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"Reunir conceitos do futebol antigo, dar-lhe ordem, misturada com criatividade, é o que faz de Rinus Michels diferente dos demais"

Francisco Javier Roldán escreveu o livro "Rinus Michels, a escola holandesa chega ao Barça", no qual visita os vários treinadores daquele país que se sentaram no banco do Camp Nou e as suas influências. Johan Cruijff era especial, Rinus Michels vivia no futuro e Ronald Koeman não terá vida fácil. Em conversa com a Tribuna Expresso, o escritor explicou isso e muito mais

Hugo Tavares da Silva

Peter Robinson - EMPICS

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Tenho de começar por aqui: como vês o Barça neste momento?
Hombre, eu e praticamente todo o mundo vemos que há um verdadeiro caos no clube, na cúpula. Começou por apostar num treinador que não era muito, muito próprio do que vinham fazendo, com a opção de Valverde, mesmo com o seu passado no Barça como jogador. Quiseram emendar com Setién e agora com Koeman, mas realmente o problema vai mais além do banco, parece-me. Também vemos [o presidente] Bartomeu a apostar muito em contratações para a equipa B. Digamos que no lugar da formação procuram um pouco manter-se na máxima categoria. Teme-se que os títulos primam sobre outra importância estrutural que tem o clube enraizada desde, pelo menos, Johan Cruijff, e isso derivou um pouco na crise que há, deixando descontentes tanto jogadores como diretores, que saíram, e a massa social e tudo o que gira à volta do Barça. Vejo a situação um pouco negra, venha Koeman, venha quem vier, sobretudo depois da história de Messi [a entrevista foi feita antes do desfecho deste tema], que foi a gota de água. Vamos ver…

Recentemente li que quando as coisas estão mal no Barça chama-se um holandês. É assim ou é um mito?
Ahhm… Bueno… Se olharmos para a história, parece que coincide. Rinus Michels foi o primeiro que chegou, nos anos 70. Foi o Montal, o presidente na época, que apostou nele depois da década de 60, que foi negra para a história do clube. Apostou primeiro no Vic Buckingham, que era um inglês que tinha muita relação também com Michels, mas certamente sim, a década de 60 culminou num treinador holandês. Depois, na década de 80, já com Terry Venables, com aquela liga que ganhou e com a final da Taça dos Campeões Europeus perdida, no [estádio Ramón Sánchez] Pizjuán, parecia que o clube se estava a estabilizar, mas novamente houve vários anos maus e acudiu-se a Johan Cruijff. Não sei se era casualidade. Com Van Gaal foi só por um ano, depois de Bobby Robson, que foi exitoso. Mas acudiu-se a Van Gaal para voltar a retomar essa linha holandesa que dizes, ainda que Van Gaal e Cruijff sejam diferentes em muitos conceitos, que pediam mais os adeptos do que [o presidente] Nuñez. Nuñez, digamos, deixava-se levar. Com Rijkaard foi igual. O lustro nefasto para a história do Barça é o lustro de [presidente Joan] Gaspart que culminou em Van Gaal, novamente, e Frank Rijkaard. E casualmente todos, menos esta segunda passagem de Van Gaal, recuperaram um pouco o futebol e quase todos os títulos. Michels não conseguiu demasiados títulos, mas trouxe essas essências que se procuravam do futebol de toque do Barça que estava associado a eles há muito tempo. Creio que Bartomeu tentou com Setién porque se relaciona muito com Cruijff, e agora tenta com Koeman recuperar um pouco do seu prestígio, porque sabe que a escola holandesa, em geral, cai bem nos adeptos. O Barça vai continuar a ter um grande plantel e tudo pode acontecer a este nível e não podemos prever muito, mas é certo que recorrem a Koeman, mais do que pelos resultados, para meter do seu lado um público que está contra ele e contra a sua gestão.

E Koeman talvez seja o menos holandês dos holandeses, não?
Sim, claro, porque falamos da escola holandesa e referimo-nos a todos os holandeses, mas normalmente não é assim. A escola holandesa, como a conhecemos hoje, vem do jogo de posição tão famoso que instaurou levemente Cruijff e que Van Gaal radicalizou, mas houve muitos treinadores holandeses que não iam nessa linha, como Guus Hiddink, dessa época, que não é um dogmático da posição. É certo que a escola holandesa tem uma essência do futebol positivo com bola, levam a bola para os espaços. E a pressão. A pressão à frente. Esses conceitos, hoje em dia, leva-os quase qualquer treinador. Pode ser que Koeman o cumpra. Mas, se pensamos em Koeman, não vamos pensar num treinador que seja um Van Gaal, que tem a sua ideia do grupo por cima do indivíduo, que vai defender isso, e vai buscar os futebolistas adequados a essa ideia. Não, Koeman vai gerir o grupo como pode, fê-lo em Inglaterra, na Holanda e no Valencia tentou fazer, ainda que não lhe tenha saído bem. Sim, vai apostar pela bola, mas não se pode considerar um arquétipo do treinador holandês.

