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Carlos Freitas: “O Vitória é super interessante para jovens potros que se queiram afirmar e estejam tapados no seu crescimento”

Foi campeão em Portugal, esteve na Grécia (Panathinaikos), em França (Metz) e em Itália (Fiorentina), onde deixou amigos antes de chegar a Guimarães, no verão de 2019, para ser diretor-geral do Vitória SC, que não cumpriu os objetivos classificativos na primeira época. Em entrevista à Tribuna Expresso, Carlos Freitas explica a política de contratações do clube, o investimento em jovens das maiores ligas da Europa (alguns até campeões europeus de seleções), o gosto que tem pelo projeto da Red Bull no futebol e o porquê da aposta em Tiago Mendes, que terá a primeira experiência como treinador principal e, entretanto, já concluiu o IV Nível: "Não vejo como será esse diploma a fazê-lo mais ou menos preparado para o desafio"

Diogo Pombo

Octávio Passos

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Por causa deste turbilhão do Messi, já lhe aconteceu na carreira, de repente, o de longe melhor jogador da equipa lhe vir dizer que quer sair do clube?
Tive até em dose tripla. Estou a lembrar-me da época 2002/03, quando houve o problema do João Pinto relacionado com a expulsão no Mundial de 2002, o Jardel que, entretanto, desapareceu, e o [Marius] Niculae que ficou sem os [ligamentos] cruzados. Ou seja, o que era um ataque decisivo na conquista de um campeonato, de um momento para o outro ficou completamente amputado. Se não estou em erro, durante os primeiros dois meses da época o João estava conquistado, o Niculae demorou outros seis a recuperar da lesão e o Jardel, entretanto, voltou, mas demorou o seu tempo.

Qual é a melhor coisa que um diretor pode ter numa situação destas? Um plano B, ou C, já preparado?
Depende do pulmão financeiro que exista. Acredito que o Barcelona não encontrará nenhuma peça de reposição parecida, mas encontrará alguém do top mundial. Na altura, a economia portuguesa não permitia encontrar peças como aquelas três. Para um clube português era uma situação muito difícil, para não dizer inultrapassável, a não ser esperar pela recuperação dos que se aleijaram, estavam castigados e da saúde mental do Jardel, que estava nitidamente perturbado, digamos assim.

Já fechou alguma contratação hoje?
Ainda não.

Se não me falham as contas, o Vitória já contratou 11 jogadores para a próxima época [entretanto, já são 12]. Há muita gente nova a chegar. Já tinham este plano traçado há muito tempo?
O plano, basicamente, foi traçado desde agosto de 2019, quando o presidente [Miguel Pinto Lisboa] tomou posse e me contratou. Foi feita uma primeira avaliação dos recursos internos, da massa salarial existente, da capacidade e do potencial em termos de rentabilização, e a partir daí concebeu-se uma estratégia e um plano que tem vindo a ser aplicado ao longo dos meses e que teve bastantes reflexos em termos de quadros humanos neste defeso. Mas não é fruto de nenhum impulso, é fruto, isso sim, de uma estratégia que está a ser aplicada.

Qual é o padrão dessa estratégia?
Passa por mitigar a diferença que existia e, de alguma forma, ainda existe, em termos empresariais. O Vitória tem um income fixo na casa dos €11 milhões e pouco, e tem uma despesa anual na casa dos €20 milhões. Ou seja, tem que se trabalhar em vários binários: o do presente, em termos de programação, futebolísticos e de marketing, em que obrigatoriamente temos de ser capazes de angariar mais receitas fixas e, ao mesmo tempo, baixar os custos fixos, a massa salarial. Quando se aposta num segmento etário de maior juventude, e o Vitória tem uma marca e uma plataforma super interessante para jogadores deste padrão - jovens talentosos, jovens potros que se queiram afirmar e estejam, de alguma forma, ainda tapados no seu crescimento. O Vitória oferece visibilidade, oferece pressão, oferece competitividade e tudo isso é muito apelativo para jogadores provenientes dos campeonatos mais importantes da Europa. Isso permite-nos controlar os custos salariais e ter uma perspetiva de curto médio prazo muito mais visível em termos de rentabilização desses jogadores, do que se eles tiverem 28 ou 29 anos e serem, maioritariamente, provenientes do Brasil. Nada contra o Brasil, pelo contrário, mas, quando se trata de transações, há sempre problemas relacionados com passaportes e em encaixá-los, depois, em campeonatos que pagam mais.

