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Patrick Morais de Carvalho recandidata-se para acabar com as dúvidas: Belenenses só há um. “É hora de arrumar de vez o assunto B-SAD”

“Avanço para continuar a defender o clube de todos os que lhe querem mal”, revela, em exclusivo à Tribuna Expresso, o atual presidente do CF Os Belenenses, que se recandidata para um terceiro mandato satisfeito com o trabalho realizado nos últimos seis anos - "o Belenenses entra no seu segundo século com o seu património totalmente livre de penhoras e hipotecas" - mas crítico em relação ao Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, à Liga e à FPF

Mariana Cabral

Patrick Morais de Carvalho é presidente do Belenenses desde 2014

Nuno Botelho

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Há o Yin e o Yang, o Egas e o Becas, a Thelma e a Louise, as cervejas e os tremoços. Enfim, a lista poderia continuar indefinidamente, mas o ponto é este: há ligações que parecem indissociáveis e uma delas é a de um clube com a sua Sociedade Anónima Desportiva (SAD), no caso, do Clube de Futebol Os Belenenses.

Ou melhor, correção de tempo verbal: era a do Belenenses clube com a sua SAD, uma vez que já nada liga as duas entidades. E esse é um dos pontos que Patrick Morais de Carvalho pretende esclarecer definitivamente, no anúncio da sua candidatura a um terceiro mandado enquanto presidente do clube, em conversa com a Tribuna Expresso.

Houve algum momento em particular que te tenha feito avançar para a recandidatura?
Não sei dizer exatamente o dia e posso garantir que não era algo em que pensasse. Mas houve um dia em que percebi que estava na calha uma lista de candidatos cujo objetivo era escancarar as portas do Restelo ao regresso da SAD, o que vai contra a vontade várias vezes expressa pelos sócios do Belenenses em sucessivas Assembleias Gerais (AG). Ora, sabendo que estamos no caminho certo, que temos dado passos seguros, que estamos apoiados em primeiras decisões judiciais que nos são favoráveis, dei por mim a pensar que jamais poderia dormir descansado se não dissesse aos sócios: estou aqui para continuar o caminho que decidimos em AG. Se me quiserem, contem comigo. Se quiserem seguir outra via, respeitarei a vontade. O Belenenses é dos sócios: é o que digo e executo desde o primeiro dia. Vamos cumprir os valores do Belenenses, vamos cumprir a vontade dos sócios.

Que balanço fazes destes seis anos enquanto presidente?
Sou sócio do Belenenses há 30 anos, mas estes últimos seis anos foram fantásticos e inesquecíveis. Tenho colegas ao meu lado desde a primeira hora que são incríveis, de um amor e dedicação ao clube sem paralelo. A situação que herdámos em 2014 é conhecida de todos: partimos abaixo do grau zero. Quando, em 2014, tomámos contacto directo com a realidade, percebemos que estávamos perante uma missão que parecia impossível. Não havia dinheiro nas contas bancárias, a concessão do Bingo estava a acabar, o arrendamento da sala de Bingo da Avenida João Crisóstomo idem, havia vários meses de salários em atraso aos trabalhadores que se encontravam em dificuldades e sem motivação, com um passivo de curtíssimo prazo assustador, sem valores na tesouraria, com a maioria do capital da SAD perdida, sem receitas televisivas e sem receitas de bilheteira.

Foi tudo resolvido?
Resolvemos todos estes problemas, recuperámos as Salésias e lá construímos um campo. Aprovámos o PIP da requalificação do Complexo Desportivo do Restelo. Pelo meio, garantimos a concessão da nossa licença de sala de Bingo para mais 20 anos, pagámos a dívida de 5 milhões de euros ao BANIF/Oitante, originada em 2007 e que constantemente pairava como uma ameaça sobre o clube, e garantimos o pagamento da dívida integral à Segurança Social já em 2020, no valor de 262 mil euros. Também garantimos o levantamento de penhoras e hipotecas constituídas sobre o Complexo Desportivo do Restelo e, tão importante como tudo isto, mantivemos sempre presente a prioridade de assegurar o cumprimento integral das obrigações para com os funcionários do Clube.

