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“O Taremi é incrível, pedia sempre mais, mais e mais. O médico da seleção do Irão tinha uma alcunha para ele: ‘o bichinho’”

Sebastião Macias é performance coach da seleção colombiana, onde trabalha com Carlos Queiroz, mas juntou-se à equipa técnica portuguesa ainda no Irão, a meio da qualificação para o Mundial de 2018, onde conheceu Mehdi Taremi e Ali Alipour, avançados iranianos que jogam no FC Porto e no Marítimo. Sebastião Macias elogia-lhes a qualidade e recorda, sobretudo, a vontade em aprender, melhorar e trabalhar de Taremi: “Logo no meu primeiro treino, foi tirar uma dúvida com o professor Queiroz no final. É um jogador que procura saber mais, procura crescer. E, sempre que podia, estava a trabalhar connosco no ginásio”

Diogo Pombo

Sebastião Macias tem 30 anos e juntou-se à equipa técnica de Carlos Queiroz, no Irão, em 2016. Esteve presente no Mundial, na Copa da Ásia e ainda numa Copa América, já com a seleção da Colômbia, onde hoje trabalha

D.R.

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A época passada veio o Taremi, este ano chegou o Alipour (Marítimo) e o guarda-redes Amir está em Portugal desde 2015. Mas, em Portugal, não há muita tradição de olhar para o jogador iraniano.
Como bem disseste, pelo menos a minha geração não está habituada a ver jogadores iranianos na liga portuguesa e muito pouco até nas ligas europeias. Lembro-me do Ali Karimi [Bayern de Munique, Schalke 04] e do Ali Daei [Arminia Bielefeld, Bayern de Munique e Hertha de Berlim], que foram grandes jogadores. Mas, tentando responder à tua questão, eu próprio não sei bem porquê. Diria que, eventualmente, pode haver alguma dificuldade quanto à credibilidade de uma liga asiática e à sua ligação com os campeonatos europeus. Essa poderá ser a primeira dificuldade para que se reúnam condições para virem mais jogadores, neste caso, iranianos para a liga portuguesa ou para ligas europeias. Acho que estes três jogadores que estão na I Liga vêm um bocadinho fruto do sucesso do Prof. Carlos Queiroz na seleção e dos restantes treinadores portugueses que já estiveram no Irão, como o Toni, o Rodolfo [Correia] e o Oceano. É fruto do conjunto entre o bom trabalho que os técnicos portugueses lá fizeram e dos jogadores, que tiveram oportunidades, como no Mundial, onde jogaram contra Portugal e ganharam a Marrocos, que foi uma vitória histórica.

Quando estavam lá, os jogadores iranianos falavam muito de quererem ir jogar para a Europa?
Sim, era uma das muitas abordagens. Eu estive num contexto só de seleção, ou seja, conheci muito pouco dos clubes, e o que conhecia era o que os jogadores e os técnicos portugueses me transmitiam. Mas, em relação às conversas, sim, há um sonho muito grande de virem jogar para a Europa, muito grande mesmo.

Ainda por cima, sendo vocês portugueses, talvez isso cativasse mais a curiosidade.
Exatamente, havia sempre perguntas constantes. Na equipa técnica em que tive o privilégio de trabalhar no Irão, alguns eram ex-jogadores, então o tema e as principais perguntas deles eram essas: como era jogar e treinar num clube grande, como se chega até lá, etc.

Mas um jogador iraniano, que esteja num grande clube do país, não recebe, em média, já um bom ordenado? Ou seja, a ambição de virem para a Europa é mais desportiva do que outra coisa?
Não quero estar a dizer uma coisa que não vivi ou experienciei, mas penso que os jogadores de seleção são minimamente bem pagos para o contexto iraniano, mas tenho-te a dizer, e acredito, que quem vem para a Europa, tem vindo pelo sonho profissional, mais do que financeiro, o que demonstra um caráter muito grande. Sei que vêm por razões essencialmente profissionais.