Há um perfil de jogador identificado?
Claramente. Fazemos uma grande destrinça entra aquilo que é custo e o que é investimento. Para nós, custo passa por contratar um jogador de 27, 28 ou 29 anos, a ter de pagar custo de transferência, não é propriamente a nossa vocação. Não quer dizer que não estejamos atentos, mas em situações como fins de contrato ou trocas de jogadores que, por uma razão ou por outra, estão em situação de poder deixar os seus clubes e nós podemos adquiri-los para virem dar corpo ao plantel. Mas, em termos de investimento, o objetivo é sermos cada vez mais competitivos e apelativos a partir dos 16 anos, que é a idade onde estamos a começar a direcionar o nosso olhar, porque é a partir daí que podemos fazer o primeiro contrato profissional.

Esse olhar implica, também, um reforço da aposta na formação?
Que tem sido feita de forma gradual desde que o presidente Miguel Pinto Lisboa tomou posse, porque vínhamos de anos em que tivemos autênticas razias, em que os melhores jogadores foram para o Benfica e o FC Porto, basicamente. E nos últimos meses foram feitos 12 contratos profissionais com os melhores jogadores que tínhamos em termos internos, nomeadamente do Herculano, que foi um jogador muito badalado pela cobiça de que estava a ser alvo de campeonatos mais poderosos do que o nosso.

Octávio Passos

Jacob Maddox veio do Chelsea, Lyle Foster do AS Monaco, Jonas Carls do Schalke. São miúdos que vêm dos campeonatos grandes, onde há mais dinheiro. É difícil convencer jogadores destes a virem para o Vitória?
Há que explicar bem ao jogador e à sua entourage aquilo que vão encontrar. O facto de ter acontecido, na época passada, exemplos como o do [Marcus] Edwards e do [Denis] Poha funcionaram muito como cartões de visita. O próprio [Nicolas] Janvier, que tinha sido campeão da Europa de sub-17, fez 12 jogos na primeira equipa do Rennes, depois teve um período de maior apagamento pela mudança de treinador, aceitou e comprou a ideia de vir para a equipa B durante um ano e, passado esse ano, está na equipa principal com o contrato renovado, o que demonstra a consistência da ideia que estamos a passar. A partir daí, quando explicamos o que vão encontrar, o processo que não enfrentar, o entorno que os vai ajudar a consolidar a carreira, felizmente temos tido algum sucesso nessas abordagens. Outro dos padrões com o qual temos tido cuidado nos tem a ver com a morfologia do jogador que estamos a procurar. O jogo nos últimos tempos, no nosso entendimento, teve algumas mutações. A relação com bola, para os latinos, continua a ser o primeiro critério de aquisição, mas dados como o número de duelos ganhos e a intensidade a que os jogadores são capazes de repetir as ações fazem com que a morfologia do jogador seja cada vez mais importante, o que também está bem plasmado no tipo de jogadores que chegaram.

Isso é um reflexo do peso da análise de dados no vosso departamento de scouting?
Necessariamente.

Quando fala em morfologia, o Maddox, por exemplo, mesmo não jogando exatamente na mesma posição, tem o mesmo perfil que o Edwards: ágil, rápido com bola e a executar.
Quando pensamos em jogadores para os corredores ofensivos, obviamente que a destreza e a capacidade de jogar em espaços reduzidos, a competência no um contra um e no drible são mais possíveis de encontrar em jogadores de morfologia diferente, mais baixos, do que propriamente num central, como é óbvio. Os atributos têm de ser outros.

Gualter Fatia/Getty

De todos os jogadores até agora contratados, só o Bruno Varela tem mais de 23 anos e é guarda-redes. A falta de experiência de jogo não vos preocupa?
É um dado objetivo. Agora, a idade não está necessariamente ligada à experiência. Há jogadores com 26 anos com muito menos experiência do que jogadores com 21 anos. Lembro-me, por exemplo, que o João Mourinho fez a final da Taça UEFA em 2005 como sub-19, era um jogador que, aos 23 anos, já tinha uma enorme experiência internacional. Não temos nenhum caso desses a chegar a Guimarães este ano, mas há casos de jogadores com 27 anos com muito menos tempo de jogo em competições a sério e experiência internacional do que alguns dos que chegaram este ano. Curiosamente, um dos dados que está evidenciado no plantel do Vitória é termos seis campeões europeus dentro de casa. A esmagadora maioria é proveniente de formações onde a cultura de vitória é muito presente e isso também vai contar bastante no que vai ser o seu processo de evolução e de imposição.

