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Marcos Antônio, um “pequeno” que se fez grande no Shakhtar: “Não tem como dizer quantas vezes rodo a cabeça e olho à minha volta no campo”

Passou despercebido em Portugal, quando esteve no Estoril Praia, em 2018/19, quiçá pela figura franzina, com 1,68 cm e 56 kg: "Sou pequeno agora, , e antes era mais. Mas sempre tive uma velocidade muito grande e uma agilidade muito grande, então isso ajudava-me muito a jogar." Do Brasil para a Ucrânia, com passagem por Portugal, Marcos Antônio tem o jogo todo na cabeça e nos pés, e é por isso que já é, aos 20 anos, um dos titulares do Shakhtar Donetsk, o campeão ucraniano liderado por Luís Castro, que disputará as meias-finais da Liga Europa com o Inter de Milão (segunda-feira, 20h, SportTV1)

Mariana Cabral

Soccrates Images

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Vamos a isto que está quase na hora da Champions.
Vou conversar com você e depois vou assistir ao Barça-Bayern, ?

Há alguém que aprecies mais nesse jogo?
Ah, tem o Messi em campo, ? [risos]

Imagino que vão ver o jogo aí juntos no hotel. Agora com isto da pandemia, já estás farto dos teus colegas?
Não, não. Está tudo tranquilo, está tudo a andar bem connosco.

Contra o Basileia, nos quartos-de-final da Liga Europa, também correu tudo bem, foi uma espécie de atropelamento (4-1). Sentiste isso durante o jogo?
A nossa equipa jogou muito. Jogámos muito bem, conseguimos impor o nosso jogo e conseguimos uma grande vitória contra o Basileia.

Mas sentiste durante o jogo que estava a ficar fácil?
Não, não foi fácil, foi um jogo muito difícil. Todos os jogos nessa competição são muito difíceis. É a gente que deixa o jogo fácil, ? O Basileia tem uma grande equipa.

Já falaram aí sobre o Inter de Milão?
Não, ainda não. Mas claro que todos sabem que o Inter é uma grande equipa. Temos de analisar bem para nos prepararmos, e anularmos os pontos fortes deles e cairmos em cima dos pontos fracos deles também.

O Inter pressiona de forma muito alta e intensa, o que é algo que vocês provavelmente não encontram muitas vezes na Ucrânia. Achas que isso pode complicar o jogo?
Sim, sabemos que temos de jogar rápido para nos escaparmos deles, ? Só assim vamos conseguir fazer uma grande partida.

Contigo e com muitos dos outros jogadores brasileiros, Marlos, Taison, Alan, também parece que basta ter dez centímetros para se livrarem de um adversário.
Ah, não é só a gente, toda a equipa tem qualidade para conseguir fazer isso. Vamos trabalhar muito para poder conseguir fazer um grande jogo

É muito diferente jogar na Liga Europa e na Liga dos Campeões? Há menos tempo e espaço?
Olha, eu não tive assim muitos minutos na Liga dos Campeões, mas há grandes jogadores, tal como na Europa League, e o jogo é muito rápido. Claro que na Liga dos Campeões são só grandes equipas, são muitas equipas com os melhores jogadores do mundo, você sabe isso. É um pouco diferente da Europa League por isso, mas não muito, porque na Europa League também há grandes equipas e grandes jogadores. Temos sempre de trabalhar muito para conseguir desenvolver um bom futebol aí.

No Estoril Praia, em 2018/19, Marcos só foi utilizado em seis jogos na equipa principal

No Estoril Praia, em 2018/19, Marcos só foi utilizado em seis jogos na equipa principal

Gualter Fatia

Explica-me como é que tu jogas na Liga Europa, jogaste na Liga dos Campeões e não jogavas na 2ª Divisão portuguesa, no Estoril.
Olha, realmente no Estoril não tinha ainda muitos jogos na equipa principal, como vocês falam aí em Portugal. Consegui começar a jogar nos sub-23 e na 2ª Liga, fui trabalhando, tentei adaptar-me, mas não joguei muito. Mesmo assim fiquei muito feliz, porque o Estoril ajudou-me muito na adaptação, principalmente na adaptação ao profissional. Depois vim para o Shakhtar e comecei a trabalhar ainda mais para me adaptar ao jogo do Shakhtar. Hoje sinto que estou completamente adaptado à forma de jogar do Shakhtar e consigo jogar bem.

O que achaste do futebol em Portugal?
É um bom futebol. Não joguei muito, mas tive um jogo em que joguei contra uma das maiores equipas, o Sporting, em Alvalade. E a gente ganhou, foi um grande jogo [1-2, na Taça da Liga]. Pronto, a 2ª Liga foi um pouco difícil, era um jogo diferente, muito disputado. Mas gostei muito da minha experiência no Estoril e na equipa principal.

Mas por que razão a 2ª Liga era mais difícil?
Não sei falar. O treinador é que montava a equipa, portanto não tenho muito como falar sobre isso. Mas estive sempre lá a trabalhar para poder jogar quando ele precisasse de mim.

Como é que vieste do Brasil para Portugal, para o Estoril?
No Brasil, fiz toda a minha formação no Atlético Paranaense, desde os 14 até aos 17 anos. Depois é que me mudei para o Estoril. Ainda fiquei ali um tempo sem jogar, antes de ir para o Estoril, só quando fiz 18 anos é que me mudei para Portugal.

Como começaste a jogar no Brasil?
Comecei a jogar na minha cidade, na Bahia, primeiro com os meus amigos, na rua. Depois passei a ir para uma escolinha e estive lá acho que dos nove aos 12 ou 13 anos. Mas antes disso mudei-me para Curitiba, joguei lá nas escolinhas também, nas escolinhas do Furacão. Quando fiz 14 anos é que me mudei para a formação do Atlético.