E em termos desportivos?
Olha, nós somos um clube desportivo. E isso é que importa mesmo, certo? Mantivemos o nosso ecletismo e a nossa competitividade nas modalidades, que culminam agora com a qualificação em 2019/20 da nossa equipa de andebol para as competições europeias, trabalhámos com a XV, com o nosso rugby e com a Câmara Municipal de Lisboa para inaugurar um complexo próprio, o Belenenses Rugby Park, e colecionámos títulos na modalidade. Acreditando numa aposta forte na formação, onde praticam desporto milhares de atletas e onde desde 2014 já nos sagrámos vice campeões nacionais de juniores em futebol, futsal e voleibol, devolvendo na última época os juniores de andebol à disputa do Grupo A e criando uma Escola de Triatlo orientada pela nossa ex-Campeã do Mundo Anaís Moniz. Subimos a natação da 3.ª à 1.ª divisão, apostámos no desporto feminino e criámos equipas seniores de basquetebol e de futsal e mantivemos a tradição com o voleibol onde somos reconhecidamente uma referência. Mantendo um futebol de formação de excelência e começando com a nossa equipa de futebol sénior na última divisão distrital, averbando já duas subidas de divisão em dois anos. Rumo ao nosso lugar.

Como ficou o Belenenses após esta paragem provocada pela pandemia?
Esta situação é dramática para toda a sociedade, mas nos clubes e associações desportivas o efeito é tremendo. No nosso caso, ficámos privados de toda a competição desportiva, seniores e formação, de todas as modalidades. Temos cerca de 100 trabalhadores com contrato de trabalho e tivemos de recorrer ao layoff, o que é muito penalizador para empregadores e empregados. Aguentámos o barco fruto da gestão criteriosa que fazemos e tenho orgulho em dizer que até ao momento não despedimos um único funcionário e temos os salários em dia. A maior perda, no entanto, é em termos sociais, porque temos milhares de atletas, muitos deles em idade formativa, que estão impedidos de fazer o que mais amam e penso que isso a médio e longo prazo vai ter efeitos muito negativos em todas essas crianças e vai limitar o seu crescimento saudável.

O jornal "Público" revelou esta semana que a B-Sad escondeu salários ao fisco e à segurança social. Que te parece esta situação? Isto prejudica a imagem do clube?
Sabes, votámos contra essas contas em AG, mas são águas passadas. O clube seguiu o seu caminho a partir de 30 de junho de 2018 e nada tem a ver com as práticas de gestão da B-SAD. Recentemente vendemos os 10% que ainda tínhamos. Claro que nos prejudica muito a confundibilidade que eles promovem ao dizerem-se Belenenses, mas, se ninguém quiser resolver, os tribunais farão justiça, porque a razão está do nosso lado.

Esta utilização do nome "Belenenses SAD" irá continuar esta época 2020/21 na Liga e na FPF?
A essa pergunta só há três entidades que podem responder. Primeiro, a B-SAD, que recentemente viu um juiz dizer-lhe que a utilização do nome Belenenses dá, só por si, multa de 3 mil euros por dia, por violação de sentença de uma providência cautelar, os quais serão cobrados, num valor que hoje ronda já os 2 milhões de euros, dos quais metade revertem para o Estado. Depois, a Liga, que está avisada vezes sem conta pelo clube de que é cúmplice na violação de uma sentença judicial, e que continua a negociar com patrocinadores um pacote de benefícios financeiros ancorados, também, na falsa participação do Belenenses. Por fim, a FPF, que como entidade que responde pelo futebol em Portugal, delegando na Liga competências, está também a par da situação, e dela retira dividendos comerciais. Posso garantir que qualquer delas está mais do que avisada de que não tem autorização para utilizar indevidamente as nossas marcas, e que fazê-lo terá consequências sérias, a devido tempo, para quem nela persistir ou a permitir.