Mas qual é a política desportiva do Vitória neste momento?
Passou a concentrar-se muito em dois vetores: a futebolística, na sua verdadeira essência, em que optamos por uma vertente muito mais europeísta do que sul-americana ou africana, com capacidade de penetração nos principais mercados, onde, além da relação com bola, também há uma grande preocupação com dados físicos, para se produzir uma equipa competente, atrativa e capaz de, quando for possível, voltar a encher o estádio; em paralelo, há a preocupação empresarial, que é a criação de valor em termos internos, porque não adianta estar a criar uma ideia de que isto não é necessário. É necessário vender, agora, a transformação de um ciclo vicioso num ciclo virtuoso dar-se-á quando o Vitória, de seis jogadores de elevado potencial, for "obrigado" a vender dois, mas ser capaz de reter quatro. Obviamente, as grandes equipas fazem-se de alguma constância e pretendemos, ao longo do tempo e tanto quanto for possível, sermos capazes de reter o valor que estamos a recrutar e a produzir internamento. A aguentá-los mais anos dentro de casa. Aí, penso que estaremos a conseguir passar de um ciclo vicioso para um ciclo virtuoso.

Queria aguentar o Tapsoba durante mais tempo?
Necessariamente. Até à transferência do Edmond, a transação mais elevada do Vitória era menos de metade do que a do Tapsoba [€18 milhões]. E por aqui passaram grandes jogadores no passado recente, estou a lembrar-me do Raphinha, que terá sido a venda mais cara antes do Tapsoba, mas que rendeu €6,5 milhões.

Foi difícil segurar o Marcus Edwards ou a pandemia ajudou?
Vejo-o mais satisfeito, mais sorridente e a interagir mais nesta pré-época do que no ano passado. Inclusivamente pediu para mudar de casa. Portanto, a satisfação dele também é a nossa, sabemos que dificilmente ficará toda a carreira em Guimarães, sobretudo quando o Brexit for uma realidade presente a todos os níveis, mas é alguém que sabemos que os adeptos adoram e estamos muito satisfeitos por o ter connosco.

Já fala português?
Não. É muito fechado, mas há-de lá chegar.

Em novembro, disse que a única coisa que faltava ao Vitória para ser como o Nápoles ou o Marselha era o dinheiro.
Falo da paixão que existe na cidade, de toda a envolvência, porque acho que é a única cidade do país onde, maioritariamente, as pessoas são do clube da cidade. Haverá, residualmente, adeptos de outros clubes, mas eles não se manifestam. Aquilo que se nota é uma paixão enorme pelo Vitória, é uma extensão do corpo de cada um.

Octávio Passos

Existe uma identidade definida para o Vitória? Uma forma de jogar e um estilo que querem para o clube?
Vou dar-lhe um exemplo. Uma das razões da vinda do Dominik Glawogger para a equipa de sub-23, proveniente da escola austríaca e com trabalho no futebol alemão, tem a ver, também, com o pensamento estruturado dentro de casa. É reconhecida, e muita, a competência do treinador português nos últimos anos, só que, no meu entender, começa a haver um excessivo enfoque no que é a periodização tática. Ou seja, a construção da esmagadora maioria das equipas é muito semelhante, com o 6 a baixar entre os centrais, com a projeção dos laterais quando em posse de bola, com as diagonais interiores dos alas no apoio ao ponta de lança. A vinda do Glawogger tem a ver com a introdução de uma peça diferente numa fase de pós-formação, pós-sub-19, onde conceitos como a pressão alta, o pressing, a importância do duelo, do esforço e da repetição do esforço pode ser um aditivo num processo de pós-formação. Idealizamos a construção do melhor jogador possível, onde, claro, num clube como o Vitória o primeiro critério tem ser a relação com bola, porque é isso que muitas vezes faz a diferença quando 70% dos adversários que vêm jogar a nossa casa já vêm em bloco baixo. Logo, a relação com bola, a qualidade de drible e a fantasia têm de ser aspetos muito presentes. Mas, cada vez mais, e volto a repetir, a morfologia, a capacidade física e o espírito de sacrifício são dados muito importantes quando se quer objetivar a vitória. E a vinda deste treinador, com outro tipo de escola, para nos confrontar a todos com outro tipo de princípios, é algo que também suscita alguma curiosidade e é fruto de um pensamento estruturado.