Tem-se falado numa revolução. Algum holandês viveu algo semelhante? Lembro-me de uns tempos conturbados de Johan, com Nuñez e os bascos, certo?
O que houve aí foi uma controvérsia prévia à contratação de Johan Cruijff, pois parece que a equipa estava destinada a Javier Clemente, um treinador espanhol muito famoso da época, porque no final dos anos 80 levou o Espanyol à final da Taça UEFA, que perdeu dramaticamente, e já tinha ganhado ligas com o Bilbao. Esse plantel do Barça era para Javier Clemente, tanto que se contrataram vários futebolistas bascos, da Real Sociedad e Bilbao. Quando chegou Johan Cruijff, digamos que ele os encaixou no seu sistema e todos foram muito úteis. Goikoetxea, Txiki Begiristáin, Zubizarreta, o guarda-redes, e José Mari Bakero. Todos foram de grande utilidade. Ele não teve problemas com isso, mas é certo, como dizes, que fez uma pequena revolução na equipa porque surgiu o Motín del Hesperia, que foi um motim, valha-me a redundância, contra Nuñez por uma questão com a direção, por dinheiro e tal. E Cruijff agarrou o touro [problema] mal chegou e limpou-se metade da equipa, chegaram muitos reforços e ele foi adequando o plantel ao que necessitava. É uma coisa muito própria do modelo da escola holandesa: fazer uma equipa à volta das funções dos jogadores. O que é diferente do que tem feito Bartomeu, que contratou Dembélé, que é um grande jogador mas que não é o que pede uma equipa que tem à frente Messi e Luis Suárez ou que tem dois interiores que chegam à frente. Isso, sim, quebra um pouco o conceito que podemos entender da escola holandesa. Cruijff revolucionou aquilo e montou uma equipa inteira à sua medida.

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Posteriormente, com Laporta e Rijkaard também se passou algo parecido: na primeira temporada de Rijkaard havia um plantel com jogadores da época anterior, com Kluivert, Saviola e outros, mas, no segundo ano, Laporta, que é muito da linha cruijffista, digamos, fez várias contratações como Deco, o conhecido Henrik Larsson, Eto’o e, ainda que alguns futebolistas tenham dado um bom rendimento nesse final de temporada, como por exemplo Edgar Davids, que mesmo sendo holandês teve de voltar [à Juventus]. Já havia uma nova ordem, um projeto a longo prazo que quebrava com o que vinha de trás. Por isso, sim, em alguns casos houve uma revolução. A de Van Gaal foi trazer muitos holandeses, porque entendiam a ideia dele, porque o Ajax era campeão, sempre com esse ponto de quebra com Michels, voltando aos anos 70, que não o pôde fazer tanto porque naquela época o mercado espanhol estava fechado. Custou-lhe mais variar a equipa.

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Vamos ao livro. Como defines ou explicas esta ligação do Barcelona ao futebol holandês?
Antigamente, antes da Lei Bosman, cada país tinha um tipo de futebol, digamos assim, no? Um estilo mais direto, mais combinativo, diferentes estilos. Em Espanha existem diferentes escolas, dentro do mesmo país, muito conhecidas na época. A escola basca, por exemplo, com o clima duro e com os campos no inverno em mau estado, era futebol mais direto pela influência britânica. A escola do Barça era um futebol mais de toque e de mobilidade. É um pouco uma generalização, sim, naquela época não havia um futebol tão avançado e com tanta história como agora. Mas digamos que o jogo do Barça era combinativo. Entonces, caía-lhe muito bem aquela escola holandesa, que surge nos anos 60. Antigamente a Holanda era um país com um futebol medíocre. Naquela época, tanto o Feyenoord de Happel como o Ajax de Rinus Michels acreditavam nessa escola, que se caracteriza por isso, por um futebol similar aos conceitos que referi do Barça. Um futebol que quer ter bola, que quer sair a jogar, que quer jogar rápido a tocar, alternando passe curto com passe longo, muita mobilidade. São coisas que andam de acordo com os tempos, houve aí uma evolução do futebol, que era mais de posições [fixas] e menos físico para um futebol de mais movimento e com mais preparação física. Montal sabia que aquele treinador, o futebol que estava a fazer o Ajax, que foi campeão da Europa, encaixaria muito bem com a filosofia do Barça. À parte disso, um dos objetivos que Montal tinha era ter do seu lado o melhor jogador do mundo, que na altura era Johan Cruijff. Contribuiu tudo um pouco para que Michels chegasse ao Barça e tivesse um bom encaixe na entidade. Até aí foi uma história que surtiu pouco efeito, pois rompe-se com a escola holandesa e vem Nuñez, ficando um pouco esquecida.