Foste sozinho para Curitiba?
Fui sozinho, mas fui viver na casa de um amigo do meu pai. Mas claro que foi muito difícil para mim, naquela altura eu era um garoto novo e sentia muito a falta de casa.

Quando eras novo, imagino que já eras mais pequeno do que os outros. Tinhas de ser mais rápido do que eles?
Sim, eu sou pequeno agora, [risos], e antes era mais. Mas eu sempre tive uma velocidade muito grande e uma agilidade muito grande, então isso ajudava-me muito a jogar.

Em 2018/19, Marcos foi para a Ucrânia e jogou 10 jogos. Já esta época, soma 30 partidas

Em 2018/19, Marcos foi para a Ucrânia e jogou 10 jogos. Já esta época, soma 30 partidas

Lars Baron

Quem era o teu ídolo nessa altura?
Ah, muitos jogadores. Nessa altura gostava de muitos jogadores grandes... Como hoje, Neymar, Cristiano Ronaldo, Messi, Iniesta... Todos grandes jogadores. Lembro-me também de ainda ver o Ronaldinho Gaúcho a jogar.

Achas que és parecido com algum deles?
Ah não, não há sequer como comparar. Acho que não.

Eu ia perguntar-te se gostavas do Iniesta, porque...
[interrompe] Sim, sim.

Porque, lá está, és parecido com ele na forma de jogar e até és o número 8.
Sim, gosto muito do Iniesta, sem dúvida.

Como ele, pareces estar sempre no sítio certo e passar a bola sempre na medida certa.
Eu espero que sim, porque gosto muito dele.

Quando estás a jogar, quantas vezes rodas a cabeça e olhas à tua volta, antes de receberes a bola?
Ai, não tem nem como te dizer quantas vezes rodo a cabeça e olho à minha volta no campo, mas seguramente procuro sempre fazer isso. Porque tenho de estar sempre a ver bem onde está o espaço, ? E saber quando e de onde o adversário chega. Isso é mesmo muito importante na minha função dentro de campo.

Já sabias isso ou aprendeste no Shakhtar?
Não, já sabia, nas seleções de base [de formação] isso já era muito importante, trabalhávamos sempre isso.

Lembras-te de ouvir falar no Shakhtar quando ainda estavas no Brasil?
Sim, o Shakhtar sempre teve muitos jogadores do Brasil, ? Já ouvia falar do Shakhtar no Brasil, sim, e depois quando me mudei para o Estoril também. Já conhecia o Shakhtar.

E gostas do estilo de jogo do clube?
Sim, sim, muito.

Imaginas-te a jogar, por exemplo, no Atlético de Madrid, num estilo de jogo completamente diferente?
Não sei, acho que nem vale a pena dizer nada sobre isso, porque eu hoje sou jogador do Shakhtar, portanto não interessa se iria dar certo ou não. A minha casa é o Shakhtar.

Que tal a vida na Ucrânia?
É um pouco diferente do Brasil, claro, e de Portugal também. Mas já me adaptei, tive de me adaptar o mais rápido possível, para poder ficar tranquilo, com a minha família.

Já falas ucraniano?
Não, não falo. É complicado, é uma língua difícil.

Na época passada tiveste o Paulo Fonseca como treinador, esta época o Luís Castro. O que mudou?
Com o Paulo ainda estava a chegar, tive de me adaptar e ainda demorei um pouco. Também tive de me adaptar à forma de jogar dele, mas felizmente consegui, depois de alguns meses. Fui trabalhando para poder jogar.

E agora?
Agora já estou completamente tranquilo.

Vocês jogam de forma muito tranquila, com uma fluidez impressionante, com muitos passes curtos e rápidos de pé para pé. Quanto estão no meiinho devem fazer uns 100 passes, não?
[risos] Ah, não sei quantos passes fazemos, mas temos uns bons meiinhos. Sabemos que temos de passar a bola rápido dentro de campo, senão o adversário chega e rouba a bola, não queremos isso.

Já falam entre vocês em ganhar a Liga Europa?
Temos os nossos objetivos. Ainda temos agora o próximo jogo com o Inter, que é um grande jogo. Vamos trabalhar bem para poder ganhar esse jogo. Mas claro que todas as equipas têm o objetivo de ganhar a prova.

Diz-me lá quanto é que é o prémio por ganhar a Liga Europa.
[risos] Isso só Deus sabe [risos].

Srna: “Vivi guerras, vendi legumes e fruta na rua, perdi o meu pai quando jogava o Euro-2016. Mas olho-me ao espelho e digo: sou boa pessoa”

Depois da guerra entre Croácia e Sérvia, vive a segunda guerra na Ucrânia. Em miúdo, vendeu vegetais e fruta num bazar e, certo dia, gastou todo o dinheiro numas botas. Darijo Srna, recordista com a seleção croata e ex-capitão do Shakhtar Donetsk, fala com a Tribuna Expresso sobre Luís Castro e os adjuntos portugueses, o clube onde jogou 15 anos, a família e a infância. No fundo, sobre a vida e de como a leva: "Não é fácil quando entras numa equipa técnica e eles não te conhecem. É tão, tão, tão difícil mas vou dizer-te a verdade: desde o primeiro dia com o <em>mister </em>Castro, Filipe [Celikkaya], João [Brandão], Vítor [Severino] e [José] Roque, temos uma relação fantástica. Senti imediatamente que são meus amigos. Eles não são só bons treinadores, são também boas pessoas"