Os sub-23 são o último filtro para os jogadores, no fundo, entrarem no futebol sénior. Portanto, é sobretudo aí que o Vitória quer impactar?
Perspetivamos começar a ser mais impactantes a partir dos sub-17. Entendemos que é aí, nesses segmentos, que o Vitória pode ser mais competitivo em termos de mercado. Vamos ser claros: se o Vitória for com uma equipa de olheiros para o Mundial de sub-20, dificilmente via ter capacidade em tocar em alguns dos maiores destaques. Por outro lado, se for um Europeu de sub-17, em determinadas seleções pode ser possível chegar lá e, ao mesmo tempo, é possível começar a referenciar aqueles que, por uma razão ou por outra, começam a ficar tapados nos grandes clubes franceses, alemães, espanhóis, ingleses ou italianos, e a quem nós já identificámos qualidade.

Nessa fase em que definem os jogadores a acompanhar, é sempre tida em conta a opinião do treinador da equipa principal?
Os treinadores têm sempre um papel super relevante numa estrutura deste tipo. São eles que identificam necessidades e características que estejam subjacentes à sua ideia de jogo, o que não invalida que o clube tenha a sua própria matriz identificadora e recrutadora de talento. Sabemos que não estamos no clube mais poderoso do clube em termos económicos. Sabemos que qualquer indivíduo que esteja em grande destaque no Vitória pode ser alvo de cobiça. Não nos adianta estar a pensar que chegar ao Vitória é o fim da linha, por enquanto não é, é um passo intermédio, como se viu com o Tapsoba. O que não invalida que, cada vez mais, sejamos mais ambiciosos em perspetivar a retenção de todo o tipo de talento que sejamos capazes de produzir internamente ou recrutar fora de casa.

O Tiago foi ouvido e tido em conta no processo de contratação de todos os jogadores que chegaram?
Todos, à exceção de um, foram alvo de partilha e de discussão com o Tiago.

E isso teve em conta a forma de jogar do novo treinador?
Sim, a ideia de jogo que apresentou e partilhou connosco sobre o que pretendia implementar e o tipo de características que procurava. Obviamente que, para chegarmos a este resultado, houve inúmeros jogadores que foram vistos e avaliados. Tivemos me linha de conta a idade, o tipo de formação que tiveram, o desempenho mais recente, o histórico de lesões, tudo isso foi contemplado, além da parte financeira, que é fundamental enquadrar no que é o nosso orçamento. Mas todos, com exceção de um, foram partilhados com o treinador.

Quem foi a exceção?
Não lhe posso dizer, por enquanto [ri-se]. Até porque é um processo antigo e ainda não está fechado. Ainda vai haver um ou outro retoque, seguramente.

David Ramos

Vai ser a primeira experiência do Tiago, enquanto treinador, numa equipa sénior. Qual é a forma de jogar que ele quer implementar?
Vou repetir a resposta dele na sua apresentação, que foi "esperem para ver".

Porque escolheram o Tiago?
Estamos a falar de um processo que contemplou o tipo de jogadores que vamos ter, o tipo de jogadores que pretendemos ter e que tipo de appeal pretendemos ter. O Tiago oferece-nos um percurso imaculado em termos profissionais, convivência ao mais alto nível, uma cultura de exigência profissional permanente, com uma riqueza intelectual que lhe permite, hoje em dia, ser capaz de participar ativamente em qualquer tipo de conversa que envolva uma SAD - relativamente à equipa de futebol -, e capaz de comunicar diretamente em quatro línguas. Isto num plantel que tem várias origens, são tudo dados, para nós, altamente positivos. Claro que se coloca a questão de ser a primeira experiência. Curiosamente, passadas duas ou três semanas, a Juventus, que tem um padrão de exigência infinitamente maior do que o nosso, anunciou o Andrea Pirlo. E muitos dos que estavam a ser céticos passaram a ser menos céticos. Não é a escolha do Pirlo que nos vai tornar mais orgulhosos da escolha que fizemos, sabemos que o que vai contar são os 90 minutos de cada jogo. Mas qualquer grande treinador teve a sua primeira experiência. Quando o José Mourinho chegou ao Benfica muita gente o apelidava de tradutor do Bobby Robson. Já tinha tido uma experiência com o Van Gaal, mas muitas vezes era apelidado de forma depreciativa. O próprio Guardiola, depois de perder com o Numancia e empatar com o Santander nos dois primeiros jogos, faz um jogo com o Sporting para a Liga dos Campeões, quando já havia muitas críticas, e a partir daí encarrilou até ao ponto onde chegou. Não estou a pôr nenhum peso no Tiago, nem a compará-lo com qualquer um. Digo que entendo a curiosidade, que posso encarar como normal e natural, não entendo o ceticismo. Felizmente, acabou agora o IV Nível, mas não vejo como será este diploma a fazê-lo mais ou menos preparado para o desafio que vai abordar. Tem uma experiência futebolística riquíssima, tem uma vivência e mundo, é capaz de comunicar e partilhar muito facilmente o que são os seus conceitos, quer para baixo, para cima, quer para os lados. E acho que isso é fundamental no futebol de hoje.