Houve algum tipo de aproximação recente ou tentativa de acordo entre a B-SAD e o CF Os Belenenses?
Não houve qualquer aproximação entre a B-SAD e o Belenenses. Houve, como é público, um convite da Federação Portuguesa de Futebol, que nos foi dirigido pelo doutor Fernando Gomes, em janeiro de 2020. As partes conversaram sobre as soluções para a separação imediata, seguindo o Belenenses como Belenenses e a B-SAD como bem a Codecity entendesse, desde que com outra identidade, outro nome e desligada do clube centenário. Nomearam-se, dos dois lados, negociadores, assinou-se tréguas de 40 dias para tentar o acordo e a verdade é que, como quase sempre, acabámos a sentir que estávamos a falar sozinhos. Disse na altura, e digo hoje, que sempre que o Belenenses for chamado para fechar litigâncias, acabar com as usurpações do seu nome, da sua identidade e do seu património para, finalmente, se concentrar nos lados positivos da vida desportiva, cá estaremos. O único principio de que não abdicamos é o de que Belenenses só há um. Tem 100 anos e joga no Restelo, agora na I Divisão distrital, mas em breve estará de volta ao seu lugar, na I Liga.

A venda dos 10% que o clube detinha da SAD, a Ricardo Sá Fernandes, assente num parecer da professora e jurista Maria de Fátima Ribeiro, fechou de vez a ligação do clube à SAD?
Todo o caminho judicial que foi feito está muito bem escudado, não apenas num parecer da professora Maria de Fátima Ribeiro, mas até em pareceres que a própria SAD utilizou noutros processos e aos quais aderiu na totalidade. A partir do momento em que os 10% foram transmitidos ao doutor Ricardo Sá Fernandes, a B-SAD passou a ser uma SAD de raiz, sem clube fundador, e um adversário como qualquer outro. Neste novo mandato é hora de arrumar de vez o assunto B-SAD.

Patrick Morais de Carvalho, presidente do Belenenses, no Restelo

Patrick Morais de Carvalho, presidente do Belenenses, no Restelo

Nuno Botelho

Fala-se na possibilidade da Lei das Sociedades Desportivas poder ser revista, através de um grupo de trabalho encabeçado pelo Secretário de Estado da Juventude e do Desporto, João Paulo Rebelo. O Belenenses foi informado desta situação? O que pensa desta possibilidade?
A lei atual das SAD permite-nos vender as ações que detínhamos e, se a lei ainda obrigar, na altura em que chegarmos às competições profissionais criaremos uma sociedade desportiva detida pelo clube para competir nas provas profissionais. Vamos colocar o Belenenses no seu lugar. Há rumores de que nos corredores se prepara uma alteração à lei, mas qualquer alteração que seja conduzida pelo atual secretário de estado será sempre feita contra os clubes fundadores e contra Os Belenenses. O atual Secretário de Estado comporta-se como o melhor amigo da B-SAD. Quando a B-SAD saiu do Estádio do Restelo, insultando Os Belenenses, abriu-lhe a porta do Estádio Nacional do Jamor em condições financeiras tão benéficas que parecem ser uma ajuda de Estado, mas não temos nada que ver com isso – a B-SAD que jogue onde bem entender, desde que não seja à custa d’ Os Belenenses. Quando o Tribunal proibiu a B-SAD de usar os elementos da marca Belenenses (composta pelo elemento figurativo Cruz de Cristo e o elemento nominativo Belenenses), o Secretário de Estado pouco se importou ou importa que o Estádio Nacional do Jamor seja o palco da prática de crimes de desobediência qualificada e que a B-SAD utilize o património nacional para usurpar o património identitário de um clube centenário como Os Belenenses. Demos conta disso pessoalmente, que não fazia sentido que o Estado aceitasse que o património nacional fosse usado para afrontar os Tribunais, mas o Secretário de Estado chutou para canto e desconsiderou o clube. Entendemos que esta postura não é indiferente, da mesma forma que não é indiferente, em vários planos, aceitar as inscrições da B-SAD violando as marcas d’ Os Belenenses, porque tudo isso são auxílios materiais à utilização abusiva da nossa marca e, ainda pior, à violação das injunções decididas pelos Tribunais.

