Tribuna Expresso

Perfil

Entrevistas Tribuna

Valdo: "Se aparecer um extraterrestre que não conheça o Neymar, vê-o jogar e diz: 'Esse cara é brasileiro, né?'"

Paris é " magique". Quem o diz à Tribuna Expresso é Valdo, que esteve quatro anos a jogar no Parque dos Príncipes, envergando a camisola 10 que Ronaldinho e Neymar herdaram. Colegas como Ginola, que "tinha tudo" e que era bonito o suficiente para merecer um palavrão, Weah e Raí encantavam-no. Trocou cartas com Ruud Gullit e camisolas com Baggio e Boban e perdeu três meias-finais em Paris nos anos 90. Mas desta vez (PSG-Leipzig, esta noite às 20h), diz, vai dar certo

Hugo Tavares da Silva

Icon Sport

Partilhar

Há 25 anos ajudou o PSG a chegar às meias-finais da Liga dos Campeões. Como foi viver aquilo tudo e chegar ali? Eram outros tempos...
É, eram outros tempos. Naquela época só podiam jogar três estrangeiros e, no meio dos três estrangeiros, tinham de ser dois fora da comunidade europeia e um da comunidade, que era eu, com passaporte português. O Ricardo Gomes e o Weah eram os de fora. Depois abriu mais uma vaga para fora da comunidade e aí veio o Raí. Então, quando fomos enfrentar o Barcelona [quartos da Liga dos Campeões em 95], tínhamos esses quarto estrangeiros mas só podiam jogar três. Ficou 1-1 na primeira mão, foi um jogo complicado, jogámos lá. Jogar contra o Barça lá é sempre complicado, mas conseguimos arrancar o 1-1. Quando os recebemos no Parque [dos Príncipes], começámos muito bem o jogo, mas eles saíram na frente, com golo do Bakero. Depois empatámos e o Vicent Guérin fez o golo que deu a classificação para a semifinal.

Aos 83'.
É. Aquilo ali é uma loucura. Trabalhámos para aquilo e eliminámos o Barcelona. Não eliminámos qualquer equipa, é o Barcelona.

De Cruyff.
Foi bom, foi excelente, aquela comoção toda. Fomos para semi e apanhámos o Milan, uma equipa fora de série, hoje sofre um pouquinho, mas naquela época era fantástica. Eram os reis da Europa, foram bicampeões, eram muito fortes. Já tinham mudado um bocadinho a geração, mas estava lá um tal de Savicevic e um tal de Boban, esse cara era de outro planeta também. Era uma equipa muito forte. Perdemos em casa, 1-0. Depois ter que ir a Itália e ter de fazer dois golos para passar... é uma missão quase impossível. É tudo o que eles querem, você precisa de sair para o resultado e eles fazem a diferença. Lá novamente perdemos, acho, 2-0 ou 2-1. Mas é fantástico. Depois, como tudo na vida, chega um certo ponto que o que faz a diferença é o poder aquisitivo que os caras têm, a equipa que eles têm. Você pode brigar com as tuas armas mas chega um ponto que as tuas armas não chegam mais. Foi o caso do Paris. Fomos, fomos, mas os caras tinham muitos jogadores, muitos craques. Mas foi bom...

Como é que a cidade viveu essa chegada às meias? Se calhar ainda não era muito futeboleira...
Nããããõ, já tinha começado! Já tínhamos conseguido um grande feito com o Artur Jorge, quando perdemos na UEFA, no Bernabéu, 3-1 e todo o mundo achava que já estávamos eliminados. No jogo de volta, no Parque, aquilo estava lotado. Ganhámos 4-1. Eu fiz um golo e fiz o passe para os outros três. Três assistências. Um-zero, dois-zero, três-zero... aos 90, o Zamorano empatou a eliminatória e aos 93' fizemos o 4-1. A cidade ficou doida. Foram jogos míticos contra Barcelona e Real Madrid. Era coisa de doidos, a cidade ficou maluca. Há sempre fanáticos de futebol, nem todos o vivem, mas boa parte vivia já o futebol. E agora vivem muito mais. O PSG não é uma equipa de futebol, são astros de cinema. Que porra, 'tá doido, são muitos craques ali (risos).

Voltando a 95 contra aquele Milan. Quem é que apreciava ver no relvado? Quem é que o deixava de boca aberta?
Savicevic e Boban. Esses dois eram de outro mundo, cara. Craques, craques.