Quase só destacou capacidades sociais e humanas, soft skills. Considera isso o mais importante num treinador?
Acho que a capacidade de arregimentar e de levar um grupo consigo passa muito pela capacidade de sedução de cada um. O conhecimento está hoje em dia ao dispor das mais variadas formas, que através dos cursos, quer de plataformas e de livros. A teoria está ao acesso de qualquer um de nós, depois a forma como vamos utilizar esse conhecimento aqueles que são os nossos comandados passa muito pela capacidade de convencimento que será capaz de ter junto dos seus jogadores.

De fazer toda a gente acreditar que este é o melhor caminho a seguir?
Dou-lhe um exemplo muito recente. O Maurizio Sarri não piorou como treinador entre o Nápoles e a Juventus. O perfil de jogador da Juventus é muito diferente do do Nápoles. O tipo de discurso do Sarri, em Nápoles, teve sucesso, mas em Turim não foi bem sucedido. Isto não tem a ver com o conhecimento ou a competência dele. Tem a ver com diferentes interlocutores, que necessitam de diferentes abordagens. Isso tem muito a ver com a inteligência e sensibilidade do líder para saber a que público se está a dirigir.

Porque acha que se desconfia tanto dos treinadores sem experiência em equipas seniores?
Muitas vezes, o desconhecido provoca receio. Se perguntarmos, há pouca argumentação. Receamos porque sim, porque ainda não o vivemos. A minha ideia é que muitas das grandes descobertas não teriam acontecido sem alguma ousadia da parte de quem as concebeu. Não estamos a adjetivar descobridores do que seja. Recuando 15 anos, quando o Paulo Bento passou a treinador do Sporting, vindo dos sub-19, também foi uma ideia um bocado arrojada, ao princípio muita gente se questionou, mas o que sei é que esteve quatro anos no Sporting, ganhou duas Taças de Portugal e duas Supertaças, fez quatro apuramentos consecutivos para a Champions, e dali foi para a seleção nacional e foi semi-finalista de um Europeu. Serão trajetos semelhantes? Espero que o Tiago seja melhor sucedido em termos de títulos nacionais. Estamos a falar de dois ex-centrocampistas, que jogavam na mesma zona do campo, com características humanas muito parecidos, duas pessoas muito bem formadas, mas acho que o Tiago tem um plus. Teve outro tipo de desafios enquanto jogador que o obrigaram a outro tipo de desempenho e pressão nos clubes por onde passou. Com todo o respeito pelo Real Oviedo e pela carreira do Paulo, acho que o Tiago teve outro tipo de desafios que obrigaram a dar respostas diferentes.

É preciso mais arrojo para apostar em treinadores novos, como o Tiago, ou para apostar num jogador jovem, que nunca tenha jogado no escalão sénior?
Tem que haver, acima de tudo, convicção. É preciso algum arrojo, mas estar seguro do que se está a fazer. Não acredito que o Arsène Wenger, quando lançou o Fàbregas no Highbury Park, o tenha feito por capricho, só para experimentar. Houve conhecimento, houve um trabalho prévio, que teve como expressão o lançamento do Fàbregas, com 16 anos, numa equipa top. Há jogadores, em termos de maturação, com um processo evolutivo mais acelerado. Hoje em dia, a capacidade cognitiva é cada vez mais fundamental: como se lida com a pressão, a exigência e com aspetos comportamentais, como as coisas a que o jogador profissional se tem de privar para chegar ao topo. A comunicação é também um dado cada vez mais presente no que um jogador deve ter. Cada vez há mais parâmetros que levam ao sucesso e ao insucesso e, da parte de quem dirige, temos de estar preparados para dar respostas.