A lei das SAD deve mudar?
Há pelo menos duas alterações que importa fazer à lei das SAD. Quando uma SAD desrespeita os direitos especiais do clube fundador de uma forma grave e declarada pelo Tribunal, deve ser penalizada por isso, nomeadamente pela retransmissão a custo zero, para o clube fundador, dos direitos de participação nas competições que este transferiu para a SAD. Por outro lado, deve acabar a obrigação de se constituir SAD ou SDUQ para competir, tal como em Espanha. Já se percebeu que em nada o desporto português beneficiou deste novo enquadramento, que veio estrangular até clubes populares. Repara que não estou a dizer que deve ser proibido. Estou a dizer que não fazem falta nenhuma e que só serviram para duplicar a capacidade de endividamento e a qualidade e origem do pouco capital que angariaram é o que todos os portugueses vão observando de norte a sul do país.

Em termos desportivos, que objetivos tem a equipa para esta época atípica?
No futebol sénior claramente queremos ser campeões da I Divisão Distrital e subirmos ao Campeonato de Portugal. Tentaremos também ganhar a Taça da Associação de Futebol de Lisboa, pois era bonito assinalarmos esta nossa passagem pelos campeonatos Distritais da AFL vencendo a Taça, mesmo sabendo que vamos ser muito penalizados porque, devido à pandemia, previsivelmente não vamos ter o apoio dos nossos sócios. Nas modalidades, queremos ser competitivos e fazer os melhores campeonatos possíveis, tendo muita fé nas nossas equipas de voleibol, de futsal, de basquetebol, de râguebi e acreditando que vamos ter uma boa participação nas competições europeias de andebol. Na natação temos estado muito bem e assim queremos continuar, no atletismo e triatlo temos muito espaço para crescer.

E quais os objectivos para o mandato 2020-23, isto se ganhares?
A nossa visão para os próximos três anos é simples: somos um clube com futuro, com com uma missão muito difícil pela frente. Neste mandato temos de colocar a nossa equipa sénior nos campeonatos profissionais, mantendo o rigor orçamental, temos de continuar a desenvolver o projecto de requalificação do Complexo do Restelo, temos de continuar a desenvolver novas acções para reforçar a nossa base de sócios, temos de manter e apoiar o ecletismo e fomentar a prática desportiva, e temos de reforçar, cada vez mais, a nossa sustentabilidade financeira.

Achas que haverá mais candidatos?
Sabes, os nossos grandes adversários são os poderes instituídos que nada fazem. Temos consciência do dever cumprido. Salvámos o clube em 2014, libertamo-lo de vários condicionalismos, de penhoras, de verdadeiras espadas apontadas ao nosso coração, saneámos, estamos neste percurso ascensional com a nossa equipa de futebol, por isso é normal que surjam agora vários candidatos. Mas esses não são adversários do clube. São adversários do caminho seguido pela direção, gente com outras ideias. Se o clube estivesse moribundo, como em 2014, ninguém apareceria, não haveria interessados. Espero que surjam. Cada um com a sua motivação, mas todos serão bem-vindos e o clube só ganhará com uma disputa eleitoral e um forte debate de ideias que permita aos sócios mais uma vez escolherem quem os representa. Num clube, numa associação, se os sócios não estiverem contentes com o seu presidente e os seus órgãos sociais, escolhem outros e já está. É a democracia a funcionar. As urnas são sempre o melhor barómetro para aquilatar do mérito do nosso trabalho.

Versão alargada de entrevista publicada na edição de 29 de agosto de 2020 do Expresso.