PATRICK HERTZOG

Cinco anos antes já tinha perdido uma final da Taça dos Campeões Europeus contra eles, treinados por Sacchi, quando jogava no Benfica. O Milan é o seu maior pesadelo?
Até te podia dizer a equipa deles. Galli, Tassotti, Baresi, Costacurta, Maldini, Ancelotti... Quer dizer, porra. Para bateres essa equipa tinhas de estar no dia em que todos os astros estão puxando por você, senão você não ganha. Os caras eram muito fortes. A equipa do Benfica era boa, mas, porra, você vê esses caras que já eram campeões da Europa... Não dá. Um efetivo desses mais o banco. Há derrotas que são duras de aceitar, quando a outra equipa não joga nada, mas esta não pode dizer nada. Vai dizer o quê? Não mereciam? Olha uma equipas dessas. Temos de ser realistas. O Benfica lutou, não foi um jogo assim fantástico. É o tipo de jogo como quando jogas contra italianos: fechadinho, eles vão lá uma vez, tu vais uma vez. Perdemos realmente nos detalhes, num suposto apito que veio da bancada, a equipa parou, achando que o árbitro apitou e a bola caiu no pé do Rijkaard. Não tem jeito. Um-zero. Mas foi bom. O futebol italiano é complicado. Na Liga dos Campeões e UEFA, a maioria das vezes que fui eliminado, pelo Paris ou Benfica, foram sempre os italianos na minha vida.

Precisamente. Em 93 perderam na semifinal da UEFA com a Juventus: Roberto Baggio marcou os três golos [2-1 e 1-0]. Ele não jogava nada mal, hein?
Porra, cracaço! Ali a culpa foi nossa. Estávamos a ganhar em Turim, mas dormimos, o Baggio empatou de falta e outro de fora da área. Em casa, no Parque, o Baggio fez o 1-0. Eles lá fechadinhos atrás, tiravam a bola, tiravam a bola, depois com Baggio e mais uns caras no meio-campo... Se conseguem fazer um, é complicado, meu amigo, é muito complicado

Ainda tinham Ravanelli, Vialli, David Platt, Möller...
Este Paris ganhou [agora ] e conseguiu tirar diferença porque, para já, o Paris é muito forte, mas a Atalanta não tem mais aquele rigor do catenaccio como havia antigamente. Se tivessem só italianos do meio-campo para trás, meu amigo, ia ser complicado entrar. Os caras têm uma disciplina tática de outro planeta. Mas o Paris está forte.

Em 94, o PSG também perdeu nas meias-finais da Taça das Taças contra o Arsenal. Já parece um mau prenúncio para esta noite, ou não?
Nããão. São escolas completamente diferentes. São três escolas que eu acho difícil enfrentar: a alemã porque mentalmente são muito fortes, a inglesa também mentalmente são fortes. Tanto é que você vê o campeonato inglês, os caras estão a perder 2-0 a faltar cinco minutos e conseguem virar para 3-2. Mas isso acontece em Inglaterra, em mais nenhum lugar se vê isso. Acreditam até ao fim. Enfrentámos o Arsenal de Ian Wright, que era rápido como tudo, e foi ele que fez o golo no Parque. Depois, lá, quando vai para tirar o resultado é mais complicado na casa do adversário. Fomos eliminados. Hoje a situação é completamente diferente. O Paris vem forte. Eu estive lá com eles [no treino depois da vitória com Atalanta], com o Neymar, Kylian Mbappé, Marquinhos, Leonardo e Choupo-Moting. O que eu senti, no grupo do Paris Saint-Germain, não que da outra vez não existisse, foi o amor, a cumplicidade um com o outro, e o amor e cumplicidade que têm com o treinador deles. Quando assim é, meu amigo, é muito difícil. Se o Paris Saint-Germain não estivesse realmente unido, eles nunca poderiam inverter o resultado. Empataram aos 90 e viraram aos 93. Só quando existe amor e aquela cumplicidade pode mudar um resultado desses. Não é fácil, não é fácil.