Octávio Passos

Há quanto tempo pensava no Tiago para o Vitória?
A partir do momento em que tomamos a decisão de que esta época passaria por uma alteração de equipa técnica, elencamos três treinadores, dentro do mesmo perfil, vimos os prós e contras de cada um deles e chegámos ao nome do Tiago.

O presidente aceitou logo?
Não partiu, necessariamente, de uma proposta minha. Vamos por partes. Hoje, no Borussia Mönchengladbach, está o Marco Rose, que passou pela equipa de sub-19 do Red Bull Salzburgo, vence a UEFA Youth League, chega à primeira equipa, faz uma meia-final da Liga Europa e chega ao Borussia, onde se bate pelo apuramento para a Liga dos Campeões. O Jesse Marsch veio dos EUA, do New York Red Bulls, chega à Europa, também ao Salzburgo. Não é, necessariamente, o nome mais conhecido que está mais preparado e identificado para o que é a nossa ideia. O Vitória não tem a capacidade de comprar e ser apelativo para um treinador super mediático, extremamente bem remunerado e que venha implementar a sua ideia, em Portugal, com um orçamento como o do Vitória. É fundamental que o Vitória tenha a sua própria ideia e seja capaz de identificar treinadores que sejam capazes de desempenharem esse papel. Fala-se muito em projeto, na ideia de jogo de um treinador, e tenho o maior respeito pela função, mas, em clubes deste tipo de dimensão, o maior problema é que se entregarmos a chave de todo o processo a uma pessoa, se de hoje para amanhã, um treinador que receba uma proposta de €2 milhões, o Vitória será capaz de o reter? É impossível. Então virá outro, provavelmente com outra ideia, e vamos ter que ajustar de novo, e aí vamos chegar aos €11 milhões de receitas para com os €20 milhões de custos. Pelo contrário, se, da parte do clube, houver uma ideia precisa de onde está, se tiver um plano a três ou cinco anos e, de forma mais estendida, procurar visualizar a próxima década, haverá vários passos que têm de ser dados, quer em termos futebolísticos, quer empresariais, para cada vez mais o break even ser uma realidade e quando se faz uma venda ela seja sinónimo de melhoria infraestrutural. E o treinador ser sempre uma parte integrante de um projeto concebido há anos e ele venha, pontualmente, trazer o seu contributo, mas não venha alterar uma ideia que está a montante.

E que essa ideia seja, também, cada vez mais reconhecível por quem possa vir treinar?
Felizmente, nesse processo identificativo já tivemos muito pouca dificuldade, este ano, em explicá-lo ao Tiago e aos jogadores. Houve factos que aconteceram no último ano em que fizeram com que a ideia começasse a ser mais visível. Desde os casos do Marcus Edwards e do Poha, quer como a contratação do Abouchabaka ou do Suliman, todos eles já fizeram parte de uma ideia que foi sendo implementada.

Quando foi essa altura na época passada em que decidiram não ficar com o Ivo Vieira?
Não consigo precisar. A própria vivência da época passada foi permitindo ver que havia ajustes para fazer, quer em termos de composição de plantel, quer em termos de liderança do plantel, que não decorrem de nenhum episódio, de nenhum defeito pessoal que tenham encontrado. É perfeitamente legítimo a qualquer pessoa ter a sua própria ideia. As ideias não eram completamente compatíveis em termos do que somos e daquilo que queremos ser. Quem lidera o processo é a administração, que entende que o diretor-geral também deve fazer parte desse núcleo de decisão e em conversas com o presidente chegámos à conclusão que era necessário mudar. Não consigo precisar o mês, nem foi porque encontrámos um defeito pessoal ou um problema incompatível com quem estava. Simplesmente, entendemos mudar por entendermos que, para o caminho que pretendemos trilhar, ter outro tipo de perfil era fundamental.

Teve então que ver com o 7.º lugar em que o Vitória acabou, após o presidente dizer que o objetivo era ficar entre os cinco primeiros?
Obviamente que foi uma deceção, até porque entendíamos que o plantel dava todas as garantias. Quando fomos para confinamento, o Vitória estava a um ponto do 5.º lugar e não fossem dois resultados tremendamente negativos, em casa, contra o Moreirense e o Gil Vicente, em que até estávamos a ganhar, e teríamos ficado dentro do objetivo. Mas não teria sido o 5.º lugar a não fazer com o que mudássemos de liderança técnica.