Lembras-te do primeiro contacto com o Mehdi Taremi?
A primeira concentração onde estive com ele foi em Itália, no mítico centro de estágio da seleção italiana [Coverciano], e lembro-me que a primeira imagem com que fiquei foi, ao terminar o treino, ele ir ter com o Prof. Carlos Queiroz e tirar uma dúvida sobre um movimento entre o central e o lateral. E recordo-me de, na altura, o Prof. estar a explicar e o interesse do Taremi ser constante. Depois, trabalhei pessoalmente com ele e estive bastantes vezes com o Taremi no ginásio. Era super jogador e um super atleta, mesmo muito trabalhador. Não me esqueço.

O Taremi parece ser um tipo tímido e recatado, de fora não parece ser um desses jogadores que vai logo conversar com o treinador ao fim do primeiro treino.
Uma correção: isto foi no primeiro treino onde eu estive, mas entrei a meio do processo de qualificação para o Mundial de 2018. Ele já era um jogador mais do que referenciado pela equipa técnica, já tinha estado em mais estágios. Foi o meu primeiro treino e ficou-me na memória, saltou-me à vista, o que é bom, porque, ainda no início de um estágio que vai levar 20 dias, ter um jogador no final do treino da tarde, e até acho que foi bidiário, teve essa aproximação ao Prof. Carlos Queiroz. Ficaram ali uns minutos a falar. Ficou-me na memória porque deu logo para ver que era um jogador que procura saber mais, procura crescer, ficou-me aquele clique. Depois, com o tempo, não houve dúvidas.

Sempre jogou a avançado na seleção? Ou chegou a partir mais encostado a uma ala?
Como jogávamos com o Sardar Azmoun [Zenit São Petersburgo], que é outro grande avançado, e ambos eram muito bons, tínhamos que fazer jogar os dois. Jogávamos em 4-3-3 e, pessoalmente, acho que uma das posições que ele faz muito bem é a de avançado esquerdo. Mas ele chegou a jogar connosco a avançado direito também. Tínhamos esse modelo e sempre encaixou muito bem à esquerda, mas conheci-o a jogar no clube como 9 puro, sozinho na frente.

Vimos no Rio Ave que se associa muito bem com quem joga atrás dele.
Sim, pelas suas características técnicas e valores táticas. É um avançado que tem capacidade para jogar sozinho, com outros, na ala esquerda de um 4-3-3 e até na direita, mas acho que gosta mais do lado esquerdo, nunca lhe perguntei [riso].

D.R.

O que te impressionou mais no Taremi, durante o tempo em que trabalharam juntos?
Muita coisa. Hoje, antes da entrevista, até estava a rever um bocadinho o que conheci dele, o processo de qualificação e depois a Copa da Ásia, e vejo muita coisa boa do Taremi. Para já, é um profissional espetacular, cinco estrelas, um jogador de equipa e muito honesto e trabalhador. Como jogador, vejo um potencial físico enorme. Enquanto jogador, tem uma leitura de jogo muito boa, além dos dotes técnicos. É muito completo em todos os sentidos, foi um dos jogadores que nos deixou muitas saudades quando saímos. É um grande profissional.

O Ali Alipour também é avançado e chegou este verão ao Marítimo. O que me podes dizer sobre ele?
Vi-o, pela primeira vez, a jogar ao lado do Taremi no Persepolis. O Taremi estava já quase de saída e jogavam os dois na frente. Gosto muito do Alipour, mas é um bocadinho diferente do Taremi, logo pela sua estatura [1,81m vs 1,87m]. Tem capacidade para se associar e jogar entre linhas, para procurar bolas nas costas da linha defensiva e também é um jogador que entra bastante no processo defensivo. No último ano, vimos o Taremi a fazer grandes interceções e desarmes na organização ofensiva do adversário, até contra os clubes grandes, e o Alipour também participa bastante nesses momentos, é uma grande vantagem. Tem capacidade de remate, essencialmente, de pé direito, e facilidade de finalização.