Nesses jogos europeus trocou a camisola com alguém?
Eu trocava sempre duas. Trocava no intervalo e depois do jogo. Com a Juventus, tinha de ser o Roby. O Roberto Baggio. Com o Milan troquei com o Gullit. Pelo jogador que é e pelo homem que é. Quando comecei a falar com o Gullit foi por carta. Não existia esse negócio de telemóvel quando ele machucou o joelho. Eu, como sempre gostei dele, escrevi para ele, cara de pau, né? Escrevi que deus o abençoe, que recupere o ginocchio [joelho em italiano], falava um pouco italiano. E aí criámos, não uma forte amizade, mas um respeito. Quando fomos para a final [90], entrei lado a lado com ele e ele: "Valdo, como stai?". E eu: "Até agora bem, né? Depois do jogo não sei..." e ele começou a rir. São momentos assim que ficam. A recordação. É um cara que é uma lenda do futebol mundial. Campeão europeu de seleções, bicampeão da Liga dos Campeões com o Milan. Acho que foi o primeiro cara que foi jogador-treinador no Chelsea. Ele é realmente diferente.

Até a apresentar programas de televisão. Parece que nasceu para aquilo.
É, ele é fora de série. Tem um mental muito forte. Eu adoro-o. Naquela época, imagina, um negão, com aquelas tranças que ele tinha. Ele falava que todo o lugar onde chegava, com o clube ou sem clube, o único que era parado [pela polícia] era ele. E já era o Gullit, né? Por causa daqueles cabelos. Tinha uma personalidade muito forte.

O Valdo jogou com grandes futebolistas em Paris. Qual é o preferido?
Joguei com grandes, grandes jogadores quase em toda a minha carreira inteira, havia sempre uns caras de outro planeta. David Ginola, Raí, Ricardo Gomes, Weah. Esses caras eram realmente fantásticos. O Weah era único, uma força, velocidade, explosão, era demais. Tanto é que foi Bola de Ouro. Eu achava o Ginola incrível. Pela velocidade, técnica, o cara tinha tudo. Além de tudo, era bonito 'pa caralho. Porra. Era "El Magnifico". Depois o Raí, que eu já conhecia do Brasil e da seleção brasileira, jogámos juntos a Taça de São Paulo de 82. Foi quando o conheci, ele tinha 16 anos. São jogadores que te marcam e que, para além de serem os jogadores que foram, são seres humanos fantásticos. A maioria desse pessoal, tudo o que é fora de série, são pessoas fantásticas, simples. Tem uns complicados, mas esses que citei são verdadeiramente campeões.

O Valdo usava a camisola 10 no PSG, certo?
É.

E nunca foi assunto com alguma estrela ou com Raí até?
Não, porque fui eu que trouxe o Raí para o Paris Saint-Germain. Indiquei. O Artur Jorge, na época, pedia um jogador para ser meu reserva. Eu falei: "Não sei se vai ser meu reserva ou se eu vou ser reserva dele". Perguntou se eu tinha a certeza. Os franceses, na altura, não entendiam que eu ia trazer um jogador para a minha posição. Eu falei: "Ele é meu amigo. Antes de ser jogador, é meu amigo." Tenho a certeza que, se ele estivesse no Brasil, ia dizer aos caras para trazerem o Valdo. Agora é a minha vez, cheguei primeiro. Os dois primeiros anos no Paris foram muito complicados para ele, os caras falavam "não, temos de o mandar embora" e eu falava para o [presidente do clube Michel] Denisot: "Com calma, é o cara. Deixa-o aí que é o cara". Quando eu voltei para o Benfica, ele assumiu o posto. Foi o Raí que realmente todos esperavam, que todos nós, brasileiros, conhecíamos.

Alain Gadoffre

E Sócrates [irmão de Raí] chegou a ir ter com vocês a Paris?
Não. O Magrão era na dele. Joguei três anos com o Magrão na seleção e esse era génio, meu amigo. Era outra coisa. Se existiu um génio no Brasil, era Magrão, o Sócrates. Cracaço, cara. Como aquele não vai existir mais. Esse só jogava a um toque, pá, enquanto nós tínhamos uma dificuldade para dominar e não sei quê. Um toque. Uma vez falou para mim:

- Valdinho...
- Quê, Magrão?
- Sabe porque jogo a um toque e dois toques?
- Não sei, não. Você é inteligente...
- Não. Eu tenho 1,92m e o meu pé é 37. Imagina, se eu pegar na bola, tentando driblar, vou acabar caindo, perco o equilíbrio. A bola chega e jogo a um dois toques e encontro meu equilíbrio.

E eu falei: "é a inteligência, é a genialidade". Se fosse outro ficava caindo a toda a hora.