As competições europeias interessam muito ao Vitória para mostrar os jovens que têm e valorizá-los?
Interessam bastante, sobretudo, se tivermos um bom desempenho, porque se formos à Europa e fizermos seis jogos e um ponto, e tivermos deslocações ao Cazaquistão, à Bielorrússia e Noruega, provavelmente não vai dar para a despesa de ir à Liga Europa. Agora, se formos e tivermos bom desempenho, seguramente que todos nos estamos a valorizar, assim como se tivermos um bom desempenho em termos internos. Até porque, hoje em dia, o campeonato português será, a seguir ao top-5, um dos mais seguidos.

Já fez várias referências à Red Bull. Gosta do projeto?
Gosto muito porque, lá está, é um projeto ao qual está subjacente uma ideia. É evidente que há ali uma capacidade financeira enorme, mas atrás está uma grande ideia, porque mais do que injetar camiões de dinheiro, ou neste caso latas de dinheiro, está uma ideia muito bem concebida e aplicada, que é bem identificada e tem sido um sucesso incrível. Mas também sou apreciador de outras realidades, como a da Atalanta, que tem uma ideia fantástica, tive a oportunidade de acompanhar e sou amigo do diretor-desportivo [Giovanni Sartori]. O Dortmund também tem uma ótima ideia nos últimos anos. E não estamos a falar de clubes que ganham sempre e até têm muita dificuldade em serem campeões nos próprios países, mas isso não invalida a competência das pessoas que lá trabalham.

Conheceu o Ralf Rangnick, que esteve à frente do projeto da Red Bull durante muitos anos?
Pessoalmente não, mas sei o percurso que tem tido, sei para onde esteve para ir, até fiquei contente que não tenha ido porque significou a permanência de um amigo meu, o Stefano Pioli, que foi meu treinador na Fiorentina.

Prefere ser diretor desportivo ou diretor-geral?
Cada vez mais a qualidade do diretor desportivo passa por ter grandes noções de direção-geral. Porque é impossível ver o sucesso do fenómeno futebolístico sem estar interligado com vários departamentos - comercial, marketing e comunicação. Ou seja, tenho de sentir as dores dos outros departamentos, assim como os outros departamentos têm de sentir as minhas dores. Falando do sítio onde estamos, grande parte do crescimento do Vitória passa por departamentos como o comercial e o marketing sejam capazes de evoluir, como a comunicação está e vai evoluir, com a chegada do André Viana, por exemplo, ou com a agressividade que a equipa de futebol pretende apresentar. No dia em que formos capazes de ter mais receitas fixas, entre o comercial e o marketing, provavelmente aquela diferença entre os €11 e os €20 milhões será mais reduzida e estaremos todos a contribuir para sejamos mais fortes.

É bom para um diretor desportivo ter um diretor-geral, acima dele, que já tenha sido também diretor-desportivo?
Acho que é fundamental, também, um diretor-geral ter a sensibilidade para o futebol. Muitas vezes há coisas que são entendidas como capricho, e não o são. Cada vez mais, uma equipa técnica tem exigências, a este nível, que alguém que não tenha sensibilidade para o futebol pode achar supérfluas. Hoje fala-se de drones, de providenciar dois camiões TIR para deslocar dois ginásios para o local de estágio, ou seja, há despesas que fazem alguém frio em relação aos números levar as mãos à cabeça. Por outro lado, quem tiver noção do que é o acompanhamento de uma equipa consegue enquadrar esse tipo de pedidos dentro de necessidades que são prementes para o desenvolvimento da tarefa.

Como é a sua relação com o Flávio Meireles?
Boa, porque entendo que quem chega tem sempre a responsabilidade de se adaptar. Conheci o passado do Flávio e a história que tem neste clube, era ele que tinha e tem e nomenclatura de diretor desportivo, o respeito é recíproco, porque ele sabe que fui convidado para vir para o Vitória, não vim apresentar-me à porta do Vitória para ocupar o espaço de ninguém. Temos tido um relacionamento bom e profissional e estou seguro que, esta época, vai ser melhor ainda.