Estás quase a descrever o Taremi, então.
Têm perfis parecidos. Sinceramente, prefiro esperar para ver na liga portuguesa, mas também tenho esperança no Alipour, é um bom jogador. Na seleção, felizmente, tínhamos bons avançados: o Sardar era muito conhecido, havia o Taremi, depois o Karim Ansarifard que, na altura, era titular do Olympiakos, e tínhamos ainda o Alireza, que foi uma das contratações mais caras de sempre do Brighton, se não estou em erro. Já tínhamos quatro, cinco jogadores e o Alipour tinha alguma dificuldade em entrar, mas não era por isso que não tinha muita qualidade.

Como era o teu trabalho com os jogadores, dentro do contexto da vossa equipa técnica?
Na fase de qualificação, trabalhávamos individualmente com os jogadores durante a semana, e o Taremi e o Alipour, sempre que havia oportunidade, estavam lá. O maior contacto que tive com o Taremi foi no trabalho individualizado, de ginásio, de velocidade. Era um jogador que adorava fazer este treino. Começou a trabalhar connosco e já fazia cargas bastante elevadas no final, acentuadas para o que estavam habituados a fazer. Tanto ele como o Alipour me surpreenderam, porque também é um jogador forte, com uma relação peso-potência muito interessante. O Taremi é incrível. Lembro-me que o médico tinha uma alcunha para ele e tratava-o por 'o bichinho'. De uma forma querida, mas a dizer que é um avançado possante, com uma velocidade muito boa para a estatura que tem.

Com as funções que tens, acabavas por ser quem, na equipa técnica, passasse mais tempo sozinho com os jogadores?
Não, mas passei vários momentos com ele, inclusive porque o Taremi teve ali uma altura em que, por outras circunstâncias, trabalhou bastante connosco, estive muito tempo com ele no ginásio a fazer tarefas de velocidade, com e sem bola, e era um jogador que pedia sempre mais, mais e mais. Mesmo em termos de ginásio levantava bastante peso.

Havia algo, na altura, que ele quisesse trabalhar especificamente?
Tínhamos lá um centro de alto rendimento, feito por nós, e um grande centro de treino, que para os jogadores iranianos foi uma grande inovação, pois não existia para o futebol ou para qualquer modalidade. Tanto que os atraía bastante. E tanto o Taremi, como o Alipour, quase sempre que podiam davam uma escapadela e iam lá trabalhar connosco. E lembro-me perfeitamente de trabalhar a técnica de corrida com o Taremi, as saídas em velocidade, movimentações curtas, passos rápidos, rotações... Tínhamos um pequeno relvado sintético dentro do ginásio, onde fazíamos algum transfer depois do trabalho de força e eles gostavam muito. Fizemos um trabalho muito interessante pela vontade muito grande deles em quererem trabalhar.

E vontade em melhorar?
Não tenho dúvidas. Há uns dias, troquei umas palavras com o Taremi e está um jogador motivadíssimo, espero que continue, ele e o Alipour.

Ainda falas regularmente com eles?
Com o Alipour, recentemente, não. Não sou uma pessoa de falar muito com os jogadores, ou seja, quando vejo um grande golo ou que há necessidade de enviar uma mensagem particular envio, mas deixo-os viver a sua vida. Por acaso, quando o Taremi foi para o FC Porto, obviamente que eu e o restantes membros da equipa técnica que estiveram com ele no Irão o felicitaram, ficámos muito contentes.

Tendo em conta o modelo de jogo do Sérgio Conceição e a forma como o FC Porto joga, achas que o Taremi se vai adaptar?
Acho que sim. O Sérgio Conceição sabe perfeitamente a equipa que tem, agora está a conhecer melhor o Taremi e acho que tem tudo para dar certo.

Supondo que jogará com o Marega ao lado, um avançado que ataca muito mais o espaço nas costas da linha defensiva, o Taremi pode ser o elo que se associa e toca a bola para os jogadores que venham de frente para a baliza?
Penso que sim, temos que esperar para ver. Ele tem todas as características para jogar no FC Porto que todos conhecemos e no modelo de Sérgio Conceição.