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Mas, claro, quando chega Johan Cruijff e ganha casualmente todos os títulos que ganha - digo casualmente porque poderia não os ter ganhado, ganhou com méritos mas houve várias circunstâncias em que os poderia ter perdido -, assentaram-se os conceitos de futebol no Barça que estavam muito associados às suas origens. E já aí, diz-se, o Barça e a escola holandesa estão unidos, mas desde Johan Cruijff é certo que as semelhanças da proposta holandesa e a proposta do próprio Barcelona encaixaram muito bem. Por isso, digamos que com Cruijff unem-se os conceitos. Depois há também o tema da cantera, estrutura-se tudo até abaixo para que os canteranos tenham oportunidades. Era algo muito próprio de épocas antigas, em muitas equipas e no Barça também, sobretudo no Barça. Isso tudo faz com que se diga: “escola holandesa, Barça”, mais do que qualquer outro clube. É por aí, pelo estilo de jogo histórico e sobretudo pela evolução exitosa que teve o Barça com Johan Cruijff, porque se não chegassem a ter êxitos pouco se falaria hoje da escola holandesa no FC Barcelona.

O Ajax é a escola holandesa, claro, mas há uma influência do futebol escocês e dos treinadores britânicos, certo?
Claro, conto isso tudo no livro com muito detalhe. Vou às origens do futebol escocês e britânico. Em finais do século XIX, o futebol nasce em Inglaterra, mas paralelamente também na Escócia. O futebol inglês é mais direto, o futebol escocês é mais de combinação. Chamava-se combination game. Há vários treinadores que chegam ao Ajax e os mais conhecidos, que têm toda a influência em Rinus Michels, eram [Jack] Reynolds e Vic Buckingham, que estava influenciado pela escola escocesa. Há uma série de treinadores britânicos que estavam influenciados por essa escola, como Vic Buckingham e Alf Ramsey, vários dessa época. Então, [o presidente do Barcelona] Montal contratou primeiro Buckingham, que foi antecessor de Michels no Ajax. E Michels, para além de ser quem sucede a Buckingham, foi jogador de Reynolds. No livro escrevo que Reynolds sobretudo cuidava muito da cantera e de que todos deviam jogar da mesma maneira. Tanto Buckingham como Michels dizem que já estava na essência do Ajax, a essência do toque, a essência da combinação, e não a essência do jogo direto. É um intercâmbio entre esses treinadores britânicos, influenciados pela escola escocesa, e posteriormente Michels e a escola holandesa. No livro comparo muito e faço uma relação de continuidade dos treinadores britânicos influenciados pelo futebol escocês e o nascimento dessa famosa escola dos Países Baixos.

E aquela Hungria dos anos 50, não influenciou em nada o Barça ou a escola holandesa?
No livro também falo muito daquela Hungria e parece que é distante no tempo, mas tudo influencia. Nessa época, Rinus Michels e Vic Buckingham já eram grandes futebolistas e viveram aquela grande Hungria, os magiares mágicos, e de facto recolhi declarações tanto de Michels como de Buckingham em que, quando falam do seu Barça, comparam-no com jogadores daquela Hungria. “Já tenho o meu József Bozsik”, “já tenho o meu Hidegkuti…”, no? Comparavam. Tem uma influência no estilo de jogo porque aquilo foi tão potente que muitos futebolistas que depois foram treinadores ficaram contagiados com aquela Hungria. Eu comparo o que é o Ajax e o Barça de Rinus Michels com as melhores equipas ou que possam ter influenciado aquela época, entre elas está a Inglaterra de Ramsey. E eu recolhi declarações de Bobby Moore, que disse que as derrotas da Inglaterra com a Hungria [1953 e 1954] foram uma ruptura. O jogo inglês passou a ser um pouco mais combinativo, um pouco mais grupal, menos direto. Essa derrota com a grande Hungria influenciou também essa Inglaterra de Ramsey. Tudo isso, é certo, tem influência no futebol combinativo tanto de Buckingham como de Michels e na escola holandesa em geral, sim. Tem bastante influência.