Vai ser um dos professores no curso da FPF para diretores. Isto é uma coisa que se ensina assim?
Não há nenhum caráter mitológico na função. Passa, acima de tudo, por uma grande paixão pela atividade. Claro que há que conhecer jogadores e ser competente nas relações humanas. A capacidade de comunicar acima, abaixo e aos lados está sempre presente, porque é tão importante ter uma boa relação com o presidente, como com o treinador, como com as direções que estão ao nosso lado. É fundamental ter um conhecimento daquilo que é a realidade e potencial financeira do clube onde estamos, daí achar fundamental, para um clube como o Vitória, fazer um benchmarking, para balizar qual o valor da sua camisola, da sua bancada, no naming do estádio, etc. Porque cada vez mais há a necessidade de ir procurar receitas onde elas estiverem. A função de diretor-desportivo passa muito por isto: o conhecimento de jogadores, de treinadores, a capacidade de ouvir e de intervir, dar palco quando é necessário e assumir a condução do processo, ser um elo de ligação e, muita vezes, ser um partner de quem está ao lado.

É imprescindível ter um passado no futebol, seja qual for?
Há casos de ex-jogadores que deram até grandes CEOs e o exemplo do Karl-Heinz Rummenigge [Bayern Munique] é paradigmático. Já houve casos de grandes jogadores que, quando acabaram a carreira, tentaram ser diretores desportivos e foram um insucesso completo e o mesmo se aplica na função de treinador. Acho que o facto de ter sido um grande jogador não é salvo conduto para rigorosamente nada. Quando iniciam outra atividade vão a jogo como todos os outros e, a partir daí, é a competência de cada um que dita. Sei que, muitas vezes, isso pode ser um estigma para alguns.

Tem algum diretor desportivo que sempre tenha admirado?
Tenho grande apreço pelo trabalho do Monchi, que como jogador não fez grande carreira, mas como diretor desportivo, em Sevilha, tem sido impressionante, no entendo acompanhei a experiência dele em Itália [AS Roma] e chegou-me a confidenciar que se sentia no meio de um inferno, e não deixou de ser mais ou menos competente por causa disso. Tenho ótima relação com o Leonardo [PSG], que foi meu colega de curso em Coverciano, porque éramos os únicos diretores desportivos estrangeiros em Itália e a federação obrigou-nos a fazer o curso. E, em Portugal, tenho grande apreço por vários. O Antero Henrique fez um muito bom trabalho no Porto e em Paris. O Miguel Ribeiro [Famalicão] tem feito sistematicamente bons trabalhos. O próprio Mário Jorge Branco, que está sem clube, foi a jogo em vários contextos diferentes, mas teve na Polónia, na Croácia, na Grécia, portanto, não é fácil alguém desafiar-se em contextos tão diferentes. É óbvio que quem ganha tem sempre méritos mais reconhecidos, mas há contextos muitos difíceis onde se nota a qualidade da intervenção do diretor desportivo. Depois, também o Giovanni Sartori [Atalanta], o Michael Zorc [Dortmund] e o Luís Campos [Lille].

Hoje em dia ainda há clubes que não têm diretor desportivo, ou um diretor para o futebol. Porquê?
Tudo é legítimo, desde clubes onde o presidente manda em tudo, ou presidentes que delegam no treinador a função de escolher e contratar, e, felizmente, acho que a função está cada vez mais reconhecida. Não digo que esteja para breve, em Portugal, o que é obrigatório em Itália desde os anos 60: no licenciamento dos clubes na federação, têm de indicar um diretor desportivo que esteja qualificado para o exercício da função. Ou seja, não basta ter sido ex-jogador ou ex-internacional para queimar etapas, tem de fazer um curso. Como o é para team manager ou para scout. Nesse aspeto, acho que a FPF tem dado passos importantes na qualificação dos seus quadros.

Acha que a função está a ser mais bem vista pelos adeptos?
Vou-lhe dar o exemplo de um clube que não tem diretor desportivo no clube, em termos de nomenclatura, mas, se ganhou, os seus adeptos estão satisfeitos. Ganhando, é muito mais fácil haver satisfação das pessoas. De qualquer forma, tenho muito poucas dúvidas que, tendencialmente, será unânime a presença de diretores desportivos nos clubes.

Quantos anos se vê a ficar no Vitória?
Enquanto me fizerem sentir como me sinto até hoje, com a confiança que me tem sido dada e com o ambiente de trabalho que tenho encontrado desde que cheguei. Sabia para o que vinha, sabia que os meios não eram ilimitados, sei que é necessário fazer um caminho para criar valor, sei da paixão e da envolvência dos adeptos, sei que uma Taça de Portugal, num clube quase centenário, é pouco para a sua dimensão. Não digo que o sucesso desportivo venha amanhã, mas há que criar condições para que isso não aconteça de forma casuística, mas sim de forma consistente.

*versão completa da entrevista originalmente publicada na edição de 5 de setembro do Expresso.