Depois de Valdo, Raí, Ronaldinho, Souza e Nené, a camisa 10 do PSG é usada por Neymar. Que acha dele?
Antes de falar no Neymar, vou falar do meu menino, o Ronaldinho Gaúcho. Conheci-o aos quatro anos, entrava comigo no Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense de mão dada. O Roberto, o irmão dele, jogou comigo. Esse, para mim, foi o maior dos maiores dos 10 que passaram no Paris Saint-Germain. Depois, Nenê teve a camisola 10 também. Craque. Agora temos o nosso menino querido, o Neymar. O Brasil não podia ter um representante melhor com a camisola 10 do Paris Saint-Germain. Ainda mais chega nessa semifinal com uma maturidade, com 28 anos, é uma idade fantástica. Viveu muita coisa, sofreu muita pressão quando chegou ao Paris Saint-Germain, então reencontrei o Neymar tranquilo e sereno, sabendo o tamanho da responsabilidade que tem. E com certeza absoluta é o cara que pode ajudar o Paris Saint-Germain a chegar à tão sonhada final e a ganhar o título de campeão europeu. Ligado a ele, tem o Kylian Mbappé: os dois juntos é bomba atómica pura.

Neymar é o mais perto de futebol de rua que temos hoje no futebol profissional, não?
Ah, é com certeza. Sem dúvida nenhuma. Ele é um dos últimos talentos puros, sem agrotóxicos, sem nada, do futebol brasileiro. É o que tem o maior improviso, é o que é mais leve, é o que cativa mais. É aquele jogador que não é forte mas também não é fraco. É o estereótipo de jogador brasileiro. Se aparecer um extraterrestre que não conheça o Neymar, vê-o jogar e diz: "Esse cara é brasileiro, né?". Com certeza, não tem como enganar. O toque de bola do Neymar é o Brasil da velha escola, da boa escola.

Esta noite o PSG joga contra o Leipzig nas meias da Champions. É melhor não contar a ninguém aquele historial das três meias-finais perdidas nos anos 90, ou não?
Nãããão... o Paris Saint-Germain chega no momento exato. O campeonato francês parou, eles estão com bastante força nas pernas, fizeram alguns jogos amistosos. Enquanto os outros campeonatos voltaram, então há jogadores cansados. Na Atalanta havia jogadores cansados. O Paris pode tirar proveito disso. O Paris tem hoje Thiago [Silva], com 34 ou 35, não sei, o Marquinhos, que tem idade boa, 24 ou 25 anos, Neymar com 28, Kylian [Mbappé] com 21... Depois, Verratti acho que tem 26 ou 27. A idade do PSG é a da maturidade, da serenidade, e isso vai ajudar muito o Paris. Acredito que não vai ser tão fácil como todo o mundo pensa. Eu, pessoalmente, preferiria o Atlético Madrid. É uma equipa que já sabes como joga, que joga fechada, joga por uma bola. O Leipzig é complicado. É escola alemã, trabalham muito, ninguém pára. E eles acreditam sempre, que sempre vai, sempre vai dar. Nunca baixam a guarda. É uma equipa perigosa. A vantagem que vejo no Leipzig é que eles gostam de atacar, gostam de ter a bola e jogar para a frente, e vão dar espaços. E aí é que pode entrar o talento, a genialidade do Neymar, a genialidade do Kylian Mbappé. Se começar o jogo, a genialidade do Di María. Vai ser um jogo difícil mas nós passamos.

Quer arriscar no resultado?
2-1.

Faltou uma coisa, Valdo. Como era a vida em Paris?
A vida em Paris era maravilhosa [risos]. Quando era jogador, não saía muito. Mas, depois dos jogos, eu gostava de sair para jantar. Eu achava e acho Paris o máximo. Sair para jantar em Paris... Gostava de almoçar em Paris, mas sair para jantar era o máximo. "On va dinêr à Paris". Naquela época, éramos obrigados a morar nos arredores do lugar onde treinávamos. Ninguém morava em Paris. Normalmente era depois dos jogos, depois do Parque. Correndo bem... Tem esse detalhe! Tinha de correr bem. Se não corresse bem, a minha esposa já sabia: era casa. Quando digo não correr bem, era não ganhar. Empatar também íamos para casa. Eu sei que é chato, principalmente para as esposas. A minha esposa já sabia. Deixava tudo preparado em casa. Se empatar, vamos ver como foi o empate, se podemos ir jantar com a galera. Derrota era direto para casa, não tem nem conversa. Paris é maravilhoso, a cidade Luz. Eu gostava muito e tenho n razões para gostar de Paris. Foi lá que nasceu a minha filha, a minha bebé de 26 anos, a Yara. Paris é realmente magique.