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O que mais gostaste de descobrir sobre Rinus Michels?
Uma das coisas que tento tocar no livro é a personalidade de Michels, de quem sempre se disse que era muito general, muito duro. Refiro exatamente a dureza, porque era muito própria da época. Van Gaal também o dizia - eles coincidiram na Holanda e conheciam-se -, que ele era menos severo do que Rinus Michels, sobretudo pela época em que viveram. No livro comparo Rinus Michels com Roque Olsen, outro treinador que esteve no Barça, que era muito severo, muito próprio daqueles tempos. Numa parte de um capítulo sobre liderança e a sua importância, junto declarações de Johan Cruijff, de Velibor Vasović e de determinados futebolistas, e é certo que era um treinador duro, mas o que retiro dessa personalidade é que ele se relacionava mais com uns futebolistas do que com outros para debater até sobre o jogo. Não era tão distante como podia parecer, pelo menos do ponto de vista do que li. Surpreendeu-me muito. Era um homem da época mas tinha uma mentalidade um pouco mais evoluída, um pouco mais de dar liberdade a alguns futebolistas. Como dizia Valdano, certamente há futebolistas que necessitam de estradas mais largas e outros que precisam que lhes indiquem o caminho. Não podes deixar que todos joguem como Johan Cruijff, porque não necessitam. Essa questão na personalidade de Michels surpreendeu-me porque o considerava um déspota. E essa palavra [déspota], que foi de um futebolista da época, é dita sobre Roque Olsen e não sobre Rinus Michels, de quem dizem, sim, que era duro. Mas, como escrevo no livro, aí está a diferença entre ser aceite ou não ser aceite.

Mudaste de opinião sobre algum treinador holandês? Ou apaixonaste-te por algum?
Aos treinadores holandeses do Barça tenho-os muito estudados. Diria que deveríamos questionar-nos, depois de ler o livro, sobre o conceito de revolução de Johan Cruijff e Leo Beenhakker até à totalidade. Porquê? Porque muitos… muitos [ri-se, fazendo pouco]… muitíssimos conceitos dessas equipas tão exitosas como o Real Madrid da Quinta del Buitre e o Barça do Dream Team já estavam criados e explorados por Rinus Michels e a escola holandesa, ainda que o espectador de hoje só julgue o que fez Cruijff (e sobretudo porque lhe acompanham os êxitos). A maioria dos conceitos do Barça já estavam no Ajax e no futebol de Rinus Michels.

Quando entrevistei Ángel Cappa e Rubén Rossi, eles falaram de Rinus Michels como o número 1, sobretudo pelas inovações no campo. Elogiaram muito o encurtamento dos espaços. Que gostas mais na filosofia de Michels?
Sou um apaixonado, mas não sou treinador. Sou um apaixonado pelo futebol da bola, da posse, como sempre digo. A posse é um conceito dentro do futebol de posição hoje em dia. Sair sempre, não resguardar-se, acudir aos espaços e tentar maltratar o rival em contra-ataque. Michels não rejeitava nem o contra-ataque nem o passe longo. Pelo contrário, explorava-os. Mas a sua proposta era de sair [a jogar], de levar sempre a bola e comer o rival no meio-campo dele. É um conceito que agora está tão na ordem do dia, digamos assim, mas era novidade aquilo, a que chamo pressing football. Eu também comparo, agora que dizes, em diferentes pontos, a Holanda e o jogo de Michels com várias equipas argentinas da época, como, por exemplo, o futebol de Osvaldo Zubeldía, que foi o maestro de Bilardo, ou a própria Argentina de Menotti. Aí já estava essa pressão, nessa equipa de Zubeldía. Michels disse que esse encurtamento dos espaços, como disse Cappa, que depois esteve com Menotti, era essencial, muito arriscado. Recolhi declarações de vários jogadores do Barça, que foram contratados, e custava-lhes muito esse encurtamento dos espaços, de ir para a frente e deixar o outro em fora de jogo. Antes não era tão claro. Antigamente, por exemplo, o Barça não tinha uma linha de 4 [defesas], como a de Menotti, zonal, mas, sim, uma defesa escalonada com líbero. Era mais complicado sacar um fora de jogo. Era um conceito muito bom e que, digamos, evoluiu o futebol muitíssimo. Aproveitando a tática do fora de jogo anulas muitos ataques dos rivais. Como bem disse Cappa, era uma das coisas pioneiras, ainda que o encurtamento de espaços já se usava, eh. Na Bélgica já se usava: Raymond Goethals era outro dos treinadores dos anos 70 que também usava muito. E, como já disse, Zubeldía também. Michels não inventou o encurtamento dos espaços. Cappa diz que é um inovador, e é-o porque mistura muitos conceitos e faz tudo em redor da bola. É, então, um inovador quanto ao futebol total - termo que me saiu improvisado. Mas realmente era um futebol total de grupo, para a frente, e aí, sim, em tudo… mas não foi ele que inventou o encurtamento dos espaços. Já existia. Reunir conceitos do futebol antigo, dar-lhe essa ordem misturada com criatividade, um pouco de tudo, é o que faz de Rinus Michels diferente dos demais.