fora e que gostavam de tirar o curso, mas então têm de mudar os critérios ou abrir mais vagas.

Houve 40 vagas no UEFA Pro, porque foram duas turmas, e 30 vagas no UEFA A. Achas que deveriam ser mais?
Repara, em 2017/18 houve um curso e eu concorri e não fui aceite. Agora estamos a iniciar 2020/21 e só agora vai haver outro curso UEFA A. Entretanto houve um só para ex-jogadores. Ok, tudo bem, não tenho nada contra e acho que sim, que se deve valorizar o mérito pela carreira desportiva. Mas não podemos discriminar os outros treinadores. Porque se eu não tenho o nível 3 nem 4, mas cheguei à I Liga... Alguma coisa tenho de ter, não é? Costumo dizer assim: pior do que cometer um erro é cometer dois erros. Às vezes nós erramos. Eu erro perante um jogador meu e o segundo erro, bem pior, é não lhe dizer assim: "Olha, desculpa, errei, vamos modificar isto". Não admitir isto é pior. Na minha opinião, estas critérios estão ultrapassados e não custa nada a Portugal refletir, porque é um país exportador de bons treinadores, o 6º exportador, salvo erro. Deve haver abertura de cursos para formar as pessoas e deve haver critérios, concordo com isso tudo, mas tem de haver coerência. O mérito tem de contar para todos. Por exemplo, Marco Silva, Sérgio Conceição, Nuno Espírito, entre outros, passaram de nível por mérito desportivo. Ou seja, tinham o nível 2 e passaram logo para o 4, porque estavam na I Liga. Foram ajudados, entre aspas, a conseguir prosseguir a sua carreira a uma velocidade que lhes permitisse estar noutro tipo de clubes. Nessa altura, o senhor José Pereira achou muito bem. Foi em 2013. Agora, se ninguém defende isto publicamente... Tem de aparecer alguém, o Luís ou seja quem for. Não estou aqui a acusar ninguém, só estou a dizer que as coisas não estão bem feitas e as pessoas responsáveis têm de se preocupar com estes assuntos. Porque isto vai custar dinheiro e chatices. Tenho adjuntos comigo que estão a trabalhar nesta equipa técnica desde o distrital e agora chegam à I Liga e são desqualificados.

Vais ter de arranjar alguém com nível 4 para a equipa técnica?
Sim. Se nós agora somos sete e se nenhum de nós pode estar à frente da equipa, alguém vai ter de entrar. E se entra alguém de nível 4 para estar lá, alguém vai deixar de estar onde estava, vai ter de ir para a bancada.

Na II Liga, era o Joaquim Rodrigues que era o treinador principal, por ter nível 3.
Sim, mas agora vai ter de entrar outra pessoa com nível. Isto não tem lógica. Não é assim que se faz as coisas. Se querem regularizar as coisas, pensem, reflitam e depois atuem. Não posso achar bem convidarem ex-jogadores a tirar cursos e depois deixarem de fora outros treinadores que precisam do curso para trabalhar e progredir na sua carreira.

Neste caso poderias ser prejudicado, caso o Nacional decidisse não continuar contigo, por só teres o nível 2.
Claro que sim. Ninguém sabe o quão prejudicial é isto na carreira de um treinador. Não podemos saber, porque não estamos dentro da cabeça das pessoas e não sabemos o que pensam os clubes. Portugal é um país democrático onde acredito que não pode haver discriminações, nem no futebol nem em lado nenhum. Alguma coisa tem de ser feita, seja pela ANTF, seja pela FPF. Tem de haver sensibilidade. Quer dizer, temos a Liga do campeão da Europa com 'n' treinadores sem habilitações. Isto justifica-se? É um problema grave.

Como reagiu o Nacional a isto?
O Nacional conhece-me bem e sabe bem como nós trabalhamos, há confiança na equipa técnica e há uma boa relação. Sempre é um clube que defende uma causa justa, porque isto não é uma causa injusta. O clube sabe o meu posicionamento nesta temática, por isso é que também estou aqui a falar sobre isto, como é óbvio, porque me dão liberdade para expor a minha opinião. Obviamente o Nacional reconhece que a situação é incómoda para mim.

Consideras ir tirar o curso ao estrangeiro?
Penso que o importante aqui é perceber porque é que em Portugal um treinador que sobe todas as divisões não consegue tirar o curso em Portugal e tem de ser obrigado a ir para o estrangeiro, gastar dinheiro no estrangeiro. Será que não há ninguém na ANTF ou que se interesse por estas temáticas, que defenda os treinadores e diga 'basta'? As pessoas estão lá para defender os nossos interesses, não estão lá para se autopromoverem. Portanto não é só dizer mal dos treinadores quando eles não têm habilitações, é dizer mal de quem tiver de dizer mal, quando o sistema não permite aos treinadores ter uma progressão normal na carreira.

Tens uma licenciatura e um mestrado, correto?
Sim, tenho uma licenciatura em educação física e desporto e um mestrado em educação física e desporto. Quando queremos ser médicos, sabemos que temos o curso para tirar, concorremos e vamos à luta no mercado de trabalho. Aqui... Por exemplo, em Portugal as entidades formadoras são estanques. Em Espanha, as entidades privadas têm autorização para dar cursos. Em Portugal não, só as Associações de Futebol e a Federação é que dão os cursos. É o sistema formativo de treinadores que temos. Fiquei insatisfeito por não ter entrado, obviamente, e não estou a pôr em causa que não esteja dentro da lei, mas lá por estar dentro da lei não quer dizer que esteja correto. É a partir daqui que a discussão tem de ser fazer.